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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Breves meditações, ou ensaios sobre a Sabedoria (7ª). Das imagens religiosas, espirituais, harmoniosas que podemos ter e contemplar, e harmonizar-nos.

 No século XXI, o poder, uso e impacto da imagem tem aumentado de forma exponencial, não só pelas redes sociais e telemóveis como também pela  Inteligência artificial, a qual é utilizada para os mais diferentes intuitos gráficos, imitando, por exemplo, bons pintores ou desenhadores, de tal modo que há a quem se engane quanto à autenticidade das imagens que circulam com sucesso nas redes, ou não discerne o verdadeiro intento da mensagem, com muita gente a abusar delas, em vez de se manter mais humano e autêntico, partilhando antes criações provindas de tradições manuais religiosas e sábias, ou críticas e irónicas, milenárias e que hoje tantos arquivos, museus e portais na internet disponibilizam.

Que diferença em relação aos séculos anteriores em que as gravuras só a partir do séc. XV (embora já antes houvesse pinturas, esculturas,  medalhas, amuletos, etc.), e com a invenção da imprensa, é que começaram a circular em maior número embora em meios sócio-culturais restritos, com predominância quase completa da religiosa e moral (no XVI bem enriquecendo os livros de emblemata), atingindo só nos séc. XVIII e mais no XIX uma autêntica democratização sobretudo das imagens piedosas, mas também de vultos culturais ou históricos e cenas da vida, com inúmeras gravuras ou registos, observando-se por fim a fase já industrializada com a fabricação em massa de santinhos, que adultos e crianças conservavam com devoção, além dos mais diversos tipos de cartões de cumprimentos, publicidades, reproduções da natureza ou até os cromos de coleções, que tanta petizada deliciaram.

 .                                                 No aspecto das imagem com fins devocionais e religioso-espirituais, em muitas casas, algumas das divisões estavam protegidas por figurações religiosas de melhor ou pior qualidade artística, simbólica, geométrica, e muitas tinham os seus oratórios, com pequenas estatuetas e "registos", frequentemente bem emolduradas manualmente com profusão de cores, flores e arabescos, estimulando o coração e a ligação ao alto.

É nos meios mais rurais, tradicionais ou católicos que ainda se podem  encontrar hoje este tipo de imagens protectoras e abençoadoras, inspiradoras e harmonizadoras, embora seja cada vez menor o número de pessoas que lhes dedica   tempo de contemplação, ou ora diante delas, pois a operatividade perene delas nas almas está em grande parte olvidada. 

Conseguir que tais imagens nos toquem, harmonizem ou inspirem é de facto raro pois não só tais momentos de contemplação, face ao excesso e velocidade de informação e desinformação, agitação e ruído que nos rodeiam, são escassos, como também há muita oferta religiosa de sermões, discursos, celebrações, orações, coros e músicas nas redes sociais, canais televisivos (evite tal inundação estupidificante, sobretudo dos noticiários e alienações)  e no Youtube, e a religião tornou-se em grande parte socialização, ou mesmo espectáculo, como se observa sobretudo no extremo da decadência da sociedade ocidental, a norte-americana, com o tele-evangelismo e  múltiplas seitas aberrantes em relação à verdade da Tradição cristã...

Há contudo quem consegue manter uma linha vertical com o corpo místico da Humanidade, isto é, o ligado aos mundos subtis à Divindade, e persevera no culto a certos profetas, mestres, santos e santas, anjos e arcanjos, ao Espírito, ou à Divindade numa das diferentes formas em que Ela tem sido identificada ou nomeada  e cultuada.

No Ocidente, e em Portugal, os seres e formas mais cultuados são Jesus Cristo, a pomba do Espírito Santo, Maria como Nossa Senhora de muitas denominações, algumas bastante regionais, o Arcanjo Miguel, o Arcanjo de Portugal, o Anjo da Guarda, S. António, embora vários santos e santas conservem ainda cultos, sobretudo se há festas ou celebrações já centenárias, se são muito queridas, se  há virtudes que se lhes atribuem ou reconhecem face aos problemas que se abatem sobre as pessoas, tais S. Rita de Cássia, S. Iria, S. Teresa de Ávila tocada pelo Anjo, S. Teresa do Menino Jesus, S. João Baptista, S. Pedro, S. Bartolomeu, S. Francisco de Paula, S. Filipe de Neri, etc. 

