segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Espírito em Fernando Pessoa: centelhas da sua demanda espiritual, por Pedro Teixeira da Mota

            O ESPÍRITO EM FERNANDO PESSOA: centelhas e contributos...

Mais do que espírito uno, Fernando Pessoa sentiu-se, desenvolveu-se e foi alma múltipla, oceano de potencialidades quase infinitas e, nessa explosão criativa de emanar e ser muitos, em condições de vida frequentemente difíceis ou pouco harmoniosas, enfraqueceu naturalmente a realização plena e unificante do espírito, nomeadamente do seu nível divino, o que, aliás, apesar de ocasionais tentativas de maior unificação anímica, tais como as registadas nas famosas cartas de 1915 e 1916 a Mário de Sá Carneiro e a Armindo Cortes Rodrigues («hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister»), deixa transparecer frequentemente na poesia, tal como num poema de 1932: «O ser que sou, o ser que tenho sido;// O que fui, o que fui sem o ter sido,// E o que enfim eu em verdade sou.// Quantas traições e desentendimentos // Entre estes meus três seres descobri».  
 Isto revela, contudo, talvez  a sua principal qualidade na procura da verdade: a da lúcida auto-consciência em constante auto-observação ou mesmo análise, neste caso discernindo na sua vasta alma a sua mutável personalidade, os seus actos e sentimentos divergentes, sinceros ou forjados e, finalmente, o “eu sou” essencial, o mais verdadeiro ou perene, seja o que ele era e subsistira (face aos outros) ao longo da vida, seja aquele que ele pressentira e intuíra, o eu espiritual divino e perene…
Desta mesma falta de unificação das forças anímicas fala-nos ainda nesse produtivo dia de auto-consciencialização, o de 24/8/30, «Não sei quantas almas tenho/ (...)/ De tanto ser, só tenho alma», «Estou cansado de ser tudo menos eu./ Onde é que está/ a Unidade que Deus, suponho, me deu?», apontando e apelando assim para o seu Eu superior ou original, dado ou emanado de Deus, algo perdido neste mundo de sombras, sonhos e ilusão, tal como constantemente se sentiu e caracterizou a vida terrena…
Apesar dessa dispersão e dificuldade de coincidência com o seu verdadeiro eu, apesar desta fragmentação, há muitos sinais de consciencialização, intuição e aproximação de Fernando Pessoa ao espírito, spiritus, em latim; pneuma, em grego; ruah, em hebreu; atman, em sânscrito (da raiz an- respirar), shin, em japonês, ruh, em persa, e que tem tanto o sentido de sopro, poder ou força, como o de núcleo individualizador da alma, surgindo designado em Fernando Pessoa  como o Ser superior em nós, o Homem interior, a poção de vida-espírito, o ego íntimo, a Mónada, o Ser em si mesmo, e aplicado não só a seres humanos, espirituais ou divinos, mas também às nações («o Espírito da nação na sua alma recôndita», conforme citei na Agenda do Centenário de Fernando Pessoa, 1988).
Todavia, Fernando Pessoa, ao não atingir em si uma vivência mais profunda e duradoura do Espírito e ao não conseguir obter uma boa conceptualização da sua compreensão e realização do espírito, acabou por deixar-nos apenas fragmentos de ideias e de intuições da sua travessia gnóstica (ou de inteligente investigador) no Oceano da manifestação, e que mostram como foi evoluindo ao longo do tempo, evolução esta que escapa à superficial interpretação ou catalogação dos que não fazendo tal difícil viagem iniciática acabam por vê-la apenas como fingimento ou frustração, e que nos força a nós a tentar reconstituí-la ou divulgá-la com redobrada cautela…
Vejamos então alguns fragmentos ou textos importantes em que usou a palavra Espírito e tentemos interpretá-los: «um beijo é mais do que um toque de lábios (é um toque de dois corações, de duas almas, de duas brilhantes porções de vida-espírito», in Agenda Centenário de Fernando Pessoa), afirmação que nos aproxima bem da ideia de centelha individual do espírito, cuja ignicidade Fernando Pessoa, noutros textos, deixa transparecer ou afirma mesmo, nomeadamente ao  parafrasear a inscrição INRI (Iesus Nazarenus Rex Judaeorum) que encimava a cabeça de Jesus na cruz, comparando-a analogicamente a In nobis regnat Ignis, Em nós reina o Fogo, explicando ainda que «In nobis regnat Iesus, não quer dizer “Jesus reina em nós” mas «É em nós que Jesus reina», em nós, que não nos templos externos». De realçar ainda que estas frases utilizadas na Tradição Rosicruciana serão noutros textos glosadas e meditadas em mais sentidos purificadores e iluminadores, com base na correspondência entre o mestre Jesus e o espírito ígneo que está ou é em cada um de nós, mas que por Jesus foi manifestado exemplarmente, como aliás por outros mestres, e aos quais Fernando Pessoa por mais de uma vez se refere ou mesmo invoca...
Outro texto, neste  sentido do espírito ígneo divino, surge na nota de resumo da leitura que fizera da obra RosiCrucians and their works, do ocultista e erudito rosacruciano ou talvez melhor maçon seu contemporâneo Arthur E. Waite, quando Fernando Pessoa transcreve os cinco estados da aproximação ao divino, que traduz deste modo: “fechar as avenidas do sentidos, acalmar a alma, completar o templo, santificação e tingimento pelo fogo divino”.
Já numa carta ao entusiasmante orador Leonardo Coimbra, dir-lhe-á: «eu conhecia já de sua obra-base, as grandes qualidades e os (a meu ver) alguns defeitos do seu espírito, o mais alto, porventura, porque plenamente lúcido e intelectual, que a nossa Raça hoje reveladamente possui» (in Agenda do Centenário de Fernando Pessoa.), assinalando assim a mais vulgar significação de espírito, enquanto totalidade das características únicas de um ser, e realçando o nível de «o mais alto» português (grande e merecido elogio a Leonardo Coimbra...), bem como a plenitude de lucidez e do intelecto (que explicita ainda com «o abarcar tanto com a inteligência, o descer tão fundo no sentido possível das coisas»), assim valorizando na consciência  tanto a expansão de alargamento horizontal quase infinita como também a axial, das profundidades às altitudes do Espírito e dos Seres.
Sobre a consciência, que podemos ver como uma das características ou atributos essenciais do Espírito, Fernando Pessoa especulou bastante na sua fase de estudante de filosofia, por vezes com boa originalidade sobre tal grande mistério, tal como podemos ver em pensamentos como este: «A consciência é a única coisa imaterial que existe, não consciência humana, mas consciência geral, consciência atómica acredito eu», ou «O “facto consciência” é que é ingerável pela matéria. Os “modos” ou as “”formas” da consciência é que a matéria gera», ou ainda: «Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica – a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar em como sendo, nem como não sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões; mas ter consciência não é uma ilusão. A verdade é da consciência para lá. «Deus» é a consciência da consciência, coisa que não podemos pensar».
De realçar esta aproximação divinizante à consciência da consciência, que é também uma prática de auto-consciencialização despertante recomendada por algumas tradições espirituais indo-europeias, como as da Pérsia e da Índia, e que Fernando Pessoa de quando em quando reafirmará, como veremos. Quanto ao não poder ser pensada, certamente que ele quer dizer que a realização do espírito Divino, ou consciência da Consciência, não é algo mental mas sim a vivência interior supramental ou do Ser, sentida e realizada, ou merecida, por perseverante trabalho ao longo dos anos e por graça e modos subtis, não mentais ou de pensamento, de facto...
Afirmará ainda, embora com alguma sobreposição, ou quase identificação, da alma e do espírito, algo que ele frequentemente confundiu : «Não é com os olhos que vejo, mas com a alma, não é com os ouvidos que ouço, mas com a alma; não é com a pele que palpo, é com a alma. E se me perguntarem o que é a alma, respondo que sou eu», manifestando tanto a sua animação do corpo como, na parte final, a sua aspiração a que a sua alma seja verdadeiramente o Eu nele, ou Eu, uma alma portanto essencializada ou, ainda, em que o seu Eu central e essencial e Espírito seja a fonte directora da alma em manifestação…
Mais valioso, embora seja um escrito ou anotação da sua juventude, por indicar a aceitação da imortalidade do espírito, é o dito: «O amor do corpo morre com o corpo, o amor do Espírito pelo Espírito sobrevive para sempre com o Espírito (tr.)» (in  Fernando Pessoa Textos Filosóficos, por António de Pina Coelho), onde entre várias outras especulações sobre o espírito vem já tanto o reconhecimento do rio incessante da vida como o apelo ora estóico ora metafísico de se viver plenamente o presente, e que é mesmo erguido ao “É a Hora”, do final da Mensagem: «A única realidade é o eterno presente filosoficamente, o imortal Agora».
Também acerca da importância do estado ou sentido espiritual, de visão e de existência, leremos: «Perguntareis, quais os sentidos deste sentido espiritual? Refinamento de cultura, sentimentos elevados, ideais sublimes, nada mais. Um cientista pode ser benevolente - há muitos que o são – mas nunca terá os ideais elevados dum homem que tem um sentido espiritual. O sentido do espiritual é uma parte da alma humana; faltar é ter uma organização mental incompleta».... Eis-nos de novo com uma tese muito actual, face à crescente mecanização pragmática dos Estados e seres, e da sua educação e cultura, desligada da espiritualidade, numa submissão ou quase escravatura mundial ao sucesso, ao dinheiro e aos ditames dos gigantes corporativos, que vêm o homem de um modo muito desumano, tal como o imperialismo norte-americano e dos seus coligados têm espalhado e que Fernando Pessoa já na sua época diagnosticou como uma civilização sofrendo de elefantíase...
Quanto ao núcleo essencial do espírito, já referido até como a consciência da consciência, ele irrompe na sua vida mais claramente como Vontade em momentos de crise, isto é, como um elemento intensificador de unificação anímica, de conversão e de mais elevado propósito de vida, tais aqueles descritos em que decide disciplinar «o excesso de forças vivas em acção, conflito e evolução interconexa e divergente» (Cartas a Armindo Cortes-Rodrigues), tarefa bem difícil nele (e lembremos a carta nessa época escrita ao psicólogo ocultista Durville) e com as dificuldades acrescidas, como ele confessa, talvez dramaticamente talvez sinceramente, de que «em ninguém que me cerca eu encontro uma atitude para com a vida que bata certo com a minha sensibilidade, com as minhas aspirações e ambições, com tudo quanto constitui o fundamental e o essencial do meu íntimo ser espiritual», de novo com uma bela frase final acerca do espírito…
Apesar disso, no seu quotidiano, tantas vezes cinzento, alguns instantes houve de revelação, em que o núcleo mais íntimo do espírito ou mónada brilhou, dissipando nuvens e depressões, tal como Bernardo Soares regista na sua «produção doentia» do Livro do Desassossego: «não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma», frases estas finais que apontam com originalidade para a ligação entre a mónada e a palavra, expressa contudo de um modo leve, alusivo mas que remete para ela orada, dialogada ou escrita, e seja por ser verdadeira na sua correspondência com a essência, seja por ser eficaz na revelação íntima de quem somos e na obtenção das religações superiores. Poderá haver aqui como uma alusão a práticas espirituais que revelem o som subtil da mónada, ou à religação à Fonte ou Palavra primordial em nós, que a escrita ou a meditação proporcionam...
Livro do Desassossego que, como nos confirma a sua principal decifradora e especialista Teresa Sobral Cunha, apresenta nos últimos anos de vida uma coloração mais espiritual, tal a expressa  em 23/6/1932: «A vida é uma viagem espiritual feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja é nele que se vive. Há por isso almas contemplativas...», assim nos explicando um dos sentidos do seu famoso, e tão ensaisticamente glosado ou fulminado dito «não evoluo, viajo», apontando ainda para que a nossa identidade real é a de espírito, que se manifesta por vezes mais na contemplação e que nas realizações ai obtidas se pode dizer que evoluímos...
