quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Eduardo Paniagua e Cesar Carazo no B. Leza. Música cristã e arabo-andaluz. 10/11/2015. Com os links das músicas.

 Fotografias e vídeos do excelente concerto de Eduardo Paniagua e César Carazo, no mítico B. Leza, agora junto ao rio Tejo. Realizou-se no dia 10/12/2015, com pouca gente a assistir mas boa, destacando-se a Inês Xavier e o João Botelho da organização, o João Paulo, a Soraia Simões, a Elsa Shams e a Natália Nunes.
Eduardo Paniagua explica os instrumentos e os tipos de música cristã e arabo-andaluz que tocará, por vezes fusões de aspectos ou influências das três religiões e povos, quando eles conviviam culturalmente no esplendor do Al-Andaluz
                                 https://youtu.be/6N0B7jYixNI
Várias músicas e canções são das Cantigas de S. Maria, compiladas por Afonso X de Castela e portanto ainda em galaico-português, recheadas de frequências e energias que ressoam nas nossas células ou forças anímicas inconscientes
https://youtu.be/WMJcCKBv4hk
Música de grande qualidade tocada e cantada magistralmente pelos dois artistas e investigadores. Os instrumentos usados foram feitos pelo irmão do Eduardo Paniagua.
                                                      https://youtu.be/gY1CEaOxYTU
Dedilhando as cordas da alma em apelos ao amor e ao Divino, por vezes penando, penando...
https://youtu.be/ZhGuNNfEbwU
Momentos de grande elevação de voz, música e alma protagonizados e contagiantes por César Caruzo
César Caruzo, já no fim do concerto e após breve diálogo sobre a mística elevação da alma
Natália Nunes, especialista da literatura e da mística do Al-Andaluz, e em especial de Ibn Arabi.
Guia nas visitas à Lisboa árabe, em pareceria com a Elsa Shams, coreógrafa e danças orientais, que esteve também presente
Soraia Simões e o Eduardo Paniagua e eu em animado diálogo sobre o que subsiste de ressonâncias medievais nas nossas almas de hoje, sobre o romanceiro português, a obra de Sardinha sobre o Fado e sobre os poemas musicados de Fernando Pessoa
Na outra margem do rio o Cristo, ou o Ungido, já não era só um mas triplo, talvez porque se encontra nas três religiões do Livro e nos três mundos do corpo, da alma e do espírito  e que a nossa missão é sermos também ungidos e ungidores do mesmo Espírito santo que nele mais alto resplendeceu e ao qual a música tanto estimula o acesso...

sábado, 5 de dezembro de 2015

Minerais e cristais belos, na XXIX Feira, Lisboa, 5 a 8/12/2015.

