sexta-feira, 17 de março de 2017

"Contemplação", soneto de Antero Quental, comentado.

Antero de Quental, na fotografia que mais gostava..
        Contemplação foi o título dum poema da fase final da estrutura organizativa dos Sonetos de Antero de Quental, estando portanto incluído nos que terão sido escritos entre 1880 e 1884, em Vila de Conde, e foi dedicado ao seu conterrâneo e grande amigo Francisco Machado de Faria e Maia.
O soneto, com um título elevado e difícil em termos de realização espiritual efectivada, acaba contudo por revelar-se como fruto mais de uma visão intelectual da vida, senão pessimista pelo menos triste e vazia, e assim contrastar com a ideia repetida de que os seus últimos sonetos seriam já uma antevisão de unidade entre espírito e matéria, algo que ele continuaria a cogitar e a demandar, ou mesmo a demonstrar bem nos últimos tempos de vida no seu seminal texto Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, publicado em 1890 na Revista de Portugal.
Na ordenação dos sonetos da edição de 1886 publicada por Oliveira Martins, mas a ela anuindo Antero (saindo mesmo uma segunda edição em vida do poeta),  este soneto é o terceiro da série final, seguindo-se a um primeiro, intitulado Transcendentalismo, onde anuncia um "espírito impassível" que terá avistado acima do bem e do mal terrenos; e a um segundo soneto, Evolução, onde afirma a sua crença na metempsicose através dos vários reinos da Natureza, até chegar ao estado em que ergue os braços e aspira só à Liberdade;  e a um terceiro poema, o longo Elogio da Morte, composto de seis sonetos, nos quais (muito sumariamente resumidos por mim) poetiza a sua imaginação ou visão da Morte como uma amada Beatriz de mão gélida mas consoladora e que no seu nível mais elevado simboliza ou é a Paz universal, e o regresso ao Não-Ser que é o único Ser absoluto, como ele afirmou.
Estamos a ver que as forças psico-espirituais convocadas ou trabalhadas para entrar no difícil ou elevado nível da contemplação psico-espiritual não serão as melhores: Antero, no término dos seus esforços, vai apenas, e já foi muito na época e pela demanda filosófica e social em que se embrenhou,  conseguir aspirar e intuir um nível espiritual do Universo impassível e libertador, que é no fundo semelhante ao estado da morte,  realizado e apontado pelos filósofos do Inconsciente (algo vagos ou superficiais em relação, por exemplo, aos níveis de consciência mais elevados ou subtis conhecidos dos mestres espirituais orientais e estudados ou pelo menos admitidos pela psicologia moderna, transpessoal ou outras), e por certas correntes budistas, num regresso ao Não-Ser, estado este que tem uma avatarização (ou descida à manifestação), aparentemente e assim entendida como cristã no soneto final Na Mão de Deus, expressão e imagem que deve ser vista dentro da realização por  Antero de Deus  como Justiça, Libertação e Paz, e não tanto referindo um Ser divino pessoal (Deus), assim se compreendendo até melhor a sua trágica morte voluntária, entregando-se a esse misterioso Não-Ser no qual antevia a paz que os seus desgastados nervos já não conseguiam manter no corpo e vida terrena.
Oiçamos então o soneto, que se segue como referimos a esse Elogio da Morte, a Contemplação, e que curiosa ou significativamente foi um dos dois escolhidos para adornar o seu excelente busto realizado por Canto Maia, para o jardim Antero de Quental em Ponta Delgada...
«Sonho de olhos abertos, caminhando 
Não entre as formas já e as aparências, 
Mas vendo a face imóvel das essências, 
Entre ideias e espíritos pairando... 

Que é o mundo ante mim? Fumo ondeando, 
Visões sem ser, fragmentos de existências... 
Uma névoa de enganos e impotências… 
Sobre vácuo insondável rastejando... 

E dentre a névoa e a sombra universais 
Só me chega um murmúrio, feito de ais... 
É a queixa, o profundíssimo gemido 

Das coisas, que procuram cegamente 
Na sua noite e dolorosamente 
Outra luz, outro fim só pressentido...» 


