Todavia, Fernando Pessoa, ao não atingir em si uma vivência mais profunda e duradoura do Espírito e ao não conseguir obter uma boa conceptualização da sua compreensão e realização do espírito, acabou por deixar-nos apenas fragmentos de ideias e de intuições da sua travessia gnóstica (ou de inteligente investigador) no Oceano da manifestação, e que mostram como foi evoluindo ao longo do tempo, evolução esta que escapa à superficial interpretação ou catalogação dos que não fazendo tal difícil viagem iniciática acabam por vê-la apenas como fingimento ou frustração, e que nos força a nós a tentar reconstituí-la ou divulgá-la com redobrada cautela…
Vejamos então alguns fragmentos ou textos importantes em que usou a palavra Espírito e tentemos interpretá-los: «um beijo é mais do que um toque de lábios (é um toque de dois corações, de duas almas, de duas brilhantes porções de vida-espírito», in Agenda Centenário de Fernando Pessoa), afirmação que nos aproxima bem da ideia de centelha individual do espírito, cuja ignicidade Fernando Pessoa, noutros textos, deixa transparecer ou afirma mesmo, nomeadamente ao parafrasear a inscrição INRI (Iesus Nazarenus Rex Judaeorum) que encimava a cabeça de Jesus na cruz, comparando-a analogicamente a In nobis regnat Ignis, Em nós reina o Fogo, explicando ainda que «In nobis regnat Iesus, não quer dizer “Jesus reina em nós” mas «É em nós que Jesus reina», em nós, que não nos templos externos». De realçar ainda que estas frases utilizadas na Tradição Rosicruciana serão noutros textos glosadas e meditadas em mais sentidos purificadores e iluminadores, com base na correspondência entre o mestre Jesus e o espírito ígneo que está ou é em cada um de nós, mas que por Jesus foi manifestado exemplarmente, como aliás por outros mestres, e aos quais Fernando Pessoa por mais de uma vez se refere ou mesmo invoca...
Outro texto, neste sentido do espírito ígneo divino, surge na nota de resumo da leitura que fizera da obra RosiCrucians and their works, do ocultista e erudito rosacruciano ou talvez melhor maçon seu contemporâneo Arthur E. Waite, quando Fernando Pessoa transcreve os cinco estados da aproximação ao divino, que traduz deste modo: “fechar as avenidas do sentidos, acalmar a alma, completar o templo, santificação e tingimento pelo fogo divino”.
Já numa carta ao entusiasmante orador Leonardo Coimbra, dir-lhe-á: «eu conhecia já de sua obra-base, as grandes qualidades e os (a meu ver) alguns defeitos do seu espírito, o mais alto, porventura, porque plenamente lúcido e intelectual, que a nossa Raça hoje reveladamente possui» (in Agenda do Centenário de Fernando Pessoa.), assinalando assim a mais vulgar significação de espírito, enquanto totalidade das características únicas de um ser, e realçando o nível de «o mais alto» português (grande e merecido elogio a Leonardo Coimbra...), bem como a plenitude de lucidez e do intelecto (que explicita ainda com «o abarcar tanto com a inteligência, o descer tão fundo no sentido possível das coisas»), assim valorizando na consciência tanto a expansão de alargamento horizontal quase infinita como também a axial, das profundidades às altitudes do Espírito e dos Seres.
Sobre a consciência, que podemos ver como uma das características ou atributos essenciais do Espírito, Fernando Pessoa especulou bastante na sua fase de estudante de filosofia, por vezes com boa originalidade sobre tal grande mistério, tal como podemos ver em pensamentos como este: «A consciência é a única coisa imaterial que existe, não consciência humana, mas consciência geral, consciência atómica acredito eu», ou «O “facto consciência” é que é ingerável pela matéria. Os “modos” ou as “”formas” da consciência é que a matéria gera», ou ainda: «Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica – a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar em como sendo, nem como não sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões; mas ter consciência não é uma ilusão. A verdade é da consciência para lá. «Deus» é a consciência da consciência, coisa que não podemos pensar».
