segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Shusaku Endo e o "Silêncio". Com um vídeo no final.


Este japonês (1923-1996) de Tóquio, mas que viveu dos dois aos dez anos na Manchúria, então sob administração japonesa, pois era filho de um empregado bancário para ali enviado, foi baptizado com o nome de Paulo aos 11 anos de idade, por influência da sua mãe, violinista, convertida por uma tia ao Cristianismo após o divórcio, tornando-se um dos pouquíssimos e naturalmente algo marginalizados católicos japoneses. Após alguns anos de busca de estudos e carreira, concluiu um tipo de licenciatura em Literatura Francesa na Universidade de Sophia, aos 25 anos, recebendo pouco depois, em 1950, uma bolsa do governo para ir estudar  na Universidade francesa de Lyon, onde esteve três anos, algo isolado, estrangeirado, regressando com problemas pulmonares (que o fizeram sofrer bastante ao longo dos anos), mas desde então dedicando-se apenas ao ensaísmo e à literatura. Ao ganhar o prémio Akutagawa,  importante, em 1954, tornou-se um autor consagrado e um leitor universitário, já sem problemas de dinheiro, casando-se e tendo um filho, as suas obras sendo muito bem acolhidas...
                                
Vivendo entre duas cosmovisões, a cristã e ocidental e a nipónica, escreverá textos e romances originais e valiosos através dos quais questiona e aprofunda aspectos psicológicos, filosóficos e religiosos do ser humano e da história, tanto nipónica como portuguesa, como ainda da Humanidade e sobretudo do Cristianismo, em si e particularmente no Japão.
Quando lemos a sua obra Silêncio, e será ela o escopo deste artigo (escrito em função de um encontro do Clube de Leitura Oriental e do qual registamos algumas partes no vídeo anexo no final), entramos no mundo dos últimos missionários do Cristianismo no Japão nos anos trinta, quarenta do século XVII, quando já estava proibida tal actividade e uma entrada clandestina no Japão era quase uma aventura kamikase