Nestas festividades religiosas, nas igrejas ou feiras, ainda se vendem hoje  imagens do santo ou santa padroeiro, e algumas delas acabam por estabilizar numa casa, parede, divisão, família ou pessoa e irradiarem a sua funcionalidade simbólica intermediarizante. Mas quantas pessoas terão o tempo, a paz, a perseverança e a sabedoria de as contemplarem e se interiorizarem bem e religarem-se espiritual e divinamente?

Nas grandes cidades e nestes tempos de internacionalismo senão mesmo globalismo, não é raro encontramos ainda imagens provenientes de outras religiões, como as de Buda, de Kuan Yin,  de deuses e deusas indianos. Mas sabermos colocá-las e meditá-las bem nas casas, paredes ou pequenos altares não é fácil, e assim  podemos encontrá-las em "grande fraternidade inter-religiosa" quais representantes das várias religiões, sem que se destaque ou acentue a irradiação possível delas, enquanto canais de influências luminosas...

Sabermos pois ordená-los no espaço limitado da casa por zonas das influencias que eles possam derramar é então um desafio ao estilo do feng shui da China, hoje sem dúvida sabendo recrear e ordenar o seu macro espaço extraordinária e exemplarmente. Uma forma mais simples de se receberem as inspirações ou influxos será selecionarmos de quando em quando uma das imagens e seja no local onde está, seja mais perto e diante de nós, contemplá-la demoradamente de modo a que haja  oração, concentração e contemplação que gere efeitos sábios ou saboreados, ou de bênçãos dela.

Não  deixarmos ocupar as paredes com quadros ou imagens que são pouco irradiantes luminosamente, ou com quem temos actualmente pouca relação e não serão tão operativas, é importante, pois cada uma delas deve ser uma fonte de bênçãos ou uma janela para o mundo psico-espiritual e para o nosso espírito estar mais presente.

Certos santos e santas ou mesmo representações divinas menos conhecidos, pelo modo como foram representadas, podem  transmitir-nos impulsos espirituais valiosos, seja de força, coragem, devoção, seja apenas pela iconografia da aura e da auréola e que nos lembram e impulsionam para uma maior consciência da presença espiritual e da sua irradiação auréolante. E assim estaremos a trabalhar a nossa re-identificação espiritual no corpo de glória, a talhar, esculpir ou modelar "enquanto é dia" ou estivermos vivos, para que na noite desconhecida do além nos podermos descobrir mais despertos, luminosos e interligados no corpo místico, ou sangha,  da humanidade mais iluminada.

                                                                

Os símbolos espirituais e religiosos são também por si sós (e até meramente de olhos fechados) bastante úteis de serem contemplados, nomeadamente o cálice, o sol e a lua cruz, a estrela, o coração, a roda, a swastica, a coluna, a ave, os sólidos geométricos, etc. Ou mesmo os símbolos e brasões de Portugal e das ordens religiosas.

Tal como nas bibliotecas públicas há pastas em cartão ou pele onde se conservam as gravuras religiosas antigas e frágeis,  também hoje podemos criar pastas no computador onde guardamos as imagens que mais sentimos valiosas ou gostamos  e volta e meia utilizá-las para partilhas ou para contemplação no computador, ou imprimindo-as e dispondo delas num suporte físico, que pode ser emoldurado mesmo e posto numa parede ou num tipo de altar.

Nestes tempos de tanta imagem enganadora, aflitiva ou manipulada por tantas razões, conseguirmos ter algumas que sejam antes ícones, imagens sagradas, harmoniosas e luminosas e contemplá-las algum tempo é pois certamente muito valioso e harmonizador.

Sabermos escolher e cultivar  as mais apropriadas, orando e unificando-nos com elas, torna-nos a ambos eixos de ligação e comunhão com os seres e as realidades espirituais, e fontes de irradiação benéfica  para o mundo e uma humanidade mais desperta sábia, multipolar, melhor.