domingo, 18 de outubro de 2026

Alexander Dugin: Os Professores como os Gurus sagrados da Civilização. O fim do liberalismo educacional. 17/10/2026. Tradução, com breve introdução...

                         
     Eis-nos diante dum valioso diálogo com o filósofo ou mestre Alexander Dugin [n.7/I/62], um dos melhores pensadores e analistas da geo-estratégia político-ideológica civilizacional, no Dia Mundial do Professor, 5 de outubro, no qual compartilha suas ideias e reflexões sobre a educação, notadamente como paideia,  valor e qualidades dos professores, desafios atuais, desvincular das visões liberais ocidentais  e como combinar harmoniosamente a acumulação de informação com a formação de caráter e a prossecução dos valores tradicionais e universais, nos tempos actuais, nomeadamente da valiosa e desafiante mas frequentemente enganadora Inteligência Artificial. 

 Alexander Dugin destaca a capacidade de se conseguir discernir, face à proliferação do desnecessário e manipulado, o que é essencial —conforme as nossas tradições, valores e missão—que Dugin claramente identifica ao nível planetário como a multipolaridade equitativa. Regista como a Rússia, com os seus líderes actuais, descartou as visões e políticas neoliberais e está a fortalecer os seus valores sociais, morais e religiosos, bem como a multipolaridade. Observando as eleições presidenciais que decorrem no Brasil, destaca a importância do movimento do BRICS, rumo à Multipolaridade, ter no Brasil um presidente que a sustente. E após comentar o que aconteceu na Venezuela e, compartilhando os seus valores universais, faz votos para que, assim como a Carta Multipolar euroasiática foi recentemente assinada entre Rússia, Bielorrússia, Vietname e Irão, os povos latino-americanos também criem alguma união, nomeadamente entre Cuba, Nicarágua e México.

Alexander Dugin identifica claramente o futuro certo como um mundo de multipolaridade equitativa e profunda, baseado nos valores diferentes e semelhantes das civilizações tradicionais, e está a trabalhar arduamente para isso, e em universidades, fóruns, redes e livros (tal como a sua brilhante filha Daria Dugina fazia, nomeadamente, com o seu famoso Optimismo Escatológico e agora com os livros de inéditos que estão a ser publicados ainda mais se imortalizando entre nós) ensina a Quarta Teoria Política, a que se segue ao comunismo, fascismo e liberalismo, e apela a que mais pessoas contribuam para melhores sociedades universalistas. 
Está publicado em https://alexanderdugin.substack.com/, e eu apenas traduzi, destaquei algumas declarações mais relevantes e adicionei as imagens e, entre [... ], teci alguns brevíssimos comentários. 

Resumo prefacial: «Alexander Dugin argumenta que a verdadeira educação é um processo inseparável de ensino e formação — uma paideia sagrada que forma a alma e a identidade civilizacional — e que restaurar a autoridade do professor é essencial para construir um mundo multipolar além dos dogmas liberais.
Conversa com Alexander Dugin no programa Escalation da Sputnik TV.

Apresentador: Hoje é segunda-feira, 5 de outubro, e é um feriado importante para todos nós — o Dia do Professor. O Primeiro-Ministro Mikhail Mishustin já deu os parabéns aos nossos professores, destacando a imensa escala do sistema educacional: mais de um milhão de professores de escolas estão trabalhando em todo o país, junto com cerca de 170.000 instrutores e formadores profissionais em faculdades.
Nesse contexto, Alexander Gelyevich [Dugin], tenho uma pergunta para si. Recentemente, o Estado tem dado um enorme ênfase à ideia de que um professor não deve apenas transmitir conhecimento, mas também  envolver-se na educação das crianças — o foco está a deslocar-se fortemente nessa direção. Na sua perspectiva, qual é o significado mais profundo e a tarefa central desse papel educativo e formador de caráter do professor moderno?

Alexander Dugin: Em primeiro lugar, quero congratular de todo o meu coração todos os nossos professores. Eles são verdadeiramente uma parte heroica da nossa sociedade, e o que um professor faz todos os dias é um verdadeiro acto de serviço. Não só porque as crianças são difíceis de lidar — vivemos em um tempo complicado, quando a cultura e a vida familiar muitas vezes ensinam às crianças coisas erradas, precisando então de ser reeducadas. Frequentemente, carecem de concentração, estão constantemente distraídas, e trabalhar com elas é verdadeiramente difícil. É um verdadeiro trabalho espiritual na educação e formação. Na Grécia antiga, havia um conceito fino — *paideia* (παιδεία) — que significava o processo inseparável de ensinar e educar uma criança ao mesmo tempo. A palavra vem da raiz de *pais* (criança), e significa literalmente "como se transforma uma criança num ser humano." É ao mesmo tempo uma arte, um trabalho e uma espécie de milagre. Os seres humanos são naturalmente curiosos, mas essa curiosidade é constantemente bloqueada por outras coisas — acima de tudo pela preguiça mental e espiritual. Esquecemos um pouco o termo, mas a preguiça espiritual é muito forte nas crianças. Uma criança é apenas a promessa de uma pessoa, um potencial que ainda precisa ser realizado. Se esse potencial se torna uma personalidade plenamente formada ou acaba distorcida e atrofiada depende em grande parte do sucesso dessa *paideia*.
Nesse sentido mais profundo, educação e formação não podem ser separadas. Não se pode educar uma pessoa sem lhe dar conhecimento, e não se pode transmitir conhecimento sem tocar na sua natureza interior. É um único e mesmo processo. Nos anos de 90 e de 2000, até ao início da Operação Militar Especial, fomos empurrados para um modelo ocidental que tratava a educação como uma indústria de serviços e um conjunto de habilidades técnicas. Isso nunca fez parte da tradição russa. A escola russa — tanto no século XIX quanto no século XX — foi construída sobre as ideias de educadores como [Konstantin] Ushinsky [1823-1871], que viam o ensino como a formação do ser humano em todas as suas dimensões.

                            Disponível no Internet Archive
Quando as crianças estudam matemática, história, literatura ou física, elas estão a aprender a entender o mundo. Eles estão a traçar os caminhos e mapas mentais que usarão mais tarde como adultos. Tratar a educação como um mero serviço é, portanto, uma abordagem profundamente distorcida, antinatural e, em última análise, anti-russa. Devemos ver o trabalho do professor como uma vocação, uma alta arte e uma missão sagrada.
Vale a pena notar que na Índia a palavra para "professor" é simplesmente "guru." Não há uma distinção clara lá entre um mentor espiritual, um instrutor académico e um treinador de habilidades — todos esses papéis estão combinados na figura do guru. O guru tem autoridade real, e as suas palavras têm peso. Restaurar a autoridade do professor é uma tarefa extremamente importante. Precisamos ensinar as crianças a respeitar o professor como um guru. Mesmo que um determinado professor seja imperfeito, é melhor manter o princípio da autoridade do professor do que minar a ideia de autoridade em si.
O que um professor realmente faz? Ele transmite a identidade social. À medida que uma criança passa pela *paideia*, ela está a ser preparada para se tornar um membro pleno da sociedade que compartilha os seus valores morais e culturais básicos. Ele aprende a distinguir entre diferentes tipos de informação e diferentes situações da vida para que se possa tornar um portador da nossa identidade histórica — social, espiritual e moralmente. Ensinar apenas habilidades técnicas ou preparar os alunos para testes, fora de qualquer contexto cultural, produz uma forma vazia sem um núcleo interior. As habilidades profissionais devem ser construídas sobre essa base pessoal e cultural mais profunda.
No século XIX, a educação estava claramente dividida entre clássica e prática. A educação clássica — nos liceus e universidades — oferecia aos alunos Homero, tragédias gregas, Platão, a Bíblia e as grandes ideias da civilização. Não visava uma profissão específica, mas sim formar uma visão de mundo e uma compreensão do mundo como um todo. A educação prática, por outro lado, focava em habilidades específicas, como nas escolas profissionais. Ambas são necessárias, mas a educação clássica vem primeiro, porque forma a pessoa. A especialização — seja como soldador, construtor, empresário, economista, médico ou professor — deve vir depois.
A educação clássica não deve ser o privilégio de uma elite. Deve estar disponível para pessoas de todas as origens sociais. Felizmente, agora estamos a ver uma mudança nessa direção. Durante anos, a tendência era a comercialização e a ideia de transformar as pessoas em algo como uma inteligência artificial primitiva (que a IA moderna já superou). Agora, há uma mudança de volta para o ser humano e o desenvolvimento da personalidade. Tanto o Ministro da Ciência e Ensino Superior, Valery Falkov, quanto o Ministro da Educação, Sergei Kravtsov, falaram sobre isso. Essa mudança civilizacional afecta principalmente os professores. Eles são os guardiões do nosso código cultural. Eles não estão apenas a desempenhar um trabalho; estão a cumprir uma missão. Eles são pessoas que continuaram a fazer um trabalho sério mesmo quando o sistema, por muitos anos, não exigia isso deles, porque eles são verdadeiros professores russos.
Apresentador: Mesmo comparando com o Império Russo, quando a educação clássica existia, a quantidade de informações que uma pessoa precisa para funcionar na sociedade moderna cresceu enormemente. E já agora, antes de qualquer retorno completo ao ideal clássico, ouvimos queixas de que tanto os professores quanto os alunos estão sobrecarregados. Como devemos lidar com isso? Como poderemos combinar um amplo corpo de conhecimento com a tarefa de educação, sem levar o sistema a um beco sem saída?
Alexander Dugin: Na realidade, nunca há simplesmente “demais” ou “de menos” conhecimento. O teórico dos sistemas Niklas Luhmann [1927-1988] argumentou que a tarefa essencial de qualquer sistema não é acumular informações, mas descartar o que é desnecessário. Um sistema filtra o fluxo para que apenas o que é verdadeiramente valioso chegue ao centro. Uma vez que se fez o trabalho árduo de separar o material secundário e terciário, o que resta é o que realmente importa.
O antropólogo Claude Lévi-Strauss [198-2009] fez uma observação relacionada e paradoxal: a quantidade total de conhecimento possuído por uma pessoa numa sociedade tribal tradicional e uma pessoa em uma sociedade tecnológica moderna é aproximadamente a mesma. O que muda é o sistema de seleção — o que escolhemos priorizar. Os povos amazônicos, por exemplo, conhecem centenas de nomes de plantas e podem distinguir diferenças subtis entre elas. Não precisamos desse conhecimento, assim como as crianças modernas conhecem as marcas dos aparelhos e as personagens dos jogos de vídeo muito detalhadamente.
O volume de informação é, num sentido amplo, constante. Nem a complexidade tecnológica nem a inteligência artificial mudam esse facto fundamental. A tarefa do professor — a tarefa do guru russo — é estabelecer a hierarquia correta e separar o que é essencial do que é incidental. Quando essa hierarquia desmorona, as pessoas de qualquer sociedade ficam desorientadas e perdem o rumo.
Portanto, a questão real não é a quantidade pura de informação, mas como ela é estruturada e quais os elementos que são considerados relevantes. O que mais importa não são os factos isolados, mas a capacidade de usar estruturas interpretativas. O folclorista russo Vladimir Propp [1895-1970] mostrou que as histórias da humanidade — mitos, romances, lendas, séries de televisão modernas e até manuais técnicos e até mesmo muitos textos de não-ficção — seguem um número limitado de padrões estruturais profundos. Uma pessoa que entende esses padrões pode reconhecer os mesmos modelos subjacentes num mito antigo, num romance clássico, num filme de Hollywood ou até mesmo num manual técnico.
                         
A consciência humana é, ma sua estrutura básica, relativamente constante. A Inteligência artificial e o fácil acesso à informação são ferramentas que nos permitem alcançar códigos e dados básicos mais rapidamente. Eles podem ser úteis — por exemplo, criando melhores pesquisas nos livros e arquivos de publicações — mas apenas sob uma condição: deve-se saber o que se está a procurar e o que realmente se deseja do sistema.
Se  perguntar a uma IA sobre um assunto que não entende, ela geralmente  dar-lhe-á respostas convencionais ou clichês ideologicamente coloridos [de início, embora dependendo dos temas.]. Ela também comete erros, pode ser tendenciosa e, às vezes, simplesmente fica sem capacidade. Não pode ser confiável como um substituto para a compreensão. É uma ajuda, não uma substituição.
A tarefa do professor hoje não é ensinar os alunos a clicar em botões em interfaces amigáveis. É ensinar-lhes como interagir com essas ferramentas de forma inteligente, como entender os códigos e estratégias subjacentes e — mais importante — como permanecer humano ao lidar com uma máquina. Nenhum sistema artificial pode substituir o professor nesse aspecto. A razão é simples: um ser humano tem uma alma viva. Um professor pode ver, por trás das notas e habilidades, algo que uma máquina não pode perceber — a personalidade em desenvolvimento e a vida interior do aluno. A inteligência artificial não tem interesse na alma humana; ela simplesmente responde a consultas. [E no final faz algumas sugestões de novas perguntas, tentando enredar com mais perguntas e informações, sem sentir ou conhecer o estado interior, nível ou intenções de quem interage com ela, pelo menos por enquanto...]
É por isso que a educação precisa de reter uma dimensão viva, espiritual e, de certa forma, religiosa. A verdadeira educação sempre se preocupou, no fundo, com a formação da alma. Por essa razão, a Igreja, os filósofos e os especialistas em humanidades devem participar activamente da educação. Precisamos de ajudar os professores a recuperarem a sua vocação superior — serem guias da *paideia*. E para que isso aconteça, os próprios professores também devem continuar a aprender.