Fora em 1614 que Tokugawa Hidetada promulgara o édito da expulsão dos missionários e portugueses: «o bando cristão (kirishitan) ... veio ávido de derramar uma lei má e de rejeitar a verdadeira doutrina, com a intenção de mudar o governo do país e de tomar posse das terras. Uma tal semente de calamidades deve ser esmagada.»
A aventura do Cristianismo no Japão, começada com a chegada de Francisco Zeimoto, António da Mota e António Peixoto, e depois em 1549 com Francisco Xavier, e os jesuítas, e a partir de 1579 desenvolvida pelo geral dos jesuítas Alexandre Valignano, e que teria rendido tanto uns 300.000 crentes, numa população talvez de 18 milhões como também grandes amizades e diálogos, apoios e intercâmbios com pessoas e sobretudo governantes (nomeadamente Oda Nobunaga e Hideyoshi, este apenas durante certo tempo), estava verdadeiramente a findar, tanto mais que ingleses e holandeses já tinham chegado e pelo seu pragmatismo e sem religião missionária souberam captar as boas graças dos governantes.
Expulsos, proibidos de entrar sob pena de martírio cruel e morte, o horizonte geral era bem sombrio e pantanoso mas ainda assim houve missionários que sem se deixarem atemorizar por tal insistiram perseverantemente com os superiores para que os deixassem partir a fim de apoiarem os cristãos clandestinos japoneses, sem pastores e em constante perigo.
 É verdade que há ainda outro objectivo, talvez ainda mais premente, pessoal e dramático que impulsiona os dois jesuítas portugueses protagonistas desta aventura pelo silêncio a dentro e que é o certificarem-se se o antigo mestre deles no colégio lisboeta, o Padre Cristóvão Ferreira, após tortura e ameaça de morte nas covas de Nagasaki, em verdade abjurara do Cristianismo, recusou o santificante martírio e colabora com os governantes e religiões japonesas, pondo até em terreno aberto pretensos erros ou falsidades do cristianismo, para além de estar a traduzir obras científicas ocidentais para japonês.
São rumores que constam na vizinha Macau, pois os contactos com os cristãos japoneses estão cortados desde as últimas perseguições sangrentas e sobretudo desde a revolta de Shimabara onde 300.000 japoneses, camponeses e também cristãos, com seus estandartes religiosos, foram mortos.
Quando recebem finalmente a autorização em 1637, e partem de Lisboa na armada da Índia a 25 de Março de 1638, estamos entrados no átrio do do livro, pois só depois da difícil viagem e da persistente petição em Macau perante o geral da Ordem Alexandre Valignano é que conseguem ver anuída a aspiração ardente que os queimava de partirem num junco para o Japão.
Shusaku Endo, com o seu conhecimento das condições naturais do Japão, consegue reanimar para nós os ambientes aldeões e as mentalidades, ora simples ora complexas, do século XVII e põe-nos verdadeiramente na pele dos dois missionários clandestinos e em especial na alma de Sebastião Rodrigues, aquele que vai fazendo em discurso directo o relato das aventuras, perigos, sucessos e perseguições envolventes, no seu encontro com os cristãos clandestinos e o seu difícil pastoreio e, por fim, já depois de separados para fugirem à iminente captura, com o medo a aumentar nos dois, por fim vir a encontrar tanto Garrpe como o seu antigo mestre Cristóvão Ferreira, aquele que apostatizara...
Parece simples o enredo, mas trata-se de uma recriação histórica valiosa, movimentada, dramática e que recentemente foi mesmo levada ao cinema por Scorsese, certamente explorando o emocionalismo e dramatismo inerentes a tal aventura missionária e que é quase o epílogo de cerca de um século de grande florescimento do cristianismo, sobretudo justificado, como nos diz Shusaku Endo através de Sebastião Rodrigues, porque: «em verdade estes camponeses sofreram demasiado tempo, como bestas de carga. A nossa religião penetrou nesta região como uma água generosa numa terra árida, devido ao calor humano, até então desconhecido, que trazia às pessoas. Encontraram, pela primeira vez, homens que os trataram como iguais e assim a bondade e o coração dos Padres ganharam os seus corações». 
E, neste sentido, era ainda a figura doce e maternal de Maria a mais cultuada e venerada, como podemos ver ainda hoje numa pintura num estandarte quinhentista dela, como Nossa Senhora das Neves, nossa Senhora do país das neves montanhosas e invocadora da pureza e da água misericordiosa que delas se desprende ao descer das alturas pela acção do calor do sol e do amor.
Imagem quinhentista dos cristãos japoneses da zona martirizada de Nagasaki, da principal face feminina Divina cristã, venerada como Nossa Senhora das Neves e ainda hoje existente no museu dos 26 Mártires, em Nagasaki....
Que aspectos ficam mais na alma após a leitura emocionante e que prende, da última aventura cristã e portuguesa no Japão, se não quisermos mencionar, já depois da abertura do Japão ao Ocidente no séc. XIX, a adopção do Japão por Wenceslau de Moraes e os seus maravilhosos livros, ainda hoje pouco compreendidos e nos quais tende a superar várias dualidades, tais como as das religiões?
Quatro, talvez: o 1º, sobretudo, a inquietação do crente convertido japonês, ou do padre Sebastião Rodrigues, ou do próprio Endo, tanto pela vida miserável e perseguida de tanta gente pobre como pela ausência de resposta de Deus ao sofrimento imenso dos cristãos japoneses oprimidos e martirizados. Shusaku Endo exprime assim a angústia dos dois missionários quando dois cristãos que vão ser interrogados e provavelmente executados lhes perguntam:«Porque é que Deus, Sama, nos impõe este sofrimento? Padre, que mal fizemos nós?»
Esta questão recebera uma resposta inicial justificadora: o Japão é um pântano, que não tem condições para deixar crescer a semente. Mas compreenda-se que a primeira é uma pergunta que não está bem feita pois não é Deus que impõe sofrimentos, mas são os homens nos seus egoísmos intolerantes ou ferozes que os causam ou impõem. Algo que Shusaku Endo explicará também, consciente das limitações de tal visão pseudo-cristã de uma maldade de Deus. 
Transplantar para o chamado pântano, ou seja para o ambiente e o modelo e estrutura social nipónica da época, o Cristianismo era uma tarefa realmente bem difícil pois sendo em certos aspectos  uma subversão democrática ou igualitária, pondo em causa a hierarquizadíssima estrutura social e autoridade política, iria obrigar as autoridades que se constituiam na altura numa unificação  política a  reagirem violentamente
Contudo, a questão maior que aflora apenas uma ou duas vezes, fazendo par com que é considerado como o maior pecado contra o Espírito, o desespero, é se Deus existe ou não, pois se não existisse, pensa Sebastião Rodrigues, toda aquela aventura, ou mesmo a existência humana, seria absurda...
                                                       