O uso da designação de mónada para denominar o espírito em cada ser humano, do grego monas, unidade, e que fora utilizada entre outros humanistas e ocultistas do Renascimento por Giordano Bruno e John Dee (alquimista e espírita, do séc. XVI, autor da Mónada Hieroglífica, citada por Fernando Pessoa) e pelo filósofo Leibnitz, neste num sentido de substância-força, surgiu de novo na tradição ocultista da segunda metade do séc. XIX, em especial em obras de membros da Sociedade Teosófica, algumas das quais Pessoa traduzira (anote-se o seu erro, em 1921, na tradução da Voz do Silêncio, de Helena P. Blavatsky, ao verter «the mind is the great slayer of the real...», por «o espírito é o grande assassino do real…” traduzindo mal a palavra mente (mind) por espírito), e que em parte eram tributárias de fragmentos da vasta tradição hindu e budista, na época por vezes subsumida na designação de Budismo esotérico, pois Helena Petrovna Blavatsky, a fonte principal  dos ensinamentos teosóficos, tinha juntado múltiplos fragmentos de vários autores e livros e logo de várias tradições e tal nome era uma designação geral de aparente boa autoridade, nomeadamente no relacionamento com o Ceilão e o Ocidente, e assim entre os que a secundaram,  Coronel Olcoot deu-se bem com os cingaleses e Alfred Percy Sinnett, que deu origem às famosas cartas dos Mahatamas, escreveu o manual do Budismo esóterico que apesar da sua superficialidade teve bastante sucesso, tendo sido traduzido entre nós na mesma colecção em que Fernando Pessoa trabalhou.
Encontramos então em Fernando Pessoa referências aos vários corpos e planos ou níveis do universo, tal como eram apresentados no ocultismo e esoterismo oriental, um dos quais é o monádico ou espiritual, embora, num texto em que especula sobre as cinco pétalas da Rosa Cruz, diga que elas correspondem aos cinco mundos: «etérico, astral, mental, espiritual e monádico» (in Rosea Cruz.), marcando a distinção do mundo da mónada (ou unidade) divina, do mundo do espírito. Já noutros textos, em que especula sobre os modos e estágios de realização iniciática, nomeia o clássico ternário dos mundos «o astral, o mental e o espiritual», ou, já de novo de modo diferente, as «três camadas – material, a espiritual e a divina», do universo.
Numa referência muito importante quanto ao espírito como mónada, escreve: «No ocultismo dos Índios o Mestre, a quem os discípulos procuram, é a própria substância monádica do discípulo. “Eu próprio sou o caminho”, diz-se no poema sagrado. Só há a procurar o que já se encontrou», citação final esta do Bhagavad Gita, ou Cântico do  Bem Amado, que conheceu em obras teosóficas ou em autores como G. R. S. Mead, que também foi teósofo e que em alguns livros tratou proficuamente da tradição oriental. 
Merece cogitação esta identificação que Fernando Pessoa assume entre o mestre e a essência última do discípulo, e sabemos como de facto as mahavakyas, ou grandes afirmações iniciáticas indianas, estão nesta linha, nomeadamente o famoso Tat Twam Asi, quando o mestre diz ao discípulo, quando este está pronto: “Tu és esta Realidade espiritual ou suprema”…
Neste sentido vai ainda a expressão usada "a substância monádica do discípulo" em vez da mónada do discípulo, podendo então interpretar-se esta afirmação numa linha não-dual ou de Advaita Vedanta, para a qual a substância monádica ou espiritual e a divina é só uma e una...
Este conhecimento da tradição oriental mais espiritual surge em Fernando Pessoa (que a conheceu também já nos anos trinta através de Aleister Crowley) de vez em quando, tal como na seguinte consideração, nuns apontamentos ligados com a comparação entre o Paganismo e a Teosofia, tão rica de ensinamento: «à passagem da actividade inferior, para a superior, do espírito, dão os hindus o nome velador de O Caminho, ou A Senda. Não tem outro sentido este termo, tão vulgarmente empregado na literatura budística ou teosófica. Assim se explica a expressão atribuída a Krishna –“torna-te tu próprio o caminho” –, isto é, concentra a tua actividade na carreira ascensional dentro de ti próprio, torna-te todo a “direcção pura” de subires dentro de ti.». E eis-nos com Fernando Pessoa num magistério valioso, num comentário ou glosa a certos conteúdos da Voz do Silêncio, que traduzira, e sendo até original na caracterização e glosa que faz do Caminho: carreira ascensional -direcção pura - subires dentro de ti…
Será de facto no aprofundamento do caminho de auto-realização, ou seja, na via iniciática, que Fernando Pessoa tentará mais (intermitente e condicionadamente...) a aproximação ao espírito, esforçando-se por o compreender,  contemplar ou comungar, ainda que, como já dissemos, irregular e enfraquecidamente, já que prometaica e sacrificialmente se desdobrará demiurgica e alquimicamente nos heterónimos e em tantos interesses, alguns dentro dos labirintos do ocultismo e outros bem fora dele. 
Assim procurará, especulará e meditará repetidamente a essência e a progressão no Caminho da realização ou ascensão espiritual nos seus apontamentos e ensaios intitulados de diferentes modos: Iniciação, Ocultismo, Átrio, Franco-Maçonaria e Ordem Templária de Portugal, perdendo-se por vezes  em tabelas e correspondências de graus das diversas escolas, algo talvez afim das suas astrologias e gosto de ler policiais
Reconhece que a Iniciação assenta na existência da triplicidade corpo, alma e espírito, implicando o caminho espiritual o do controle e harmonia do corpo e da alma, e a aproximação ao espírito, divino, latente ou ocultado em nós, para o qual temos que despertar, conhecendo-nos e reintegrando-nos nele e a partir daí comungando com os outros espíritos e com a Divindade. Neste sentido, Fernando Pessoa, glosando mais de uma vez os sentidos alquímicos e iniciáticos da designação de Grande Obra, num texto muito valioso, dirá que ela consiste na reconstituição da ligação ao espírito: «É nosso dever (1) vingar a morte do Eu Superior matando os seus assassinos, ao extirpar-se a Ignorância, Erro e Ambição, não só dos nossos próprios eus, mas (já que o nosso Eu Superior é um, de certo modo, com toda a humanidade) da humanidade.»
Ou noutro escrito também muito valioso, em geral ignorado: «O Templo de Salomão é a alma humana. Sua expressão interna e suprema, o Mestre, é morto (no astral) pelos três assassinos: o Mundo (o desejo de outros), a Carne (o desejo de si) e o Diabo (o desejo de mais que si), e é este último que dá no Mestre, na fronte (isto é, na parte mais sublime do ser) o golpe mortal. A grande obra é o elaborar em nós, no sentido estrito e pessoal, o com que não reincarnarmos, a transmutação (aqui mesmo) do chumbo do nosso ser perecível no ouro do nosso ser que não perece».
Estes textos, já da sua maturidade, são dos mais significativos quanto à sua compreensão do caminho espiritual e mesmo quanto à debatida questão da metempsicose ou transmigração, que neste fragmento Fernando Pessoa aceita ou afirma. Noutro fragmento, em que se assume como espírito e inspirado por espíritos, diz acerca do mistério da Palavra ou Verbo no seus sentidos mais profundos, que «a Palavra Perdida é a Alma de Deus (comunicado por … [ Fernando Pessoa desenhou uma lemniscata]. Nós, espíritos, não meramente homens aqui – procuramos a Alma do Senhor do Mundo, em cujo corpo nascemos», afirmando como sinónimos Alma de Deus e Alma do Senhor do Mundo, e portanto inserindo-se no Gnosticismo Cristão. Se esta afirmação é é feita de modo crítico ao Demiurgo ou Criador, ou se não é tão dualista e não considera como o Senhor do Mundo o tal Deus menor e imperfeito, que os gnósticos consideravam ser o limitado Jehova bíblico, é que não podemos ficar certos, embora me incline mais que para Fernando Pessoa Jehova era negativo, limitado, fosse mesmo Demiurgo ou uma mera concepção tribal e primitiva hebraica.
Quais as características e faculdades que Fernando Pessoa terá identificado mais no Espírito, sobretudo com o seu evoluir no tempo, é complexo sabermos para além da referida consciência, ou mesmo a consciência da consciência. Será a visão interior? Vemos nós o espírito ou é ele que nos vê, ou ainda quem vê através de nós e do nosso cérebro? E o espírito é consciência pura, ilimitada e imperturbável, ou é agente activo, por exemplo, manifestando-se em certas capacidades extraordinárias, e transformando-se ou evoluindo mesmo? Ou é basicamente o Ser?
Vêmo-lo num texto afirmar que, além da dualidade freudiana do consciente e do subconsciente ou inconsciente, estão as faculdades supra-humanas, espirituais, ainda que em geral embrionárias. Noutro, citado em cima, refere a passagem da actividade inferior à superior do espírito, como a essência do Caminho ou Senda, e caracterizando-a como a capacidade de interiorização unificadora e meditativa, sem dúvida uma importante compreensão de pelo menos a acção do espírito em nós e que vai na linha mencionada da consciência da consciência e também da vontade, a unificadora,
Já quanto à visão, num pequeno ensaio sobre «a visão à distância, a visão do passado, a do futuro», Fernando Pessoa entende que «sendo extensões da “visão” – extensões na distância por assim dizer – não são, em todo o caso, extensões em ordem (que não em grau) de faculdades do espírito. Não são senão intensificações de faculdades inferiores – nada que valha um raciocínio abstracto ou uma ideia imaginativa. Um verso de Mallarmé vale mais que todas as visões até todas as distâncias», ideia esta também expressa na época por Leonardo Coimbra.  Este pensamento, formulado quando reagia à Teosofia e às suas visões, invenções e mistagogias, estará de acordo com a sua linha principal de evolução e iniciação, a que ele laborou ou trilhou sobretudo pela inteligência e pela alquimia criativa e literária.
Fernando Pessoa valoriza assim na alma tanto a racionalidade abstracta como o desenvolvimento das capacidades imaginativas e intuitivas as quais, implicando uma certa consciencialização supra-física e até supra-mentais mental, não causam todavia necessariamente uma desvendação mais plena do espírito em si mesmo.
Nas condições de iniciação templárias, que ele trabalhou e revelou em vários textos, elege em 1º lugar o «deseja ardentemente a luz, conhecendo-te [ainda?] nas trevas». Esta aspiração, essencial em quase todas as tradições, desde a mumuksha indiana à mahabbat persa, está muito presente em Fernando Pessoa e o seu nacionalismo e messianismo são mesmo extensões delas. Ora desejar ardentemente a luz é desejar fortemente o espírito, pois ele é Luz. Se bem que existam as luzes intermédias e enganadoras, os seus poemas intitulados Isaac Luria, por exemplo, mostram-nos uma concepção ou imaginação, se não mesmo alguma experiência do espírito, que é sobretudo vida, verdade e luz: «pois essa Pedra Cúbica partida// e a minha alma em luz pura resolvida// Eram a mesma coisa, era a Verdade» (in Poesia Profética, Mágica e Espiritual. Lisboa, 1989).  É o contacto ou visão desta Luz que corresponde ao que se designa como o segundo nascimento ou a iniciação, em algumas linguagens espirituais.
Poderemos considerar que a predominância da actividade mental discursiva, ou do factor intelectual, na aproximação ao espírito e a Deus em Fernando Pessoa, sem que o aspecto do amor puro, devocional ou ardente se desenvolvesse tanto no seu coração, aliada a sua insuficiente realização amorosa na vida afectiva e relacional, dificultou-lhe, de acordo com uma visão linha ascensional seja neoplatónica seja moderna da complementaridade do coração e da cabeça, o acesso à plenitude possível e ao amor universal. Daqui talvez o apelo amoroso intenso à mãe e à Virgem Maria (dois aspectos, no fundo, do aspecto feminino de Deus, ou ainda, se o quisermos assim designar, do Espírito santo) nos seus dois últimos anos de vida, reflectido no ciclo de poemas “Un soir au Lima” ou num poema religioso, que termina: «Ó mãe universal, sê minha só» (in Poesia Profética Mágica e Espiritual.).
Contudo, alguns textos e poemas, de facto poucos mas bons, revelam-nos dinâmica e luminosamente o Amor e a Compaixão: «A caridade é a bondade em Cristo: o fazer o bem, não por ter pena do homem como homem, mas do homem como irmão. A caridade é a bondade ungida, a compaixão feita amor. Somos iguais em Deus, irmãos em Cristo, e livres no Espírito Santo», esta última frase da tradição Rosa Cruz. Ou ainda, também um texto fulgurante nunca citado: «Ninguém se liberta senão criando em si a dedicação ao universal, ao múltiplo outrem. Querer libertar os outros é a condição essencial de nos podermos libertar a nós. É com o amor que a liberdade se compra».
