domingo, 27 de maio de 2018

Bouchra Ouizguen. Corbeaux. Corvos (2ª p.) Sufi. Festival Alkantara. Castelo de...


A performance Corvos, Corbeaux, realizada na programação do valioso festival Alkantara por um grupo de mulheres marroquinas, francesas e portuguesas no castelo de S. Jorge (também ligado tradicionalmente aos corvos, mensageiros da luz), a 25 de Maio de 2018, sob a direcção da realizadora e coreógrafa Bouchra Ouizguen, tem a sua origem de certo modo a partir da mundivivência ou tradição marroquina e,  mais especificamente, de Marrakesh e da vontade de Bouchra Ouizguem de sair dos teatros e dos espaço fechados e participar da interacção com os ambientes e as pessoas.
A 1ª mulher, qual mestra, a criar o começo do círculo ou hadra mágico ou iniciático
Assistimos a duas práticas ou performances, a primeira muito ligada ao Sufismo, à tradição espiritual do Islão, pois consistiu na repetição de um dhikr, de uma fórmula vocal sagrada que em geral se transmite nas confrarias sufis e que ajuda os praticantes a abstraírem-se de pensamentos que não sejam os associados a essa frase e som e a entrar em estados modificados ou expandidos de consciência, também denominados estados espirituais superiores, hal.
Se o dihkr mais famoso é o la ilaha ila Allah, não há outro deus senão Deus, há muitos outros bastante mais sintéticos e facilmente acopláveis aos sons de uma respiração curta e rápida, que se realizam em simultâneo com algum tipo de movimento do corpo, do torso ou da cabeça, expirando na inclinação para a frente e inspirando quando se sobe no caso dos Corvos...
O som que ouvimos, num ouvido basicamente português, foi Ai Ei, e que podem estar ligados com o Ah Ah, de Allah, e o Hu Hu, de Ele, Deus, e que se pronuncia He He. Mas só cada uma delas entrevistada é que poderá confirmar, tanto mais que observamos variantes claras entre elas...
Este tipo de práticas, que em geral são assumidas dentro de confrarias ou tariqas, em que praticamente a maior parte dos muçulmanos do norte de África se encontram ligados ou afiliados, tendo recebido frequentemente mais de uma baraka ou bênção de um mestre, pir ou sheik, realiza-se frequentemente no fim de uma sessão com discursos e comentários do mestre e diálogos e é o ponto alto de uma tentativa de se criar uma intensificação vibratória psico-somática que expulse a dispersão psíquica e instale uma abertura às energias que ligam a terra e o céu, as profundezas do inconsciente e a luminosidade do supra-consciente, tanto interiores e pessoais, como às provenientes do lugar e dos planos psico-espirituais ou divinos. 
Estes certamente dependentes de se alcançar o seu acesso pela presença de haver ou um sheik já bem evoluído ou realizado ou então haver alguma entrega de aspiração de um salik ou murib, peregrino ou discípulo, ou seja, no caso  uma praticante suficiente intensa ou luminosa para conseguir um certo despertar e receber algum tipo de graça ou experiência espiritual, em termos sufis como hal, um estado espiritual superior.
No caso deste grupo penso que não obedecem a uma necessária filiação numa tarika mas haverá certamente algumas das mulheres participantes com essa ligação, ou esse conhecimento, ou então com uma força maior que poderíamos equacionar com a Kundalini ou com a mumuksha ou a bhava prema da Yoga, ou mesmo o eros shamânico e urânico dos gregos.
Podemos observar e sentir neste sentido algumas das praticantes mais despertas ou mais permeáveis a uma espontaneidade energética e sonora mais psicomórfica ou seja que pode ter mais efeitos de ressonância energético-espirituais. Essa especificidade da diferente constituição anímica de cada uma das praticantes desta sessão colectiva de dhikr acaba por se tornar mais manifestado em alguns sons particulares, proferidos ou emanados apenas de uma ou outra delas. 
 Desde o princípio destacaram-se algumas, entre as quais a primeira a sair da matriz original grupal e que parecia a mestra e a jovem que lhe ficou em frente, claramente uma das mais shaktis, ou com mais energia psico-somática kundalinica e extática que acabou por ser a última a entrar em silêncio, depois de um solo muito inspirado e poderoso que poderemos apreciar no registo do vídeo.
A primeira, mais sábia liderante e a última mais jovem, resistente e galvanizante...
Seria bom ter-se ficado um pouco mais em silêncio, no fim, pois  talvez até elas próprias pudessem ter assimilado um pouco mais demoradamente os efeitos da prática realizada e do estado espiritual superior, hal, atingido,  antes de o partilharem na alegria e como que na transmissão de baraka, dessa energia abençoante pela dança que executaram em seguida, e que eu dividi ainda por um outro vídeo pensando que demorasse mais tempo...
Cremos ter havido nesta opção de Bouchra Ouizguen (com quem gostaríamos de ter dialogado, e da qual poderá encontrar contudo algumas entrevistas e excelentes vídeos, tais como o https://www.bouchraouizguen.com/corbeaux), uma visão modernista e libertadora da excessiva separação do sagrado e do profano, ou de uma submissão excessiva ao ascetismo sufi que por vezes reprova a dança e a música, mas que por exemplo mestres tão importantes como os persas Rumi, Shamz de Tabris e Ruzbehan tanto usaram e valorizaram, acentuando a liberdade que no séc. XXI deve ser assumida por mulheres e homens responsavelmente, amorosamente, harmoniosamente.
Foi então uma boa performance ou se quisermos mesmo ritual de partilha psico-somática sagrada realizada num dos centros energético-espirituais de Lisboa, uma das suas sete colinas, que poderá até inspirar algumas almas ou grupos portugueses a praticarem mais este tipo de hadra, introduzindo-o até em alguns dos múltiplos festivais do Verão, e que tem no sama dos dervisches, a dança ritual circular, uma das mais famosas performances deste tipo de performance de movimento, dança e canto sagrado. 
A sessão ficou gravada em três vídeos, apenas com a omissão de um minuto entre o segundo e o terceiro. No fim das fotografias, que estão pela ordem cronológica, encontrará o vídeo 2º, o mais longo, 18:00, estando o 1º e de abertura, de sete minutos no Youtube:  https://www.youtube.com/watch?v=yAJ9M9XYgTo , que se tiver tempo recomendo de ver e ouvir, tanto mais que algumas aves vieram cantar por momentos nesta comunhão sagrada da Religião Universal do Espírito e do Amor que subjaz e coroa as diferentes tradições e religiões, povos e locais...