De realçar esta aproximação divinizante à consciência da consciência, que é também uma prática de auto-consciencialização despertante recomendada por algumas tradições espirituais indo-europeias, como as da Pérsia e da Índia, e que Fernando Pessoa de quando em quando reafirmará, como veremos. Quanto ao não poder ser pensada, certamente que ele quer dizer que a realização do espírito Divino, ou consciência da Consciência, não é algo mental mas sim a vivência interior supramental ou do Ser, sentida e realizada, ou merecida, por perseverante trabalho ao longo dos anos e por graça e modos subtis, não mentais ou de pensamento, de facto...
Mais valioso, embora seja um escrito ou anotação da sua juventude, por indicar a aceitação da imortalidade do espírito, é o dito: «O amor do corpo morre com o corpo, o amor do Espírito pelo Espírito sobrevive para sempre com o Espírito (tr.)» (in Fernando Pessoa Textos Filosóficos, por António de Pina Coelho), onde entre várias outras especulações sobre o espírito vem já tanto o reconhecimento do rio incessante da vida como o apelo ora estóico ora metafísico de se viver plenamente o presente, e que é mesmo erguido ao “É a Hora”, do final da Mensagem: «A única realidade é o eterno presente filosoficamente, o imortal Agora».
Também acerca da importância do estado ou sentido espiritual, de visão e de existência, leremos: «Perguntareis, quais os sentidos deste sentido espiritual? Refinamento de cultura, sentimentos elevados, ideais sublimes, nada mais. Um cientista pode ser benevolente - há muitos que o são – mas nunca terá os ideais elevados dum homem que tem um sentido espiritual. O sentido do espiritual é uma parte da alma humana; faltar é ter uma organização mental incompleta».... Eis-nos de novo com uma tese muito actual, face à crescente mecanização pragmática dos Estados e seres, e da sua educação e cultura, desligada da espiritualidade, numa submissão ou quase escravatura mundial ao sucesso, ao dinheiro e aos ditames dos gigantes corporativos, que vêm o homem de um modo muito desumano, tal como o imperialismo norte-americano e dos seus coligados têm espalhado e que Fernando Pessoa já na sua época diagnosticou como uma civilização sofrendo de elefantíase...
Apesar disso, no seu quotidiano, tantas vezes cinzento, alguns instantes houve de revelação, em que o núcleo mais íntimo do espírito ou mónada brilhou, dissipando nuvens e depressões, tal como Bernardo Soares regista na sua «produção doentia» do Livro do Desassossego: «não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma», frases estas finais que apontam com originalidade para a ligação entre a mónada e a palavra, expressa contudo de um modo leve, alusivo mas que remete para ela orada, dialogada ou escrita, e seja por ser verdadeira na sua correspondência com a essência, seja por ser eficaz na revelação íntima de quem somos e na obtenção das religações superiores. Poderá haver aqui como uma alusão a práticas espirituais que revelem o som subtil da mónada, ou à religação à Fonte ou Palavra primordial em nós, que a escrita ou a meditação proporcionam...
Livro do Desassossego que, como nos confirma a sua principal decifradora e especialista Teresa Sobral Cunha, apresenta nos últimos anos de vida uma coloração mais espiritual, tal a expressa em 23/6/1932: «A vida é uma viagem espiritual feita involuntariamente. É uma viagem do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja é nele que se vive. Há por isso almas contemplativas...», assim nos explicando um dos sentidos do seu famoso, e tão ensaisticamente glosado ou fulminado dito «não evoluo, viajo», apontando ainda para que a nossa identidade real é a de espírito, que se manifesta por vezes mais na contemplação e que nas realizações ai obtidas se pode dizer que evoluímos...