Em verdade, em Fernando Pessoa, o espírito surge, mais do que como amor ou poder, sobretudo como luz, compreensão, inteligência analógica, sensibilidade psíquica geral, ou mesmo o ser em si. Não há o Amor pleno da comunhão íntima e unitiva seja com a Amada, o Mestre, o Anjo da Guarda,  Deus ou a Divindade, embora alguns fragmentos e poemas revelem a aspiração e o grito amoroso da sua alma por uma união maior, tal como alguns incluídos no livro que publiquei intitulado Rosea Cruz: - «When the disciple is ready the “Master” is ready too. Shakespeare’s “initiation” was after the closeness of the Master to the Disciple, the revelation of the Master to him. The expression “my God” = “my God” the Father” = my Master is right or to whom to pray? Interiormente alma e corpo são um, mas a alma é Mestre do corpo no sentido (inferior), como o Cristo é Mestre no sentido interior. Está o Mestre separado contudo inseparado? Quando a morte ocorre a unidade dual torna-se uma unidade dupla? É este o significado da frase: “morrer é ser iniciado?”».
Este texto, em inglês e português, dos mais elevados e difíceis de Fernando Pessoa questiona ou interroga a aspiração amorosa a Deus (a mahabbat iraniana) e ao mestre, como também a desvendação possível do espírito após a morte, esta então como iniciação a ele, o mestre, numa visão comum à mística e gnose indiana, grega e persa.
Como não relembrarmos também aqui um dos inspiradores de Fernando Pessoa, Antero de Quental (também ele atraído pela sabedoria perene e do Oriente), escrevendo à cabeça de um dos seus sonetos a frase da Antologia Grega, obra presente na biblioteca de Fernando Pessoa, «Morrer é ser iniciado» e que não deve ser limitada à morte do corpo, mas ao ir morrendo em vida, em relação à profanidade, à ignorância, e que é sincrónico com a ressurreição do espírito supra-pessoal?
Quanto ao Espírito Santo, que podemos ver como uma hipostatização, ou pessoalização trinitária, do Espírito divino universal e em cada um de nós, encontramos algumas referência ou aproximações de Fernando Pessoa, nomeadamente nas suas pesquisas ocultistas, dizendo: «É natural que aqueles que sustentam a letra contra o espírito, e cometam portanto o pecado essencial contra o Espírito Santo», o que, para além do claro apelo a sermos o espírito mais directamente e a vê-lo também fora de nós, não nos deixando prender tanto nas aparências e sombras deste ilusório mundo, nos remete para os graus ascendentes de interpretação ou hermenêutica e que são também níveis do nosso ser, tão trabalhados por ele em inúmeras ocasiões, tal como no fragmento a «ordem dos graus. Os 5 sentidos, literal, alegórico, moral, espiritual e divino».
A compreensão e visão dos diferentes níveis da realidade e do Ser é então fundamental, pois sintonizando-os, assumindo-os e trabalhando-os há uma subida ou aprofundamento da Sabedoria, que passa de potencial à progressiva e maior desvendação e unidade com o Espírito...
Espírito Santo entrevisto ou simbolizado (e na linha da tradição dos Rosacrucianos e dos Maçons, por exemplo, como «pedra cúbica, que é uma e abre-se como uma cruz», lembrando-nos que o trabalhar e polir a pedra bruta para passar a cúbica e angular, que cabe a todo o discípulo enquanto purificação e harmonização da sua matéria-energia psicosomática, por vezes mais animal ou impulsiva, acaba por poder desvelar o universo uno de luz, ou seja, a presença espiritual nele, tal como Fernando Pessoa poetiza no ciclo final da sua vida e que publiquei alguns pela 1ª vez em Poesia Profética, Mágica e Espiritual.
Como 3ª Pessoa da Trindade, o Espírito surge em muitos textos trabalhado e meditado, nomeadamente no importante texto, sensivelmente do meio da sua vida, em que diz que «Ele é primeiro o Inefável, a Alma de Deus, ou Criador de Deus, e chamamos-Lhe o Espírito Santo ou o Espírito Divino». Mas, de forma mais concentrada e prática, teremos a utilização do Espírito Santo por Fernando Pessoa, fluindo na corrente rosicruciana, nas frases, lemas ou mantras (designação na tradição indiana) para meditação, tal como: «De Deus nascemos, em Jesus morremos, pelo Espírito Santo ressurgimos», ou ainda «De Deus somos entrados, em Jesus passados, pelo Espírito Santo erguidos», e que ele próprio poderá ter dedilhado, ou seja rezado, meditado..
Como Cristão gnóstico, tentando intuir a Criação e meditando o simbolismo dos ensinamentos do Génesis, Fernando Pessoa escreverá, talvez até por via de alguma leitura, por exemplo,: «Adão um espírito (doutro modo não poderia ser como o Deus), ou a unidade, não dualidade, do espírito e carne. A criação de Eva foi a separação da carne do espírito. A tentação foi a submissão do espírito à carne, isto é, o revestimento do espírito pela carne», confirmando a sua visão espiritual do ser humano, e como este é na sua essência um espírito e que a queda é o nome dado à descida do espírito, ou mónada, ao mundo físico e ao corpo animal-corporal…
Outro modo de aproximação ou reconhecimento do Espírito enquanto o nosso Ser superior activo, encontra-se num fragmento das reflexões intituladas Ocultismo, em que compara o sono e a morte: «No sono abandonamos o nosso ser consciente, e entramos ou não em contacto com o nosso ser superconsciente (...) A nossa maior consciência, quando adultos, indica uma maior aproximação entre o nosso Ser superior e o inferior, uma maior proximidade da unidade. Só a morte porém unifica, e é ela a verdadeira adultidade», e eis-nos com outra sua valorização do dito grego também glosado por Antero de Quental, “morrer é ser iniciado”, e que Joaquim de Araújo, no seu belo livrinho poema Na Morte de Antero, 1891, acabou também por citar e glosar...
No mesmo texto, especula ainda sobre “a essência do nosso Ser superior” considerando que «a matéria em que vive o nosso Ser superior, como é diferente daquela em que vive o inferior, não tem com ela contacto senão em circunstâncias, e por meio de poderes muito especiais», e que remete para a necessidade da meditação e do desenvolvimento da intuição, que Fernando Pessoa tanto investigou por si como recebeu nos ensinamentos de ordens, sociedades e livros.
Desta assimilação mais profunda das influências ou ensinamentos recebidos do contacto com a simbólica iniciática, da grande árvore da Tradição Universal, confessa-nos: «o que eu compreendi, trouxe para o coração, e o que trouxe para o coração eu compreendi», certamente com as limitações da transparência e silêncio que não terá conseguido suficientemente para poder ser espelho do mais íntimo ou ver abrir-se a porta para a mais alta realidade…
A subtilização do visível e da natureza, o reconhecimento dos espíritos da natureza e dos Deuses, seja grandes seres, anjos e Arcanjos, seja as Pessoas, arquétipos ou ideias divinas, surge também com frequência, com a lúcida consciência e bela mente expressa até de que «os Deuses não morreram: O que morreu foi a nossa visão deles. Não se foram: deixámos de os ver. Ou fechámos os olhos, ou entre eles e nós uma névoa qualquer se entremeteu. Subsistem, vivem como viveram, com a mesma divindade e a mesma calma»…
Por detrás desta afirmação está a doutrina da visão do olho espiritual que permite «o conhecimento das coisas divinas, ou o lado etérico e o lado divino das coisas», e que para Fernando Pessoa fazia parte da iniciação (in Moral, Regras de Vida e Condições de Iniciação), de acordo com a doutrina universal da mesma.
Certamente que há que distinguir a visão espiritual, da visão etérica e astral, frequentemente atávica, e da qual Fernando Pessoa teve uma ou outra experiência em jovem, como a conhecida no café Brasileira do Chiado, ou quando nos diz: «rondam às vezes o meu espírito desprevenido/ vagas presenças, visíveis algumas, outras que eu ouço’/ (...) habitam o entorno/ do meu espírito localizado no meu corpo».
Também a palavra espírito, enquanto sopro vital e impulsão interna transmitido iniciaticamente por pessoa ou não, surge algumas vezes empregada de modo valioso, tal quando nos diz que «o verdadeiro segredo maçónico não está nestes níveis (rituais, palavras, signos). É um segredo de vida e não de ritual e seus acessórios. Os graus maçónicos comunicam aos que os recebem, sabendo como recebê-los, um certo espírito, um certo apressar da vida de compreensão e da intuição, que agem como uma espécie de chave mágica para os próprios símbolos e ritos mesmo que não maçónicos, e para a própria vida. É um espírito, contudo, um sopro posto na alma, e portanto pela sua própria natureza incomunicável, mesmo se quem o recebeu pudesse conceber o desejo de dispor livremente dele. Pode assim dizer-se que o Segredo maçónico está de guarda a si mesmo...». É possível que a relação que teve com Alesteir Crowley quando este veio a Portugal possa ter assumido esta dimensão...
Nas suas frequentes visitas, tanto estudiosas como até rectificadoras da tradição maçónica, estas por exemplo quando escreve e corrige os comentários do ocultista Oswald Wirth ao desenho maçónico do famoso Robert Ragon, Fernando Pessoa propõe como leitura da enigmática letra G, que está no meio do pentagrama flamejante, a palavra Geist, Espírito, dada a influência do Rosicrucianismo, fundado na Alemanha, em muitos dos ensinamentos maçónicos, e desoculta a afirmação de Oswald Wirth, na mesma obra, de que «se o neófito se inicia realmente assimilando o espírito dos ritos, dos símbolos e das fórmulas, comporta-se como abstractor  da Quintaessência, é autorizado a orgulhar-se de ter descoberto a estrela flamejante» (tdr.)
Um significativo texto de afirmação da sua alma espiritual, pois de novo prefere, talvez por lúcida e honesta identificação, para designar a sua essência alma em vez de espírito (embora na 2ª linha o empregue no sentido comum de modo de ser, é o que, nos últimos anos da sua vida, embora não datado, nos diz: «Fui sempre, e através de quantas flutuações houvesse, por hesitações da inteligência crítica, em meu espírito, nacionalista e liberal; quer dizer, crente no País, como alma e não como simples nação; e liberal – quer dizer, crente na existência de origem divina, da alma humana, e da inviolabilidade da sua consciência, em si mesma e em suas manifestações. Por isso me foram sempre origem de repugnância e asco todas as formas de internacionalismo que são três: a Igreja de Roma, a finança internacional e o comunismo».  Esta crítica não devemos separar das que fez também por essa altura a Salazar, quando este começou a manietar a liberdade de expressão e de associação, mas é o aspecto intermediário desta tríade, as oligarquias, que ganhou hoje as dimensões tentaculizantes que certamente o levariam a manter e com críticas bem fortes à sujeição a ele, algo que o recente virus Covid e as medidas tendenciosas tomadas por muitos dos governos ainda mais aumentam os poderes opressivos e enfraquecem os cidadãos, e sem fim à vista...
Daí na sua nota autobiográfica de 1935, o ano em que deixa a terra, o parágrafo final dela: «Ter sempre na memória o Mártir Jacques de Molay, Grão Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania», assassinos do melhor que há nos seres, a sua potencialidade de se tornarem espíritos vivos e harmoniosos, ou, noutra linguagem, mestres, e que continuam hoje activos no séc. XXI...
Oiçamo-lo ainda de novo no que pode ser visto como dois dos textos com mais valiosa doutrina do espírito, o primeiro afirmando claramente não só a incarnação como a diferença entre a alma e o espírito: «É o Espírito da nossa Alma, o nosso Eu Superior, que está realmente consciente em nós e de nós supremamente; o nosso Eu inferior ou Alma, que é tudo o que aqui conhecemos de nós, está apenas consciente dele – Alma e Corpo – e não consciente do Eu Superior. O Eu Superior retém as memórias e os resultados das incarnações anteriores [uma hipótese que Fernando Pessoa acreditou] pelo que só apenas vagamente e por algum contacto obscuro e ocasional com o Eu Superior, é que nos lembramos deles ou vagamente os sentimos. A fórmula Santo Anjo da Guarda corresponde ao Eu Superior, e exprime a verdade». "Santo Anjo da Guarda, nossa querida companhia, orientai a nossa alma de noite de dia", reza a tradição lusitana...
O outro,  talvez ainda a melhor afirmação final da sua doutrina do espírito, embora empregando mais a expressão favorita de alma, e que é um fragmento dos últimos meses da vida (embora não datado…) em que nos diz, numa evolução e iniciação interna ainda pouco compreendida e nada reconhecida pela generalidade dos pessoanos, sobretudo dos dominantes: «O conhecimento de Deus não depende do hebreu, nem de anagramas, nem de símbolos. Nem de língua alguma, falada ou figurada; faz-se pela ascensão univocal da alma, pelo encontro final da alma consigo mesma, do Deus em nós consigo mesmo» (in Rosea  Cruz). 
Seria esta a última realização e mensagem espiritual de Fernando Pessoa? Penso que sim
Gratos a ele, saibamos avançar no Conhecimento, Amor e Unidade do Espírito e como Espíritos  do Divino Ser…
                                           O Espírito como sopro, ave, palavra, luz, céu...
                                                         Panteão Nacional, Lisboa

