terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Poema "Iniciação" de Fernando Pessoa.

A Iniciação, certamente um dos poemas mais mágicos, esotéricos e iniciáticos de Fernando Pessoa (1888-1935), escrito no último ano da sua vida e publicado pela primeira vez na revista Presença, de Maio de 1935, ainda não conseguiu ser lido e acolhido condignamente pela gens pessoana, embora Rudolf G. Lind e Fernando de Moraes Gebra, por exemplo, já tenham feito afluir uma boa luz sobre ele.... 
Meditemos e sintamos o que nos versos se transmite, tentando portanto, iniciaticamente, sairmos da identificação e apego ao corpo físico e à personalidade e, entrando nas vestes e capas "assombrosas" dos corpos subtis, daí passarmos, finalmente, à nudez simples da consciência do Ser em si mesmo, do Espírito de origem Divina, capaz então de comunicar ou ser instruído supra-terrenamente por outros Espíritos perenes, tal como o poema nos transmite: 
                                  

            A Morte, qual esfinge sobre a Roda da vida e a borboleta ou psique humana voejante, e sob o  esquadro e compasso do grande Arquitecto do Universo, expressão tradicional do que se tem intuído da Divindade ordenadora, sincronizadora e inspiradora, e que podemos receber amorosa e gratamente. (Mosaico romano de Pompeia). 

                                          
                                          INICIAÇÃO 



«Não dormes sob os ciprestes, 

Pois não há sono no mundo. 
.................... 
O corpo é a sombra das vestes 
Que encobrem teu ser profundo. 

Vem a noite, que é a morte, 
E a sombra acabou sem ser. 
Vais na noite só recorte, 
Igual a ti sem querer. 

Mas na Estalagem do Assombro 
Tiram-te os Anjos a capa: 
Segues sem capa no ombro, 
Com o pouco que te tapa. 

Então Arcanjos da Estrada 
Despem-te e deixam-te nu. 
Não tens vestes, não tens nada: 
Tens só teu corpo, que és tu. 

Por fim, na funda caverna, 
Os Deuses despem-te mais. 
Teu corpo cessa, alma externa, 
Mas vês que são teus iguais.
................ 
A sombra das tuas vestes 
Ficou entre nós na Sorte. 
Não 'stás morto, entre ciprestes. 
............. 
Néofito, não há morte». 

                                      
                          Ressurreição, no Tarot mais antigo, italiano, dos Visconti.
Embora um poema de ensaísmo iniciático, quer seja construído racionalmente ou escrito inspiradamente, ele tem bastante força e sabedoria, pois condensa toda uma vida de estudos ocultistas, nos quais a demanda iniciática esteve sempre presente e tida como importante, fundamental, sendo dado talvez à luz num pressentimento que a morte ou desincarnação se aproximava.
Demanda onde o entendimento dos símbolos e a sensibilidade a eles foi muito valorizada pois, por tais modos, o sentido e caminho da vida se revelaria melhor e daí as suas múltiplas leituras ocultistas que a sua biblioteca na casa Museu espelha e das quais assinalou em carta juvenil a Mário de Sá Carneiro de 1915 como das mais importantes, no impacto anímico-espiritual, a de Hargrave Jennings, The Rosicrucians, their Rites and Mysteries (1907) e as de Teosofia que estava traduzir para a Editora A. M. Teixeira, leituras que depois foi aprofundando em várias outras direcções, às teosóficas opondo-se mesmo, e que se reflectem nos seus textos e poemas mágicos e ocultistas. E ano de 1915 no qual experimentou alvoradas do seus sentidos supra-físicos, que de certo modo constituem uma iniciação, ou um sinal dela, como escreveu ainda que cinco anos depois à sua namorada Ofélia Queiroz, para em parte justificar, exagerando ou não, o rompimento do namoro: «O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam». 
                                          