O uso da designação de mónada para denominar o espírito em cada ser humano, do grego monas, unidade, e que fora utilizada entre outros humanistas e ocultistas do Renascimento por Giordano Bruno e John Dee (alquimista e espírita, do séc. XVI, autor da Mónada Hieroglífica, citada por Fernando Pessoa) e pelo filósofo Leibnitz, neste num sentido de substância-força, surgiu de novo na tradição ocultista da segunda metade do séc. XIX, em especial em obras de membros da Sociedade Teosófica, algumas das quais Pessoa traduzira (anote-se o seu erro, em 1921, na tradução da Voz do Silêncio, de Helena P. Blavatsky, ao verter «the mind is the great slayer of the real...», por «o espírito é o grande assassino do real…” traduzindo mal a palavra mente (mind) por espírito), e que em parte eram tributárias de fragmentos da vasta tradição hindu e budista, na época por vezes subsumida na designação de Budismo esotérico, pois Helena Petrovna Blavatsky, a fonte principal dos ensinamentos teosóficos, tinha juntado múltiplos fragmentos de vários autores e livros e logo de várias tradições e tal nome era uma designação geral de aparente boa autoridade, nomeadamente no relacionamento com o Ceilão e o Ocidente, e assim entre os que a secundaram, Coronel Olcoot deu-se bem com os cingaleses e Alfred Percy Sinnett, que deu origem às famosas cartas dos Mahatamas, escreveu o manual do Budismo esóterico que apesar da sua superficialidade teve bastante sucesso, tendo sido traduzido entre nós na mesma colecção em que Fernando Pessoa trabalhou.
Encontramos então em Fernando Pessoa referências aos vários corpos e planos ou níveis do universo, tal como eram apresentados no ocultismo e esoterismo oriental, um dos quais é o monádico ou espiritual, embora, num texto em que especula sobre as cinco pétalas da Rosa Cruz, diga que elas correspondem aos cinco mundos: «etérico, astral, mental, espiritual e monádico» (in Rosea Cruz.), marcando a distinção do mundo da mónada (ou unidade) divina, do mundo do espírito. Já noutros textos, em que especula sobre os modos e estágios de realização iniciática, nomeia o clássico ternário dos mundos «o astral, o mental e o espiritual», ou, já de novo de modo diferente, as «três camadas – material, a espiritual e a divina», do universo.
Numa referência muito importante quanto ao espírito como mónada, escreve: «No ocultismo dos Índios o Mestre, a quem os discípulos procuram, é a própria substância monádica do discípulo. “Eu próprio sou o caminho”, diz-se no poema sagrado. Só há a procurar o que já se encontrou», citação final esta do Bhagavad Gita, ou Cântico do Bem Amado, que conheceu em obras teosóficas ou em autores como G. R. S. Mead, que também foi teósofo e que em alguns livros tratou proficuamente da tradição oriental.
Merece cogitação esta identificação que Fernando Pessoa assume entre o mestre e a essência última do discípulo, e sabemos como de facto as mahavakyas, ou grandes afirmações iniciáticas indianas, estão nesta linha, nomeadamente o famoso Tat Twam Asi, quando o mestre diz ao discípulo, quando este está pronto: “Tu és esta Realidade espiritual ou suprema”…
Neste sentido vai ainda a expressão usada "a substância monádica do discípulo" em vez da mónada do discípulo, podendo então interpretar-se esta afirmação numa linha não-dual ou de Advaita Vedanta, para a qual a substância monádica ou espiritual e a divina é só uma e una...
Vêmo-lo num texto afirmar que, além da dualidade freudiana do consciente e do subconsciente ou inconsciente, estão as faculdades supra-humanas, espirituais, ainda que em geral embrionárias. Noutro, citado em cima, refere a passagem da actividade inferior à superior do espírito, como a essência do Caminho ou Senda, e caracterizando-a como a capacidade de interiorização unificadora e meditativa, sem dúvida uma importante compreensão de pelo menos a acção do espírito em nós e que vai na linha mencionada da consciência da consciência e também da vontade, a unificadora,
Fernando Pessoa valoriza assim na alma tanto a racionalidade abstracta como o desenvolvimento das capacidades imaginativas e intuitivas as quais, implicando uma certa consciencialização supra-física e até supra-mentais mental, não causam todavia necessariamente uma desvendação mais plena do espírito em si mesmo.