Anfitrião: Isso levanta uma questão prática. Identificou corretamente o problema da autoridade desgastada: os pais, e depois os filhos, ainda tendem a ver a educação como um serviço — pago ou gratuito. O Estado deve tentar reverter isso através de regulamentações rigorosas, ou é principalmente uma questão de educação moral e cultural? Como pode o que  está a descrever ser realmente colocado em prática?

Alexander Dugin: Na verdade, isto é bastante simples de resolver. Porque é que a ideia de educação como serviço surgiu em primeiro lugar? Porque até recentemente, ideias e atitudes capitalistas, liberais e ocidentais dominavam a nossa sociedade. Essas visões foram transmitidas pelas autoridades aos pais e, através deles, aos filhos.
Hoje o Estado pensa de forma diferente. A ideologia liberal agora é vista como algo alienígeno e tóxico. Já superamos outras tendências destrutivas, e o próximo passo lógico é finalmente eliminar os vestígios do liberalismo, que por muito tempo permaneceu o dogma dominante no cenário pós-soviético.
Tratar escolas e universidades [ou a saúde pública] como uma indústria de serviços é um consequência legal e mental directa do liberalismo. Uma vez que o Estado abandone completamente esse paradigma no nível da política oficial e estabeleça novas prioridades, tudo entra no seu lugar. Inevitavelmente, restauraremos o alto respeito pelos professores que era natural tanto na Rússia imperial quanto na era soviética.

Anfitrião: A primeira volta da eleição presidencial acaba de se concluir no Brasil. De acordo com os resultados, o presidente em exercício, Luiz Inácio Lula da Silva, está a  receber cerca de 45%, enquanto seu principal oponente, Flávio Bolsonaro, tem aproximadamente 47%. Estamos a ir para a segunda volta.
Alexander Gelyevich [Dugin], porque é que é criticamente importante para nós na Rússia acompanhar de perto esses processos eleitorais no Brasil? E ao que uma possível mudança de poder poderá levar se o actual presidente não conseguir ser reeleito?

Alexander Dugin: Já entendemos — e acho que nossos ouvintes também entenderam isso perfeitamente bem — que nos comprometemos seriamente, profundamente e a longo prazo a construir um mundo multipolar no qual a Rússia será um polo soberano e independente. Ao contrário do sistema bipolar da Guerra Fria ou do modelo clássico de estados-nação representados na ONU, estamos construindo uma estrutura histórica completamente única baseada em estados-civilização.
O Ocidente é uma única civilização, apesar de todas as suas formas nacionais, porque as decisões estratégicas lá são tomadas pelo mesmo grupo, atuando de forma aberta ou nos bastidores como um deep sistem [estado profundo], mas em qualquer caso expressando uma única vontade [mesmo que dois ou três centros diferentes interajam]. Somos uma civilização separada e um estado-civilização. A China é outra civilização. A Índia também é um polo vermelho do mundo multipolar. E assim, o último fragmento dessa política de esquerda — que, no geral, é mal sucedida para as suas sociedades, mas pelo menos mantém uma conexão com o mundo multipolar — é Lula. Um homem que esteve envolvido em escândalos de corrupção de alto perfil, sentou-se na prisão e colocou seu principal oponente atrás das grades. Em resumo, tudo isso é bastante duvidoso, e ele não tem nenhum apoio popular poderoso e genuíno. [Ele ainda tem muita popularidade e fez bem ao povo..] O seu curso [ou caminho] carece de sinais de um pensamento estratégico profundo.
Mas ele ainda é melhor do que Milei ou de que algum pastor protestante totalmente voltado para Washington. Sejamos francos — ele é melhor. No entanto, os brasileiros [ou muitos] já não pensam assim; eles perderam a fé nele, e esse é o principal problema. A guinada à direita que está a ocorrer actualmente na América Latina está a transformar-se numa ameaça de perda do mundo multipolar. Para esses políticos pró-americanos orientados para Washington, não há necessidade de construir qualquer ordem multipolar; a América Latina não tem identidade independente — eles querem se integrar no sistema ocidental de hegemonia global. Em essência, eles estão transformando os seus países numa outra Ucrânia.
Portanto, não há nada de bom para nós no facto de que Flávio Bolsonaro — o filho do preso Jair Bolsonaro — receber mais votos do que Lula. Lula é um parceiro familiar para nós e o garante do "B" no BRICS. Embora Jair Bolsonaro, quando era presidente, não tivesse pressa em retirar o país do BRICS e seguisse uma política bastante equilibrada [nesse aspecto]. Talvez desta vez tudo não esteja tão ruim; talvez o curso dos opositores de Lula não deslize para a feiura que Milei estabeleceu na Argentina. O que Milei está a fazer é um verdadeiro colapso; ele é o Zelensky latino-americano. Extremismo, palhaçada, uma motosserra nas suas mãos, asneiradas selvagens e alinhamento aberto com os interesses israelitas — isso é simplesmente monstruoso, um verdadeiro insulto ao maravilhoso e notável povo argentino.
No entanto, não se pode descartar que a família Bolsonaro — afinal, as suas esposas e filhos também participaram activamente das eleições, e muitos deles venceram nas eleições parlamentares paralelas — se comporte de maneira diferente. Provavelmente os brasileiros sabem melhor quem escolher e não devemos impor-lhes o nosso ponto de vista. Seria maravilhoso se as forças de direita se vencerem no Brasil recordassem os preceitos de Getúlio Vargas. Este foi um presidente do Brasil do século XX que defendia a completa independência do continente latino-americano da influência dos EUA. Sendo um político de direita, ele estava de certa forma próximo ao general argentino Perón. Juntos, eles desenvolveram planos para preservar a identidade cristã tradicional na América Latina, desenvolver os países com base na justiça social — a famosa “ideologia da justiça” peronista — e, si
multaneamente, alcançar a independência geopolítica dos Estados Unidos e do Ocidente global.Esse era um modelo ideal para a integração do continente latino-americano, mas pela direita. E historicamente existem tais precedentes no Brasil. Outro assunto é que, se o candidato for um protestante em uma sociedade e cultura tradicionalmente católicas, isso já é um sinal de alerta sério. O protestantismo, nesse contexto, parece algo anómalo, como um canal para valores e atitudes religiosas alienígenas no complexo sistema religioso do Brasil.
Parece-me que o enfraquecimento das posições de Lula e a perda de fé nele, que se manifestaram claramente nos resultados deste primeiro turno, são um facto. Haverá um segundo turno, já que nenhum dos candidatos recebeu cinquenta por cento: Bolsonaro tem cerca de quarenta e sete. Em algumas semanas veremos qual a escolha o povo brasileiro fará. Para nós, o principal é não perder o Brasil no BRICS, porque ele representa toda a América Latina nesta associação, e a América Latina é de enorme importância para nós. [Lula deverá vencer...]
E aqui surge uma pergunta para nós mesmos: por quanto tempo podemos continuar a mover-nos pela inércia da antiga política soviética, onde os nossos aliados tradicionais eram considerados exclusivamente forças de esquerda? Todavia eles há muito que deixaram de ser nossos verdadeiros aliados, já não são  tão esquerdistas e nem tão consistentes opositores do capitalismo. A agenda da esquerda moderna absorveu tantos elementos repulsivos que estão absolutamente proibidos no nosso país!
Talvez devessemos fazer a nossa política externa mais integral e abrangente. Pensemos em criar redes de apoiadores da multipolaridade — não necessariamente pró-russos, mas sinceramente pró-latino-americanos, que defendam a soberania e a integração do continente. Precisamos ajudar a desenvolver essas redes e apoiar tanto a direita quanto a esquerda. Se as forças de direita defendem um estado-civilização latino-americano independente, como Vargas ou Perón — isso é excelente; isso  convém-nos. Se a esquerda conseguir isso — também nos serve.
Faltam-nos criticamente a geopolítica e o grande pensamento civilizacional. Não devemos apenas nos defender-nos; devemos construir algo, criar, inventar e promover. Olhem para a Carta multipolar euroasiática que assinamos recentemente com Belarus, Vietname e Iro — é um movimento magnífico e brilhante! Provavelmente, os latino-americanos também deveriam ser activamente atraídos para essa órbita: Cuba, Nicarágua, México.

Ao mesmo tempo, se eles têm um governo de esquerda ou de direita, isso deve ser irrelevante para nós. O critério principal é simples: se você é a favor da multipolaridade, você é nosso, e nós o apoiamos. [Muito importante, esclarecedor.] Se você é a favor da hegemonia, você não é nosso, e nós não somos seus aliados. Se tivermos uma política tão clara e proactiva, quando para cada região e cada país tivermos nosso próprio plano baseado na luta não contra o Ocidente em si, mas exclusivamente contra a hegemonia ocidental, então venceremos. É impossível lidar com essa hegemonia global sozinho: precisamos de polos e aliados confiáveis. Não vamos apenas procurá-los, mas ajudar a que eles venham à existência e tomem forma.
Lembre-se da Venezuela — tínhamos um presidente amigo, Nicolás Maduro. Um homem que é indubitavelmente decente, e que foi tratado injustamente por Trump, mas que não conseguiu construir um sistema económico, social e cultural. Hugo Chávez foi um homem de grandes ideias e realizações, enquanto Maduro continuou a sua linha mas numa direção decrescente. Se nos tivéssemos  envolvido mais profundamente a tempo — não apenas com apoio militar e comércio, mas no nível ideológico... Por alguma razão, continuámos a deslizar para questões técnicas e secundárias!
É como se fôssemos mal ensinados na escola para distinguir o essencial do secundário, como se nosso sistema tivesse esquecido como separar o puramente formal e incidental do núcleo genuíno. Não conseguimos identificar o que é essencial na política externa e isso  prejudica-nos muito. No mais alto nível do Estado tudo é feito corretamente: temos excelentes discursos estratégicos do presidente, passos brilhantes do ministro das Relações Exteriores - tudo ali é impecável. Mas no nível seguinte começa um estranho vácuo, e todos instantaneamente escorregam para discutir iniciativas mesquinhas e impotentes que não levam a qualquer lugar . Este problema sistémico não pode ser resolvido pelos esforços de entusiastas individuais no terreno.

Anfitrião: Do seu ponto de vista, porque é que tal está a acontecer? É um problema da nossa política de pessoal ou um erro fundamental na educação e formação das pessoas?
Alexander Dugin: Acho que  é uma consequência pesada dos anos 90 e 2000. Olhe para a armadilha mental na qual nos encontramos por muito tempo. Os nossos opositores na Ucrânia têm um slogan extremista banido na Federação Russa: "Bandera virá e restaurará a ordem." E o nossa elite liberal por muito tempo teve seu slogan reflexo: "O Ocidente virá e restaurará a ordem." Esperávamos que bastasse ler um livro didático ocidental, copiar as suas regras, formatos, modelos, acordos e encaixar-nos na sua agenda.
Portanto, nossa elite de gestores estava inicialmente voltada para imitar o Ocidente. E quando de repente nos encontramos em uma situação de dura confrontação com o Ocidente, ficou claro que precisávamos de um tipo diferente de elite. Não é que os antigos sejam maus — o problema é que eles estão sintonizados com tarefas completamente diferentes. Eles precisam ser reorientados, e aqui a educação é de importância primordial.
Precisamos ensinar o nosso corpo diplomático e todos os especialistas internacionais não apenas a falar sobre o mundo multipolar e a abordagem civilizacional, mas a compreendê-los profundamente. Aprender a desenvolver de forma independente aquelas camadas de teoria que ainda não foram escritas e implementá-las com confiança na prática. Precisamos de um novo tipo de pessoal, capaz de trabalhar no paradigma da multipolaridade.
A orientação para a multipolaridade foi estabelecida pelo nosso presidente e pelo ministro das Relações Exteriores — é a linha oficial do Estado. Mas precisa de ser elaborada, ensinada em instituições educacionais especializadas e novos profissionais devem ser formados a partir disso. Os profissionais que já estão em serviço precisam de ser requalificados.
Quando dou palestras no Ministério dos Negócios Estrangeiros s para funcionários de vários departamentos, vejo que as pessoas rapidamente começam a entender tudo se começarem a aprofundar o assunto. Mas isso requer um esforço colossal. A multipolaridade para nós é uma realidade completamente nova. Não é uma continuação da experiência soviética e ainda menos uma continuação do modelo liberal globalista. Não é sequer o sistema de Vestfália com sua clássica soberania nacional sobre a qual a Organização das Nações Unidas se baseia. É um paradigma fundamentalmente novo de relações internacionais que precisa ser estudado, compreendido, interiorizado e, só então, implementado.
Infelizmente, os membros da nossa diplomacia ainda não percorreram suficientemente tal caminho. Sim, há entusiastas individuais que entendem tudo perfeitamente e compartilham isso. Mas a maioria dos nossos diplomatas experientes e bem treinados baseia-se na experiência soviética. Havia muito de grandioso nisso — acima de tudo a prioridade absoluta da soberania — mas dependia de recursos diferentes e de um contexto ideológico completamente diferente. Sem uma base ideológica adequada, muitas das coisas mais subtis na política externa muito simplesmente se perdem.
Os nossos excelentes profissionais precisam ser requalificados, porque as suas antigas competências e habilidades familiares não correspondem mais aos desafios do novo mundo. Precisamos cavar muito mais fundo. Há cerca de quinze anos, na Faculdade de Sociologia da Universidade Estatal de Moscovo, comecei a desenvolver a Quarta Teoria Política — além do liberalismo, comunismo e fascismo. Nenhuma dessas três ideologias clássicas nos serve, e nenhuma delas pode servir como um aliado confiável fora da Rússia. Todos eles são produtos do Ocidente; todos eles estão profundamente infectados com o universalismo ocidental; eles carregam essa marca.
Precisamos ir além das antigas fronteiras da ciência política ocidental. Além disso, devemos apoiar buscas semelhantes por novos caminhos ideológicos noutras civilizações e sociedades. Precisamos repensar completamente a realidade, porque nos encontramos  numa era histórica completamente nova.»