Uma breve visita à XXIX Feira Internacional de Minerais, Gemas e Fosséis, em Lisboa.
5a 8/12/2015.
Contemplar por momentos a beleza milenária da Terra profunda e maravilhosa...
A Mãe Terra, por si ou pelos interesses dos outros, oferecendo os seus tesouros por preços diversos. Mas cada um deverá sentir se precisa de alguns, ou como os deve acolher e amar...
Os espíritos da natureza por vezes deixam-se plasmar no interior das grutas cristalinas
Quem sabe se um duende se deixou plasmar na milenária formação do cristal
Faces talhadas com tanto rigor que nos animam a sermos mais perfeitos
Bazar de brinquedos coloridos vindos do interior da terra, para colmatarem a nossa ânsia de religação com ela, mas que está mais alto e funda...
Riachos não facilmente fixáveis pela fotografia...
Uma belíssima gruta natalícia: que a Divindade renasça mais em ti...
Diálogos fabulosos filosóficos e estéticos, mas quem os saberá sentir, intuir e transcrever?
Que a contemplação calma nos ilumine...
Pureza, pureza, clamam certos cristais provindos dos fundos de montanhas nevadas nos cimos...
Fundos do mar aveludados onde poderemos nadar nos nossos sonhos...
Uma criatividade maravilhosa infinita patenteia-se em tantos cristais...
Poderiam ser mundos cristalinos submarinos, mas é apenas o verde líquido da esperança a escorrer pelos nossos olhos e almas...
Veios da terra e das montanhas, o macrocosmos no microcosmos e em nós, quem sabe harmonizando níveis celulares
Poder das pontas, mãos fortes, cristalizações de que ou sob que estrelas? 
Tanta individualização "quartsica", da mágica ou iniciática sílica, segundo algumas tradições
Vindos das profundezas da terra, agora expostos à luz, que restará neles dos espíritos da Natureza que os animavam? Erguer-se-ao em dança subtil perante os olhos dos que os invocam e amam?
Fusões harmoniosas de seres e veios
Conglomerados ctónicos e algo avessos a se desvendarem plenamente, tal como certos níveis do nosso profundo ser
Quartzo rosado muito esquivo e de facto o grande e firme Amor é mesmo exigente.
1ª tentativa de focar e entrar no interior da gruta cristalina
2ª tentativa de entrar e contemplar
Por fim, à terceira é que é de vez, a reflexão cristalina atravessa a tremida ou enovoada aproximação e resplandece e alumia os interiores
Interiores maravilhosos das almas cristalinas
Certamente uma das mais belas peças trabalhadas, sobre ou em lapis azuli, um bodhisatva, um ser votado ou dedicado à compaixão
Termos as nossas auras e corpos subtis irradiantes como cristais é um apelo que eles nos fazem
Talvez uma das mais belas fotografias, numa ametista: possamos nós também ser contemplados com desvendações internas como esta...
Que no interior mais profundo da tua alma brilhe o espírito e te encha de algum esplendor divino

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Luís da Silva Leitão, um naturista e tolstoiano de Elvas, 1866-1940). Tolstoi e o pacifismo em Portugal.

Luís Leitão, um notável tolstoiano da Tradição espiritual portuguesa.
 
Luís Albino da Silva Leitão nasceu em Elvas a 18 de Março de 1866 e veio a desencarnar, após uma ingente actividade como jornalista, escritor, tradutor, pedagogo, naturista e activista, em Lisboa, a 13 de Maio de 1940. Chegou a dirigir a Revista do Bem e foi inegavelmente um activo defensor dos Direitos Humanos, das Mulheres, dos Animais e das Árvores, destacando-se como um dos dinamizadores da Festa da Árvore em Portugal e da Semana da Bondade
Casou-se com a luminosa Maria Pacheco Leitão, a qual veio a publicar o In-Memoriam do seu marido, intitulado muito significativamente Um Evangelizador da Bondade e da Beleza, com colaboração de Alice Moderno, Ulysses Machado, Fontana Silveira, Maria Evelina de Sousa, Rodrigo Velloso, etc. 
Pertenceu a numerosas agremiações e sociedades nacionais e estrangeiras, como se pode ver hoje em dia na sua biografia na Wikipédia, que me auxiliou nesta introdução às páginas consagradas a Tolstoi e fotografadas do seu livro À Sombra das Boas Árvores, o qual, neste último 30 de Novembro, de 2015, me foi mostrado pelo João Paulo, director da livraria Ferin (que editara a obra em 1916), no fim da sessão de homenagem aos 80 anos da entrada de Fernando Pessoa nos mundos espirituais, promovida pela Associação Portuguesa dos Escritores, com intervenções valiosas de Fernando J. B. Martinho, Rita Patrício e António Durães. 
                                   
