A amizade ou amor de José Vitorino de Pina Martins (1920-2010) por Antero de Quental (1842-1891) nasceu cedo, e ainda em Coimbra, em 1948, antes de se tornar leitor de Língua e Literatura Portuguesa em Roma e depois em Poitiers, escreveu uma extensa dissertação ou monografia crítica intitulada A Ideia de Deus e da Morte na poesia de Antero. Realce-se que na altura Pina Martins, sob o pseudónimo de Duarte Montalegre, era também poeta, tendo publicado vários livros onde derramou o seu grande amor e aspiração ao sagrado. Mais tarde, por mais de uma vez, confessava serem tais obras "pecadilhos de juventude", tendo singrado antes numa via rigorosa e profunda de investigador e historiador das ideias e do livro, sobretudo da época do Humanismo e especializando-se nos séculos XIV, XV e XVI com estudos muito conseguidos sobre Petrarca, Pico della Mirandola, Erasmo, Thomas More, Damião de Goes, Camões, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, entre outros.
Em 1974, quando dirigia o Centro Cultural Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, tarefa que cumpriu durante anos com uma qualidade inexcedível e dinamizando dezenas de colóquios e publicações que ficam a enriquecer para sempre o património cultural humanista, europeu e português, escreveu para um colóquio um texto acerca de Antero de Quental e Michelet no qual fazendo uma análise das obras do historiador francês, ainda algo romântico, e citando Saint Beuve, Dhiez e Roland Barthes (várias vezes, algumas criticando-o) aponta as suas limitações, em especial a falta de rigor metodológico na apreciação da documentação recolhida, uso exagerado da imaginação e de um estilo poético e profético e uma certa opção pela sua verdade e não uma verdade imparcial, relembrando que Antero de Quental fora a Paris em 1874, que se considerava seu discípulo, e que escrevera sobre ele (Jules Michelet, incluído Prosas Filosóficas, II vol. Coimbra, 1926) e que sofrera de alguns dos mesmos defeitos, realçando que embora Antero tivesse uma cultura geral invulgar escrevia muitas vezes rapidamente, num estilo oratório e sem suficiente e sólida documentação, apontando como exemplo as famosas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, onde haveria «uma falta de preocupação de rigor e de documentação mediante a prova dos textos e das fontes - com a discursividade vigorosa, mas vazia, e repleta de afirmações históricas inconsistentes», acrescentando que o vago e "o mais ou menos" surgem com frequência na obra de Antero.
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| Jules Michelet (21-X-1798 a 9-II-1874) |
Pina Martins nesse seu texto considera Antero de Quental sobretudo «um prosador de ideias, um pensador, um ensaísta», sem os recursos imaginativos e estéticos de um romancista ou novelista (por exemplo, Eça de Queiroz), pelo que a leitura da sua obra, embora com ideias actuais e não exposta de forma confusa ou hermética, ainda assim ressente-se «porque as repetições monotonizam invencivelmente o ritmo discursivo, os lugares comuns se sucedem, as expressões estereotipadas de gosto duvidoso se acumulam. O estilista não quer ou não sabe apurar o discurso, que lhe sai e se fixa como nasce, ao sabor de uma inspiração perigosamente espontânea.»
Esta última afirmação de Pina Martins é discutível e se não soubéssemos que ele era também um espiritualista quase que poderíamos considerá-la algo conservadora e petrificadora, recusando ab initio o valor da inspiração, ou alarmando-se demasiado com o perigo de haver pouca base para que a pomba do Espírito Santo levante voo. Ora sabemos que Antero se destacou mais como poeta e como orador, onde a inspiração prima e que só na sua última obra Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX, a sua demanda filosófica e gnóstica atingiu uma profundidade e extensão de conhecimentos e raciocínios, vividos intimamente, que tornaram tal ensaio o seu testamento filosófico, como muito bem lhe chamou Sant'Anna Dionísio, embora certamente os Sonetos já estivessem rodeados ou alimentados por profundas leituras filosóficas e cogitações sobre os grandes mistérios da existência, sentidos por Antero visceralmente e animicamente e vazados nos moldes perfeitos dos seus sonetos.