Nas condições de iniciação templárias, que ele trabalhou e revelou em vários textos, elege em 1º lugar o «deseja ardentemente a luz, conhecendo-te [ainda?] nas trevas». Esta aspiração, essencial em quase todas as tradições, desde a mumuksha indiana à mahabbat persa, está muito presente em Fernando Pessoa e o seu nacionalismo e messianismo são mesmo extensões delas. Ora desejar ardentemente a luz é desejar fortemente o espírito, pois ele é Luz. Se bem que existam as luzes intermédias e enganadoras, os seus poemas intitulados Isaac Luria, por exemplo, mostram-nos uma concepção ou imaginação, se não mesmo alguma experiência do espírito, que é sobretudo vida, verdade e luz: «pois essa Pedra Cúbica partida// e a minha alma em luz pura resolvida// Eram a mesma coisa, era a Verdade» (in Poesia Profética, Mágica e Espiritual. Lisboa, 1989). É o contacto ou visão desta Luz que corresponde ao que se designa como o segundo nascimento ou a iniciação, em algumas linguagens espirituais.
Poderemos considerar que a predominância da actividade mental discursiva, ou do factor intelectual, na aproximação ao espírito e a Deus em Fernando Pessoa, sem que o aspecto do amor puro, devocional ou ardente se desenvolvesse tanto no seu coração, aliada a sua insuficiente realização amorosa na vida afectiva e relacional, dificultou-lhe, de acordo com uma visão linha ascensional seja neoplatónica seja moderna da complementaridade do coração e da cabeça, o acesso à plenitude possível e ao amor universal. Daqui talvez o apelo amoroso intenso à mãe e à Virgem Maria (dois aspectos, no fundo, do aspecto feminino de Deus, ou ainda, se o quisermos assim designar, do Espírito santo) nos seus dois últimos anos de vida, reflectido no ciclo de poemas “Un soir au Lima” ou num poema religioso, que termina: «Ó mãe universal, sê minha só» (in Poesia Profética Mágica e Espiritual.).
Contudo, alguns textos e poemas, de facto poucos mas bons, revelam-nos dinâmica e luminosamente o Amor e a Compaixão: «A caridade é a bondade em Cristo: o fazer o bem, não por ter pena do homem como homem, mas do homem como irmão. A caridade é a bondade ungida, a compaixão feita amor. Somos iguais em Deus, irmãos em Cristo, e livres no Espírito Santo», esta última frase da tradição Rosa Cruz. Ou ainda, também um texto fulgurante nunca citado: «Ninguém se liberta senão criando em si a dedicação ao universal, ao múltiplo outrem. Querer libertar os outros é a condição essencial de nos podermos libertar a nós. É com o amor que a liberdade se compra».
Em verdade, em Fernando Pessoa, o espírito surge, mais do que como amor ou poder, sobretudo como luz, compreensão, inteligência analógica, sensibilidade psíquica geral, ou mesmo o ser em si. Não há o Amor pleno da comunhão íntima e unitiva seja com a Amada, o Mestre, o Anjo da Guarda, Deus ou a Divindade, embora alguns fragmentos e poemas revelem a aspiração e o grito amoroso da sua alma por uma união maior, tal como alguns incluídos no livro que publiquei intitulado Rosea Cruz: - «When the disciple is ready the “Master” is ready too. Shakespeare’s “initiation” was after the closeness of the Master to the Disciple, the revelation of the Master to him. The expression “my God” = “my God” the Father” = my Master is right or to whom to pray? Interiormente alma e corpo são um, mas a alma é Mestre do corpo no sentido (inferior), como o Cristo é Mestre no sentido interior. Está o Mestre separado contudo inseparado? Quando a morte ocorre a unidade dual torna-se uma unidade dupla? É este o significado da frase: “morrer é ser iniciado?”».