(Traduzido do russo para inglês e deste para português.
Recebido de https://alexanderdugin.substack.com, e da Multipolar Press, e compartilhado independentemente de Portugal, um bom e velho amigo da Rússia, embora o governo actual esteja completamente dominado pela mentalidade hegemónica ocidental dos EUA e da UE ou até mesmo pela mentalidade opressiva e arrogante e seja anti-russo, anti-multipolaridade, o que é uma desgraça para um país que teve um apelo e uma vocação universalista e ecuménica...
Lutemos pela multipolaridade e saudemos Alexander Dugin, e os bons professores, pela paciência em ensinar, e inspirar a tão necessária sabedoria, educativa, social e espiritual para os nossos tempos e almas em demanda...


"Teachers as the Sacred Gurus of Civilization The end of educational liberalism". By Alexander Dugin. 17/10/2026. With a brief introduction...

                                                    

  Here we are before a valuable dialogue with the philosopher or master Alexander Dugin [n.7/I/62], one of the best thinkers and analysts of civilisational political-ideological geo-strategy, on World Teachers' Day, October 5, in which he shares his ideas and reflections on education, notably as paideia, the value and qualities of teachers, current challenges, detaching from Western liberal views, and how to harmoniously combine the accumulation of information with character formation and the pursuit of traditional and universal values in current times, particularly with the valuable and challenging but often misleading Artificial Intelligence.
Alexander Dugin highlights the ability to discern, in the face of the proliferation of the unnecessary and manipulated, what is essential—according to our traditions, values, and mission—which Dugin clearly identifies on a planetary level as equitable multipolarity. He notes how Russia, with its current leaders, has discarded neoliberal visions and policies and is strengthening its social, moral, and religious values, as well as multipolarity. Observing the presidential elections taking place in Brazil, he highlights the importance of the BRICS movement, towards Multipolarity, having a president in Brazil who supports it. And after commenting on what happened in Venezuela and sharing its universal values, it hopes that, just as the Euro-Asian Multipolar Charter was recently signed between Russia, Belarus, Vietnam, and Iran, the Latin American peoples will also create some union, particularly between Cuba, Nicaragua, and Mexico.
Alexander Dugin clearly identifies the right future as a world of equitable and profound multipolarity, based on the different and similar values of traditional civilisations, and he is working hard for it, in universities, forums, networks and books (just as his brilliant daughter Daria Dugina did, notably with her famous Eschatological Optimism and now with the unpublished books being published, further immortalising herself among us) teaching the Fourth Political Theory, which follows after communism, fascism, and liberalism, and calls for more people to contribute to better universalist societies.
It is published at https://alexanderdugin.substack.com/, and I have only translated, highlighted some of the most relevant statements, and added the images, and, between [...], I have made some very brief comments.

«Alexander Dugin argues that true education is an inseparable process of teaching and upbringing — a sacred paideia that forms the soul and civilizational identity — and that restoring the teacher’s authority is essential to building a multipolar world beyond liberal dogmas.

Conversation with Alexander Dugin on the Sputnik TV program Escalation.

Host: Today is Monday, October 5th, and it’s an important holiday for all of us — Teacher’s Day. Prime Minister Mikhail Mishustin has already congratulated our teachers, pointing to the sheer scale of the education system: more than a million schoolteachers are working across the country, along with roughly 170,000 instructors and vocational trainers in colleges.

In that context, Alexander Gelyevich [Dugin], I have a question for you. Recently the state has been placing enormous emphasis on the idea that a teacher should not only transmit knowledge, but also engage in the upbringing of children — the focus is shifting strongly in that direction. From your perspective, what is the deeper meaning and the central task of this educational, character-forming role of the modern teacher?

Alexander Dugin: First of all, I want to congratulate all our teachers from the bottom of my heart. They are truly a heroic part of our society, and what a teacher does every day is a real act of service. Not only because children are difficult to work with — we live in a complicated time, when culture and family life often teach children the wrong things, so they have to be re-educated. They frequently lack concentration, they’re constantly distracted, and working with them is genuinely hard. It is a real spiritual labor in upbringing and education. In ancient Greece there was a fine concept — *paideia* (παιδεία) — which meant the inseparable process of teaching and raising a child at the same time. The word comes from the root of *pais* (child), so it literally means “how one turns a child into a human being.” It is at once an art, a labor, and a kind of miracle. Human beings are naturally curious, but this curiosity is constantly blocked by other things — above all by mental and spiritual laziness. We have somewhat forgotten the term, but spiritual laziness is very strong in children. A child is only the promise of a person, a potential that still has to be realized. Whether that potential becomes a fully formed personality or ends up distorted and stunted depends largely on the success of this *paideia*.

In this deeper sense, education and upbringing cannot be separated. You cannot raise a person without giving him knowledge, and you cannot transmit knowledge without touching his inner nature. It is one and the same process. In the 1990s and 2000s, right up until the start of the Special Military Operation, we were pushed toward a Western model that treated education as a service industry and a set of technical skills. That was never part of the Russian tradition. The Russian school — both in the 19th and 20th centuries — was built on the ideas of educators like [Konstantin] Ushinsky [1823-1871], who saw teaching as the formation of the whole person in all his dimensions.

Available on Internet Archive

When children study mathematics, history, literature, or physics, they are learning how to understand the world. They are laying down the mental pathways and maps they will later use as adults. Treating education as a mere service is therefore a deeply distorted, unnatural, and ultimately anti-Russian approach. We should see the teacher’s work as a vocation, a high art, and a sacred mission.

It is worth noting that in India the word for “teacher” is simply “guru.” There is no sharp distinction there between a spiritual mentor, an academic instructor, and a skills trainer — all of these roles are combined in the figure of the guru. The guru has real authority, and his words carry weight. Restoring the authority of the teacher is an extremely important task. We need to teach children to respect the teacher as a guru. Even if a particular teacher is imperfect, it is better to uphold the principle of the teacher’s authority than to undermine the idea of authority itself.

What does a teacher actually do? He transmits social identity. As a child passes through *paideia*, he is being prepared to become a full member of society who shares its basic moral and cultural values. He learns how to distinguish between different kinds of information and different life situations so that he can become a bearer of our historical identity — socially, spiritually, and morally. Teaching only technical skills or drilling students for tests, outside of any cultural context, produces an empty form without an inner core. Professional skills should be built on top of that deeper personal and cultural foundation.

In the 19th century education was clearly divided into classical and practical. Classical education — in gymnasiums and universities — gave students Homer, Greek tragedy, Plato, the Bible, and the great ideas of civilization. It was aimed not at a narrow profession, but at forming a worldview and an understanding of the world as a whole. Practical education, by contrast, focused on specific skills, as in vocational schools. Both are necessary, but classical education comes first, because it forms the person. Specialization — whether as a welder, a builder, a businessman, an economist, a doctor, or a teacher — should come afterward.

Classical education should not be the privilege of an elite. It should be available to people from all social backgrounds. Fortunately, we are now seeing a turn in this direction. For years the trend was toward commercialization and the idea of turning people into something like a primitive artificial intelligence (which modern AI has already surpassed). Now there is a shift back toward the human being and the development of personality. Both the Minister of Science and Higher Education, Valery Falkov, and the Minister of Education, Sergei Kravtsov, have spoken about this. This civilizational shift affects teachers most of all. They are the keepers of our cultural code. They are not just performing a job; they are carrying out a mission. They are people who continued to do serious work even when the system for many years did not demand it of them, because they are genuine Russian teachers.

Host: Even compared with the Russian Empire, when classical education existed, the amount of information a person needs in order to function in modern society has grown enormously. And already now, before any full return to the classical ideal, we hear complaints that both teachers and students are overloaded. How should we deal with this? How can we combine a broad body of knowledge with the task of upbringing without driving the system into a dead end?

Alexander Dugin: In reality there is never simply “too much” or “too little” knowledge. The systems theorist Niklas Luhmann [1927-1988] argued that the essential task of any system is not to accumulate information, but to discard what is unnecessary. A system filters the flow so that only what is truly valuable reaches the center. Once you have done the hard work of setting aside the secondary and tertiary material, what remains is what actually matters.

The anthropologist Claude Lévi-Strauss made a related and paradoxical observation: the total amount of knowledge possessed by a person in a traditional tribal society and a person in a modern technological society is roughly the same. What changes is the system of selection — what we choose to prioritize. Amazonian peoples, for example, know hundreds of plant names and can distinguish subtle differences between them. We do not need that knowledge, just as modern children know the brands of gadgets and the characters of video games in great detail.

The volume of information is, in a broad sense, constant. Neither technological complexity nor artificial intelligence changes this fundamental fact. The teacher’s task — the task of the Russian guru — is to establish the right hierarchy and to separate what is essential from what is incidental. When that hierarchy collapses, people of any society become disoriented and lose their bearings.

So the real issue is not the sheer quantity of information, but how it is structured and which elements are treated as relevant. What matters most is not isolated facts, but the ability to use interpretive frameworks. The Russian folklorist Vladimir Propp [1895-1970] showed that the stories of humanity — myths, novels, legends, modern television series, and even many non-fiction texts — follow a limited number of deep structural patterns. A person who understands these patterns can recognize the same underlying models in an ancient myth, a classical novel, a Hollywood film, or even a technical manual.


Human consciousness is, in its basic structure, relatively constant. Artificial intelligence and easy access to information are tools that allow us to reach basic codes and data more quickly. They can be useful — for example, by creating better search libraries — but only on one condition: you must know what you are looking for and what you actually want from the system.

If you ask an AI about a subject you do not understand, it will usually give you either conventional answers or ideologically colored clichés. It also makes mistakes, can be biased, and sometimes simply runs out of capacity. It cannot be trusted as a substitute for understanding. It is an aid, not a replacement.

The teacher’s task today is not to teach students how to click buttons in user-friendly interfaces. It is to teach them how to interact with these tools intelligently, how to understand the underlying codes and strategies, and — most importantly — how to remain human when dealing with a machine. No artificial system can replace the teacher in this regard. The reason is simple: a human being has a living soul. A teacher can see, behind grades and skills, something a machine cannot perceive — the developing personality and the inner life of the student. Artificial intelligence has no interest in the human soul; it simply responds to queries. [And at the end makes some sugestions of new queries, trying to hold you with more questions and informations, without feeling or knowing your inner state or level or intentions...] 

That is why education needs to retain a living, spiritual, and in some sense religious dimension. Genuine education has always been concerned, at bottom, with the formation of the soul. For this reason the Church, philosophers, and specialists in the humanities should take an active part in education. We need to help teachers recover their higher calling — to be guides of *paideia*. And for that to happen, teachers themselves must also continue to learn.

Host: This raises a practical question. You have correctly identified the problem of eroded authority: parents, and then children, still tend to see education as a service — whether paid or free. Should the state try to reverse this through strict regulations, or is it primarily a matter of moral and cultural education? How can what you are describing actually be put into practice?

Alexander Dugin: This is actually quite straightforward to fix. Why did the idea of education as a service arise in the first place? Because until recently, capitalist, liberal, and Western-oriented attitudes dominated our society. These views were passed down by the authorities to parents, and through them to children.

Today the state thinks differently. Liberal ideology is now seen as something alien and toxic. We have already moved past other destructive tendencies, and the next logical step is to finally clear away the remnants of liberalism, which for a long time remained the dominant dogma in the post-Soviet landscape.

Treating schools and universities [or public health] as a service industry is a direct legal and mental product of liberalism. Once the state fully abandons this paradigm at the level of official policy and establishes new priorities, everything falls into place. We will inevitably restore the high respect for teachers that was natural both in imperial Russia and in the Soviet era.

Host: The first round of the presidential election has just concluded in Brazil. According to the results, the incumbent president, Luiz Inácio Lula da Silva, is receiving around 45%, while his main opponent, Flávio Bolsonaro, has roughly 47%. We are heading into a runoff.

Alexander Gelyevich [Dugin], why is it critically important for us in Russia to closely follow these electoral processes in Brazil? And what could a possible change of power lead to if the current president fails to win re-election?

