terça-feira, 2 de junho de 2015

"JORGE FERREIRA DE VASCONCELOS: Artista do Renascimento". Biblioteca Nacional.

O provável quinto centenário do nascimento  de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515-1585) está a ser celebrado com uma  exposição bibliográfica na Biblioteca Nacional intitulada "Jorge Ferreira de Vasconcelos: Artista do Renascimento" e que, inaugurada no dia 5 do 5, terminará a 28 de Agosto. Organizada muito bem por Silvina Pereira, estas imagens documentam a visita guiada por ela , e que decorreu durante o Colóquio Internacional consagrado a Jorge Ferreira de Vasconcelos realizado em 28 e 29 de Maio na Fundação Calouste Gulbenkian, com alguns dos participantes...
Retrato recente de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515-1585) notável dramaturgo e pedagogo Português do Renascimento.
" O amor é perfeito e não pode ser mau. Porque procede de Deus em que não pode haver senão bem, e por amor participamos o bem de Deus e a sua formosura de que a humana é retrato: por amor alcançamos conhecimento de Deus, por o que não somente é bom mas necessário: amor ata as almas em conformidade, e sendo amizade boa, melhor é o amor que a causa: amor levanta os ânimos as grandes coisas que por ele se fazem."
Silvina Pereira, John Cull e Hugo Crespo no começo da visita à Exposição
John Cull (e Antonio Bernart Vistarini), estudiosos da emblemática e também das paremias ou adágios na literatura peninsular e na obra de Jorge Ferreira de Vasconcelos, apontando por exemplo para a possivel influência do Livro de Refranes compilado por el ABC... de Pedro de Valdés, impresso em Saragoça, 1549...
Ascendência de D. António de Noronha  casado com D. Briolanja Mendes de Vasconcelos, filha de Jorge Ferreira de Vasconcelos.  A D. António de Noronha se devem as reimpressões das comédias Ulisipo e Aulegrafia, nos anos de 1618 e 1619. Da Ulisipo, desde o Índice de 1561 proibída pela Inquisição, não há qualquer exemplar da primeira edição....
Da fortuna das edições sobre o crivo da Inquisição e dos seus Índices tão castradores...
A recente descoberta de um manuscrito da Aulegrafia em Espanha sem cortes de censura permitiu discernir a quantidade imensa omitida na edição impressa de 1619, sobretudo de teor sensual ou erótico, religioso e mágico.
Assinatura firme e decidida de Jorge Ferreira de Vasconcelos enquanto Tesoureiro do Tesouro Real.
Assinatura inédita de Jorge Ferreira de Vasconceos encontrada na Torre do Tombo pelos investigadores Hugo Crespo e Silvina Pereira.
Sylvie Deswarte-Rosa, especialista de Francisco de Holanda e das correntes neo-platónicas e simbólicas do Renascimento, participou também nos trabalhos e diálogos.
Um invulgar opúsculo sobre as primícias literárias de Jorge Ferreira de Vasconcelos, onde centenas de provérbios e ditos são utilizados com muita verve e sabedoria, numa comédia de amor e costumes e de crítica social e religiosa.
Textos sobre a Eufrosina
Os documentos restituídos da tumba ou Tombo à luz da história viva pela Silvina Pereira e o Hugo Crespo...
Belo frontispício da 1ª edição, provavelmente com alguns cortes da censura, o mais doutrinário livro de Jorge Ferreira de Vasconcelos, com páginas muito valiosas acerca do amor e do espírito dos cavaleiros esforçados ou andantes. A parte final com uma primorosa descrição do famoso torneio de  Enxabregas em que o príncipe D. João, pai de D. Sebastião foi armado cavaleiro. Esta valiosa e sempre reeditável obra é dos últimos romances de Cavalaria Arturiana no veio Português...
Uma das edições muito raras da Eufrosina, com a menção na capa da dedicatória ao pai de D. Sebastião, entretanto falecido.
Nesta portada da edição de 1560, sendo a primeira de 1555, pode-se interpretar a grade tanto como sendo a de um convento como a dos cárceres inquisitoriais...
Esta edição já bastante expurgada ou formatizada dos famosos  Adágios de Erasmo, realizada pelo impressor Paulo Manutio em 1575, foi a única autorizada a circular na Cristandade, sendo este exemplar já de 1578, mas nem todas as edições  anteriores desapareceram ou foram riscadas.... Há provas do conhecimento que Jorge Ferreira de Vasconcelos tinha dos Adágios (e Maria Luísa Rezende na sua comunicação acerca das fontes gregas na Eufrosine, apresentou alguns casos), tanto mais que nas suas obras deve ter inserido uns 1500, não estando ainda feito grande trabalho sobre os que provinham de fontes livrescas, seja de Erasmo,  Plutarco, Diógenes de Laercio,  Ravisius Textor ou do espanhol Pedro de Vallés (Refranes..., em 1549, com 4.300 refrões) e aqueles recolhidos da voz do povo ou ainda os que terá inventado ou transformado, quanto a mim bastantes...
Recriação imaginada da vera efígie do nosso pedagogo e cavaleiro de armas cristalinas:  "Amor vence todas as coisas em força e muito mais em gosto".
Os livros, documentos e seres que amamos são atraídos para nós...
O Infante Dom Luís (1506-1555),  quarto filho de D. Manuel I e de D. Maria, irmão de D. João III, embora  eclipsado por este foi um notável humanista, aluno do cosmógrafo Pedro Nunes, que elogiou o seu "tão alto e tão claro entendimento e imaginação". Foi protector dos letrados da época, de Gil Vicente a Jorge Ferreira de Vasconcelos e a sua morte foi muito chorada, contribuindo para o entenebrecimento da aura de Portugal, ao deixar o campo mais livre às "alcateias de relógio."..
Damião de Góis, o elo principal da transmissão do Erasmismo para Portugal, que certamente conheceu Jorge Ferreira de Vasconcelos, havendo sinais de ecos recíprocos, tendo ambos visto as suas obras censuradas pela Inquisição, Damião de Góis ficou  mesmo encarcerado quase dois anos, antes de ser enviado para o mosteiro da Batalha donde saiu para morrer em situação não esclarecida. E contudo fora uma dos nossos maiores Humanistas, e destemido defensor da justiça e da tolerância, dos Etiopes e do Lapões,  dos sábios protestantes e de Erasmo, e de uma religião de amor, razão e universalidade...
O Júlio Martín Fonseca, marido de Silvina Pereira, excelente actor, encenador e teorizador do teatro, e que serviu de modelo para o belo quadro imaginário de Jorge Ferreira de Vasconcelos
Jorge de Montemor, o autor da Diana, um romance de cavalaria sobre o qual também se abateu a sanha inquisitorial nomeadamente no índice de 1581.
A queima de livros no Renascimento teve momentos trágicos e cómicos. Destes últimos as Cartas dos Homens Obscuros... destacam-se ao serem publicadas avulsamente com muito sucesso irónico desde 1519 e há ecos delas na obra de Jorge Ferreira de Vasconcelos, um autor muito inteligente e irónico, na sua tentativa sistemática de escapulir à Inquisição...
Manuscrito não censurado, presume-se, da comedia Aulegrafia
É em geral nos prólogos que Jorge Ferreira de Vasconcelos atinge os maiores requintes de criptonímia, falando por alusões e info-textos e dardejando a sua grande erudição e inteligência, ironia e espiritualidade... Neste, o da Aulegrafia, não foi nada por acaso que escolheu o Momo, que era tanto Deus da censura como da comunicação, e como tal foi conhecido também Erasmo de Roterdão, certamente o farol da época...
A prof. Isabel de Almeida, com a prof. Silvina Pereira, duas grandes estudiosas ou mesmo especialistas de Jorge Ferreira de Vasconcelos.
Excerto muito curto do famoso  Diálogo da Parvoíce, uma das obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos que acabou por ser queimada ou destruída, não passando de manuscrito e cópias... Ora-se para que apareçam mais algumas páginas... Este fragmento apareceu numa miscelânea, numa biblioteca de Espanha.
Resumo da comédia Aulegrafia..
Resumo da comédia "Ulissipo"