sábado, 2 de novembro de 2013

A Gnose em Fernando Pessoa.... Fernando Pessoa, cristão gnóstico...

                     Da GNOSE em FERNANDO PESSOA... 
Uma tradição imemorial, provinda de reminiscência, intuição, clarividência ou revelação do Alto (de mestres, anjos), diz-nos que o ser humano na sua essência é um espírito, uma centelha de origem divina emanada do Ser e mundo Divino, tombada ou aprisionada num corpo animal, no mundo terreno, e que a sua missão principal é recuperar, ou redimir desse estado de amnésia e ignorância, a identificação espiritual e a ligação divina. E, após a morte física, retornar, no corpo glorioso ou transfigurado, a tal plenitude, ao pleroma, o que se consegue, desabrocha ou se desvenda pela vida justa e o auto-conhecimento interno, que é o reconhecimento e vivência do Ser real e espiritual…
                                        
Ora desta descida ou queda do mundo espiritual para o material e terreno Fernando  Pessoa tinha consciência e aludiu a ela frequentemente: («Aconteceu-me do alto do infinito// esta vida (...) Passos da Cruz, na revista Centauro, 1916, ou «Quando despertos deste sono, a vida/ Soubermos o que somos, e o que foi/ Essa queda até ao Corpo, esta descida/ Até à Noite que nos a alma obstrui», ou ainda, num belo texto de reminiscência espiritual, «súbitas confissões de outro que eu fui outrora/ Antes da vida, e viu Deus, e eu não o sou agora», afirmação que contudo poderemos questionar se foi mesmo experiência ou mais imaginação poética...
A palavra grega gnosis – conhecimento, assinala tanto o meio ou caminho como o objectivo ou estado auto-consciencial espiritual e, ao longo dos séculos, sempre houve a Gnose, assumida ora como o conhecimento iluminado da Verdade e da Unidade Divina e Espiritual, ora como uma via ou ciência iniciática, inspirada, libertadora, salvífica, capaz de despertar e iluminar, através da preparação e purificação gradual ou, em certos casos, numa revelação súbita.
Os Mistérios da Antiguidade, o discipulado de mestre a discípulo, as práticas ascéticas, devocionais, meditativas e contemplativas e a auto-consciencialização perseverante são os meios principais para este reconhecimento ígneo e etéreo acontecer em nós, e conservar-se, e o Gnóstico é  quem trabalha e mantém a tomada de conhecimento de si mesmo unido ao Espírito ou ainda à Divindade, ao Pai, ao Um, à Unidade, ao Princípio donde emanou….
Por Gnosticismo entende-se em especial os movimentos religiosos e salvíficos que, do I séc. d. C. em diante, e, mais especificamente no Médio Oriente e na Ásia Menor, se desenvolveram por vivência interior e ensinamentos, apoiados na sabedoria devedora do Helenismo e do Neoplatonismo,  bem como nas influências de ambientes, cultos e mistérios Orientais, a que se acrescenta por fim os ensinamentos directos ou indirectos de Jesus. 
Com efeito, se muitos destes movimentos se desenvolveram  a partir da Gnose mais pura, a do conhecimento directo espiritual, inefável, não mental ou discursivo, não de mera crença mas de visão e realização interior, também em alguns casos  filiavam-se ou apoiavam-se no ensinamento directo de Jesus ou no de mestres e seitas sírias e judaicas, enquanto outros ligavam-se mais à mística grega (com origens órficas e pitagóricas) e ao Neoplatonismo bem como ainda às influências dos ambientes ecuménicos de cultos, mistérios e iniciações do Egipto, especialmente em Alexandria.