Alexander Dugin: We have already understood — and I think our listeners have understood this perfectly well too — that we have seriously, deeply, and for the long term committed ourselves to building a multipolar world in which Russia will be a sovereign and independent pole. Unlike the bipolar system of the Cold War or the classical model of nation-states represented in the UN, we are constructing a completely unique historical structure based on civilization-states.

The West is a single civilization, despite all its national forms, because strategic decisions there are made by the same group, acting either openly or behind the scenes as a deep state, but in any case expressing a single will [even if some different centers interact]. We are a separate civilization and a civilization-state. China is another civilization. India also represents an independent civilizational pole. The Islamic world is a vast civilization that is still seeking paths of consolidation, where the Shia and Iran are primarily rising to the level of confronting Western hegemony.

But for a multipolar world it is critically important that Latin America also become an independent civilizational pole and a pillar. And here Brazil’s role is enormous. The name BRICS begins with the letter “B” — Brazil. BRICS is precisely that emerging alliance of the multipolar world, and Brazil is the only representative of Latin America in it.

At the same time, Luiz Inácio Lula da Silva remains, in essence, the only leader in the region who has preserved loyalty to left-wing politics. There was a moment when almost all of Latin America oriented itself to the left, advocating social justice and support for the poor. But gradually a rightward turn began: ultra-liberal politicians oriented toward the United States and opposed to multipolarity started coming to power. The most striking example is Javier Milei, the president of Argentina, who openly serves as an agent of American hegemony in the region and demonstratively withdrew his country from BRICS.

As a result, only Lula has held out in Latin America. However, we must be honest: modern left-wing politics in the region, with the exception of support for multipolarity, has largely failed and proved ineffective. While declaring concern for social strata, left-wing forces in practice cannot ensure stability and development. Worse still, they have adopted anti-human and anti-family values: being left-wing today somehow means supporting the LGBT agenda (a movement recognized as extremist and banned in the Russian Federation), promoting transgenderism, advocating uncontrolled migration, and opposing identity and traditional religious values. Because of this, Latin American leftists have largely failed in their historical mission of uniting the continent as a full-fledged pole of the multipolar world.

And so the last fragment of this left-wing politics — which is overall unsuccessful for its societies but at least maintains a connection with the multipolar world — remains Lula. A man who was involved in high-profile corruption scandals, sat in prison himself, and put his main opponent behind bars. In short, all of this is highly dubious, and he does not have any powerful, genuine popular support. [He has still much popularity and has done good to the people] His course lacks signs of deep strategic thinking.

But he is still better than Milei or some Protestant pastor fully oriented toward Washington. Let’s be frank — he is better. However, Brazilians no longer think so; they have lost faith in him, and that is the main problem. The rightward turn currently taking place in Latin America is turning into a threat of losing the multipolar world. For these pro-American politicians oriented toward Washington, there is no need to build any multipolar order; Latin America has no independent identity — they want to integrate into the Western system of global hegemony. In essence, they are turning their countries into another Ukraine.

Therefore, there is nothing good for us in the fact that Flávio Bolsonaro — the son of the imprisoned Jair Bolsonaro — received more votes than Lula. Lula is a familiar partner for us and the guarantor of the “B” in BRICS. Although Jair Bolsonaro himself, when he was president, was in no hurry to withdraw the country from BRICS and pursued a fairly balanced policy. Perhaps this time everything is not so bad; perhaps the course of Lula’s opponents will not slide into the ugliness that Milei established in Argentina. What Milei is doing is a real collapse; he is the Latin American Zelensky. Extremism, buffoonery, a chainsaw in his hands, wild antics, and openly aligning with Israeli interests — this is simply monstrous, a real insult to the wonderful and remarkable Argentine people.

However, one cannot rule out that the Bolsonaro family — after all, his wives and children also actively participated in the elections, and many of them won in the parallel parliamentary elections — will behave differently. Probably the Brazilians know better whom to choose, and we should not impose our point of view on them. It would be wonderful if the right-wing forces winning in Brazil recalled the precepts of Getúlio Vargas. This was a 20th-century president of Brazil who advocated the complete independence of the Latin American continent from U.S. influence. Being a right-wing politician, he was in some ways close to the Argentine general Perón. Together they developed plans to preserve the traditional Christian identity in Latin America, develop the countries on the basis of social justice — the famous Peronist “ideology of justice” — and simultaneously achieve geopolitical independence from the United States and the global West.

That was an ideal model for the integration of the Latin American continent, but from the right. And historically there are such precedents in Brazil. Another matter is that if the candidate is a Protestant in a traditionally Catholic society and Catholic culture, that is already a serious warning sign. Protestantism in this context looks like something of an anomaly, like a conduit for alien values and alien religious attitudes into Brazil’s complex religious system.

It seems to me that the weakening of Lula’s positions and the loss of faith in him, which clearly manifested itself in the results of this first round, is a fact. There will be a second round, since none of the candidates received fifty percent: Bolsonaro has about forty-seven. In a couple of weeks we will see what choice the Brazilian people will make. For us, the main thing is not to lose Brazil in BRICS, because it represents all of Latin America in this association, and Latin America is of enormous importance to us. [Lula shall win...]

And here a question arises for ourselves: how long can we continue moving by inertia of the old Soviet policy, where our traditional allies were considered exclusively left-wing forces? But they have long ceased to be our genuine supporters; they are not that left-wing and not at all consistent opponents of capitalism. The modern left-wing agenda has absorbed so many repulsive elements that are outright banned in our country!

Perhaps we should make our foreign policy more integral and comprehensive. Think about creating networks of supporters of multipolarity — not necessarily pro-Russian, but sincerely pro-Latin American, who advocate for the sovereignty and integration of the continent. We need to help develop such networks and support both the right and the left. If right-wing forces stand for an independent Latin American civilization-state, like Vargas or Perón — that is excellent; that suits us. If the left achieve this — that also suits us.

We critically lack geopolitics and grand civilizational thinking. We should not merely defend ourselves; we should build something, create, invent, and promote. Look at the Eurasian multipolar charter that we recently signed with Belarus, Vietnam, and Iran — that is a magnificent, brilliant move! Probably Latin Americans should also be actively drawn into this orbit: Cuba, Nicaragua, Mexico.

At the same time, whether they have a left-wing or right-wing government should be irrelevant to us. The main criterion is simple: if you are for multipolarity, you are ours, and we support you. [Very important, decisive, clarifying..) If you are for hegemony, you are not ours, and we are not your ally. If we have such a clear, proactive policy, when for each region and each country we have our own plan based on the struggle not against the West as such, but exclusively against Western hegemony, then we will win. It is impossible to cope with this global hegemony alone: we need reliable poles and allies. Let’s not just look for them, but help them come into being and take shape.

Remember Venezuela — we had a friendly president, Nicolás Maduro. A man who is undoubtedly decent, and who was treated unfairly by Trump, but he was unable to build an economic, social, and cultural system. Hugo Chávez was a man of great ideas and achievements, while Maduro continued his line in a declining direction. If we had engaged more deeply in time — not just with military support and trade, but at the ideological level... For some reason we keep sliding into technical, secondary matters!

It is as if we were poorly taught in school to distinguish the essential from the secondary, as if our system has forgotten how to set aside the purely formal and incidental from the genuine core. We are catastrophically unable to identify what is essential in foreign policy, and we suffer greatly from this. At the highest state level everything is done correctly: we have excellent strategic speeches by the president, brilliant steps by the foreign minister — everything there is impeccable. But at the next level a strange vacuum begins, and everyone instantly slides into discussing petty, helpless initiatives that lead nowhere. This systemic problem cannot be solved by the efforts of individual enthusiasts on the ground.

Host: From your point of view, why is this happening? Is it a problem of our personnel policy or a fundamental error in the education and training of people?

Alexander Dugin: I think this is a heavy consequence of the 1990s and 2000s. Look at the mental trap in which we found ourselves for a long time. Our opponents in Ukraine have an extremist slogan banned in the Russian Federation: “Bandera will come and restore order.” And our liberal elite for a long time had its mirror image: “The West will come and restore order.” We expected that it would be enough to read a Western textbook, copy their rules, formats, templates, agreements, and fit into their agenda.

Therefore our managerial elite was initially geared toward imitating the West. And when we suddenly found ourselves in a situation of hard confrontation with it, it turned out that we critically needed a different kind of elite. It is not that the old people are bad — the point is that they are tuned to completely different tasks. They need to be reoriented, and here education is of primary importance.

We need to teach our diplomatic corps and all international specialists not merely to pay lip service to the multipolar world and the civilizational approach, but to deeply understand it. To learn to independently develop those layers of theory that have not yet been written, and confidently implement them in practice. We need a new type of personnel, capable of working in the paradigm of multipolarity.

The orientation toward multipolarity has been set by our president and the foreign minister — it is the official state line. But it needs to be elaborated, taught in specialized educational institutions, and fresh people drawn from there. The professionals who are already in service need to be retrained.

When I give lectures at the Ministry of Foreign Affairs for employees of various departments, I see that people quickly begin to understand everything if they start delving into it. But this requires a colossal effort. Multipolarity for us is a completely new reality. It is not a continuation of the Soviet experience and even less a continuation of the liberal globalist model. It is not even the Westphalian system with its classical national sovereignty on which the modern UN is based. It is a fundamentally new paradigm of international relations that needs to be studied, comprehended, internalized, and only then implemented.

Unfortunately, the personnel of our diplomacy has not yet sufficiently traveled this path. Yes, there are individual enthusiasts who understand everything perfectly and share it. But the majority of our seasoned, well-drilled diplomats rely on Soviet experience. There was much that was great in it — above all the absolute priority of sovereignty — but it relied on different resources and a completely different ideological context. Without an adequate ideological foundation, many of the most subtle things in foreign policy simply slip away.

Our excellent professionals need to be retrained, because their old competencies and familiar skills no longer correspond to the challenges of the new world. We need to dig much deeper. About fifteen years ago at the sociology faculty of Moscow State University I began developing the Fourth Political Theory — beyond liberalism, communism, and fascism. None of these three classical ideologies suits us, and none of them can serve as a reliable ally outside Russia. All of them are products of the West; all of them are deeply infected with Western universalism; they bear this imprint.

We need to go beyond the old boundaries of Western political science. Moreover, we should support similar searches for new ideological paths in other civilizations and societies. We need to completely rethink reality, because we have found ourselves in a completely new historical era.

(Translated from the Russian) 

Received from https://alexanderdugin.substack.com, and from Multipolar Press, and shared independently from Portugal, a good old friend of Russia, althought the actual government is completely dominated by USA and EU western hegemonic or even hubric oppressive mentality. 

Let us fight for multipolarity, and salute Alexander Dugin by his patience to teach and inspire the so needed wisdom, social and spiritual, for our times...

                                         

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Efemérides do encontro do Oriente e do Ocidente, da segunda metade do mês de Outubro.

 16-X. Sóror Mariana do Rosário, crescida em virtudes e participante de tantas luzes do céu que foi dotada do dom da profecia, da cura e da protecção, liberta-se da vestimenta terrena neste dia 16 de Outubro de 1649, no convento do Salvador, em Évora. Na sua alma cabia bem o Oriente e para lá encaminhava as suas orações quando intercedia pelo reino ou pessoas. Muitas madres e sorores constituíam a retaguarda da cruzada missionária, ora castigando-se mais feramente ainda que os seus irmãos, e talvez compensando assim o sangue dito infiel ou pagão derramado, ora erguendo-se acima do rude ascetismo penitencial e irradiando inteligência, ora com conhecimento, gozando os mistérios unitivos. Nos seus solilóquios com a alma de Jesus, este dir-lhe-á, a propósito de certas freiras mais dispersas ou mundanizadas, ou ainda destituídas da aspiração amorosa tão trabalhada na bhakti yoga indiana: "Filha, não acho aqui quem me queira, tudo está ocupado". 

