
Sohravardi, ou Suhrawardi, de seu nome completo Shihāb al-Dīn Abū al-Futūḥ Yaḥyā ibn Ḥabash ibn Amīrak al-Suhrawardī, é um dos mestres mais importantes da tão rica quão longa história espiritual da Pérsia ou Irão. Nascido
em Suhraward em 1154 perto de Zanjan, uma zona onde o Zoroastrismo
ainda tinha os seus adeptos, depois de praticar a ascese e o silêncio, e
de estudar e meditar com mestres de Maragheh, ou Meragah, próximo de Tabriz, tal Madj al-Din al-Jili, e de
Isfahan, nomeadamente Omar ibn Shalan al-Sawaji, discípulo na linha de
Avicena. Peregrinando constantemente, nomeadamente na Anatólia e na
Síria, em busca até dum companheiro com quem pudesse aprofundar o caminho interior, como
confessa autobiograficamente aos 30 anos, publica em 1186 a sua seminal obra Livro da Filosofia da Iluminação, ou Livro (kitab) da Sabedoria (hikmat) Iluminativa (al-ishraq), com impacto trágico, pois acaba por findar precocemente aos 36 anos a
sua missão quando o famoso Saladino o manda matar em 1191, em Alepo
(onde se encontra sepultado), na Síria, obedecendo aos religiosos
fanáticos que se opunham à sua sabedoria universalista, que acolhia a
tradição ou cadeia de elos (isnad) persa zoroástrica, pitagórica e platónica da Grécia, e
a hermética.
Na verdade, Sohravardi discernia a Tradição ou Filosofia Perene que
subjazia a todas e valorizava sobretudo a relação interior da alma com a
Luz divina, a obter arduamente durante uma vida vista e assumida como
guerra entre as forças da luz e das trevas, algo que vinha dos tempos de
Zoroastro, e que o Irão aumentou com o Shiismo e conservou até aos
nossos dias, encontrando-se agora em Abril de 2026 em mais uma batalha
decisiva da sua existência contra as forças do eixo da mentira,
opressão, assassinatos, genocídio, pedofilia, de Israel e dos Estados
Unidos da América. Oremos para que não morram muitos inocentes sob os
bombardeamentos cobardes do eixo do mal e que este termine...
A escola ou fraternidade ou linha iniciática que fundou veio a ser chamada Ishraq,
ou da sabedoria iluminativa, ou sabedoria da iluminação, e teve um dos
seus últimos continuadores ou aprofundadores no séc. XVII Molla Sadra.
Ora Henry Corbin, já no século XX, estudou excelentemente a sua obra,
bem como a de Molla Sadra, de Shiraz, tendo publicado estudos e
traduções anotados bem valiosos, um dos quais foi o do Livro da Sabedoria Oriental, dado
à luz na editora Verdier, em 1986, com uma boa introdução, talvez por vezes menos mística, de
Christian Jambet, um especialista ainda vivo, e com um prefácio escrito por Shams al-Din Muhammad ibn Mahmoud al-Shahrazuri, um espiritual curdo do séc. XIII, que no seus livros Sharḥ Ḥikma al-ishrâq e al-Shajarah al-Ilahiyyah (A grande Árvore) comentou os ensinamentos de Sohrawardi e o caminho espiritual. A parte maior do livro de 694 páginas está constituída pelos comentários de Qotboddin Shirazi, de duzentas páginas, e de Moola Sadra Shirazi, de duzentas e trinta páginas. É o prefácio de al-Shahrazuri, de oito páginas, que traduzo, com breves comentários.

«Bismillah al-Rahman al-Rahim, Em nome de Deus, Misericordioso, Compassivo.
A descida da alma pensante (nafs natiqa) do mundo superior inteligível para o mundo inferior tenebroso [ou obscurecido] tem por fim a alma realizar a sua perfeição através dos conhecimentos essenciais que são as ciências da Essência, pois, no início, ela está desprovida.»
[Comentário meu: mundo superior inteligível [alam al-jabarut], compreensível, acessível pelo Logos, ou inteligência do íntimo ou coração, e pela capacidade de visão interna. Os conhecimentos essenciais que faltam à alma são-lhe sentidos no mundo terreno que tem mais trevas, ou tem mais violência e conflito que o inteligível ou espiritual. Há um certo dualismo, embora entre os dois mundos e planos haja um, o imaginal, subtil. As ciências que dizem respeito à Essência, ou essenciais (haqiqiah) serão explicitadas mais à frente como as imutáveis em si e dizendo respeito a Deus, às inteligências, aos anjos, às almas, aos céus, aos universais, sendo obtidas por uma sapiência íntima, por uma combinação da visão interior das luzes (kashifya) e uma dialéctica racional e intelectual.]
