sábado, 20 de fevereiro de 2016

Antero de Quental. O Inconsciente. Soneto.

José Régio, notável poeta e escritor, da geração da revista "Presença", seleccionou para a editora Artis, em 1966, trinta e um sonetos de Antero, pedindo ainda a quatro amigos artistas que ilustrassem um à escolha, considerando-os como os mais belos, tal como outras almas já tinham realizado, embora apontando a diferentes sonetos. Não está ainda contabilizado seja nos registos de selecções e antologias, seja na expressão escrita e testemunhal dos preferidos e menos ainda no interior dos seres que os leram, gostaram e acolheram quais tinham como os melhores.
Talvez um dia se faça um novo inquérito, mas para já contentemo-nos com a escolha sábia de José Régio e, seleccionando um, dos ilustrados, " O Inconsciente", comentemo-lo ao de leve e na intenção de maior Luz Divina em Antero e em nós...






Um poema de certo modo trágico pois Antero de Quental identifica a sombra ou fantasma, guardião do umbral ou inconsciente que vê dentro de si, e que deve ser interrogado e vencido, como sendo Deus, quando é apenas a sombra de Deus em quem não O invoca, não chama, não medita.
Dessa falta de trabalho de ligação superior e portanto do seu estado mais limitado, obscurecido e ignorante resulta a sua projeção de um Deus fantasma que nem sabe quem é ou como se chama...
Certamente que há que contextualizar seja como simples poesia seja como uma reacção natural ao ser de Deus do Antigo Testamento que embora se chamando "Eu sou aquele que é", IHVH, era tão violento e opressivo...
Será que ele quis reduzir Deus a um mero fantasma ou espectro familiar, ou será que para ele esse Deus da religião em que fora educado era apenas um fantasma, desconhecendo-se a si próprio, quase que como tendo sido criado pela imaginação humana mitificante, ou como ele e "Deus" caracterizam, vã?
De realçar ainda Antero começar aparentemente de modo socrático, pois de certo modo apresenta o espectro na linha do daimon ou génio interior de Sócrates, que anda consigo e que ele tanto receia como ama, e acabar no fim por o desvendar como um fantasma, um ser não auto-conhecedor de si mesmo...
Estará Antero a reflectir algumas posições filosóficas então em moda e que caracterizavam o Absoluto ou o Divino como Inconsciente?
É bem natural, e provavelmente já haverá algum comentário nesse sentido, mas talvez o mais importante é tentarmos despertar mais o nosso espírito enquanto centelha divina à auto-consciência de si mesmo, e em vida terrena para que após a morte não sejamos fantasmas....





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