A que ficou ao meu lado e bastante poderosa e galvanizante...
 

Os lenços brancos que foram caindo, tanto metáfora da união interior e que já dispensa o manto ou cobertura exterior, e que é símbolo até da investidura iniciática por um mestre, hirqa, e que aponta também para a futura libertação da mulher de alguns excessos de decoro exteriores, sem exageros certamente...
 



Um triângulo shaktico ou energético, ou de Noor, forte...
 

 

 


Começo da segunda performance, de dança espontânea, livre, irradiativa, de amor humano e não só ao Divino, gravada mais completamente (três minutos) na 3ª parte, disponível no Youtube..   https://www.youtube.com/watch?v=7Df3Unkfe0E
                     

3 comentários:

Luama Socio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luama Socio disse...

Sua maneira de descrever, precisa, muito acurada, com sábias reflexões de permeio nos ensina
muito! Obrigada!!!!!!

Celia disse...

Mil gracas!Obrigada mil vezes.
Pela explicacao e video .
Foram os 18 minutos mais bem empregues do meu dia .


Ainda estou a processar o que acabo de assistir.
Extenuante e profundo enrraizamento do corpo fisico com a mais seria coneccao com o cosmos.Deduzo eu,a atentar pela forma como fiquei apenas assistindo ao video.
Vou pesquisar mais ,como e obvio.

Celia