domingo, 12 de abril de 2026

O Prefácio (3ª e última p.) ao Livro da Sabedoria Oriental, de Sohrawardi, por al-Shahrazuri. A escola da sabedoria iluminativa, ou al-Ishraq.

 

Página inicial do manuscrito do Hikmat al-ʿIshraq de al-Suhrawardi, transcrita em escrita taliq por Sayyid Muhammad Munshi. Istambul, 1477-8. TSM A3267, f. 1b

 Eis-nos com a 3ª e última parte do prefácio de Al-Sharazuri ao Kitab hikmat al ishraq, o Livro da Sabedoria Oriental, de Sohravardi, que temos traduzido e comentado a partir da versão francesa apresentada por Henry Corbin, Le Livre de la Sagesse Orientale. Sublinhamos as partes mais significativas e inserimos breves anotações.

No curto 10º parágrafo Sharazuri lembra que Sohravardi fez um trabalho de ressuscitar o que estava morto e abolido, dos símbolos e semelhanças, e no 11º parágrafo, e vamos transcrever até ao último, começa assim: «Ele manifestou um apaixonado zelo pelos sábios antigos, fortíssimo na sua defesa, enfrentando quem quer que os atacasse, e usando de todos os seus recursos para o triunfo da sua causa. Tudo isto com uma clarividência e uma experiência segura de si mesma, não à cega e de modo baralhado; não, pois foi o resultado de um desvendamento, no fim dum treino espiritual, subtil e prodigioso, e ao mesmo tempo através duma construção filosófica autêntica e perfeita. Porque Sohravardi escreveu igualmente nas duas sabedorias, a que se revela na visão interior (kashfiya) e a que depende da dialéctica filosófica (bathîya), com uma  profundeza idêntica nos dois tipos de sabedoria, o limite do seu pensamento não poderá ser sondado nem o fundo aproximado. Isto reconhecerás em ti mesmo, quando  mergulharmos no comentário da sua exposição e ao ser exposto à luz o seu desejo-intenção. Reconhecerás que falou de aspectos sublimes, de segredos preciosos e bem guardados, que, no nosso parecer, ninguém senão ele declarou, e atingiu, nem entre os filósofos nem entre os místicos. Isso mostrar-te-á que ele teve o pé firme na Sabedoria mística (hikmah)  e a mão poderosa na filosofia (falsafa),  o coração constante na visão-interior, a penetração gnóstica na  inteligência das Luzes. [Valioso este discernimento de quatro níveis de trabalho: a via contemplativa e mística, o conhecimento filosófico, e sobretudo o ter o coração constante na visão interior, que pode significar estar constantemente consciente do amor e aspiração do seu coração, ou ainda ter constantemente a visão interior direcionada para o Alto, seja para as inteligências Arcangélicas, seja para a Luz da Luz, ou ainda conseguir penetrar gnosticamente no sentido e essência das luzes que se lhe desvendam]

- Tal como ele disse uma vez: "Os sinais da profecia do Amor apareceram comigo.
Antes de mim
 estavam escondidos, no meu tempo foram divulgados."

Tudo isto compreenderás, quando tiveres realizado em acto esta via, e compreendido alguns dos seus segredos e estados. Os livros deste eminente Sábio são todos preciosos e de grande proveito, e muito em especial o Livro da Sabedoria Oriental, que encerra em si todo o tipo de maravilhas misturadas com subtis pensamentos invulgares, e ensinamentos tais que não se conseguirá ver algo de mais autêntico e de perfeito na terra, no que diz respeito à teologia bem como às outras ciências. Este livro trata da questão maior, é entre todos os assuntos o mais sagrado, e contudo é um tesouro escondido, um segredo envolto, que não se pode atingir senão pelos caminhos apropriados. É uma minoria quem se dedica a eles e os conhece. Para a maioria dos que vieram na pista de Sohravardi, não foi mais fácil reunirem-se com ele do que deslindar os símbolos, ou descobrir a profundidade do seu pensamento, porque estavam demasiado absorvidos pelos assuntos da pátria terrestre [daí a valorização na sua ida do recolhimento solitário, e o desprendimento do envolvimento terrenos excessivo] e também porque estavam demasiado habituados aos livros dos Peripatéticos [Aristóteles e a sua escola, mais de dialéctica racional discursia] e uniformemente familiarizados com eles. Eis porque  este livro foi negligenciado e esquecido inevitavelmente, pela dificuldade do que é o fundamento (ma'khadh) e a subtileza da sua abordagem.