 Alexandria e Médio Oriente que acolhiam também influências da Índia, de onde se conheciam então os gimnosofistas, desde o tempo Alexandre Magno,  e da qual o milenar Jnana Yoga, da Vedanta, é vivido ainda no séc. XX por um mestre Ramana Maharishi (na fotografia), num exemplo da gnose da não-dualidade,  e ensinamentos do Irão zoroástrico dualista e dos mistérios de Mitra, filosofia e sabedoria persa muito bem estudada no séc. XX por Henry Corbin, sobretudo no sufismo iraniano, Avicena, Sohrawardi e o Islão Shiita. Havia portanto uma Gnose forte na tradição Indo-europeia  embora encontremos  noutros povos e suas espiritualidades  algumas dessas características.  
Com efeito, sem doutrinas muito fixas ou rígidas, certos traços são contudo em geral característicos dos gnostikoi, tais como 1º, os dualismos, o Deus mau do Antigo Testamento e o Bom de Jesus (ou o Deus Desconhecido), o espírito e o corpo, o mundo espiritual e o material (repudiado ou contestado em geral), os filhos da luz e os das trevas, o redentor-salvador e o mundo ou a humanidade em perdição. 2º, complexos e imaginalmente criativos mitos ou cosmogéneses de emanações sucessivas dos Éons, Espíritos, Deuses ou Anjos. 3º, a desvalorização das hierarquias externas, dos rituais e sacramentos, ainda que os houvesse, por exemplo, nos Cristãos Gnósticos denominados valentinianos. 4º, desvalorização da moralidade externa (donde haver tanto a sublimação sexual como a licenciosidade) e das noções de bem e de mal, tão questionadas por Fernando    Pessoa, com a tão reiterada regra, clamada por S. Paulo, Rabelais e Aleister Crowley, "faz o que queres é a lei". 5º, ampla liberdade criativa e interpretativa das doutrinas, textos e experiências, tanto mais que o que se procurava era o transcender a ignorância, a ilusão, o emprisionamento. Na tradição indiana, Kaivalya e Moksha, eram o nome para essa libertação.
Estas são as principais características dos Gnósticos, vivendo baseados mais no auto-conhecimento espiritual, na revelação do Espírito ou do Mestre, e no desprendimento do mundo e da ilusão egóica, tudo desaguando num estado psico-espiritual ou realização libertadora, beatífica, frequentemente designado como o Repouso. "Um entre mil", dizia-se, do conhecedor do espírito luminoso, do Gnóstico unido ou mesmo identificado ao Espírito supra-pessoal, Um... 
Embora houvesse diversas tendências e características  nos Gnósticos, e S. Epifânio no começo do séc. V nomeia cerca de 30 seitas, vemos que Fernando  Pessoa coincidia com eles em vários pontos, nomeadamente no dualismo do espírito e matéria, na desvalorização deste mundo, onde o mal está tão presente («o Príncipe  deste mundo, como todos sabemos, é Satan, porque este mundo é o inferno de que falam», escreve), numa certa ascese e no menosprezo do seu Demiurgo ou Criador, identificado constantemente com o Deus inferior do Antigo Testamento, ignorante e limitado.  
Também a distinção entre o mestre Jesus  e o Logos ou Cristo Cósmico que nele se manifestara mais plenamente, é comum a Fernando Pessoa e aos Gnósticos, tal  como a da consciencialização iluminativa no autoconhecimento da centelha ou pérola perdida (referida por exemplo num fragmento que publiquei in Rosea Cruz, como "o encontro da alma consigo mesmo"), a qual a desprende ou liberta das ilusões e sonhos do oceano da existência terrena, o samsara hindu, ou a roda da vida medieval e do Tarot, após a sua queda através dos vários planos ou mundos subtis até este.
Em Fernando Pessoa vamos encontrar ao longo dos anos dezenas de textos nestes sentidos (por exemplo:«O Criador do Mundo não é o Criador da Realidade: em outras palavras, não é o Deus inefável, mas um Deus-homem ou Homem-Deus, análogo a nós mesmo mas a nós superior», que justificam plenamente a sua tentativa de união complementar do paganismo e do cristianismo e por fim a sua afirmação de cristão gnóstico.
 A Igreja Cristã nascente, ao colar ou unir a Lei e o Jeová do Antigo Testamento (concepção esta de Deus frequentemente criticada ou até ridicularizada por Fernando Pessoa..) à graça do Amor e Conhecimento libertadores da Boa Nova ou Evangelho de Jesus, ainda que tendo conservado uma certa Gnose, bem patente em Orígenes e Clemente de Alexandria, acabou por opor-se forte e dogmaticamente às pequenas mas numerosas igrejas ou grupos gnósticos, acabando por levar à destruição de quase todos os seus textos, que nos chegaram em parte apenas pelas refutações ou citações dos primeiros Padres da Igreja, ou então em obras dos maniqueus, os discípulos de Mani (216-276).
Ora desde a juventude (e para isso terá contribuído a leitura de textos de Clemente de Alexandria e de Fílon, bem como de autores já dos séculos XIX e XX Hargrave Jennings, J. M. Robertson, Ceasar Morgan, George Robert S. Mead e A. Siouville), encontramos em Fernando Pessoa uma preferência acentuada pela Gnose e, em vários fragmentos, escalona ascendentemente exotéricos, esotéricos e por fim os herméticos ou alquímicos ou gnósticos referindo ainda («os três modos de realização, mágico, místico e gnóstico», considerando estes últimos os verdadeiros detentores do Conhecimento. 
  Após os seus ensaios de desenvolvimento do Paganismo Transcendental, que culminou poeticamente em Alberto Caeiro e Ricardo Reis, Fernando Pessoa aprofundará a demanda iniciática e gnóstica e valorizará crescentemente a transmissão oculta no Cristianismo, concluindo, por exemplo, que «o Cristianismo, a exemplo da Grécia em que para além dos rituais visíveis e por assim dizer cívicos, havia o mundo subterrâneo dos Mistérios, formou-se com duas faces uma para a Luz, outra para a sombra, resultando da primeira as igrejas de Roma, Ortodoxa e Protestante. Da segunda face se formou uma única Igreja – a Igreja Gnóstica, possuidora dos íntimos mistérios; foi a ela a que mais tarde se haveria de chamar, na linguagem dos Rosicrucios, a Igreja Mística», dizendo dos Templários que «a esta Ordem Mística foram confiados os segredos e a tradição da Igreja Gnóstica», indicando assim que a antiga Gnose continuara entre nós como Igreja mística, com o Templários e, logo dada a sua extinção, com a Ordem de Cristo, fundada por bula papal em 1319 a pedido del-rei D. Diniz, e mais tarde ainda com o movimento da tradição Rosea Cruz.
 Fernando Pessoa estudou  então mais a Gnose dos (ou pelos) primeiros Padres da Igreja do que a dos Gnósticos principais, muitos deles de Alexandria, como Simão o Mago, Basilides, Valentino, Marcion (que afirma que «a Gnose é a redenção do homem interior e espiritual»), embora no bom livro Myth, Magic and Morals, a study of Christian origins, de Frederic Cornwallis Conybeare, que leu e anotou, haja um capítulo sobre Marcion, o primeiro a tentar preservar o ensinamento de Jesus fora dos quadros limitativos do Antigo Testamento e do Judaísmo.
Ora dentro das várias correntes que coexistiam na época áurea de Alexandria, de Antioquia e do Gnosticismo, Fernando    Pessoa desmarca-se de algumas delas e afirma as suas afinidades: «mais do que, propriamente, o dos neoplatónicos é meu o paganismo sincrético de Julião, o Apóstata».  
Todavia este imperador (361-62) romano Flávio Claudio Juliano (ou Julião), que abandonara o Cristianismo e estudara os ensinamentos Caldeus e de Máximo de Esmirna, era discípulo dos discípulos de Jâmblico (o iluminado sírio, autor de livros valiosos como os Mistérios do Egipto e a Vida de Pitágoras), o qual por sua vez era discípulo de Porfírio, autor do Tratado da Abstinência e secretário, biógrafo e editor (das Eneadas) de Plotino, o mais iluminado dos Neoplatónicos, por vezes crítico até dos Gnósticos. Ora o mestre de Plotino foi Amónio Saca, considerado por alguns como o primeiro Neoplatónico.
Esta seria a genealogia antiga iniciática da qual Fernando  Pessoa se reclamou, na sua fase neo-pagã, não se afirmando porém ainda cristão gnóstico. Aliás já noutro escrito dissera, «Juliano era, propriamente, um mitraísta, o que hoje se chamaria um teosofista ou um ocultista» (21-65), afirmação contextualizável  no sentido universal da palavra Teosofia, sabedoria divina, já que na época Fernando Pessoa  se distanciara (embora tivesse traduzido por encomenda de João Antunes seis obras) da Teosofia, enquanto Sociedade e movimento. Todavia ocultista  sempre foi Pessoa, enquanto estudioso das ditas ciências ocultas e das suas ordens e ensinamentos esotéricos, numa busca aturada de gnose ou conhecimento, seja espírita, astrológico, ocultista, kabala, tarot, alquimia, profecia, ordens mágicas, cosmogénese e antropogénese, teologia e o caminho de retorno e realização espiritual.
Na sua biblioteca, ainda hoje  mal catalogada na casa museu Fernando Pessoa, entre os cerca de oitenta livros sobre as origens do Cristianismo, encontramos as obras de Juliano (a quem consagrou aliás várias poesias e textos, uns dentro do seu projecto das Legendas, chegando a admitir que algo dele estivesse em si, o que cálculos ou adições numerológicas indiciariam), bem como livros contendo extractos dos textos dos primeiros Padres da Igreja, que durante muito tempo foram a fonte principal sobre a Gnose e os Gnósticos, tais como os livros de Edward Burton, John Kaye, Alfred Loisy e C. Morgan, lidos por Fernando Pessoa.
Historicamente a adopção de um conceito simples de fé (pisthis) mais do que de conhecimento (gnosis) que caracterizou o cristão da Igreja Católica nascente, que contudo tivera  a sua gnose profunda, bem expressa em Jesus (sobretudo mais patente no Evangelho de S. Tomé), em Orígenes e Clemente de Alexandria,  este tendo escrito mesmo: «a imagem de Deus é o seu Logos (e este divino Logos é o filho autêntico de Nous, luz arquétipa da luz) e imagem do Logos é o verdadeiro homem, o espírito que é no homem, e do qual se diz, por causa disso, de ter sido feito à imagem de Deus e à sua semelhança, assimilado ao Logos divino pela inteligência do seu coração e, por isso, razoável», Protreptico, X-98), suscitou a oposição do mais exigente e elevado (mas também muitas vezes complicado ou rebuscado) posicionamento dos Gnósticos, que começaram a dar origem a igrejas (sobretudo com Marcion e Valentino) ou a escolas e grupos, alguns com doutrinas ou aspectos considerados já heréticos (tal a negação da incarnação de Jesus ou da sua morte, e dos quais Fernando Pessoa fala), o que acabou por levar à destruição desses grupos gnósticos, tal como Fernando Pessoa descreve: «No conflito entre a Gnose e o Cristismo paganizado a Gnose foi vencida. Os gnósticos eram os  depositários da autêntica tradição cristista. ... O catolicismo destruiu a verdadeiro Cristismo.    Este porém, não morreu, porque a Gnose não se extinguiu».
Anote-se que a expressão "Cristismo paganizado", muito usado o 1º vocábulo por Pessoa mais jovem, corresponde à ideia que muitos dos ritos e costumes religiosos cristãos foram adaptações do que proveio do paganismo...
Ora se muitos dos textos gnósticos só nos chegaram, e apenas em parte, nas refutações dos primeiros Padres da Igreja (Justino, Ireneu, Hipólito, Epifânio), em certos textos Apócrifos não recolhidos no Novo Testamento”escolhido por S. Jerónimo, ou então nas obras do iraniano Mani (séc. III), o fundador de uma religião gnóstica que chegou até China e se perpetuou até ao Catarismo medieval, sendo de notar um ou outro poema de Fernando Pessoa dedicados à Mani ou ao Maniqueísmo, será só já nos meados do séc. XX que se descobrem finalmente cinquenta e nove textos gnósticos completos, de várias tendências ou magistérios cristãos coptas, em Nag Hammadi, no Alto Egipto, mas que Fernando Pessoa já não conheceu, dos quais se destaca o importante Evangelho de Tomé, um belo exemplar da Gnose, na tradição iniciática de Jesus, com enfâse no auto-conhecimento espiritual e na libertação em relação ao ego e às ilusões deste mundo…
 Ora a leitura das obras dos primeiros Padres cristãos, de Fílon e dos herméticos egípcios, de Alexandria, como sobretudo, já do séc. XIX, o livro The rosicrucian, their rites and mysteries, de Hargrave Jennings (1817-1890), onde o capítulo V se intitula Hermetic Philosophers, e talvez as obras do erudito teósofo  George R. S. Mead (1863-1933, na fotografia em cima), nomeadamente o Quests old and new (no qual leu a definição de Gnose, por Reitzenstein: «conhecimento imediato dos mistérios de Deus recebidos por contacto directo com a divindade – mistérios que devem permanecer ocultos ao homem natural»), terão contribuído para escrever os textos adolescentes, intitulados o Filósofo Hermético, ou o Desconhecido,  nos quais encontramos já uma valorização do Hermetismo (movimento gnóstico inicialmente não cristão e mais ligado à tradição egípcia) e da Gnose e onde escalona ascendentemente exotéricos, esotéricos (por vezes identificados aos gnósticos) e, por fim, os herméticos, alquímicos (ou também gnósticos), os verdadeiros detentores do conhecimento.  