Vegetariano entusiasta, tendo privado bastante com o pioneiro Amílcar de Sousa, que o elogiou como ser íntegro a todos os níveis, Luís Leitão escreveu: "Considerada em absoluto, a alimentação animal é nociva debaixo de todos os pontos de vista. Mas sob o ponto de vista moral? Principalmente sob esse, e tanto assim que Toltoi afirma ser indispensável a todo o homem que procura aperfeiçoar-se moralmente, privar-se de semelhante espécie de alimento. […] Acreditamos na sinceridade e boa fé das pessoas que afirmam ser natural a ingestão de carne, mas nada impede que essas pessoas se enganem conjecturando assim. Pensamos que se é rigorosamente imoral, como de facto é para os espíritos meticulosos, o homem valer-se da inferioridade relativa de outros homens para os arvorar em seus criados, impondo-lhes obrigações vexatórias, bem mais imoral é comer os nossos semelhantes de quatro e duas patas, simplesmente porque eles não podem opor-se a tal violência, e porque nos aprouve classificar de agradável a sua carne. Não, mil vezes não! A natureza obriga-nos a comer, é certo, mas deu-nos na exuberantíssima vegetação da terra elementos de sobra para satisfazer tal exigência." 
Segue-se  o capítulo consagrado a Tolstoi, no qual Luís Leitão se revela um admirador entusiasta da sinceridade de vida do escritor russo, embora afirmando que não concorda em absoluto com tudo o que ele diz. Que reticências terá tido é uma boa questão (o seu radicalismo anti-sexual?) que talvez noutros escritos se possa desvendar, pois neste a admiração, justificada, é grande e brilhantemente transmitida....
De qualquer modo, e a partir da leitura da última obra de Tolstoi sobre a guerra da Rússia e do Japão, Luís Leitão descreve e enaltece com sensibilidade e claridades dois aspectos fundamentais de Tolstoi: o seu pacifismo e a condenação das ambições, grandezas e guerras, mensagem esta sempre actual pois é constantemente atacada e destruída pelas criações de terroristas, e posterior bombardeamentos deles, como temos observado com os Estados Unidos da América e a Arábia Saudita a criarem grupos terroristas que são depois apoiados por Turcos, Ingleses, Franceses, NATO, Israel, etc., até que, escapando-lhes do poder e virando-se não já só para os adversários para que os criaram, os começam a bombardear, mantendo assim a indústria dos armamentos e a insensibilidade ao mal da guerra na moda ou na mó de cima, para o que contribui muito a mediatização manipuladora de tudo, e em especial dos atentados e violências e pelas reacções que eles podem suscitar e permitir de explorações e opressões. 
Contra esta hipocrisia do Ocidente certamente se revoltaria Tolstoi, e aqui fica algo da indignação dele por via de transmissões, das quais certamente Jaime de Magalhães Lima e Luís Leitão são elos. 
Os outros aspectos referidos com intensidade por Luís Leitão são a condenação da caça e da morte dos animais e em seguida a imensa bondade, compaixão e capacidade de sentir, acolher e tentar vencer o sofrimento dos outros que Tolstoi manifestava e que à sua medida Luís Leitão e a sua mulher também inquebrantavelmente realizaram. 
Escreve mesmo, como poderão ler em seguida: «Depois de Jesus não conhecemos espírito aberto com mais amor e carinho aos sofrimentos alheios, respeito maior à dor, consideração mais completa pelo sofrimento dos "outros"» 
De realçar os colchetes que ele pôs à volta dos "outros" provavelmente querendo dizer que também os somos ou que a unidade da vida e do género humano é bem maior do que egoicamente queremos crer...
Leiamos então as páginas tolstoianas....








Como vemos as palavras, ideias e sentimentos que se evolam deste texto, que brevemente fará 100 anos, são ainda hoje muito actuais, ou mesmo mais actuais, já que o artificialismo e o laxismo das vidas citadinas se tem acentuado, embora o vegetarianismo e o veganismo tenham justificadamente crescido...
Luís Leitão, tal como Tolstoi, acreditava na utopia dos seres a viverem mais em contacto com a natureza, contemplando o nascer do Sol, com uma alimentação natural, biológica e vegetariana, um trabalho que satisfaça interiormente e numa sociedade pacifista e educada por princípios de amor, solidariedade e espiritualidade e nestes sentidos, tão altruisticamente vividos, ele é certamente um dos elos da Tradição Espiritual Portuguesa, sendo por isso aqui, com sua mulher e companheira anímica, saudado e invocado muito luminosamente.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Marsilio Ficino e os ensinamentos medicinais, musicais, astrológicos, mágicos e espirituais do "De Vita"...

