
INÊS E PEDRO: AMAR ATÉ AO
FIM DO MUNDO...
Quando Inês e Pedro, a Galiza e Portugal, em 1340,
se encontraram e apaixonaram: olhos, cabelos e gestos, forma, voz e
espírito, não poderiam antever como o fogo do amor aceso nas suas
almas, e irradiante por quinze anos, da Lisboa cortesã à Coimbra
das ninfas do Mondego e das fontes, da Serra d'El- Rei e Moledo ao
rio Douro e Oceano em Canidelo, atingiria a
perenidade de
nos congregar, quase setecentos anos depois, nesta exposição a eles
dedicada no Museu do Vinho de Alcobaça, terra e junção de rios
sagrada e onde os seus corpos e almas estão sublimemente
imortalizados.
Inês
de Castro, ao ser morta violentamente, no
sombrio 7 de Janeiro de 1355, no paço de Coimbra, em plena
formosura, maternidade e doçura, derramou a sua energia por toda a
eternidade, e a paixão que os transfigurava circula ainda hoje no
sangue e alma dos que os amam e intuem os seus êxtases e dores e
aspiram ao desabrochar do coração e do amor, da liberdade e da
unidade.
Depois das oposições e
desterro saudoso, morrendo D. Constança, viveu alguns anos Inês com
ele, ledos e de comunhão com a natureza, coroada de rosas e boninas
por D. Pedro oferecidas e, dessa intimidade nua e pura inscrita no
coração, em três partos foi abençoada. Mas, depois, quanta
apreensão pelas ameaças, quanta revolta e luta face aos assassinos,
quanto sacrifício na entrega à morte e abandono dos seus meninos, olhos postos no céu
cristalino?
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Dona Inês diante do rei D. Afonso IV. Pormenor da pintura de Eugènie Sèrvieres, 1822 |
O pleno amor de Ynês,
subitamente ceifado, permanecerá vibrante em Pedro e entrará no
além e no imaginário, fecundando a grande alma
portuguesa e europeia na demanda da justiça, da beleza e do amor,
inspirando muitos a exaltar Inês como musa e mártir ungida.
Depois
da guarda do corpo de Inês pelas sorores clarissas nas margens
alagadiças do Mondego, em Abril de 1362 dá-se a sua impressionante
trasladação para a firme Mater
cisterciensis de
Alcobaça, ao qual se juntará o de Pedro em 1367, e os
túmulos vão tornar-se um íman
impulsionador de criações artísticas e literárias, lendas e
mitos, no culto dum Graal de amor extremo.
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Inês, Pedro e os Anjos. Pintura de Maria de Fátima Silva. |
O perigo da audácia
traiçoeira dos adversários da relação ou casamento, perigosa para
o Reino segundo eles, fora negligenciado por Pedro e, ao
ausentar-se para o exercício da montaria, deu azo à fatalidade da
qual ninguém poderá sentir o impacto desintegrante na sua alma e
cérebro, bem como nos tres filhos de tenra e impressionável idade.
Em "grande desvairo"
como narra Fernão Lopes, Dom Pedro, sangrando, com as suas hostes e
as dos irmãos de Inês vindas da Galiza,
faz seis meses de razias no Entre Douro e Minho, onde os conselheiros
culpados tinham suas terras. Acercando-se do Porto, porque o Rei e o
seu exército já estavam em Guimarães, e pela mediação do Prior
do Crato e de D. Beatriz, santa mãe e avó, assinam-se três
acordos de concórdia, em Agosto de 1355, jurando Dom Pedro o perdão dos
matadores e recebendo poderes judiciais.
Passados dois anos, com a
morte do pai, D. Pedro, rei e senhor da Administração e da Justiça,
assume a responsabilidade de as bem executar, e logo revoga o
juramento pronunciado verbalmente, enquanto alma mutável mas não de
coração e faz morrer cruelmente dois dos culpados. Confiava na
justiça e misericórdia Divina, e nas orações e missas, velas,
aspersões e incensos que os frades cistercienses lhes consagrarão
durante séculos, e só os clarividentes intuirão os efeitos subtis
de tais elementos, sons e intenções nas suas almas ascendendo no
corpo místico da Igreja.
O cognome de Justiceiro ou
Cruel será apropriado conforme as circunstâncias, pois tal virtude
cardeal tão demandada por Pedro e exercida duramente, também o foi
sublimemente, ao fundar a obra-prima da estatuária jazente
portuguesa, fazendo justiça ao amor divino incarnado e tão
precocemente separado, imortalizando-o
na união artística da Mors-Amor,
sublimadora dos participantes, das limitações corporais e
históricas.
A
perenidade exemplar do amor de Pedro e Inês, vencendo
interesses políticos e matrimónios de conveniência, ódios,
fragilidade e a morte, brota tanto da intensidade do Eros vivido e da
unidade alcançada, derramados por seus descendentes e todos, como da
arte dos
anónimos artífices dos túmulos, orientados por D. Pedro e os
monges brancos alcobacenses.
As
suas vidas e sentimentos, cinzelados em rosáceas e pétalas animadas
de cenas historiadas e íntimas, em roda da vida e via sacra
paralelas à dor e amor do ungido Jesus e do mártir e mítico
apóstolo das Índias S. Bartolomeu, fecundarão de modos
caleidoscópicos os sucessivos peregrinos, poetas e fiéis do Amor
que as admirarão.
A
numinosidade serena das faces (de olhos abertos, videntes) de Inês e Pedro, brotando das suas
estátuas jazentes, entre seis pares de anjos de guarda, é uma
iniciação ao fogo do Amor divino no coração, e à luz da
Sabedoria no olho e corpo espiritual, ou de glória, de cada
um.
A missão de revificar o
fogo do amor unificador e imortalizador de Inês e de Pedro, e em
quem ama, pois provimos do Logos solar e devemos emaná-lo em
reciprocidade e criatividade, inspirará ao longo
dos séculos os que entrarão nesta grã-corrente e tenção do "quem
puder fazer bem, faça" (Garcia de Resende), do "désir",
divisa do seu neto (fruto da sua união com Teresa Lourenço, outra donzela da Galiza) o infante D. Pedro, e do seu amar "até o fim
do mundo", fortificando a chama do Amor, na condição humana
frequentemente "mísera e mesquinha", tal como nos Lusíadas
canta Camões para Inês, na esteira de Sannazaro no De
Partu Virginis para Maria, tal como discerniu
Faria e Sousa.
Ao lermos, ouvirmos e
admirarmos tais criadores e criações unimo-nos num culto à
liberdade e beleza, energia psíquica e Amor, na religação ao
espírito, à Divindade, ao Cosmos, no campo unificado
pluridimensional de energia consciência informação.
Que o nosso coração e
ser brilhem flamejantes, em sintonia com Jesus Cristo e Bartolomeu, Inês e
Pedro, os Anjos e Arcanjos e a tradição Espiritual de Portugal.
Viva Deus, santo Amor-Sabedoria!