 É em verdade aos meios gnósticos de Alexandria que se deve atribuir, nos séc. II, III e IV, a criação do Hermetismo (donde a equiparação frequente de herméticos, gnósticos e alquímicos realizada por Fernando Pessoa), com a redacção do Corpo Hermético, no qual a cosmogonia dos antigos Egípcios (sobretudo visível no tratado do Poimandros), e as influências e práticas de astrologia, magia, soteorologia e alquimia se fundiram com  o neo-platonismo e tiveram uma fortuna longa, quer pela sua divulgação no Renascimento pela tradução de Marsílio Ficino do grego para latim (1ª edição, em 1497, por Aldo Manuzio, e depois muito lida e traduzida nas línguas vulgares), quer através das  especulações acerca da Philosophia perennis, quer das práticas alquímicas, algo que Fernando  Pessoa acolherá utilizando ou estudando em alguns fragmentos a linguagem processual da alquimia como simbólica da purificação e transmutação anímica, ou mesmo como símbolos da concentração e revelação espiritual e da libertação universal.
Na sua fase mais forte de anti-cristianismo (ou anti-cristismo romano), tão influenciada por livres-pensadores e descrentes como Binet-Sanglé e J. M. Robertson, ou mesmo de filósofos como Nieztche e Tolstoi (fotografia em baixo), e com o desenvolvimento do Paganismo Transcendental, que desabrocha poeticamente em Alberto Caeiro e Ricardo Reis, surgem na prosa deste último até críticas ao misticismo e à espiritualidade seja neoplatónica seja gnóstica, afirmando em certo momento, por exemplo, «a decadência do helenismo representada pelo neoplatonismo alexandrino». 
 Contudo, reconhece Ricardo Reis, em 1917, num dos prefácios à obra de Alberto Caeiro, que o cristianismo ou cristismo inicial «no conflito com o misticismo neoplatónico, outra coisa, porém, aconteceu. Esse misticismo produziu, entrando em conflito ante-sincrético com o cristismo, a heresia célebre da Gnose. Esta heresia não desapareceu nunca. Opressa, esmagada exteriormente, essa seita ocultista tornou-se secreta, desapareceu da evidência histórica, mas não da vida. Não é impossível encontrar, aqui e ali, evidências da sua permanência secreta. E essa permanência oferece aspectos de conflito com o cristismo oficial e sobretudo com o católico. A par do cristismo oficial, com os seus vários misticismos e ascetismos e as suas magias várias, nós notamos, episodicamente vindo à superfície, uma corrente que data sem dúvida da Gnose (isto é da junção da cabala judaica com o neoplatonismo) e que ora nos aparece com o aspecto dos cavaleiros de Malta, ou dos Templários, ora, desaparecendo, nos torna a surgir nos Rosa-Cruz para, finalmente, surgir à plena superfície na Maçonaria. Os maçons são os descendentes remotos, mas segundo uma tradição nunca quebrada, dos esotéricos espíritos que compunham a Gnose...».
 De realçar as ideias ou entendimentos de Fernando Pessoa de que a Gnose resulta do sincretismo do Neoplatonismo com o Misticismo cristão e também com a Cabala (que na altura ainda não surgira…), e que no final do séc. XIX veio ao de cima «na moderna revivescência dos sistemas ocultistas, notável sobretudo pela importação, nos países de língua inglesa, do chamado Budismo esotérico, atroz amálgama de superstições de selvagens, de humanitarismo decadente e de gnosticismo atrapalhado, trouxe outra vez superfície o que pela Europa havia de restos da tradição oculta da Gnose».
Entenda-se que o “Budismo esotérico” designado e criticado é a Teosofia, ou a visão de parte da gnose oriental apresentada por ela sob tal designação e que fora mesmo o título de uma obra de um dos teósofos principais de então, A. P. Sinnet e que viria a ser traduzida também na mesma colecção da editora A. M. Teixeira em que Fernando Pessoa colaborara, Teosofia que criticou, como se sabe e acabámos de ler.
Fernando Pessoa no aprofundamento da demanda iniciática, valorizará constantemente a transmissão oculta no Cristianismo, concluindo, por exemplo, que «o Cristianismo, a exemplo da Grécia em que para além dos rituais visíveis e por assim dizer cívicos, havia o mundo subterrâneo dos Mistérios, formou-se com duas faces, uma para a Luz, outra para a sombra, resultando da primeira as igrejas de Roma, Ortodoxa e Protestante. Da segunda face se formou uma única Igreja – a Igreja gnóstica, possuidora dos íntimos mistérios; foi a ela a que mais tarde se haveria de chamar, na linguagem dos Rosicrucios, a Igreja Mística», dizendo dos Templários que «a esta Ordem Mística foram confiados os segredos e a tradição da Igreja Gnóstica».
À passagem, algo obscurecida nos séculos XVIII e XIX, da Gnose dos antigos e míticos rosacruzes para os maçónicos teceu Fernando Pessoa críticas, tal como em França fizera o mistagogo ocultista Eliphas Lévi,  devido à falta de conhecimento dos maçónicos em relação aos sentidos profundos e transformadores que os símbolos e rituais contêm potencialmente, afirmando mesmo a sua desilusão da Maçonaria da época: «fomos esmagados por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reaccionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre pensamento era impedir uma procissão de sair, de Maçons para quem a Maçonaria (longe de reconhecerem nela a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma carbonária ritual», ou ainda «a Ordem, em vez de ser, como supremamente lhe competia a depositária consciente das doutrinas sagradas da Gnose e da Kabbalah nas suas transmissões templária e rosicruciana, ficou uma simples Carbonária ritual, um anticlericalismo secreto, católico-romano em espírito até à medula, na sua chateza, na sua intolerância, na sua ignorância das mesmas consequências superiores da sua própria constituição e dos seus próprios Mistérios», algo que se conservou em parte até aos nossos dias pois sabemos bem como as egrégoras ou formas de pensamento colectivo não mudam tão fácil nem rapidamente…
Esta crítica forte mas construtiva à Maçonaria não o impedirá porém em 1935 de sair em defesa dela, escrevendo um longo artigo no Diário de Notícias, aquando da perseguição às Associações Secretas pelo  Estado Novo de Salazar, através da proposta de lei do deputado José Cabral de 19 de Janeiro, ora porque sabia do valor ocultista e gnóstico dela ora porque tal perseguição fora também aplaudida por católicos reaccionários, segundo Fernando Pessoa escreve em textos em resposta a artigos de jornais publicados pelo jornal católico A Voz, nomeadamente, referindo os «encómios com que o projecto foi afagado pela imprensa pseudo-cristã, que as "associações secretas", que ele verdadeiramente visa, são aquelas que envolvem o que se chama "iniciação"».
 No fim da sua vida, na nota autobiográfica de Janeiro de 1935, afirma-se Cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal, esclarecendo deste modo definitivamente a sua religiosidade e o seu laço de amor iniciático. Isto já fora antes frequentemente enunciado, como, por exemplo, na 3ª das condições para a iniciação na Ordem Templária de Portugal: «crença (indefinida) na divindade de Cristo e da Trindade Santa», ou por exemplo num texto em que conclui «só podemos ser um com Deus, em e através de Cristo».
Mas Cristão Gnóstico em que sentidos?
Seria pela sua ampla liberdade gnósica e hermenêutica dos textos tradicionais, sem se coagir por cânones e dogmas externos?
Seria pelos seus estudos e realizações da Tradição secreta do Cristianismo, da Gnose cristã, presente em Jesus, e em seguida na tradição Templária, Rosicruciana e ocultista em que se iniciara e avançara, ou ainda da gnose Cabalística e Maçónica, que também conhecia e aprofundara, e que afirma expressamente serem veios dessa tradição secreta?
Seria pelo seu reconhecimento não só do Cristo (em um ou outro texto identificando-o mesmo com Sophia, a Sabedoria feminina, a papisa do Tarot), o Logos, intermediário entre Deus e os homens, como cada vez mais até de Jesus, como o Mestre, o Salvador, o pináculo da hierarquia dos mestres?
Certamente por algumas destas razões e mais algumas…
Além das afinidades íntimas que desde o início da sua demanda tinha com os Gnósticos, nomeadamente a desvalorização deste mundo, do mal e das limitações que ele nos impõe, e do seu Demiurgo criador, em verdade, Fernando    Pessoa ao investigar fortemente a natureza de Jesus e do Cristo (bem como dos seus ensinamentos, tal como já vimos antes, referidos nas transmissões gnósticas, templárias e rosicrucianas), em muitas, por vezes desassosegadas, horas e páginas, conseguirá que a fase frequentemente virulenta de anti-cristismo de 1907 a 1915 se vá transformando numa percepção cada vez mais profunda e conhecedora, gnóstica, fazendo-o afirmar: «A natureza de Jesus Cristo é dupla – para os ocultistas como para os teológos cristãos... Os Gnósticos, que eram ocultistas, ou pelo menos místicos superiores, assim viram, mas separaram as duas naturezas, adorando só a divina, que lhe será necessariamente superior, e não a humana, que, quanto muito, só em grau, que não em género, o poderia ser».
Mas talvez tenhamos que reconhecer que no fim do seu percurso precocemente terminado ao morrer com 47 anos, Jesus, o Cristos, o ungido, «em quem a dupla natureza de Homem e de Deus incarna numa pessoa só» já não é apenas um grau, o mais elevado, da escala iniciática, sobre a qual Fernando Pessoa tantas vezes laborou, admitido também noutro texto e escala no qual o grau ou nível supremo é ocupado pelo Senhor (Jesus), mestre do Templo,  (e em que no 1º nível, designado como o dos construtores "makers and builders", curiosamente nos dá os exemplos do rei D. Dinis e de Bandarra, consagrando assim a poesia e a profecia, a que ele tanto se dedicou também), mas sim «o laço entre o Mundo e Deus».
Quanto à questão da Divindade, sempre essencial na Gnose, sabemos quão crítico foi Fernando Pessoa do Jeová bíblico, ou seja da concepção de Deus judaico-cristã, tribal, violenta e possessiva, estando antes em linhas próximas do Gnosticismo, nomeadamente de Marcion, e mesmo no fim da vida, ao contrário da sua relação com Jesus e Maria,  na qual se dera uma aproximação grande ao aceitá-los como grandes seres intermediários (algo que ainda não foi compreendido pela generalidade dos pessoanos), Fernando Pessoa continuará a desvalorizar o Demiurgo ou criador deste mundo, provavelmente apontando para uma visão ou um entendimento emanacionista cíclico e não criacionista: «E isto tudo durará o tempo que tiver que durar, porque nada há perene ou eterno, e o mesmo Deus que criou este mundo não é porventura mais que um de muitos «deuses», criador de um de muitos «universos», misteriosamente coexistentes, todos eles porventura descritíveis como infinitos e eternos. O mistério – di-lo o mais alto ocultismo – é maior não só que o Universo, mas que o mesmo Deus».
De realçar aqui as expressões “alto ocultismo”, referida em parte às Ordens Secretas e seus ensinamentos a que teve acesso (nomeadamente a Golden Dawn e a Astra Astrarium), e o “mistério”, que na Gnose mais tradicional é designado pelo Um, o Espírito perene e absoluto, o Princípio de Tudo, o Absoluto, donde emanam ciclicamente as manifestações cósmicas, onde se erguerão os deuses e as individualidade…
 Fernando   Pessoa contudo talvez se tenha autolimitado nesta captação do Absoluto, o que está também patente na sua tragédia subjectiva Fausto (mito arquétipo até com raízes na vida do gnóstico Simão, o Mago), pois vê ou visualiza acima de Deus, o Destino, a Inteligência: «acima da ânsia de fusão com os produtos de Deus, está, com efeito, a ânsia mística de fusão com Deus, que é a base do ocultismo (quase) todo. Mas acima desta mesma ânsia está a ânsia de fugir a Deus e ao mundo – a ânsia de fusão com o Destino. (...) A Inteligência não é deste mundo, é estranha à substância do mundo: deriva do Destino, superior aos Homens e a Deus», concepção esta que desenvolverá nos textos intitulados Caminho da Serpente, nos quais diminuía a sua relação viva com a Divindade, ou com o seu Logos salvador, mas que acabará por repudiar, tal como abdicadas foram a via da magia e da alquimia, conforme ele próprio confessa no fim da sua vida: «pensar o que fazer do caminho da serpente agora repudiado», fragmento este que não tem sido tomado em conta pelos poucos que se debruçaram, e em geral insuficientemente, sobre este caminho da Serpente, ascensional mas que se pode tornar demasiado luciferino, isto é, intelectual e sem a devoção e amor às manifestações libertadora possíveis da Divindade…
 