Realçaremos numa hermenêutica simples e espiritual, a rica expressão inicial de sonhar de olhos abertos e caminhando entre essências, ideias e espíritos.
Este "sonhar de olhos abertos" tanto aponta para o sonhar no qual estamos conscientes e lúcidos do que sonhamos ou vemos, como ainda para um acto imaginativo, no qual, de olhos abertos ela sonha, visualiza-se ou sente-se, caminhando por entre ideias e espíritos, ou seja entre forças e seres...
Antero tem a franqueza de não dizer que é uma visão clarividente e assim podemos deduzir que a sua descrição corresponderá em grande parte ao que pensa e crê, ou mesmo sente, e assim dá-nos uma visão do mundo subtil intensa e sentida mas na qual, embora com uma alma ou psique de grande espacialidade e compaixão e bem aberta ao universal e ao infinito, ele não consegue ver ou alcançar bem tal nível espiritual do mundo, pois não conseguiu desenvolver ou despertar os órgãos de uma verdadeira contemplação.
Deste modo a descrição dada do Além e do mundo espiritual tem as suas limitações, derivando das suas leituras e tendências, experiências e configuração psico-corporal e logo do seu difícil e doloroso caminho e demanda.
A visão que nos oferece então por um lado niilista e pessimista pois tem por base um vácuo insondável, um tipo de vazio correspondente ao Não-Ser, a que se sobrepõe um mundo de névoas e sombras transitórias do qual só lhe chegam os gemidos das coisas e seres que contudo ainda assim, diz-nos ele, procuram outra luz e outro fim.
Há aqui a admissão, e é o lado luminoso deste poema, de que a Natureza procura a Luz e um fim perene, divino ou de bem, algo que ele no início do soneto afirmou de certo modo para si mesmo quando diz que ele contempla as faces imóveis das essências por entre ideias e espíritos pairando, fechando com este fim o anel ou círculo de graças do soneto.
Que filosofias e autores, que leituras e conhecimentos estão por detrás desta tríade composta de ideias, essências e espíritos, que paira acima do vácuo e do gemido do mundo, é certamente difícil de determinar-se com segurança, embora possamos apontar o dedo aos filósofos gregos, nomeadamente Sócrates e Platão, ao Oriente e aos autores das suas leituras mais espirituais.
É valiosa esta tríade, com as essências vistas por Antero como imóveis e fixas (e que para outras visões não o serão), atribuindo depois o movimento de, ele, a sua alma ou a visão, pairarem por entre as ideias e os espíritos, aqui aludindo ao espaço onde elas têm a sua existência designado na Antiguidade como a Alma do Mundo, referida por vezes na sua obra e que de certo modo corresponde ao que é hoje denominado Campo Unificado de energia informação, que Antero também intuiu e deduziu das experiências de magnetismo e transmissão de pensamento em que participou ou que conheceu, tal como refere na conhecida carta a Carlos Cirilo Machado, enviada precisamente em 1886, de Vila de Conde, nomeadamente quando diz: «O magnetismo parece estabelecer uma unidade de consciência entre várias pessoas, ainda que separadas por grandes distâncias, de sorte que o que uma sabe, sabem-no as outras logo».
É claro que o verbo pairar aplicado às ideias e aos espíritos não será o mais rigoroso, pois o dinamismo intrínseco (aliás bem valorizado nas Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX) dos espíritos individuais fora de corpos físicos não os reduz a pairarem, notando-se assim uma certa visão do Além fruto de uma justaposição ou compromisso entre a dissolução no Não-Ser e um provavelmente relativo pairar dos espíritos por algum tempo ou fase semi-consciente. Não é de excluir contudo a proveniência de tal pairar sobretudo da linguagem bíblica no Génesis e assim adoptada pelo filósofo solitário (mas nutrido inicialmente no Cristianismo) no final do século XIX.
Não poderemos pois dizer que foi feliz ou bem profunda e luminosa a escolha da visão contemplativa alcançada ou querida por Antero, embora seja a sua, sofrida e ansiosamente vivida e demandada, quem sabe se mesmo sacrificialmente enquanto consequência do envolvimento empático com todas as aspirações e demandas de uma época de embates e crises.
Seria melhor outra contemplação do mundo espiritual, mais luminosa e mais interactiva e unitiva e na qual estivesse mais clarividente e com o coração flamejante, em comunhão maior e mais dialogante com os espíritos.
Mas mesmo assim a sua grande alma, plena de compaixão e de solidariedade, de aspiração à liberdade e à justiça e logo ao amor, ao bem e à felicidade, vê, adivinha, intui ou pressente nas coisas ou seres «que procuram cegamente/ Na sua noite e dolorosamente/, Outra luz, outro fim só pressentido...»
Anote-se que os sonetos seguintes desta edição definitiva ou completa dos Sonetos de 1886 são todos bem significativos no desvendamento da busca ansiosa de Antero, estando intitulados Lacrimae rerum e Redempção, e são por Antero valorizados muito em carta a Carolina Michaelis de 1885 pois neles estaria expresso o «psicodinamismo ou panpsiquismo» que ele descobrira reger tanto os seres como a Natureza, e que os faz encaminhar para o Bem e a liberdade moral.
Possamos nós em comunhão com Antero de Quental e com os demais espíritos luminosos demandarmos, menos inconscientemente ou cegamente, e mais clarividentemente, a Luz, a Divindade, o Bem, a Realidade...

Visão dos mundo espirituais pintada por Bô Yin Râ.

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