Este texto, em inglês e português, dos mais elevados e difíceis de Fernando Pessoa questiona ou interroga a aspiração amorosa a Deus (a mahabbat iraniana) e ao mestre, como também a desvendação possível do espírito após a morte, esta então como iniciação a ele, o mestre, numa visão comum à mística e gnose indiana, grega e persa.
Como não relembrarmos também aqui um dos inspiradores de Fernando Pessoa, Antero de Quental (também ele atraído pela sabedoria perene e do Oriente), escrevendo à cabeça de um dos seus sonetos a frase da Antologia Grega, obra presente na biblioteca de Fernando Pessoa, «Morrer é ser iniciado» e que não deve ser limitada à morte do corpo, mas ao ir morrendo em vida, em relação à profanidade, à ignorância, e que é sincrónico com a ressurreição do espírito supra-pessoal?
Quanto ao Espírito Santo, que podemos ver como uma hipostatização, ou pessoalização trinitária, do Espírito divino universal e em cada um de nós, encontramos algumas referência ou aproximações de Fernando Pessoa, nomeadamente nas suas pesquisas ocultistas, dizendo: «É natural que aqueles que sustentam a letra contra o espírito, e cometam portanto o pecado essencial contra o Espírito Santo», o que, para além do claro apelo a sermos o espírito mais directamente e a vê-lo também fora de nós, não nos deixando prender tanto nas aparências e sombras deste ilusório mundo, nos remete para os graus ascendentes de interpretação ou hermenêutica e que são também níveis do nosso ser, tão trabalhados por ele em inúmeras ocasiões, tal como no fragmento a «ordem dos graus. Os 5 sentidos, literal, alegórico, moral, espiritual e divino».
A compreensão e visão dos diferentes níveis da realidade e do Ser é então fundamental, pois sintonizando-os, assumindo-os e trabalhando-os há uma subida ou aprofundamento da Sabedoria, que passa de potencial à progressiva e maior desvendação e unidade com o Espírito...
Como 3ª Pessoa da Trindade, o Espírito surge em muitos textos trabalhado e meditado, nomeadamente no importante texto, sensivelmente do meio da sua vida, em que diz que «Ele é primeiro o Inefável, a Alma de Deus, ou Criador de Deus, e chamamos-Lhe o Espírito Santo ou o Espírito Divino». Mas, de forma mais concentrada e prática, teremos a utilização do Espírito Santo por Fernando Pessoa, fluindo na corrente rosicruciana, nas frases, lemas ou mantras (designação na tradição indiana) para meditação, tal como: «De Deus nascemos, em Jesus morremos, pelo Espírito Santo ressurgimos», ou ainda «De Deus somos entrados, em Jesus passados, pelo Espírito Santo erguidos», e que ele próprio poderá ter dedilhado, ou seja rezado, meditado..
Como Cristão gnóstico, tentando intuir a Criação e meditando o simbolismo dos ensinamentos do Génesis, Fernando Pessoa escreverá, talvez até por via de alguma leitura, por exemplo,: «Adão um espírito (doutro modo não poderia ser como o Deus), ou a unidade, não dualidade, do espírito e carne. A criação de Eva foi a separação da carne do espírito. A tentação foi a submissão do espírito à carne, isto é, o revestimento do espírito pela carne», confirmando a sua visão espiritual do ser humano, e como este é na sua essência um espírito e que a queda é o nome dado à descida do espírito, ou mónada, ao mundo físico e ao corpo animal-corporal…
Outro modo de aproximação ou reconhecimento do Espírito enquanto o nosso Ser superior activo, encontra-se num fragmento das reflexões intituladas Ocultismo, em que compara o sono e a morte: «No sono abandonamos o nosso ser consciente, e entramos ou não em contacto com o nosso ser superconsciente (...) A nossa maior consciência, quando adultos, indica uma maior aproximação entre o nosso Ser superior e o inferior, uma maior proximidade da unidade. Só a morte porém unifica, e é ela a verdadeira adultidade», e eis-nos com outra sua valorização do dito grego também glosado por Antero de Quental, “morrer é ser iniciado”, e que Joaquim de Araújo, no seu belo livrinho poema Na Morte de Antero, 1891, acabou também por citar e glosar...