Certamente que os Gnósticos, também conhecidos, na divisão valentiniana (do gnóstico Valentino), por pneumáticos (de pneuma, espírito e sopro, em grego, com o qual se identificavam e a partir do qual se libertavam das prisões terrenas) serão uns poucos e isolados, em comparação com os hílicos, ou terrenos, e os psíquicos ou mentais (os envoltos na dualidade, no ego, no pensamento discursivo ou na vaidade do ensinar), isolamento este que estava bem para a aristocracia de espírito ainda que vagabunda, pobre e desassossegada do individualista e modernista Fernando    Pessoa.
Ele lembra-nos, porém, que a Gnose, a Iniciação, não é meramente uma torre de marfim intelectual mas um estado intensificado de vida e de intuição, em que «os graus de iniciação representam estados de conhecimento que são simultaneamente estados de vida», afirmação esta numa analogia de grau superior ou complementar à frase “o que em mim está pensando está sentindo”.
A vertente ou eixo mais directo ou essencial da desvendação e auto-conhecimento salvífico ou libertador, característico da Gnose universal, será também transmitido por Fernando Pessoa quer em poemas, como os do ciclo de Isaac Luria e de Jesus, quer em fragmentos, nomeadamente o importantíssimo dos últimos meses da sua caminhada na Terra: «o conhecimento de Deus não depende do hebreu, nem de anagramas, nem de símbolos. Nem de língua alguma, falada ou pensada (variante: figurada); faz-se pela ascensão univocal da alma, pelo encontro final da alma consigo mesmo, do Deus em nós consigo mesmo».
Certamente que estas palavras finais apelam a uma Gnose exigente nossa, iniciática, auto-consciente e profunda e perseverante para alcançar a dimensão espiritual a a ligação unitiva e divina. E, para nos lembrar e estimular a tal, serve a tradição Gnóstica, na qual Fernando Pessoa se inseriu e nós também...
Vale!
Alguma bibliografia sobre a Gnose:
Gasparo, Giulia Sfameni. Gnostica et hermetica. Saggi sullo Gnosticismo e sull’ Ermetismo. Roma, ed. dell’Ateneo, 1982.   Puech, Henri-Charles. En quête de la Gnose. I, II. Paris, Gallimard, 1978.  Grant, Robert M. La Gnose et les origines chrétiennes. Trad. Paris, Seuil, 1964.   E os textos que editei em Fernando Pessoa, Rosea Cruz. Lisboa, 1989. E a Poesia Profética, Mágica e espiritual. 1989.
Bibliografia, apenas com os nomes de autores:
Obras de Louis Ménard, G. R. S. Mead, Hans Leisegang, A. Siouville, Bô Yin Râ, A. J. Festugière, E. Bonaiuti, Hans Jonas, Mircea Eliade, I. Couliano, Valentin Tomberg, Duncan Greenlees, A.-J. Festugière, Simone Pétrement, Henri-Charles Puech, Jean Doresse, Yuri Stoyanov, Bedde Griffiths, Karlfried Graf Dürckeim, Henry Corbin, Giulia Sfameni Gasparo, Serge Hutin, Robert Ambelain, Émile Gillabert, Jacques Ménard, Robert M. Grant, Raimon Panikkar, André Wautier, Elaine Pagels, Benjamin Walker, Antonio Piñero, Pedro Teixeira da Mota..., etc.