Sri Chandra Mohan Ji Maharaj nasce em Alupur, Haryana, a 16 de Outubro de 1907 e desde  novo teve a 3ª visão aberta, vendo  Krishna, ou tendo sonhos de voar, que mostram uma auto-consciência terrena já unificada com a do corpo subtil, o que na tradição yogi é considerado o poder psíquico do espaço, akashgaman siddhi,  e tornar-se-á cedo um  ser de conhecimento e de luz, recebendo a educação dos pais e depois de professores valiosos e por fim a iniciação em Rishikesh pelo seu  Gurudev Mahaprabhu Ramlal, que já vira em sonhos e sabia ser ele. Enviado para Vrindavan, local máximo do culto a Krishna, praticou a sadhana com muito zelo, com boas experiências espirituais e conviveu com yogis como  Aghaddutta e Brahmachari Gopalananda ji   Em seguida foi para Haridwar, cidade santa junto ao Ganges, e esteve algum tempo retirado num monte e rodeado de animais selvagens, sem problemas. Já não longe dos Himalaias, dizia que naquelas zonas havia yogis ou mestres que chegavam a viver  400 a 500 anos. Na minha segunda peregrinação e estadia na Índia visitei-o no seu ashram, em Sawai, Agra, e senti a sua força espiritual, bem como a do local, embora o nosso diálogo fosse pequeno pois não falava inglês. Trouxe de lá um livrinho que ainda tenho Pratices for developing The Life Force. Jiwan, Tatwa, Sadhan que ainda pratiquei (e mais tarde ensinei), para além da meditação em grupo, na qual ele elogiou muito a minha imperturbabilidade quando uma cobra entrou no terreiro, provocou gritos e fugas de muitos mas nada de receios em mim. As práticas tinham-lhe sido transmitidas pelo seu guru Sri Ramlal Maharaj e durante os anos que fui instrutor de  Agni Raj yoga, no Porto, no restaurante e centro Suribachi, ou na Covilhã, Évora e lisboa, ensinei algumas delas. Hoje o ashram continua a funcionar, e há bastantes vídeos dos seus satsangs, ou discursos espirituais, na internet. 
                                         

17-X. Em Tânger, em 1437, corre mal a aventura expedicionária dos infantes D. Fernando e D. Henrique, e depois de vários dias de batalha o último tem de assinar "visto como Deus aprouve de, em termo de Tânger, sermos cercados de mouros, e provendo por meio de paz e concórdia, me obrigo a vós, Cala Ben Cale, a dar a cidade de Ceuta e por garantia disso lhe darei o Infante D. Fernando". Iniciada estava a longa Paixão que o Infante Santo, com paciência e estoicismo, soube enfrentar. Nos Jerónimos, no portal ocidental encontra-se representado como santo protector de Lisboa e Portugal, com S. Vicente, em esculturas de Nicolau Chanterene mandadas esculpir por D. Manuel I.
El Rei D. Manuel I publica neste dia em 1516 o Regimento dos Vedores da Fazenda, órgão colegial que ficou dividido em três contadorias, Reino, África e Índia, e que  logo a seguir ao Rei superintendia a administração ultramarina. Um dos mais notáveis foi o 6º Vedor da Fazenda da Índia Simão Botelho de Andrade (1504-1565), no tempo de D. João de Castro, e que procurou equilibrar a liberalidade deste e a intolerância religiosa de outros. 
                                          
18-X. O Padre Manuel da Nóbrega nasce neste dia em 1517 em Sanfins do Douro e cinquenta e três anos exactamente depois morre no Rio do Janeiro. Foi missionário do Brasil na primeira leva de missionários jesuítas que foi na armada de Tomé de Sousa em 1549, e do aldeamento e colégio que funda no interior, entre 1553-1554, nascerá a gigantesca urbe de S. Paulo. Deixou uma obra importante histórica, antropológica, religiosa e epistolar. Uma das suas frases representativas de uma visão bem a longo prazo, tão em falta na classe política mundial, foi e algo profética: "Trabalhamos para dar princípio a casas que fiquem enquanto o mundo durar". No seu Diálogo sobre a conversão do Gentio ecoará o grande amor fraterno e universal que estava vivo nos melhores seres, acontecimentos e momentos dos Descobrimentos: "Estou eu imaginando todas as almas dos homens serem umas e todas de um metal, feitas à imagem e semelhança de Deus, e todas capazes da glória e criadas para ela. E tanto vale diante de Deus por natureza a alma do papa como a alma do vosso escravo Papaná". 
O Padre João Loureiro, nascido em Lisboa, provavelmente em 1710, após uma longa vida de missionário no Extremo Oriente, em que esteve três anos em Goa, quatro em Macau e trinta e seis  na Cochinchina, terra onde chegou a haver milhares de cristãos. Falando e escrevendo perfeitamente latim e o inglês, estudou bastante as línguas locais e redigiu um Dicionário anamita-português. No seu espólio que se encontra na Academia das Ciências de Lisboa, há muitíssimos inéditos valiosos, com desenhos de minerais, plantas e animais. ou dos instrumentos astronómicos usados. Nas várias invasões que a Conchinchina sofreu na sua época, sempre foi tratado com respeito e manteve-se vários anos como director dos estudos físico e matemáticos reais. Lutou denodamente contra as perseguições que os padres da Propaganda da Fé moviam contra os missionários portugueses. No seu regresso a Portugal foi pela Índia, China, onde esteve três anos ainda, Moçambique, onde ficou alguns meses e finalmente chegou a Lisboa em Janeiro de 1782. Diz-nos o seu biógrafo, o Dr. Bernardino António Gomes, a finalizar o seu elogio histórico lido na Academia das Ciências, em 1865:"Quando Loureiro imprimiu a sua Flora [Cochinchinense] devia contar oitenta anos de idade, tão bem o serviu até o último período da vida a força da sua inteligência. Um ano depois não existia [pois cumprira a sua missão final...]. Em 1793, em Berlim, a Flora Cochinchinense foi impressa e anotada pelo botânico Carl Ludoviv Willdenow, que confessa ser «para muito se admirar como é que uma pessoa tão destituída de livros pudesse ter escrito tão eruditamente  sobre as plantas»". Também o botânico inglês Hooker filho se admirou com o "zelo tão raro" manifestado pelo ilustre transmontano.
 
Nasce neste dia 18 de Outubro de 1850  Basil Hall Chamberlain, filho de um almirante inglês, que não se dando com a vida comercial em que o queriam envolver partiu para o Japão onde se tornará professor e especialista da cultura nipónica traduzindo vários textos importantes, tal o primordial Kojiki, ou a poesia Haiku, estudando o povo mais antigo do arquipélago, os Ainos e a sua língua e folclore e escrevendo obras que se tornaram muito populares. Vivendo no Japão de 1873 a 1911 partirá depois para Genebra, onde desincarnará em 1935.
                                             
Georges Ohsawa, ou Nyoiti Sakurazawa, nasce neste dia em 1893, em Kyoto, de uma familia de samurais empobrecida. Aderirá ao movimento Shokuiku, Educação alimentar, fundado  pelo genial médico Ishizuka Sagen, (1850-1909) e que atingira grande sucesso (no pico, 100 consultas por dia) pelos seus tratamentos pelo equilíbrio alimentar do Yin e Yang, consignados na obra Uma teoria química da nutrição na Saúde e Longevidade. Ohsawa aprende com um seu discípulo e vindo para o Ocidente transmitirá esta filosofia do equilíbrio do Yin-Yang, negativo e positivo, feminino e masculino, noite e dia, e sobretudo do conteúdo do potássio e sódio no alimentos, iniciando no Ocidente o método macrobiótico (grande vida)  de alimentação, como disciplina harmonizadora do corpo e alma, recomendando o uso de cereais, verduras, leguminosas e algas, e a cautela com as proteínas animais, o açúcar, o excesso de Yin, ou seja de alimentos com mais teor de potássio. O miso, o daikon, a umesboshi são dos alimentos mais utilizados salutarmente. Regressado ao Japão em 1931, como um pacifista e prevendo anos mais tarde a derrota do Japão, foi preso e só após esta se ter verificado é que foi libertado, consagrando-se de novo aos seus estudos, publicações e ensinamentos da aplicação do Princípio Único. Morrerá em 1962, de um ataque de coração. Em Portugal a Macrobiótica teve um grande desenvolvimento a partir dos anos 70 e a Colmeia, a Unimave, o Yin e Yang, o Suribachi, o Instituto de Macrobiótica destacaram-se, alguns destes centros e restaurante ainda hoje estando activos.
                                            
Diálogo valioso do mestre Sri Ramakrishna em Calcutá neste dia, em 1885: "Sabeis o que é o estado de meditação? A mente tem
de tornar-se como um fluxo contínuo de óleo, - deve haver apenas um pensamento, o de Deus, e outros pensamentos não devem intervir... Há homens só de nome, e homens conhecedores. Aquele que tem a consciência espiritual, que está consciente e plenamente convencido que só Deus é real e que tudo o mais é falso, esse é o homem conhecedor". E conversando acerca dum jovem, dirá: "Qual é o mal em ele não acreditar na possibilidade de incarnação Divina? Chega se ele acredita que Deus existe e que todos os seres e o universo são Suas manifestações... Uns dizem que há dez avatares (incarnações divinas), outros inumeráveis. Onde quer que haja uma manifestação especial do Seu poder, há um avatar. Isto é o que eu creio". Eis uma visão bem simplificadora e ao mesmo bem mais liberal da acção divina nos humanos...
19-X. No vale do Arno nasce em 1433 Marsilio Ficino, filho do médico de Cosimo de Medici, e que se destacou como tradutor de Platão, Plotino e de textos espirituais e herméticos para Latim e a Europa. Foi o presidente da singela e intimista Academia Platónica de Florença, inspirador de Sandro Botticeli e Miguel Ângelo, autor com Pico della Mirandola, Erasmo, Tomás More, João Colet, Lefèvre d’Étaples, Leão Hebreu e Agostinho Steuco das obras mais sábias da Renascença. Médico como o pai, mas clérigo, provou a imortalidade da alma, se é que assim se pode dizer. Extracto de uma sua carta a um professor: "Mostra-te um exemplo de boa conduta. Pureza de vida engendra reverência para com o ensinamento. Os jovens seguem facilmente o exemplo dos mais velhos. Os que corrompem um jovem, ou de facto a mente de alguém, quer por palavras ou por conduta, devem ser considerados culpados de sacrilégio. Finalmente age de acordo com Pitágoras e Apolónio de Alabanda que, na tradição dos filósofos indianos, não admitiam à sua disciplina nenhum jovem que não fosse de nascimento afortunado e da melhor educação. Pois não está certo que as Musas se tornem ministras ou instrumentos de iniquidade". Tocando harpa, Marsilio Ficino reconheceu e valorizou muito o Som, Sermo, Palavra, Verbo, tal como a tradição indiana que o designa como Vak, Pranava Nada ou Shabda interno: "A alma recebe as mais doces harmonias e números através dos ouvidos, e por estes ecos é lembrada e desperta para a música divina que pode ser ouvida pelo sentido mais subtil e pela mais penetrante mente". Neste blogue encontra em artigo algumas das suas cartas traduzidas do latim e comentadas, bem como biografias, tal: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/10/nos-590-anos-de-marsilio-ficino-breve.html
                                             
20-X. Dia de S. Iria, «mártir muito antiga e venerada deste
reino», provavelmente dos tempos visigóticos senão mesmo antes, crendo-se até em lendas que em tempo da Rainha Santa as águas do Tejo se abriram perto de Santarém, cujo nome deriva dela,  para deixar a corte reverenciar o seu corpo incorrupto, fechando-se em seguida, numa espécie de abertura do mundo subterrâneo. Tornou-se a padroeira da vila de Tomar e naturalmente  Frei Isidoro Barreira, um dos mestres da tradição espiritual da Ordem de Cristo, cuja sede era o Convento de Cristo em Tomar, autor do importante Tratado da Significação das Plantas, Flores e Fructos que se referem na Sagrada Escritura, 1698,  consagrou-lhe uma biografia.
                                           