«Mas como não e possível à alma atingir tais conhecimentos senão após um esforço e uma luta de longa duração, e como isto não é possível sem a participação do corpo e das suas faculdades, e enfim porque o corpo só subsiste através dos alimentos, roupas, casas e todas as coisas confortáveis que se seguem, torna-se necessário que todas as coisas sejam medidas, delimitadas, reguladas por um equilíbrio justo (i'tidal), de modo que este equilíbrio não seja transgredido por um de dois excessos, o do supérfluo ou o do insuficiente. Pois no primeiro caso, sai-se dessa Sabedoria (hikma), em vista da qual foram criadas as alegrias do corpo, donde se agrava a dependência da alma, ao mesmo tempo que se intensifica a sua inclinação para o mundo do exílio (alam al-ghorba), enquanto que ela sai, por isso mesmo, da Sabedoria. No segundo caso, gera-se a ruína do corpo, cuja conservação condiciona todavia a realização desta perfeição que conduz à união (ittisal)».
[Dois tipos de ameaças ao equilíbrio da alma, os excessos e as carências. O que gera o universalmente recomendado caminho do meio, da sobriedade, a ser discernido e activado diariamente, constantemente, para que a Sabedoria - Hikma - ou o corpo de glória ou luz- ou ainda Ahura Mazda, Allah, Deus, estejam mais presentes em nós.]
«É por isso que temos necessidade de uma educação do ethos, duma paideia [pedagogia integral, educação completa] (tahhib al-akblaq) porque o facto de [a alma] se deixar absorver pelos sentidos externos e internos, pelas faculdades concupiscíveis e irascíveis, é um véu para a alma e impede-a instantaneamente de atingir as ciências ou conhecimento.
Mesmo que ela as atinja, esta distração [sensorial] implanta na substância da alma o amor da pátria terrestre e aí fixa os seus entraves ou obstáculos. Isto causa longos sofrimentos e exclui a pureza dos prazeres inteligíveis. Mas quando a alma abandona o corpo, se ela leva consigo mesmo a impressão [empreinte] e a imagem das essências (haqa'iq) dos seres, e se já está rompida ou pelo menos diminuída a sua dependência em relação ao mundo inferior [ou aos aspectos problemáticos ou retardadores dele], então ela é atraída numa ascensão para os coros angélicos e atinge uma felicidade plena, desfrutando da beleza sempre antiga e sempre nova. Pois ela realizou esta correspondência que [causa ou] leva à reunião, e diz-se que a comunidade de género (jinsiya) é a causa da união. Se, pelo contrário, é o inverso disso que ocorre quando ela sai do corpo, então o seu estado será também o inverso.»
[Comentário: "Levar a marca e a imagem das essências (haqa'iq) dos seres" pode querer dizer: marca de formas que afectaram o nosso ser psíquico, que recebe ou conserva ainda imagens, na memória, e isto sobretudo das essências ou corpos e virtudes e espirituais dos seres. Ou ainda tratar-se mais das impressões luminosas recebidas nas meditações, que se tornam forças dinâmicas na ascensão para os planos subtis e espirituais mais elevados, referidos como os coros angélicos...
"Não havendo apegos, nem vícios, nem necessidades, eleva-se a alma aos coros angélicos", ou ainda à ummah (comunidade dos crentes) psíquica, grupal, de fraternidade ligada a um mestre, religião, ciência, criatividade. E desfruta então da beleza específica. Beleza de formas, geometrias, dinamismos, sentimentos, conhecimentos e provavelmente diálogos subtis, ou a Beleza pura da unidade Divina.]
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«Como sabes, a perfeição das almas está nos conhecimentos especulativos (nazariya) e o conhecimento da sabedoria prática (al-hikmat al amaliya) é ele próprio especulativo; por outro lado, a educação do ethos [carácter] não tem outro fim senão o de libertar a alma das suas preocupações e de a purificar dos obstáculos que se opõem à realização da sua perfeição; a partir de então saboreia-se a felicidade soberana humana nesse conhecimento alcançado [realizado, atingido.]
Saibamos educar bem as nossas forças psíquicas de modo a controlarmos atrações e repulsões, desejos e medos, e estabilizarmos na respiração-oração-meditação-contemplação-elevação adequadas a gerarem a sabedoria iluminativa ou iluminada, ligação com os mestres, sheikhs e anjos, e com a Luz e o Amor Divinos,ou a sua Unidade e Unicidade, mesmo no meio da batalha contra as forças demoníacas, cada vez mais desmascaradas, desenvergonhadas, sem moral, ética, leis e verdade e que tanto oprimem hoje o mundo nas suas formas tenebrosas do imperialismo e do sionismo...
Que a Luz das Luzes, e os seus sheikhs e mestres, qutbs e imams nos guiem e protejam, e em especial o povo, a terra, os monumentos e o regime sagrado do Irão.