Marsilio Ficino, numa capitular de manuscrito iluminado da época.
Breve apresentação e tradução (a partir do texto latino e confrontando com a tradução inglesa) do começo do proémio do livro De Vita, do médico Marsílio Ficino (1433-1499), dirigido ao magnânimo Lourenço de Medicis, conservador da Pátria, o qual constitui como que a primeira obra de medicina e psicologia esotérica e científica,  gerada para os intelectuais e melancólicos, no ambiente aberto e entusiástico do Humanismo florentino, tendo sido finalizada em 1480 e com a primeira impressão, a editio princeps, em Florença, em 1489. Teve grande sucesso na época e posteriormente. Há traduções recentes e boas de Carol V. Kaske e John R Clark, esta muito bem anotada, bem como de Charles Boer. Recentemente têm sido publicados muitos artigos académicos ou universitários sobre Marsilio Ficino e a sua sabedoria e psicologia.
A obra Da Tríplice Vida contêm três tratados, e o proémio vem antes do primeiro tratado, intitulado Da Vida (De Vita). O segundo tratado é o Da Vida Longa (De Vita Longa) e o terceiro Da Vida Celestial Coligida (De Vita Coelitus Comparanda). No fim há uma Apologia, isto é, uma defesa da obra, já que ela fora imediatamente criticada pelos mais ortodoxos e anti-espirituais.
O primeiro tratado, Da Vida, aborda mais o corpo físico e as suas  partes principais, explicitadas no 2º capítulo como cérebro, coração, estômago e espíritos vitais, e explica, segundo a doutrina clássica dos humores, o que poderia dificultar ou facilitar a vida mental, em especial dos intelectuais, pensadores, religiosos, prescrevendo modos e hábitos de vida, remédios e mezinhas conducentes à vida sã. 
No segundo tratado, Da Vida Longa, Marsilio Ficino aconselha  procedimentos para o prolongamento da vida, necessário para se poder aperfeiçoar a ciência ou o conhecimento, e como tal exige um  esforço ou studium. Destaca a importância do equilíbrio entre o quente e o frio ou, como diz a medicina tradicional chinesa, o yang e o yin, explica como o ar reforça tal harmonia no sangue e nos fluidos, e como os alimentos da terra, as bebidas e os odores devem ser apropriados às compleições e épocas, discernindo-se bem os melhores e os piores alimentos. Atenção especial é dada ainda ao modo de vida e regime dos idosos, com agradáveis conselhos de acordo com as atribuições de influências planetárias, valorizando, por exemplo, o caminhar-se em conversas por terrenos relvados ou pelo campo, a utilização de certas especiarias, ou mesmo o leite humano  e o ouro, reafirmando contudo a regra pitágorica, nada em excesso, em especial no domínio mental e sexual.
                         
                                Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano
O terceiro tratado, Da vida Celestial Coligida, composto
quando traduzia, a pedido de Pico della Mirandola,  a obra completa de Plotino pela primeira vez do grego para latim, é o mais valioso e substancial em termos psico-espirituais, com muitas páginas consagradas aos planetas, esferas e seres celestiais, e aos seus influxos transformadores nos seres humanos, na Natureza e nas imagens e objectos, já que Marsilio Ficino valorizava os talismãs e certo tipo de magia operativa que fixaria as influência subtis planetárias em tais objectos ou moldes, algo em que  a auto-sugestão ou então a mais profunda fé têm sempre bastante importância.
Embora muitas páginas se possam considerar imaginativas, e outras dependerem da aceitação dos pressupostos
astronómicos (sistema plotemaico) e astrológicos, há contudo bastante informação merecedora de leitura e meditação, sendo tanto prática (destacando-se os conselhos com ervas medicinais) como sobretudo psicológica, simbólica e espiritual, pois Marsilio Ficino era um notável conhecedor da Sabedoria Perene, ou Prisca Theologia, traduzira e comentara as obras completas de Platão, Plotino e do pseudo-Dionísio Areopagita, estudara alguns livros de magia medieval de autores árabes, como a Picatrix, e cristãos, tendo ainda publicado a extensa, profunda e então famosa Teologia Platónica da Imortalidade das Almas, onde prova tal qualidade da alma e que não há  um intelecto para todos os seres, como queriam os averroístas, numa linha aristotélica, e que se aproximava dos não-dualistas da Índia, da filosofia ou darshana Advaita Vedanta, mas antes airmando que a imortalidade é individualizada, cada ser é um espírito ou raio divino...
                                