| Pina Martins, à direita, em diálogo com Marcel Bataillon, em Paris. |
Na sua recensão ao texto de Antero sobre Michelet, Pina Martins acrescenta em nota de rodapé: «Essa espontaneidade nota-se imediatamente não só pela verificação de uma falta de selecção verbal, como pela adjectivação monótona, repetitiva, pouco cuidada e sobretudo não dominada. Claro que todos estes aspectos são, por outro lado, um indício de facilidade na manipulação na palavra [eu aqui não diria manipulação mas deixar-se inspirar e empolgar] e na fixação de uma linguagem mas esta é mais a expressão de uma criação verbal transitória, efémera, de que o meditado e vigiado labor artístico de um prosador. Não deve esquecer-se também que estes artigos são de simples divulgação e apareceram em publicações periódicas (revistas e jornais)»
E na verdade o elogio de Michelet por Antero foi assinado "4 de Agosto de 1877", quando este estava em Paris, certamente sem livros consigo, e saiu à luz uns dias depois no nº 1 da revista Dois Mundos, publicado em Paris a 31 de Agosto.
E continua Pina Martins:«neste ângulo de análise, o prosador continua a ser um romântico, em período de superação do Romantismo. Mas o que importava para ele eram as ideias. Decerto as ideias são o mais importante, mas como é possível transmiti-las sem o veículo da palavra que as revela ou, então, as oculta ainda mais, sob a explicitação aparente, que não é mais do que a certeza ilusória de as revelar?»
De novo aqui Pina Martins é algo crítico da inspiração considerando-a que pode causar certezas ilusórias mas talvez exagere pois a passagem do nível de raciocínio mental discursivo e muito ponderado para o da inspiração tende a utilizar o que o orador tem dentro de si de conhecimentos e a descobrir novas relações, quando as consegue, levado ou elevado a tal por aspectos energéticos, do momento histórico, de forças afectivas e de entusiasmo. O Espírito Santo em nós pode ser visto como a capacidade de sairmos das limitações da personalidade e obtermos ideias, relações e imagens novas, ou desconhecidas, seja pelo funcionamento intensificado do nosso espírito e pela nossa alma e mente, seja, por uma expansão do nosso corpo espiritual ou consciencial, seja por uma intensificação dos neurónios e suas sinapses criando novas relações.
Anota ainda que Antero elogiou com grandes superlativos Michelet, descrevendo-o como um «profeta do passado, e agitava-o um sopro de ardente inspiração: o Espírito da humanidade» e que o seu exemplo é o de «existência nobre e pura até à santidade», mas que ambos não souberam temperar com uma certa austeridade, o perigo das fantasias aventurosas nas incursões na História, algo que o próprio Antero discerniu e apontou em Michelet.
Anota ainda que Antero elogiou com grandes superlativos Michelet, descrevendo-o como um «profeta do passado, e agitava-o um sopro de ardente inspiração: o Espírito da humanidade» e que o seu exemplo é o de «existência nobre e pura até à santidade», mas que ambos não souberam temperar com uma certa austeridade, o perigo das fantasias aventurosas nas incursões na História, algo que o próprio Antero discerniu e apontou em Michelet.
Talvez possamos dar agora a palavra a Antero, exactamente no artigo analisado por Pina Martins e publicado para a revista Dois Mundos, transcrevendo o 1º parágrafo: «Não cabe nas dimensões Não cabe nas dimensões, nem quadra à índole desta publicação um estudo crítico sobre Michelet, historiador e filosofo. Não tentamos pois aqui explicar o pensamento e aquilatar o alto valor cientifico e filosófico de uma das obras literárias mais vastas deste século - aliás tão fecundo cm obras vastas - uma das mais ricas de originalidade criadora, de intuição e profundeza, ao mesmo tempo que assombrosa de erudição renovadora e variadíssima. Contentar-nos-emos apenas com encarar (e ainda assim quase de relance) pelo seu lado mais acessível ao grande público, pelo lado por assim dizer exterior, esta grande e simpática personalidade literária.»
Justificado assim o seu limitado escopo, que Antero torna a afirmar alguns parágrafos à frente: «Não cabe aqui, já o dissemos, estudar uma por uma todas as obras, algumas profundas, outras formosíssimas, criticando-as e separando as ideias fecundas e resultados positivos de certas fantasias brilhantes, mas aventurosas, que
por ventura nelas se encontrem. Basta-nos caracterizar, duma maneira geral, a maneira do grande historiador e filósofo, indicando aquilo que dá à sua
obra e à sua personalidade literária uma fisionomia tão particular, aquilo
por que se distinguem entre todas.