Neste poema podemos ver tanto  uma morte como uma morte em vida, mas em ambos os casos um percurso iniciático, no qual os iniciadores de sucessivos planos (Anjos, Arcanjos e Deuses ou as entidades ainda mais elevadas que os Arcanjos) abrem o iniciando a expansões de consciência supra-físicas, supra-astrais e supra-arcangélicas e que culminam na entrada da gruta ou caverna, tanto telúrica como do íntimo Ser, onde se reconhece, axializado entre os ciprestes, como um espírito imortal e divino, e donde retorna iniciado: "Não há morte, Neófito!"... 
Certamente que há outros aspectos subtis e simbólicos de estados conscienciais nas imagens e palavras empregadas por Fernando Pessoa, tais como a multicolorida e animada Estalagem do Assombro, mas ficará para outra vez.... 
A Iniciação foi vista ou concebida por Fernando Pessoa por tantos modos que consideraremos agora apenas alguns, tais como o intensificar da capacidade de compreensão anímica do lado interno, simbólico ou espiritual da vida e, portanto, como que um sopro anímico-espiritual transmitido por alguém (e nele desde Aleister Crowley a Henry More e a Jesus Cristo), por símbolos ou por certos acontecimentos. 
Iniciação que foi e é também, como ele escreve, um dissipar gradual de ilusões ou um despertar energético-consciencial e unitivo... 
Este processo gradual foi também classificado por Fernando Pessoa como uma alquimia espiritual e em alguns textos assinalou mesmo que tipos transmutações nos nossos metais interiores deviam acontecer, nomeadamente o Cobre do Egoísmo que devia passar a ser desinteressado e assim estar mais na Liberdade, a Prata da Vaidade que se deveria aproximar da Igualdade entre os seres e, finalmente, o Ouro do Orgulho que tinha de aprender e realizar a Fraternidade. 
Neste sentido corre a purificação final do poema da Iniciação, quando os Deuses, ou seres mais elevados, o despem de certas particularidades e fica nu no núcleo ígneo, solar ou de ouro do espírito, algo que Fernando Pessoa contudo não vivenciou tanto como desejaria em vida, reconhecendo-se então como irmão desses elevados seres. 
Neste mesmo sentido iniciático da alquimia áurea escreveu ainda: «A Grande Obra é o elaborar em nós, no sentido estrito e pessoal, a transmutação do chumbo do nosso ser perecível no ouro do nosso ser que não perece.» 
Este poema dirige-se e orienta-nos para a entrada profunda e libertadora em nós mesmos - espíritos supra-cerebrais capazes de, chegada a hora da morte, atravessarmos o umbral da extinção da consciência cerebral para os planos energéticos, astrais e psíquicos, e estarmos identificados à centelha divina em nós e, quanto a mim, no corpo espiritual que conseguimos talhar ou gerar em vida.... 
Na demanda de realização desta consciência superior interna convergem em Fernando Pessoa certas interrogações elevadas que faz, que transcrevemos traduzindo do inglês: 
«Individualmente alma e corpo são um, mas a alma é mestre do corpo no sentido inferior, assim como o Cristo é mestre no sentido interior. Está o mestre separado contudo inseparado? Quando a morte ocorre a unidade dual torna-se uma unidade dupla? É este o significado da frase Grega, “morrer é ser iniciado"?» 
Refira-se que este "morrer é ser iniciado", que vinha da milenária Antologia Grega, fora também utilizado por Antero de Quental, como epígrafe inicial de um dos seus sonetos, donde Fernando Pessoa o poderá ter retirado, e neste artigo inserimos então a imagem de um poema de Antero dessa luta entre Anteros e Thanatos, o Anjo do Amor correspondido e o Anjo da Morte, que tanto ele como Fernando Pessoa viveram, por vezes bordejando e cultivando abismos perigosos e incomensuráveis nas suas repercussões, e que o Fausto ou o Livro do Desassossego, a sua "produção doentia" como lhe chamava, muito contém ou exalam...
                                
Antero de Quental, que foi muito amado e elogiado por Fernando Pessoa, sobretudo quando mais jovem, traduzindo até vários dos seus sonetos para inglês, mas que mais tarde considerou que sucumbira às provas iniciáticas da Ordem de Cristo, por ter relações maçónicas, num apontamento pouco claro e algo mistagógico, se bem que possamos pensar que Fernando Pessoa considerara a Ordem do Raio coimbrã, a que Antero pertencera e dinamizara, como maçónica. Claro que literariamente considerou-o sempre a grande ponte, com Cesário Verde, para o modernismo do séc. XX. 
Antero como todos sabemos tem vários sonetos ligados com a morte que ele tanto cultuou, afirma o "morrer é ser iniciado", mas não desenvolve esta viagem iniciática no além, e em graus ascendentes, ainda que certamente possamos pôr em causa a exactidão da visão dada e transcrita por Fernando Pessoa, na qual põe em acção várias ordens celestiais no processo iniciático da morte. 
Quem deu uma outra interessante visão da morte iniciática foi o humanista Giovanni Pico della Mirandola, que considerava a 1ª morte como a separação da alma do corpo e a 2ª morte como o beijo e abraço da alma com Vénus ou o Amor Divino, algo que infelizmente nem Antero nem Fernando Pessoa conseguiram muito, embora Antero, na sua juventude, estudante e poeta do Mondego, tenha voado muito alto nas asas do amor platónico humano e no amor divino à Verdade, ao Bem e ao Belo. Já quando morreu, até onde ele subiu, libertando da tumba do corpo e rumo à Mors-Amor libertadora, pouca gente ainda intuiu algo...
Outro aspecto que resulta da demanda pessoana da iniciação é inegavelmente a valorização da intuição pois, a iniciação, através do estudo e da sensibilidade simbólica, deveria resultar num desenvolvimento da compreensão e da intuição maior do lado interno e divino dos seres e da coisas, e que tanto nos inclui a nós mesmo como aos outros e ambientes, para Fernando Pessoa também eles dotados de alma, como por mais de uma vez afirmou... 
Deste modo a iniciação é primacialmente uma gnose, um auto-conhecimento espiritual e libertador, transmitido e realizado desde os tempos mais antigos dos Mistérios Gregos até aos nossos dias e assim no seu testamento espiritual de Março de 1935 Fernando Pessoa afirma-se um Cristão Gnóstico. 
Nesse sentido o seu Mestre principal (e em tantos textos e poemas referiu os Mestres, os Superiores incógnitos, os Anjos) e que terá mais invocado no fim da vida, e quem sabe à hora da morte, sempre misteriosa e sobre qual incide o seu último e humilde pensamento e texto conhecido: "I know not what tomorrow will bring", "Desconheço o que o amanhã trará", teria sido o mestre Jesus,  o Cristo, de algum modo, directa ou indirectamente....
                                