    Frontispício, com a marca do impressor, da editio princeps da De triplici vita, 1489.
Tradução do começo do Proémio dedicado a Lourenço de Medicis: «Os poetas cantam que Baco, o sumo mestre dos sacerdotes, nasceu duas vezes, provavelmente querendo significar que de facto o futuro sacerdote, ao ser iniciado, deve renascer, ou que ele mais tarde parece renascido quando a sua mente se inebria completamente em Deus. Ou talvez eles queiram dizer, num sentido mais humilde, que o vinho, a semente de Baco, nasce na vinha, Seméle [sua mãe], quando os seus galhos amadurecem sob Febo [o Sol], e regenera-se depois da vindima pelo raio fermentante como  puro vinho no seu vaso, tal como na coxa de Júpiter [seu pai, onde passou a gravidez]. Mas dos Mistérios sagrados não devemos agora falar quando temos a intenção de fortificar, por meios físicos, os que estão debilitados.
Isto não deve ser feito de uma modo pesado e sério mas livre e alegre, uma vez que de um modo ou outro começamos pelo pai Liber [um dos nomes de Baco, significando Livre]. E verdadeiramente falei "de um modo ou outro", pois para alguns talvez a medicina seja realizada mais prudentemente sob Apolo, o primeiro dos médicos, mais do que através de Baco. Mas o que podemos fazer se ocorre na nossa boca agora um sinal auspicioso de proferir [o nome de] Baco? De facto Baco cura talvez mais saudavelmente com algum vinho de qualidade e alegria do que Febo (outro nome de Apolo, Sol) consegue com as suas ervas e litânias.
Mas qualquer que seja o verdadeiro sentido, ou aquele que aceites, diz-se que aquele líder dos sacerdotes, Baco, teve
de certo modo duas mães. A Melquitsedeque, aquele sumo sacerdote,  é atribuído com dificuldade uma mãe ou  um  pai. Eu, o menor dos sacerdotes, tive dois pais: o médico Ficino e Cosme de Medicis. Daquele nasci e deste renasci. Aquele recomendou-me a Galeno, como médico e como platónico. Este consagrou-me ao divino Platão (...)». 
Era algo ousado na época, pese a grande concordância que se tentou então entre a cultura greco-latina e a cristã, comparar Baco a Melquitsedeque, pois S. Paulo, apresentara Jesus como sacerdote segundo Melquitsedeque, e portanto tal seria  para um católico normal uma heresia, mas sabemos que houve muitos humanistas mais corajosos, tais como Manuel de Faria e Sousa (1549-1640), que defendeu a utilização do sagrado pagão, nomeadamente de Vénus e Baco,  por Luís de Camões nos Lusíadas, face às críticas da Censura inquisitorial.
                                      