Pela nossa parte, a graça divina permitiu-nos aceder a tudo o que ele contém de marcante e extraordinário; foi-nos dado alcançar pela hermenêutica espiritual (kashf) as realidades essenciais e as subtilezas abstrusas. Pela intelecção especulativa aprofundada, apareceram-nos o magro e o gordo e, por uma outra via [a mística, contemplativa, da visão espiritual (kashfiya)], o que ele  apresenta de subtil e de forte.  Mas guardamos ciosamente os segredos do livro sem os divulgar, e selando-os com rigor durante muito tempo, certamente não por avareza ou mesquinhice, mas por causa da abscondidade da sua fonte, da subtileza da sua profundidades e das suas discussões, e do pequeno número de discípulos verdadeiramente livres, capazes e valentes, enfim por causa da morte de ciência e da sabedoria e do número ínfimo das pessoas de coração, de inteligência, nesta época onde os assuntos de filosofia estão em completa estagnação.

Mesmo assim, após a multiplicação das viagens e mudanças nos diferentes países, da frequência da movimentação dos mais Capazes e Valentes, dotados de alma penetrante e de altos desígnios-aspirações, eis chegado o pleno meio do dia deste homem superior. O entusiasmo multiplicou-se a propósito dos seus livros e das suas exposições; tornou-se imperiosa a vontade dos espíritos sagazes de estudar as sentenças e os encadeamentos; os desejos de se colherem o fruto dos seus ensinamentos e doutrinas multiplicaram-se, particularmente em relação ao Livro da Sabedoria Oriental. Mas não se poderia abordar o livro senão depois de se terem abolido os próprios traços de ciência habitual, de  se terem expulsado de si-mesmo a sabedoria vulgar e do saber estabelecido até ao seu esgotamento, pois este livro é a quinta-essência da Sabedoria e do saber, um tesouro de maravilhas, o tipo por excelência das coisas estranhas. Nem nós próprios nem outros, jamais reencontrámos um livro  mais autêntico no que diz respeito à ciência teosófica e mistagógica.

Nesta situação, decidi-me a escrever um comentário que abraçasse tanto os fundamentos como as deduções, englobando as teses da Sabedoria mística e da Sabedoria filosófica, eliminando a casca  e as superfluidades, detendo-me em todos os livros e capítulos, projectando a claridade sobre as profundezas, fazendo cair o véu diante o enigma dos símbolos e das alusões, perscrutando as fontes mesmas das teses. 

Tudo o que se pretende com isto, é a verificação do Verdadeiro, a obtenção da veracidade (sidq), é transmitir com precisão as indicações e facilitar assim a rota aos Itinerantes, em marcha para a Majestade  divina sacrosanta.»  

Assim termina o prefácio de al-Azuhrari ao Kitab Hikmat al-Ishraq, o Livro da Sabedoria Oriental, de Sohravardi, o shaykh ou mestre da Ishraq, ao qual se segue, na versão traduzida por Henry Corbin que consultamos, o Prólogo e os cinco Livros, a que acrescentou os comentários de dois dos fiéis da tradição ou linha Ishraq, da Sabedoria Oriental ou Iluminadora, ambos da mesma cidade, Qotboddin Shirazi e Molla Sadra Shirazi. É possível que venha a traduzir e a comentar ainda alguma parte deles. Muitas luzes das Inteligências Angélicas e Arcangélicas e da Luz da Luz, e boas inspirações e comunhões dos Ishraqat...                                                                              

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