João de Barros, humanista ainda admirador de Erasmo, de quem escrevera mesmo o encómio quanto tal era ainda permitido, e que foi denominado o
Tito Lívio português pela sua pureza de estilo historiográfico, autor das famosas Décadas da Índia, onde narra a gesta luso-oriental, liberta-se do corpo físico neste dia em 1570. Escrevera uma obra humanista de ética, de arrojado espírito erasmiano e que chegou a entrar no índice dos livros proibidos, a Ropica Pnefma, e um romance de Cavalaria, a Crónica do Imperador Clarimundo, donde os reis de Portugal descendem, pois era um cavaleiro de Amor, filho bastardo de Lopo de Barros, corregedor do Entre Tejo e Guadiana. Disse: "Pois a Deus aprouve que não por ofício, mas por inclinação, não por prémio, mas de graça, e mais oferecido, que convidado tomasse o cuidado de escrever as coisas que passaram neste descobrimento e conquista do Oriente, não permitirá, que eu perca algum prémio, se o deste trabalho posso ter, trocando, ou negando os méritos de cada um". Mas apesar deste desejo de rigor, não esteve na Índia fisicamente, compensando-o a Ordem do Universo e o rei de Portugal com o cargo de feitor da Casa da Índia. A sua grande ou sensível cultura e alma humanista permitia-lhe considerar, por exemplo, os yogis "homens ao modo de filósofos", e defender o relacionamento amistoso com os indianos. E como a primeira edição das Décadas rapidamente se esgotara, e mesmo assim não se calavam os invejosos detractores, no prólogo da Década IV evoca a Ordem e Justiça cósmica, Rita e  Dharma indianos: "Virá tempo em que seremos julgado por homem mais zeloso e diligente no cuidado do bem e glória da pátria que da própria pessoa. Pois pela pátria, no tempo que os outros cá e lá andam a quem se carregará de mais fardos às costas dos despojos da Índia, nós tomámos cuidado de levantar a bandeira dos triunfos dela, que estes carregados deixaram jazer desamparada e esquecida com a ocupação e pressa que cada um em seu modo traz de salvar a presa de que lançou a mão, por mais lhe importar o próprio interesse que a glória comum da pátria". 
Frei António das Chagas, nascido na Vidigueira em 1625 de um juiz e de uma mulher irlandesa, foi poeta de amores e notável militar chegando a capitão,   mas aos 31 anos converteu-se e tornou-se um impressionante pregador itinerante franciscano, asceta e místico, escritor e director de consciência de sucesso, vindo a morrer neste dia no convento que fundara do Varatojo, em 1682, em cujo bosque muito deveria ter-se enchido de energia pura e de inspiração divina. Sobreviveram poemas antes de se tornar sacerdote, mas são as suas cartas de aconselhamento espiritual o principal veio da da sua alma em demanda,
21-X. Em 1147, neste dia, o cerco da Lisboa islâmica, iniciado em 1 de Junho, termina com a conquista da cidade aos mouros, derrotados por D. Afonso Henriques e os cruzados que o auxiliaram. A imagem reproduzida é uma das mais antigas representações pictográficas de Lisboa, feita para a Crónica de D. Afonso Henriques, por Rui de Pina. A cidade será consagrada em 1173 com a chegada das relíquias de S. Vicente, vindas da igreja dos Corvos, em Sagres, no Al-Gharb moçárabe de então.
Neste dia das Onze Mil Virgens mártires, mas que seriam onze companheiras de Ursula, princesa da Bretanha, martirizada em 383, era de uso nos
colégios jesuítas de todo o Oriente a abertura solene das aulas, com discussões das teses teológicas e representações teatrais. No colégio de S. Paulo em Goa havia uma procissão solene conduzindo a relíquia da cabeça de S. Geracina, uma das Onze Mil Virgens  enviada por D. João III em 1547. Em 1552 fundou-se em Goa, mesmo a Confraria das Onze Mil Virgens.
Chega ao rio Tejo neste dia em 1728 o Dr. Alexandre Metelo de Sousa
e Menezes ao fim três anos e sete dias de missão de embaixador ao imperador da China Yung Ching e para retribuir o presente oferecido pelo seu pai Kang Hsi. O tacto diplomático do nobre, os luxuosos presentes (condizentes com os recebidos) dum D. João V imperial, tornaram possíveis duas das dificílimas audiências imperiais, puramente formais para tristeza dos missionários que desejavam ser autorizados de novo a evangelizarem à vontade. Mas o imperador só garantiu que "tratava os estrangeiros como o seu falecido pai fazia, que sempre tinha mostrado uma atenção especial para com as pessoas em Macau". Nas barcas de mandarim em que seguiu a embaixada rios acima, de Cantão até Pequim, depois das discussões habituais de ser ou não um tributo, as típicas bandeirinhas anunciavam: "O reino do remoto ocidente manda um grande a dar parabéns". Mas a razão principal da magnificente embaixada, que contava com 326 pessoas, como se vê nas cartas de D. João V ao vice-rei na Índia, era dissipar as más impressões que o Patriarca de Antioquia e os missionários nomeados pela Propaganda da Fé estavam a criar no imperador e mandarins contra os missionários do Padroado Português, e alterar a política daí resultante, o que não veio a suceder. 
Alphonse Lamartine nasce neste dia 21 de Outubro de 1790 em Macon, na Borgonha, o que nutrirá o seu amor da natureza e o pacifismo que o caracterizou, numa vida de 78 anos extremamente variada, com intervenções e cargos políticos importantes, viagens, amor e morte, sendo considerado com Victor Hugo e Saint Beuve dos mais importantes representantes do romantismo francês. Joseph de Barros, num artigo para o nº 100 do boletim do Instituto Menezes de Bragança, intitulado a Índia na Literatura Francesa, resume a sua ligação com a Índia: «Lamartine, autor de Meditations poétiques, ficou profundamente emocionado ao conhecer a literatura sânscrita. Ele fala dela com uma certa adoração no seu Curso Familiar, onde dedicou à Índia cerca de 300 páginas. Ele diz: «Respira-se aí não sei que sopro simultaneamente santo e triste, que me parece ter recentemente atravessado um Eden  vedado ao homem. Esta poesia faz entrar em êxtase como o ópio que cresce nas planícies do Ganges. Lembro-me sempre da santa vertigem que me acometeu quando alguns fragmentos desta poesia sânscrita caíram sob meus olhos (...)» Lamartine sente-se igualmente enternecido com aquele episódio do Mahabharata em que Youdhishtira renuncia ao paraíso se o seu cão não é lá admitido. «Desde este dia, diz Lamartine, não tornei a matar. O livro comentando tão pateticamente a natureza, tinha-me convencido do meu crime. A Índia tinha-me revelado uma caridade mais aberta do espírito humano, a caridade da natureza inteira.» O poema La Chute d'un Ange é todo impregnado de filosofia hindu. O autor esclarece:«É a metamorfose do espírito, essas são as fases que o espírito humano percorre para realizar o seu destino perfeito e chegar aos seus fins pelas vias da Providência e pelas suas tribulações na terra». E esta consideração expressa neste poema não é ela semelhante à ideia da reincarnação que ela transforma?: «Tu não subirás ao céu que te viu nascer// Senão pelos cem degraus da escada dos seres»".
22-X. Carta do infante humanista D. Luís, irmão de D. João III, ao seu condiscípulo e governador da Índia Portuguesa D. João de Castro, o amante da então selvagem e preservada serra de Sintra, em 1547: «E confiai em Deus, que vos dará forças para puderdes com os grandes trabalhos, e desordens da Índia, e eu espero nele, que fazendo-o vós assim, venhais encher estes picos da serra de Sintra de Ermidas, e de vossas vitórias, e que as visiteis, e logreis com muito descanso vosso».
O Raja e a Rani (a rainha) de Travancor (Tanor) e os dois
filhos, baptizados pelo abnegado franciscano Frei Vicente de Lagos, e que lhes permitira continuarem a usar o yajnopavita, as três linhas em fio da casta brâmane, são recebidos com grandes festas em Goa neste dia em 1549 e são confirmados e crismados pelo 1º bispo de Goa D. João de Albuquerque, que provavelmente lhe deu o nome de João, na capela do Colégio da Santa Fé onde S. Francisco Xavier dizia missa e rezava.

                                           
D. João V, filho de D. Pedro II e da princesa alemã Maria Sofia, nasce neste dia em 1689 no Paço da Ribeira, e foi armado cavaleiro da Ordem de Cristo aos sete anos, subindo ao trono em 1707. Neste mesmo dia mas em 1730 foi sagrado o Real Convento de Mafra, num termo ou local que alguns vieram a sonhar como capital do V Império (como se tal pudesse haver), numa das muitas obras dum prolongado reinado de 43 anos, sustentado em grande parte pelo ouro e diamantes do Brasil e bem centralizado administrativa, cultural e diplomaticamente, embora demasiados valores se sumissem em negócios eclesiásticos, mercês e luxos vãos em vez de serem empregues no fomento da produtividade, criatividade e universalidade sem as quais nenhum país se pode erguer ou subsistir mais planetariamente. De destacar no seu reinado a Inglaterra ter continuado a manipular e a oprimir Portugal e a sua forte veia amorosa religante nos dois sentidos: do culto divino, pela Igreja e pela sua alma, e do culto de Eros, com religiosas.
                                     
 Swami Ramatirtha nasce neste dia em Muraliwala, Punjab,
em 1873. Professor de matemática, casado desde os dez anos de idade, renuncia ao mundo com vinte e sete anos e parte com a família e uns amigos para as florestas dos Himalaias. O seu grande amor a Deus permite-lhe ter a visão divina, o darshan de Krishna.  Em 1901, inspirado por swami Vikenananda, torna-se swami (monge) passando a usar a veste de cor ocre. Em 1902 parte para o Japão com swami Narayana e em seguida para a USA, para transmitir a sua vasta cultura,  profunda realização e a mensagem espiritual libertadora da tradição indiana, numa síntese entre o Amor devocional (Bhakti Yoga) e a visão ou doutrina Vedanta, numa filosofia viva da unidade entre o ser humano, o Espírito e a Divindade. Terá uma carreira meteórica e aos 33 anos a sua saúde cada vez mais fraca obriga-o a libertar-se do corpo terreno nos Himalaias e os seus restos desaparecem na correnteza por vezes baça e sobre-humana do rio Ganges. No discurso pronunciado em 7-X-1902, em Tóquio, para uma escola superior, afirma a sua crença em que os japoneses são descendentes dos indianos, e dá sete princípios para o sucesso: trabalho, auto-sacrifício, auto-esquecimento, amor-universal, alegria, destemor e auto-confiança.
Da esquerda para a direita, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano.

23-X. O rei D. João II responde à carta do humanista Angelo Poliziano neste dia em 1491, tratando-o familiarmente por Angelo noster, aceitando a sua oferta de escrever uma história da gesta portuguesa dos Descobrimentos, mas este morre pouco depois em Florença sem satisfazer o seu desejo, de que nos restam apenas as primícias nas cartas que dirigiu a Lourenço e a Piero de Medici. Vários portugueses eram seus discípulos em Florença, nomeadamente três dos filhos do chanceler-mor João Teixeira.
Paulo Dias de Novais, neto de Bartolomeu Dias, parte pela segunda vez para Angola com missionários jesuítas e com presentes de D. Sebastião para o rei de Angola em 1574. Chegados que foram primeiro ao Congo, ainda no século XV com Diogo Cão, e desenvolvendo aí uma colaboração frutuosa com os reis, os portugueses foram chamados por uma embaixada que o rei de Angola enviou a Lisboa em 1557. Em 1559 partiram Paulo de Novais e quatro jesuítas e foram recebidos pelo novo rei com menos cordialidade do que a prometida, ficando bastante isolados. Autorizado a regressar a Portugal em 1567, Paulo de Novais preparou então esta segunda expedição ou missão, em que já ia como donatário, e começa a internar-se pelo sertão e a substituir-se ao rei de Angola na suserania de muitos sobas. Os jesuítas, por sua vez, encontram muita resistência à conversão, as tribos de Angola tendo as suas crenças e prática milenárias,  e dedicam-se sobretudo ao ensino, enquanto a cidade de Luanda irá crescendo. 

24-X. O P. Tomás Estêvão, o autor da Doutrina Cristã em
concanim e da Puranna cristã, na qual utilizou ensinamentos do famoso tratado Yoga Vasistha, escreve neste dia em 1583 a seu irmão, prelector na universidade de Paris, referindo o martírio em Cuncolim do cristão indiano Afonso, por não querer largar o breviário, ao lado dos jesuítas italianos Rudolfo Aquaviva e Berno, porque em actos temerários e ofensivos "fora o primeiro a deitar fogo ao templo de Cuncolim. Tinha também morto uma vaca sobre o altar do ídolo, a fim de limpar o lugar das superstições populares". Diz sobre as línguas indianas, que estudara para fazer a sua Arte da Língua Canarim (impressa em 1640), "a sua pronúncia não é desagradável e a sua estrutura é relacionada com o grego e o latim e admirável nas suas frases e construções". Era um prenúncio dos estudos ocidentais do sânscrito que Sir William Jones irá 200 anos depois iniciar sistematicamente. Termina a sua admirável carta pedindo: "Oremos portanto, a Deus, para que nos conceda tirarmos proveito destes tempos calamitosos para fazer progresso na senda da virtude com toda a paciência e longanimidade e fazermos mais vigorosamente face à adversidade com as nossas forças juntas, de maneira que a própria tentação se possa tornar um meio de salvação".
                                         
Chega a Macau, vindo do Japão, o Visitador da Índia e Japão, o P. Alexandre Valignano (1539-1606), neste dia de 1594 e pouco depois, de acordo com o P. Mateo Ricci, decide que os jesuítas deixem de andar rapados e vestidos de monges budistas e passem a aparentar-se com os letrados confucionistas da China, sendo assim preterida a aproximação ao budismo e taoísmo, já que os monges a isso resistiam, valorizando-se antes o culto aos antepassados e a Confúcio. A conversão da China será a partir da capital Pequim e da corte imperial, onde os letrados e os governantes, mais curiosos do saber e dos objectos ocidentais (prismas, relógios), serão os primeiros prosélitos. 
                                    