Consciência, práticas espirituais, o Espírito, o Divino. Como meditarmos e nos fortalecermos.

 Quando tentamos aprofundar a consciência e o pensamento que nela ocorre apercebemos-nos mentalmente que no nosso pensar há vários tipos de consciência ou, se assim conseguirmos observar, que na nossa consciência há vários direccionamentos da atenção-pensamento, que poderemos dizer sobreponíveis ou complementares, e que com objectivos de auto-consciencialização espiritual discriminaremos assim:
Em 1º lugar podemos consciencializar-nos da nossa situação corporal, e temos a consciência postural, corporal e vertebral: se está mais ou menos alinhada, direita, tensa ou descontraída, com problemas ou dores aqui ou acolá, podendo mesmo acontecer descontrairmos ou harmonizarmos pela consciência e respiração tais zonas.
Em 2º lugar temos a consciência respiratória: ou seja, sobre a respiração lançamos ou deixamos cair a nossa consciência ou consciencialização (num ver e sentir interior) e observamos, concentramos-nos nela e desfrutamos dos seus efeitos benéficos mais acentuadamente, que vão desaguando na energetização global e na diminuição dos pensamentos dispersivos que em geral ocupam a mente...
Em 3º lugar passamos para a consciencialização energética e vibratória: sentimos o nosso corpo a vibrar, sentirmos-nos mesmo num corpo subtil vibratório.
Em 4º lugar, começamos a observar melhor os pensamentos, ou mesmo a sentir ou até ver as imagens vivas que estão em nós e à nossa volta, mais ou menos provenientes de pensamentos, emoções, desejos, em suma caminhos reais ou fantasiosos, nossos e dos outros. São de certo modo os planos astrais e psíquicos, evanescentes, mutáveis, e nos quais não nos devemos deter demasiado, se não para desanuviar e dissolver, de modo a prosseguirmos pondo mais a consciência, o olhar interior e a alma no mundo espiritual e divino...
Em 5º lugar começamos a ter mais presente a consciência da auto-consciência, ou seja, ao estarmos conscientes de nós próprios, num corpo físico, utilizando um cérebro e uma alma, com os seus órgãos de percepção que estão mais ou menos harmonizados, começamos a sentir a consciência pura em nós e a intuir o mundo espiritual, a consciência infinita ou divina que perpassa por nós, e começamos a desfrutar a sua paz clarividente..
E tal como sabemos que as redes neuronais se desenvolvem com o exercício mental a que as submetemos, assim também a luminosidade do nosso ser ou os órgãos de percepção e irradiação da nossa entidade espiritual, chamados chakras em sânscrito, ou rodas de energia, se desenvolvem ou harmonizam nestes momentos de maior auto-consciência e ligação divina...
Quais as melhores práticas de trabalharmos e desenvolvermos tanto o nosso ser espiritual como os seus órgãos de percepção e comunicação, tanto mais que os vamos utilizar ou depender deles com a saída do corpo físico na morte, é então uma questão  importante e em grande parte a Religião deve facultar e estimular tal despertar interno psico-espiritual...
Em 6º lugar, como resultado da abertura e alinhamento da alma e do aprofundamento da consciência temos a consciência da presença do espírito e dos seus sinais ou atributos em nós, nomeadamente a luz, o silêncio, a paz, o amor. São níveis e realidades em geral só vivenciáveis durante a inspiração, o amor, a concentração, a meditação, a oração e contemplação, embora depois se tornem mais presentes no que fazemos no dia a dia, se conseguimos manter tal alinhamento. A técnica islâmica de se rezar 5 vezes ao dia certamente ajuda bastante a tal auto-consciencialização espiritual e abertura ao Divino...

E assim com o tempo, quando fechamos os olhos e meditamos ou oramos, por vezes conseguimos logo sentir a sua Graça, isto é, a Sua presença no nosso peito, ou o Seu omnipresente espírito harmonizando-nos. Ou podemos sentir um dos órgãos espirituais a trabalhar, o coração, com a abertura, invocação, adoração, amor e por fim certa unificação e irradiação divina...
Podemos avançar então mais para o mistério do divino e em especial de Deus em nós. Donde vem a presença de Deus, ou de onde emanam os seus eflúvios? Do Cosmos infinito, do centro do Sol, do centro do Cosmos, do mais íntimo de nós? Não será a simultaneidade, a instantaneidade, a plenitude que melhor o caracterizam, mas só no nosso mais íntimo vivenciável?
Como podemos aumentar a receptividade a Deus, para além de levarmos um modo de viva harmonioso, justo, puro, elevado? Que aspiração e chama de amor acesa são necessárias em nós?
As nossas utilizações dos pensamentos e sentimentos e as nossas práticas espirituais poderão levar a quantificações possíveis, de tal forma que podemos dizer que às 11:00 tenho quatro unidades de presença, amor ou luz Divina e que às 12:00 isso aumentou? Sim...

Certamente que o estado da nossa aura e do nosso corpo espiritual melhora e clarifica-se ao receber forças e correntes luminosas dos mundos e seres espirituais, quando fazemos tais meditações e práticas. E por consequência vamos abrindo-nos mais a Ele, seja enquanto Espírito Absoluto Original, seja enquanto Logos ou Inteligência-Amor coesivo omnipresente, seja enquanto Espírito que está em nós, centelha, chispa, sol de amor, confiança, força, alegria...
É com este nível que devemos trabalhar e identificar-nos mais. E assim conseguirmos sentir ou mesmo afirmar convictamente: Eu sou um Espírito divino. Ou, Eu sou um Sol (ou uma centelha do Sol) divino, e irradiarmos tal realidade íntima como luz e amor para próximos e distantes, vivos e mortos...
E finalizemos este pequeno escrito saudando e invocando a Divindade enquanto Espírito Primordial, da qual uma imagem material evocadora será o espaço infinito, e que é em nós mais perceptível quando estamos numa frequência mental de consciência não-dual, quando saímos de uma meditação ou de um recolhimento, ou perante um horizonte imenso...
Aprofundar este sentir é certamente uma outra prática importante não só para inspirarmos e expirarmos beneficamente por entre os prédios citadinos, as tensões das sociedades, as opressões e os sofrimentos da Humanidade, mas também para cultuar e trazer mais à dimensão humana a (ou algo da) Unidade cósmica Divina não só salvífica mas também salutar...
Saibamos pois resistir à crise mantendo a nossa ligação vertical com o Divino, fortalecendo o nosso sistema imunitário e desenvolvendo um relacionamento horizontal de compaixão e justiça, amor e sabedoria com os seres que vamos encontrando no Caminho da Vida, presencialmente ou virtualmente...

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Lisboa, my best photos. As melhores fotografias de Lisboa, das que recebi dela...


I- Ó Tágides nossas, Ó Musas camoneanas, inspirai-nos e fortificai-nos... Yom...
Naiades or Tagides, spirits of the river Tagus, and of Camões, inspire us...





      II- A água tágica que ainda escorre livre é certamente de uma outra época...                  The water that still comes free is from old sources, muses and kings...



III- Saber caminhar em Lisboa consciente da sobreposição dos vários níveis da Realidade. Walking in Lisbon aware of the diferent levels of Reality...
       
IV- Esta Lisboa das sete colinas reflecte-se à noite sob lampiões imemoriais, talvez mesmo como as estrelas vistas de Marte, no chão molhado e quadrado que cruzamos...
The magic of the night in Lisbon, with her seven hils, make us navigate under immemorial beams of Light, projecting us to the reflections of the stars in distant planets...