É no tratado III, de facto o mais extenso e rico de esoterismo ou
ocultismo mágico, real ou imaginado, Da vida celestial coligida, que Marsilio Ficino expõe mais as suas teorias mágicas, e podemos observar, no capítulo XVIII, por exemplo, intitulado Que figuras celestiais os antigos imprimiam em imagens, e do uso das imagens  que, às habituais imagens atribuídas às constelações, acrescenta não só o círculo ou a cruz (já utilizada pelos egípcios), esta intensificada na sua eficácia mágica e energético-espiritual ao ser usada com o nome de Jesus, mas também certas figuras simbolicamente associáveis aos planetas, e descritas por "indianos, egípcios e caldaicos", tal como para Saturno, um homem idoso sentado vestido de escuro sobre um trono alto, ou sobre um dragão. Ou, para Júpiter, um homem coroado, com vestido amarelado sobre uma águia ou um dragão. Para se representar o Sol, o ser coroado no trono deveria ter junto a si o corvo e uma imagem da face do Sol; para Marte, já seria um ser armado e coroado. Tais imagens deveriam estar desenhadas ou gravadas dentro de uma forma redonda por esta ser a semelhante à do céu. Encontramos nestas propostas afinidades com as doutrinas orientais dos mandalas ou nas que subjazem a generalidade dos amuletos ou até mesmo relicários e que se baseiem no facto de haver  energias subtis e psíquicas que podem impregnar ou fixar-se em objectos.
Além das imagens, as horas e as posições astrológicas, nos graus e casas, contariam muito na eficácia dos influxos celestiais, segundo Marsilio Ficino, embora ele se mantenha
sempre cauteloso e acatador das decisões dogmáticas S. Tomás Aquino, e diga portanto que são os astrólogos que afirmam a sua eficácia, mas vai citando Plotomeu e também Al-Ṣābiʾ Thābit ibn Qurra al-Ḥarrānī ‎(826-901), astrólogo e matemático de Bagdade. Lembra depois, todavia e discretamente, S. Alberto Magno e Pedro Abianon aceitarem tais influências nos seres e nos objectos. Assim, quem acreditar ou gostar da astrologia e das suas correspondências e influências, encontrará na obra muitas indicações que poderá ensaiar.
Os últimos capítulos do tratado De Vita patenteiam uma constante admissão da existência de influxos energéticos
que podem ser captados pelos materiais e imagens consagrados mas também e sobretudo pelo espírito do operador, dependendo tal captação e eficácia da sua fé e aspiração, algo que se me configura como o factor mais decisivo, correspondendo no fundo a uma oração de invocação e plasmação na matéria, que sabemos cada vez mais ser energia pluridimensional e quântica, da informação psico-somática que se pretende ou pede.
É valioso o modo como Marsilio Ficino, a partir da aceitação da cosmologia de Plotomeu (conforme o diagrama), vê a hierarquia em espiral de ligação e correspondência entre o alto e o baixo: os metais e e pedras são o nível mais baixo e estão relacionados com a Lua. No 2º grau estão as coisas compostas de ervas, árvores de fruto, resinas e membros de animais, os quais estariam mais sujeitos a Mercúrio. No 3º nível estão os odores ou aromas das ervas e flores e os unguentos e mezinhas feitos deles, correspondendo aos influxos de Vénus. No 4º nível, as palavras, cantos e sons, os quais correspondem ao Sol, ao deus Apolo, o doador da lira. No 5º grau ou esfera encontram-se os afectos, imaginações e movimentos fortes, os quais estão ligados a Marte. No 6º grau encontram-se as deliberações e discursos ligados a Júpiter.  As actividades mais simples e secretas da inteligência, quase já sem movimento e unidas à Divindade, são as que pertencem ao 7º nível, a esfera e planeta de Saturno, a do repouso ou paz. Acima dele estava o que era chamado o Firmamento ou o Céu das Estrelas Fixas. O nosso Luís de Camões também poetizou nos Lusíadas com esta base tradicional, tanto mais que conhecia o astrónomo Pedro Nunes, a ascensão através das esferas planetárias até ao Céu Cristalino. Nos nossos dias são pouquissímos os seres que conseguem ter, com esforço, studium e merecimento alguma visão subtil e espiritual destes planetas e esferas, embora milhões acreditem em horóscopos e previsões infundadas ou aleatórias.
Valoriza ainda bastante as palavras pronunciadas com espírito e sentido, que tanto afectam quem as profere como, por efusão, ainda impressionam ou movem os que estão próximos e que, ao imitarem ou invocarem os seres ou energias supra-terrenos, com palavras e cantos, e que na linha pitagórica se recomendavam com o acompanhamento da lira, os quais podem tanto erguer-nos aos mundos celestiais como fazer descer as suas influências miríficas sobre o nosso espírito, alma e corpo.
Deste modo, quer pelo coração e a imaginação, quer pelos olhos e as palavras, a energia e a intenção musical podem tocar no subtil meio que une o corpo à alma e curar ou harmonizar a pessoa, tanto mais que, como os Pitagóricos e Platónicos defendem ou afirmam: «o céu é um espírito dispondo tudo com os seus movimentos e tons.»