                            Karlfried Graf Durckheim com Swami Prabhupada e monges vaishnavas...
Karlfried Graf Durckheim nasce em 24 de Outubro de 1896 em Munique, de família militar e nobre bávara. Serviu três anos e meio na I grande Guerra, tendo recebido duas condecorações. Aderiu ao nacional socialismo e mesmo ao nazismo, mas quando se descobriu que tinha ascendência judaica foi discretamente enviado pelo seu amigo, e de quem fora secretário, Ribbentrop, ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, para o Japão onde se relacionou com muita gente importante e trabalhando pela aliança da Alemanha nazi e o Japão Imperial, mantendo tais ideais até ao fim da guerra, pois ainda em 1944 foi condecorado com a Cruz de Guerra. Com a derrota nipónica fugiu e escondeu-se mas foi descoberto  pelos norte-americanos e preso por dezasseis meses em Sugamo. Aprendera as artes tradicionais japonesas, tais como o tiro ao arco e o zen e, depois do seu regresso à Alemanha e de alguma nova aprendizagem psicológica, nomeadamente de Carl Gustav Jung, torna-se um instrutor-mestre da meditação no Ocidente. Dirá: "Abrir a porta ao Espírito Santo em nós e no mundo significa viver a vida iniciática", o que é resultante do contacto com o Ser essencial em nós. O seu centro de espiritualidade na Floresta Negra tornou-se muito conhecido bem como a sua serenidade [e ainda o vi e a senti em Paris] que segundo ele se lhe abrira a partir de algumas experiências de expansão de consciência que considerou de transcendência.
Neste dia de 24 de Outubro de 1915 liberta-se do seu corpo há muito doente o poeta Manuel Salvador Sanches Fernandes, natural de Mapuçá, Índia portuguesa, com 29 anos de idade. Em 1907 imprimira na tipografia Rangel de Bastorá o seu poemeto Lyra da Índia onde o seu entusiasmo pela espiritualidade indiana se funde harmoniosamente com a tristeza da doença e da incapacidade de ligação ao Divino: «Brahma! Vishnu! Shiva! a trimurti potente!/ Eis as grandes criações de uma época esplendente/ Que, na Índia, desfraldou o seu pendão de Luz/ Antes da lei budaica e antes da lei da Cruz./ A essa época doirada, dessa época gigante/ Que exige as vibrações de uma lira possante/ De teorba [instrumento de cordas]viril, que ruge furibunda/ O canto dos Heróis e nas almas difunda,/ Sê tu o ardente arauto anunciando sonora/ A poesia sublime, a Poesia da Aurora./ A Índia seja o teu deus, seja a lira o teu templo/ Que de bela oração saia de ti o exemplo./ Olha! Vês essa Sé donde há pouco eu saí?/ Ei-lo! O rico panteão, o grande capitólio/ Onde Maggh, Zenabay, Kalidas, Valmiki/ E cada obreiro tem um sólio luminoso(...)// E lento se esfumou esta Visão doirada;/ Fanou-se alto o Panteão; vaporaram-se os mitos/ E ante a Vida real e ante a branca Alvorada/ A minha alma chorou saudosa do Infinito» 
25-X. D. João II, filho de D. Afonso V e da rainha D. Isabel, filha do infante D. Pedro das Sete Partidas e duque de Coimbra morre com quarenta anos de idade neste dia em 1495. No seu reinado os Descobrimentos portugueses desenvolvem-se poderosamente e tornam-se a prioridade do reino, em detrimento da expansão para Castela e para o norte de África. Nautas como Diogo Cão e Bartolomeu Dias, exploradores como Pêo da Covilhã e Afonso da Paiva seguiram as suas instruções. Há invenções importantes no domínio da náutica e da artilharia. Tendo o seu filho infante D. Fernando morrido em jovem e não tendo conseguido legitimar D. Jorge de Lencastre, teve de admitir como como sucessor D. Manuel, que era o irmão mais novo de D. Diogo, duque de Bragança, que ele próprio matara à cutilada, por conspirar contra si. Dotado de forte vontade, centralizou de tal forma o poder real, que o dito "Morreu o homem", ecoará das bandas reais de Castela. À hora do trespasse, sendo-lhe começado a ler um texto sagrado, exclamou com toda a razão e sabedoria, e pena foi que não tivessem adoptado mais tal régio parecer: «Não quero ouvir falar mais do Antigo Testamento». As causas da sua morte e o isolamento em que ocorreu permanecem ainda com algumas sombras.
O vice-rei da Índia portuguesa Afonso de Albuquerque envia uma carta ao rei neste dia em 1512 recomendando o franciscano visionário João Alemão como "padre espiritual seu e pessoa que serviu a Deus e ao rei em guerras e hospitais".
António Galvão (1490-1557), nomeado capitão das Molucas após duas comissões na Índia, chega neste dia a Ternate em 1536 e inicia um triénio de administração íntegra e cooperação civilizadora (ocidental), fraterna e apostólica com as populações locais que o tornam conhecido como o Apóstolo das Molucas, sobretudo pelo seu reconhecimento da dignidade humana e por ter fundado um seminário que chegou aos 80 alunos. O modo exemplar como governou, sendo tanto arrojado, como dialogante comandante, para além de justo juíz e inventivo pai, materializou-se ainda por fazer construir em Ternate casas "ao modo de Espanha" e começar o cultivo e a irrigação de hortas, jardins, pois como nos conta Gaspar Correia nas suas Lendas da Índia levara "mulheres para lá casarem, e pedras de atafona, e serras e machados e ferro e aço e todas as coisas que houve informação que havia de haver mister em Maluco".
O P. Azevedo, o irmão Manuel Marques e o P. Oliveira chegam à capital de Ladak, Leh, em 1622, sendo recebidos amistosamente pelo rei tibetano que os autoriza a pregarem no seu reino. Ainda hoje os mosteiros budistas de Ladak, no Caxemira indiano, conservam o seu ambiente medieval único, ainda mais raro e valioso depois da anexação do Tibete pela China.
Desembarca neste dia em Cascais em 1663 o P. Manuel Godinho, ao fim de quase um ano de viagem, trazendo cartas do vice-rei António Melo e Castro contra a cedência de Bombaim aos ingleses. Escreverá a Relação do Novo Caminho que Fez por Terra e por Mar vindo da Índia a Portugal no Ano de 1663, obra notável de aventuras e registos de indianos e mouros: "Há nas cidades da Pérsia altas e soberbas mesquitas com alcorões, que correspondem às nossas torres dos sinos, tão levantados que vão às nuvens. A estes alcorões sobe quatro vezes no dia o telismano ou muezim, que é o tesoureiro da mesquita, e virado para o Oriente, pondo as mãos nas orelhas, começa a gritar com uma voz alta, sentida e vagarosa, pronunciando estas palavras, que a todos os mouros são comuns: Alá Hec Bar Axabel Alá Hélé e Helá Mahameth Rasur Alá (Deus grande, não há outro Deus, Mafamede é embaixador de Deus)". 
                                    Namdev - Wikipedia
 26-X. Nasce em Maharashtra, em 1270, o grande santo Namdeva. Dirá: "Enquanto vivia, aprendi a morrer. Não tenho agora medo da morte". "O Senhor fará da pupila do teu olho a sua morada; E o teu olho expandir-se-á e conterá o inteiro universo". Uma vez viu num templo um leproso com os pés sobre a estátua de Shiva. Chocado, Namdeva invectivou-o, mas o doente respondeu-lhe "estou fraco, põe tu os meus pés onde Deus não estiver!" Foi o começo da sua ligação a Deus, com quem chegou a ser um, como diz nos seus poemas, ainda hoje muito cantados pela Índia: "Não há salvação excepto pela devoção a Deus, por muitos estratagemas que se inventem... Diz Namdeva, todas as regras exteriores são inúteis, o único caminho para Deus está dentro do próprio ser humano". Foi pena que espiritualidade como esta não fosse reconhecida pelos sinceros mas ignorantes missionários, que mesmo assim registaram ao princípio os seus cantos, e os de Kabir e outros poetas místicos, musicados nas ruas ainda livres de Cochim e de Goa. Gurudev Ranade (1886-1957), místico como ele, e a quem já dediquei alguns artigos no blogue, foi um dos seus melhores hermeneutas.
Natural da Covilhã, António de Sousa parte aos 19 anos como jesuíta para a Índia, aos 26 de idade entra no Japão disfarçado e por fim morre em Nagasaki, neste dia em 1633, mártir, depois de nove dias tremendos no tormento das covas, pendurado da cabeça para baixo.  
27-X. O regedor e governador da Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo, D. Manuel (1469-1521, filho do infante D. Afonso (e neto do rei D. Duarte) e da Infanta D. Beatriz, neta do rei D. João I) é aclamado como rei de Portugal em 1495. O notável humanista (discípulo de Erasmo) e historiador Damião de Góis conta que: «D. João II lhe deu por divisa a Esfera, porque os matemáticos representam a forma de toda a máquina do céu e da terra com todos os outros elementos, coisa de espantar e que parece não careceu de mistério profético, porque assim como estava ordenado por Deus que ele houvesse de ser herdeiro del-Rei D. João assim quis o mesmo Rei, a quem havia de suceder, lhe desse uma tal divisa, por cuja figura se demonstrasse a entrega e a cessão» do reino e da sua missão. Associada à cruz da Ordem de Cristo, esta divisa será levada a todo mundo como sinal duma tentativa do império universal cristão. Camões, guerreiro e sábio experimentado, ainda para mais observando já a incapacidade lusa, elevará a Esfera na ilha do Amor ao seu lugar de Reino que não é deste mundo. A governação manuelina, embora escudada em alguns heróicos cumpridores dos seus deveres, não conseguirá, e menos ainda depois com os seus sucessores, realizar o que se evocava com o primeiro oiro do Oriente lavrado, na custódia de Belém, o Graal da fraternidade das almas adorando o mesmo Espírito santo, universal, com as bênçãos da Hierarquia dos bem-aventurados resplandecentes de fogo, que Francisco de Holanda, Pedro Nunes e Camões intuíram, ou aceitaram, tanto da tradição mística como da iniciática. 
                               
  O genial imperador mogol Akbar, filho de Humayun e de Hamida Began, regressa ao mundo espiritual na cidade que fundara Fatehpur Sikri, neste dia em 1605, com 63 anos de idade, já que nascera na noite de Lua cheia de 23-X-1542. Sem saber ler, mas gostando que lhe lessem livros, dotado duma memória prodigiosa, sabendo de cor os poemas de Hafiz, Saadi e Rumi, sagaz, afável e justo, coroado Imperador em 1556, foi o iniciador duma política de aproximação das religiões dos diversos povos do seu império e interessou-se pelo cristianismo, protegendo os padres enviados de Goa. Colocara no portal da cidade imperial de Fatehpur Sikri, construída sob a sua direcção e visão entre 1570 e 1580, e onde fundara a Casa de Adoração (Ibadat-khana), cenário de longos debates, primeiro só entre islâmicos e depois com mestres das diversas tradições, entre os quais os jesuítas vindos desde 1579 de Goa, os parsis ou zoroastrianos da Índia, e os Jainas. As lutas grandes entre eles e em especial entre as divisões nos islâmicos foram-no fortificando-o na decisão de se libertar das religiões e fazer a sua síntese.  No portal principal da cidade de Fatehpur afixara em 1601 uma lápide com um dito de Jesus que surge em fontes islâmicas: "Jesus disse (a Paz esteja com Ele) o mundo é uma ponte. Portanto atravessa-a, mas não construas em cima". Com Asoka, Dara Shikoh, Sant Prannath, Sai Baba de Shirdhi, Ramalinga, Ramakrishna e Gandhi foi das notáveis individualidades, ou mahatmas, que procuraram mostrar e fomentar a unidade das religiões e a convivência ecuménica na Índia. Em 1578, durante a preparação de uma caçada, tivera a sua iluminação, descrita assim pelo seu secretário e cronista Abu-l Fazl, de quem o Padre Monserrate dissera "que o acume do seu engenho superava o de todos os seus contemporâneos»: «uma alegria sublime tomou posse do seu organismo corporal. A atracção da cognição de Deus lançara o seu raio". Badaoni diz-nos que, após tal experiência mística, tendo determinado acabar essa caçada e libertando-se todos os animais que estavam a ser encurralados, Akbar poetizara assim: "Tende cuidado, pois a graça divina vem de repente// Vem de repente, à mente do ser sábio." A partir de 1582 proclamou, depois de um concílio com vários religiosos e yogis, o seu desejo já maturo de haver uma religião universal no seu império, que não era nem o Islão nem o Hinduísmo mas Din Ilahi, a Divina Fé, ou o Divino Monoteísmo, ou ainda Tauhid Ilahi, a qual sintetizava princípios e práticas das várias religiões existentes. Ele e os aderentes reverenciavam a Luz Divina, em especial no Sol, no Fogo ou mesmo manifestada noutros modos naturais ou artificiais, tais como velas ou lâmpadas; utilizavam o famoso mantra  Allahu Akbar, que tanto significa "Deus é grande" como "Akbar é Deus". Deviam no seu dia de aniversário organizar uma festa e dar presentes e esmolas. Deviam abster-se de carne o mais possível. Deviam dormir com a cabeça para oriente e os pés para o ocidente. Não se deviam construir mais mesquitas. Alho, cebola e carne de vaca eram proibidos, tal como pelos hindus. O jejum do Ramadão e peregrinação a Meca foram proibidos. O estudo e exegese do Corão foram desapoiados e o uso do alfabeto arábico abandonado. A morte na fogueira das viúvas hindus foi também condenada ou atalhada. Deixou de praticar a caça e de a recomendar, ao mesmo tempo que proibia as prisão das aves em gaiolas. Akbar negava a divindade especial de Jesus e pouco depois, de morrer um dos jesuítas que mais convivera com ele o Padre Jerónimo Xavier dizia "que Akbar nem morreu mouro nem morreu cristão, mas na fé gentia que abraçara". O seu neto Dara Shikoh será quem retomará o seu facho luminoso, dedicando-se à espiritualidade e a estudos comparativos e traduções de textos valiosos, havendo alguns deles já traduzidos e comentados em português, por mim, no Youtube.