Pois muito provavelmente será a quem ele alude na carta autobiográfica a Casais Monteiro, de Janeiro de 1935, algo ao modo de Antero de Quental (este na sua carta de Maio de 1887 a Willhem Stork), e no seu testamento auto-biográfico de 30 de Março de 1935, oito meses antes de desencarnar: «Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.» 
Porque preferiu Ordem Templária de Portugal à designação de Ordem de Cristo de Portugal, com que por vezes se identificou ou epigrafou textos, é significativo embora ainda misterioso... 
Certamente que apenas aflorámos o poema e sobretudo o tema da Iniciação em Fernando Pessoa, em nós e na História... 
De qualquer modo, que a leitura recitada ou de cor, e  meditada, do poema da Iniciação produza despertar e florescimentos luminosos, é o que todos desejamos, aspiramos... 
Pax, Lux, Amor! 
                                                     
                           Do mundo do Espírito, pintura do mestre alemão Bô Yin Râ.

11 comentários:

Maria Santana disse...

Muito espiritual, revelador de intensa caminhada ...

Unknown disse...

Obrigada Pedro.

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Sim, se foi intensa e constante ou antes insuficiente para o que ele quereria é uma questão...

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Graças pela sua graça!

MM disse...

Parabéns, Pedro! Excelente artigo! É tão difícil compreender Fernando Pessoa! Obrigada!

MM disse...

Parabéns, Pedro! Excelente artigo! É tão difícil compreender Fernando Pessoa! Obrigada!

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças! Não está ainda muito perfeito o texto mas de facto interpretar e explicar estes vários níveis não é muito fácil ou exigiria bastantes mais linhas e citações... Contudo compreender Fernando Pessoa é mais fácil do que as pessoas pensam, sobretudo quem aprofunda mais a sua vida e obra sem preconceitos nem fanatismos e com uma consciência e prática espiritual...
Quando tiver dúvidas, força, e tentarei de algum modo clarificar...

Mathesis disse...

Coitada da Ofélia...E porquê ciprestes e não acácia ?

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Sim, Clerence, de certo modo ou em parte ela foi sacrificada a mais altos desígnios, mais ou menos mitificados. Os cipestres eram bastante mais utilizados na tradição greco-romana e pitagorica. A Acácia sempre viva está mais relacionada com a Maçonaria... Esta recriação da ascensão iniciática está mais afim das Altas Ordens ritualistas do séc. XIX e XX, ocidentais...

Alvaro Sousa disse...

Até muito recentemente esta faceta espiritual de Pessoa ficou na penumbra do meu conhecimento
sabia vagamente o seu interesse pela astrologia, mas perante a Esmagadora obra ficou na sempre na penumbra ,assim como uma curiosidade, sobre ele vou descobrindo agora estas vertentes do poeta que tanta influência teve,tem e terá na minha personalidade,venho registar com apreço a existência deste espaço de conhecimento,certamente andarei por aqui descobrindo com algum deslumbramento confesso,sentindo-me mais enriquecido ,o meu obrigado e até breve

Álvaro de Moura Mendes de Sousa

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças pela sua apreciação, Álvaro. Na verdade é uma vertente bem importante em Fernando Pessoa, a do seu ocultismo e espiritualidade, embora tenha sido bastante menosprezada e mal aceite e interpretada... No Youtube também encontrará alguns vídeos de palestras. Alguma questão, força!