No mesmo texto, especula ainda sobre “a essência do nosso Ser superior” considerando que «a matéria em que vive o nosso Ser superior, como é diferente daquela em que vive o inferior, não tem com ela contacto senão em circunstâncias, e por meio de poderes muito especiais», e que remete para a necessidade da meditação e do desenvolvimento da intuição, que Fernando Pessoa tanto investigou por si como recebeu nos ensinamentos de ordens, sociedades e livros.
Desta assimilação mais profunda das influências ou ensinamentos recebidos do contacto com a simbólica iniciática, da grande árvore da Tradição Universal, confessa-nos: «o que eu compreendi, trouxe para o coração, e o que trouxe para o coração eu compreendi», certamente com as limitações da transparência e silêncio que não terá conseguido suficientemente para poder ser espelho do mais íntimo ou ver abrir-se a porta para a mais alta realidade…
A subtilização do visível e da natureza, o reconhecimento dos espíritos da natureza e dos Deuses, seja grandes seres, anjos e Arcanjos, seja as Pessoas, arquétipos ou ideias divinas, surge também com frequência, com a lúcida consciência e bela mente expressa até de que «os Deuses não morreram: O que morreu foi a nossa visão deles. Não se foram: deixámos de os ver. Ou fechámos os olhos, ou entre eles e nós uma névoa qualquer se entremeteu. Subsistem, vivem como viveram, com a mesma divindade e a mesma calma»…
Por detrás desta afirmação está a doutrina da visão do olho espiritual que permite «o conhecimento das coisas divinas, ou o lado etérico e o lado divino das coisas», e que para Fernando Pessoa fazia parte da iniciação (in Moral, Regras de Vida e Condições de Iniciação), de acordo com a doutrina universal da mesma.
Daí na sua nota autobiográfica de 1935, o ano em que deixa a terra, o parágrafo final dela: «Ter sempre na memória o Mártir Jacques de Molay, Grão Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania», assassinos do melhor que há nos seres, a sua potencialidade de se tornarem espíritos vivos e harmoniosos, ou, noutra linguagem, mestres, e que continuam hoje activos no séc. XXI...
Oiçamo-lo ainda de novo no que pode ser visto como dois dos textos com mais valiosa doutrina do espírito, o primeiro afirmando claramente não só a incarnação como a diferença entre a alma e o espírito: «É o Espírito da nossa Alma, o nosso Eu Superior, que está realmente consciente em nós e de nós supremamente; o nosso Eu inferior ou Alma, que é tudo o que aqui conhecemos de nós, está apenas consciente dele – Alma e Corpo – e não consciente do Eu Superior. O Eu Superior retém as memórias e os resultados das incarnações anteriores [uma hipótese que Fernando Pessoa acreditou] pelo que só apenas vagamente e por algum contacto obscuro e ocasional com o Eu Superior, é que nos lembramos deles ou vagamente os sentimos. A fórmula Santo Anjo da Guarda corresponde ao Eu Superior, e exprime a verdade». "Santo Anjo da Guarda, nossa querida companhia, orientai a nossa alma de noite de dia", reza a tradição lusitana...
O outro, talvez ainda a melhor afirmação final da sua doutrina do espírito, embora empregando mais a expressão favorita de alma, e que é um fragmento dos últimos meses da vida (embora não datado…) em que nos diz, numa evolução e iniciação interna ainda pouco compreendida e nada reconhecida pela generalidade dos pessoanos, sobretudo dos dominantes: «O conhecimento de Deus não depende do hebreu, nem de anagramas, nem de símbolos. Nem de língua alguma, falada ou figurada; faz-se pela ascensão univocal da alma, pelo encontro final da alma consigo mesma, do Deus em nós consigo mesmo» (in Rosea Cruz).
Gratos a ele, saibamos avançar no Conhecimento, Amor e Unidade do Espírito e como Espíritos do Divino Ser…
Panteão Nacional, Lisboa