A edição princeps ou primeira desta famosa comédia de Sá de Miranda, o sábio do rio Neiva e das terras de Basto, contemporâneo e amigo de Jorge Ferreira de Vasconcelos .

1ª edição das Obras Completas de Devoção de mestre Gil Vicente, uma obra de grande qualidade, audácia e crítica social, alguns dos autos com claros laivos erasmianos.
Uma das fontes inspiradoras da Eufrosina de Jorge Ferreira de Vasconcelos, a "Celestina", de Rojas. Ainda está por se fazer uma comparação minuciosa das semelhanças e diferenças  que eles tinham nos sentimentos e visões do amor, dos costumes e das mentalidades na sociedades espanhola e portuguesa.
Vinheta de uma portada, da autoria do ilustre gravador Debrie e de temática angélica coroando um príncipe lusitano
Um dos famigerados Índices dos Livros Proíbídos, o quarto impresso, de 1564 e que já inclui de Jorge Ferreira de Vasconcelos o Ulissipo e o Livro das Sortes, este completamente desaparecido ainda que haja referências da sua influência em Espanha.
Redigido por Frei Bartolomeu Ferreira e publicado me 1581 este quinto índice impresso dos Livros Proibidos inseriu nele as comédias Ulissipo e a Eufrosina, além da Menina e Moça, da Ropica Pneuma, de João de Barros, das obras de Jorge de Montemor, o Desengano dos Perdidos, de Frei Gaspar de Leão, impresso em Goa, místico e erasmiano, etc, etc.
O Índice expurgativo e proibitivo de 1624 foi o maior de sempre (um in-4º de 1050 págs.) e deveu-se à pena apurada do jesuíta Baltasar Alvares e do colégio de censores, nada meigos a verem maldades a torto e a direito... A Ulissipo e a Eufrosina lá estavam registadas mas quem ocupava mais páginas era Erasmo, a luz então da Cristandade, e que se dizia que andava por todas as mãos... 
Um dos maiores sucessos de sempre, o "Elogio da Loucura", e do Amor, do nosso Erasmo, e do qual encontramos vários ecos em Jorge Ferreira de Vasconcelos, foi uma obra chave na libertação das consciências que o Humanismo antes da Reforma e da Contra-Reforma estava a operar...
Isabel de Almeia e Sylvie Deswarte examionando a zona dedicada às acatividades teatrais do Tetro Maizun, fundada por Silvina Pereira e que tem levado à cena as riquíssimas comédias de Jorge Ferreira de Vasconcelos, tão actuais e tão desafiantes
Silvina Pereira, notável actriz e investigadora, e hoje já professora doutora, e a quem devemos a ressurreição de Jorge Ferreira de Vasconcelos, 500 anos depois do seu nascimento, mas muito merecida e certamente poderosamente frutífera e impulsionadora, já que ela provém e testemunha a época máxima do espírito livre e sábio, amoroso e cavaleiresco dos Portugueses, certamente com sombras e limitações, mas que pela pedagogia erasmiana e vasconceliana poderão ser vencidas...
Podemos dizer que este livro, o Memorial é verdadeiramente um breviário da cavalaria, do espírito gentil e esforçado, destemido e inquebrantável que é da essência da grande alma portuguesa,  então e sempre. Valete!

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