Nasce em Hakodate, no Japão, em 1906, Kazuo Ohno e será desde 1959 em Tóquio o co-fundador, com Hijikata, do Butoh, uma dança-teatro-mímica impressionante pelo seu intenso e depurado expressionismo e interioridade. Viverá longamente, dando provas do valor da expressão psicocorporal, até 1-VI-2010.
                                       
28-X. Desidério Erasmo nasce em 1466 em Roterdão, de um padre e de uma filha dum médico, e desde cedo deu sinais do seu génio.
  Dando à luz sucessivas obras de crítica textual, sabedoria e ensino, bem como traduções de textos da tradição clássica pagã e sobretudo dos primeiros Padres da Igreja, e valorizando uma religiosidade de razão e amor, torna-se o mestre incontestado do humanismo e da cristandade europeia no Renascimento. Entre os portugueses será amigo de Damião de Góis e inspirará ou influenciará André de Resende, Frei Valentim da Luz, João de Barros, Diogo de Teive e outros. A sua crítica dos costumes desvairados da Igreja, propondo uma religião de piedade, não-violência, veracidade, suscitou a proibição no Index de muitas das suas obras, ainda que variando conforme as limitações das ditas infalibilidades papais ou dos censores locais. Dirá: "O importante, onde se deve aplicar toda a nossa energia, é a curar a nossa alma das paixões: inveja, ódio, orgulho, avareza, concupiscência. Se não tenho o coração puro, não verei a Deus. Se não perdoar ao meu irmão, Deus não me perdoará... S. Agostinho encontrou um ou outro caso onde não se reprova a guerra: mas toda a filosofia de Cristo a condena. Os apóstolos reprovam-na sempre, e os doutores santos que a admitiram em certos casos, em quantos outros não a condenam? Porquê procurarmos à custa duma passagem o com que autorizar os nossos vícios?" Dirá ainda: "Há muita distância entre guerra e latrocínio, entre dilatar o reino da fé e aumentar a tirania deste mundo, entre buscar a saúde das almas e perseguir o botim de Mafoma. Das terras descobertas trazem-se ouro e pedras preciosas, mas mais digno de louvor seria levar lá a sabedoria cristã que vale mais que o ouro". Publiquei nas publicações Maitreya a tradução (com Álvaro Mendes),  comentada da sua obra Modus Orandi Deum, Modo de Orar a Deus, bem recomendável.E neste blogue dediquei-lhe vários artigos e traduções. Um amigo para a Eternidade....
                                              
O imperador mogol Jahangir, filho de Akbar, de quem o P. Jerónimo Xavier esperava que «Deus obraria nele um grande milagre», e que foi bastante amigo do Cristianismo, chegando a praticar a posição em cruz com os braços e a assinar cartas com símbolos cristãos, morre neste dia em 1627. Foi um grande conhecedor e patrono das artes, especialmente da pintura que atingiu grande subtileza e perfeição, tendo também muita arte europeia chegado então à Índia. Reinou moderadamente, embora algo entregue ao vinho, ao ópio e ao amor, desde 1605, e o filho Shah Jahan ascende ao trono, em Agra, em Fevereiro de 1628.

29-X. O Padre jesuíta Gaspar Vilela em carta de 1557 de Hirado no Japão, critica com certa agudeza o suicídio, hara-kiri, ou seppuku, dos nobres por ordem do seu senhor: «São ardis do demónio, para dar-lhes maior tormento, por haver-se eles morto», anima-se com uma anciã «que serviu-nos com tanta caridade e alegria que parece que víamos nela aquele grande fervor que nos novamente convertidos da primitiva igreja resplendecia», e com um cristão que no meio duma serra «vendo-nos se lançou aos nossos pés com tanta alegria que bem dava mostras no exterior do que tinha dentro». A tendência ao suicídio, em parte derivada da negação da imortalidade da alma pela filosofia zen, já então discutida entre S. Francisco Xavier e o abade Ninjit, culminará talvez com os kamikases da 2ª grande guerra .
João Heitor de Ataíde, foi natural de Aldoná, na Índia, e  veio a ser capelão da universidade de Coimbra e professor de Direito Canónico e membro da Classe de Ciências Morais e Sociais em  1884. Escreveu sobre a alma humana, sobre os mistérios do Génesis, ao mesmo tempo que procurou aliviar o sofrimento do próximo com várias obras de assistência e a sua irradiação pessoal, que o tornaram muito amado, até sair cedo deste vale de meias luzes e sofrimento com 44 anos, em 1888. 
30-X. O imperador chinês Kang Hsi publica neste dia em 1716 o Manifesto Vermelho, em vários exemplares, para serem levados pelos estrangeiros para o Ocidente. Kang Hsi, dito o Salomão da China, sábio e tolerante, procurava através do envio de vários embaixadores jesuítas a Roma, que fossem aceites as singelas tradições do culto dos antepassados, de Confúcio e do Senhor do Céu, como não sendo supersticiosas. O padre italiano Provana, com o ajudante Fan Shouyi, tentaram que os ritos não fossem condenados e não se fechassem as portas da China, mas o papa Clemente XI e os bispos Charles Maigrot, Giovanni Francesco Nicolai e Charles de Tournon, bastante rígidos e pouco universais ou católicos,  condená-los-ão e, agindo contra uma certa corrente evolutiva, perturbaram-na e originaram maior separação entre a China e o Ocidente. 
Fr. Joaquim de Santa Rita Botelho nasce em Pangim, Índia portuguesa, neste dia de 30 de Outubro de 1781, filho de Manuel Marques Botelho e de Rita Francisca de Faro. Começou a estudar no Seminário do Chorão aos 9 anos. Entrou para o convento da Madre de Deus dos Franciscanos Reformados, professando na ordem em 1799. Teve como padre mestre Frei José de Sant'Ana. Em 1807 foi nomeado Lente de Filosofia e em 1809 de Teologia. Aos 35 anos de idade foi dirigir o Arcebispado de Malaca, Solor e Timor. Em 1820 passou a Arcebispo de Granganor, onde chegou a crismar cerca de 50.000 crianças. A nomeação por decreto de 28-II-1840 como Arcebispo de Cochim justificou-se por «concorrer nele não só ciência e bons costumes, mas também por ter dado provas de bom desempenho das funções episcopais, como governador das dioceses de Cangranor e Malaca», como nos relata Alberto C. Germano da Silva Correia, no seu Os Luso-Descendentes da Índia, 1946. Em 1849 passará a Governador Arcebispo de Goa, o numus mais elevado e exercido valerosamente até partir da Terra a 8 de Fevereiro de 1859.
 
Swami Dayananda Saraswati, fundador do movimento de renascimento da Índia Arya Samaj, liberta-se do envólucro terreno neste dia em 1883, em Ajmer, com 59 anos, depois de uma vida tanto meditativa, como de erudição e de acção política, meditando na famosa oração Gayatri, que se deve repetir diariamente ao nascer e pôr do Sol: Om Bhur, Bhuva, Svah, Tat Savitur Vareniyam, Bhargo Devasya Dhimahi, Dhiyo Yo Nah Prachodayat. Muitas traduções são possíveis: "Saudação nos três mundos; para a Verdade suprema viro-me pedindo-Lhe que desoculte o seu resplendor e me guie". Outra: «Om, áquele mais querido que a nossa respiração, Auto-subsistente, Todo Conhecimento e Todo Beatitude. Nós meditamos sobre esta adorável refulgência do Universo. Possa Ela iluminar o nosso intelecto para o caminho correcto". Ou ainda: «Salvé Divindade, destruidora da ignorância, iluminadora de tudo, nós meditamos em Ti. Desabrocha a nossa consciência espiritual». Frei Paulo da Trindade na sua Conquista Espiritual do Oriente refere-a: "e dizem uma oração a que chamam govitri, [Gayatri] a qual de preceito devem dizer 108 vezes", tantas as contas dos seus rosários. A última palavra de Swami Dayananda foi Om e a sua tenção ou lema ou mantra foi Satya Meva Jayate, "Só a Verdade triunfa", proveniente da Mundaka Upanishad, 3, 1, 6 e que veio a tornar-se o lema ou mote da Índia. Swami Dayananda fora um dos fundadores do movimento pela auto-governação da Índia, o Swaraj, que depois Tilak e Gandhi levarão até à independência da Índia.  Dirá: "A divindade auto-existente e impessoal só pode ser atingida através do coração puro disciplinado pelo caminho espiritual (Yoga) e pela meditação. Sede seres fortes, sede ousados; sede puros, livres, unidos; servi a família e a humanidade. Cantai Aum, Om".

 31-X. Nasce nas margens do Mondego em 1345 o rei D. Fernando, filho de D. Pedro I e da rainha Constança, e foi denominado o Formoso. Apoiou bastante a construção e o comércio e os seguros navais, criando também uma companhia na qual havia alguns barcos que eram seus. A sua lei das Sesmarias, fomentando o trabalho agrícola, continua a ser um arquétipo necessário de actualização. A sua paixão pela formosa Leonor Teles foi pouco aceite e com a sua morte em 1383 entrou-se na crise dinástica com a qual findou a primeira dinastia, a de Borgonha, e da qual emergirá a de Aviz, com o mestre da ordem de Aviz, D. João I. O seu belíssimo túmulo encontra-se no museu arqueológico do convento do Carmo.
                                          
D. Duarte, representado talvez fidedignanente numa iluminura manuelina da Crónica do seu reinado, de Rui de Pina.
Em 1391 em Viseu nasce o rei D. Duarte, filho de D. João I e D. Filipa de Lencastre, "a princesa do santo Gral", como lhe chamou Fernando Pessoa na Mensagem, e foi o primeiro rei luso a reunir uma biblioteca razoável, talvez sob inspiração da sua mãe, onde se incluíam, por exemplo, livros de Alquimia e a Arte da Memória, de Raimundo Lúlio. Começou a reinar em 1433 apoiando a expansão marítima e africana, mas a incapacidade de libertar o irmão D. Fernando do cativeiro em Tanger, vai consumi-lo implacavelmente, tanto mais que era de temperamento melancólico. Filósofo, escreveu já no fim da sua vida, em 1438, o tratado moral Leal Conselheiro, onde tenta explicar e divulgar os príncipios morais do Cristianismo, de uma forma bastante rigorosa ou ortodoxa, embora admtindo, por exemplo, a influência mas não constrangimento dos astros sobre os humanos. Foi sensível cultor da saudade: "e, por partir, algumas vezes vem tal saudade que faz chorar e suspirar, como se fosse de nojo", o que se pode recuar até à reminiscência do estado Original, como querem os filósofos da saudade, em especial Teixeira de Pascoaes ou o mais ardente Leonardo Coimbra, tendo nos nossos dias Dalila Pereira da Costa vibrado nessa profundidade de memória-desejo. Tomou como empresa uma lança em que estava enroscada helicoidalmente uma serpente, qual caduceu ígneo das energias internas, com o mote Loco, Tempore, no local e no tempo certo, ou o aqui e agora da auto-consciência espiritualizante. Saibamos viver mais plena e sabiamente o presente, o instante na sua elevada eternidade, sintonizando com este mantra da Tradição Espiritual Portuguesa e com a Divindade...
O frade Martinho Lutero afixa nas portas da igreja de Wittemberg neste dia em 1517 as suas 95 teses de crítica às doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana, iniciando a cisão protestante. Roma reage e à secura da Reforma protestante opor-se-á o exacerbamento da Contra-Reforma, com a Inquisição, os jesuítas, a censura. Fendida a unidade cristã, os nacionalismos mercantis emergem triunfantes e os países do norte e sul da Europa enfrentar-se-ão o tempo suficiente para alterar por completo o domínio ibérico no mundo. Algo agarrados à justificação pela fé em Jesus, perderam o contacto com Maria, os santos e santas e os Anjos, secando um pouco a devoção.
 Carta escrita do sul da Índia pelo P. Henrique Henriques neste dia, em 1548, ao fundador dos jesuítas, S. Inácio de Loiola, a contar como é amigo dum yogue muito sábio que adora a um só Deus verdadeiro e que se ri dos que perguntam pelos dias bons e maus. E numa prédica, cheio de fé nos merecimentos de Jesus ou seus, perguntado "se o demónio, quando está em algum corpo, somente com ouvir dizer que vem um português, se vai do corpo, quanto mais vós, que sois Padre, o fareis? Respondi-lhe eu, ainda que então vá aquela vez, voltará outro dia, mas que quando eu o fizer em virtude de Cristo Nosso Senhor, nunca mais virá àquele corpo". Era o poder da Palavra, Sermo ou Verbo, e da invocação da força divina através de Jesus, e sobretudo da fé, essa vontade interior subtil mas que pode mover montanhas ou aparências, ou entidades negativas, tidas como insuperáveis...
Nasce neste dia em Hamburgo, em 1854 (e viverá até 1920), Hermann Oldemberg e será um dos primeiros pioneiros do orientalismo ocidental, autor de  estudos importantes sobre o Budismo e os Vedas, estes traduzindo dois volumes de hinos e publicando-os na popular colecção dos Sacred books of the East mas com as limitações da sua mentalidade europeia moderna, apontadas por exemplo por René Guénon na Introduction Génerale à l'Étude des Doctrine Hindoues, que cita mesmo o seu princípio, de que "os Indo-Germanos não acreditam em milagres" e critica a reconstituição histórica desfiguradora da biografia de Budha, muito popular contudo pela sua simplificação. Entre outros  estudiosos das línguas, filosofias, religiões e doutrinas orientais  destacaremos H. Wilson, H. Colebrooke, A. MacDonell, Sir John Woodroffe, Evan Wents, Heinrich Zimmer, Edward Conze, Paul Deussen, Hermann Jacobi, Edward Salisbury, Theodore Stcherbatsky, Henri de Lubac, Giuseppe Tucci, George Dumézil, Daisetz T. Suzuki, Marcel Granet, Lilian Silburn, Jean Herbert, Mircea Eliade, Joseph Campbell, Ananda Coomaraswamy, René Guénon, Julius Evola, Michel Hulin.