Michelet possuiu, como ninguém neste século, o sentimento da realidade viva, da verdade natural, esse condão dos grandes poetas e dos grandes artistas, que lhes faz adivinhar, com uma intuição quase infalível como um instinto o ser íntimo de quanto tem ou teve vida, na natureza e na humanidade. A larga e lúcida simpatia do seu génio fazia-lhe descobrir, através das formas opacas, a energia interna na qual reside o segredo da actividade e originalidade dos seres capazes de acção própria. Como que sabia sair de si, para viver momentaneamente a vida dos outros seres reproduzindo-a depois inteira, palpitante e actual. A erudição e a ciência não eram para ele um fim, mas um meio; o instrumento com que penetrar além da realidade exterior e morta, até à realidade íntima. a alma das coisas, dos homens, das idades históricas. Como Platão, procurava em tudo a ideia: mas essa ideia em vez de ser abstracta, como a do filósofo grego, era concreta e activa, era a essência mesma das coisas.
Foi com estes dons de poeta e vidente que Michelet escreveu a história. Animar, ao calor duma imaginação inspirada e profunda, as idades idas, evocá-las, tal foi o condão originalíssimo do seu génio. Ele mesmo, vendo na História mais do que uma fria narração de factos, ou uma seca análise de instituições, ousou defini-la uma ressurreição.»
Referindo depois o magistério dos "altos espíritos" franceses, entre os quais se inclui Michelet, que pela largueza e generalidade dos conceitos, pela atitude propagandista e filosófica, sobretudo pela simpatia fácil e franca com que abrangem o lado humano e universal das ideias e acontecimentos, se afirmaram em vários países europeus, refere que também Portugal é um dos mestres de mais incontestada autoridade para a geração nova. Não há uma única inteligência, dotada de certa elevação e cultura, entre os homens que hoje não contam ainda 40 anos, que não recebesse, mais ou menos intensamente, o influxo daquela palavra eloquente e penetrante (...) Foi com ele que aprenderam a ver e a amar na Natureza uma existência espontânea, uma vida universal, e não uma sucessão de formas inertes, e na Humanidade, uma razão e uma consciência colectivas, uma alma, e não um mecanismo ou uma abstracção.»
Há que portanto contextualizar bem o escrito publicado inicialmente na revista Dois Mundos, uma homenagem a Jules Michelet, quão humilde como entusiástica, dedicada, «à memória daquele que a deu [lição], não só com a palavra, mas com o exemplo de uma existência nobre e pura até à santidade», e que termina assim, numa das poucas incursões de Antero fora de Portugal: «Aqui, nesta grande capital da inteligência, onde ele trabalhou e ensinou, um dos seus discípulos portugueses folga de poder assinar esta página humilde, consagrada à memória dum dos primeiros e, porventura, o mais querido entre os mestres da nova geração. Paris, 4 de Agosto de 1877.»
Anote-se ainda que Antero encontrou-se com Michelet para lhe oferecer um exemplar dos seus Sonetos, entregando-o contudo como sendo de um seu amigo...
Relembre-se, finalmente, que Michelet foi bastante traduzido em Portugal por Teixeira de Bastos, Domingos Guimarães, Rebelo de Bettencourt e Fernando Leal, grande amigo de Antero (e a quem já dedicamos um texto biográfico no blogue). com os Soldados da Revolução, 1889, e que Antero de Quental já publicara nove anos antes, em Janeiro de 1865, então com os seus 23 anos, na revista de Penafiel O Século XIX, (1864-1883), três sucessivos artigos, intitulados A Bíblia da Humanidade de Michelet. Ensaio crítico, onde faz uma síntese intensamente espiritual da evolução da Humanidade, e que, embora com algumas inexactidões nas citações ou analogias entusiastas, que Pina Martins certamente referiria se tivesse alargado à sua crítica a este texto, contém das melhores transmissões espirituais feitas por Antero na sua obra e que seria bem valioso de se cotejarem com as que estão contidas e culminam a sua última obra, as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX, escrita 23 anos depois, para a revista Portugal, em 1889.
Esperamos um dia destes apresentar um pequeno contributo nesta direcção, mas terminemos com as primeira sete linhas de tal belo texto poético, filosófico, histórico, espiritual: «Dentro do homem existe um Deus desconhecido: não sei qual, mas existe - dizia Sócrates soletrando com os olhos da razão, à luz serena do céu da Grécia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da fé lia no horizonte anuveado das visões do profeta esta outra palavra de consolação - dentro do homem está o reino dos céus.
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| Pintura de Bô Yin Râ... |
Saibamos trabalhar na linha destes grandes seres tanto para o nascimento ou reconhecimento da Divindade interna em cada um de nós, como para a harmonia e a paz, a justiça e a força amorosa estarem mais vivas e brilhantes na Humanidade.


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