Marsilio Ficino, à esquerda, Cristoforo Landino, Angelo Poliziano e o grego Demetrios Chalkokondyles, num fresco imortal de Ghirlandaio,  na capela florentina de Santa Maria Novella.
Estamos na famosa teoria ou visão da Música das Esferas, acrescentada com algumas hipóteses de correspondências planetárias com as vozes humanas, e como Marsilio Ficino tocava harpa e cantava, é natural que tenham alguma razão de ser: assim os planetas Saturno, Marte e a Lua não estariam tão ligados à música mas antes às vozes roucas, rápidas e temperadas, respectivamente... Conseguirmos pelas nossas vozes, ressonar com a subtil música das esferas, é um desafio para os nossos cantores e cantoras, e estou-me a lembrar de Angèlia Grace e  Beatriz Pereira, ou Teresa Salgueiro e Dulce Pontes que, dotadas de imensa sensibilidade, poderão atingir nestes campos resultados valiosos, como alguns dos seus ouvintes meditativos já terão sentido...
Na igreja de Santa Maria Maggiore, em Florença, o busto de Marsilio Ficino, tocando a lira, junto a uma das entradas.
Já o cap. XXII é dos melhores, defendendo até o vegetarianismo que teria existido na mítica idade de Ouro: «É por causa disto que essas pessoas Lunares que Sócrates descreve no Fedon, habitando a superfície da Terra que é eminentíssima e mais elevada que as nuvens, vivendo sobriamente, e contentes por serem vegetarianos ou frugíveros, dedicados ao estudo da mais secreta sapiência e religião, saboreiam a felicidade de Saturno; e levam uma vida tão próspera quão longa que são tidos não como mortais mas por daimons imortais, que muitos chamam heróis e a raça (ou género) de Ouro gozando o reino e a idade de Saturno».
Quanto à valiosconclusão do capítulo XXII é bem a e vale a pena traduzi-la e transcrevê-la: «Finalmente, onde dissemos que os dons dos céus descem a nós, entenda-se que os dotes celestiais vêm até ao nosso corpo pelo nosso espírito  adequadamente preparado; que, mesmo antes, os seus raios influem no espírito de um modo natural ou por qualquer modo que a eles esteja exposto; que os bens dessas almas celestiais brotam em parte no nosso espírito através de raios e daí derramam-se nos nossos ânimos, e em parte vêm de tais almas  e de anjos e chegam às almas dos seres humanos que lhes estão expostos, e expostos não tanto naturalmente mas por certo pacto e eleição, e por afecto ou por livre arbítrio.
Resumindo, quem quer que, por votos, estudo, vida e hábitos, imita as acções beneficientes e a ordem dos seres celestiais, recebe deles mais amplos dons pois eles são considerados quase semelhantes aos seres supernais. Pelo contrário, as pessoas artificiais e dissemelhantes ou discordantes dos seres celestiais são encobertamente miseráveis e por fim não podem evadir-se de uma infelicidade pública». 
                                        
Sintonizemos pois gratos com messer Marsilio Ficino e com os santos, mestres e espíritos celestiais, tais como os Anjos e Arcanjos, para que o mistério da Fonte Divina e da sua Luz, Palavra-Música e Amor se desvende, estabilize e brilhe mais em nós...