2º, a busca da face da alma de Jesus, a qual sendo o modelo deles missionários vai passar por metamorfoses, de início uma amada e perfeita, pois desde novo Sebastião Rodrigues sentia ou via mesmo nas noites de insónia a face do mestre, como quando ele pronunciara as bem-aventuranças junto ao lago da Galileia, sentindo-a muito como uma fonte de força e amor. E com o tempo e a experiência nas dificuldades de estar preso e bastante pressionado ainda assim será em tal imagem que recuperará paz, embora alargue a dimensão do Cristo idealizado e perfeito para o que se vê reflectido nos pobres e desprezados, doentes e miseráveis, ou mesmo nele próprio perseguido, magro e extenuado, sentindo que o maior amor é esse pelos mais desfavorecidos, ou o que brota sob as maiores dificuldades.
 

3º, a inicialmente surpreendente abjuração do missionário  Cristóvão Ferreira vai com o desenrolar e o final da narrativa compreender-se quase naturalmente. Em verdade, para quê criarem-se ou manterem-se tantas oposições, facções e fracturas religiosas quando as pessoas humanamente podem fazer o bem e serem boas e conviverem acima das divisões religiosas?
O século XXI neste aspecto  dá-nos uma leitura retrospectiva excelente pois cada vez mais, à parte o sensacionalismo evangélico ou o terrorismo islâmico, ambos tão fanáticos e manipuladores, as religiões vão perdendo a sua aura de verdade divinas reveladas e indiscutíveis e os crentes, sobretudo onde a cultura e a liberdade estão presentes, vão abrindo os órgãos da alma discernindo as patranhas escriturais e intuíndo  a religião do Espírito e do Amor que está subjacente ao melhor de todas as religiões históricas, tão condicionadas por múltiplos factores e com frequentes germens de exclusivismo e violência...

4º, uma das figuras que se infiltra ou arrasta ao longo do livro é um cristão japonês que apostatizou, Kichijiro,e que anda sempre na corda bamba entre o ajudar os missionários e o vender-se para salvar e portanto trair, no que cairá de novo causando a detenção deles. Aliás pouco antes de tal acontecer, numa reflexão angustiada acerca dessa companhia algo viscosa ou  escorregadia, o padre Sebastião Rodrigues é levado a questionar se Jesus, na última Ceia, quando mandou Judas realizar o seu trabalho, isto é, entregá-lo às autoridades religiosas judaicas, fê-lo de um modo colérico, ressentido, o que equivaleria a condenar alguém à perdição eterna, algo oposto ao perdão divino, ou se pelo contrário o fez por amor. E lembra-se que, quando estudava e se interrogava sobre tal, alguém lhe tentara explicar como fazendo-o com tristeza, pela atitude, mas ainda assim amando-o, na, ou pela, essência.
No terreno hostil do Japão de então o missionário Sebastião sente subitamente que Judas seria apenas um fantoche levado a participar no drama da vida de Jesus, admitindo assim uma predestinação, numa linha quase protestante ou luterana, aquela que Erasmo esclarecera magistralmente na época do começo da Reforma...

É quando estamos apenas a metade do livro que o padre Sebastião é finalmente preso e levado para um campo de prisioneiros cristãos com os quais vai ainda poder pastorear antes de os ver morrer. E embora comecem a crescer as dúvidas quanto à verdade da fé simples que os japoneses tinham num imaginado ou intuído reino dos céus maravilhoso mal saíssem martirizados desta terra, começa também a desenhar-se a resposta lógica à pergunta que os inquisidores japoneses (quase que num efeito boomerang da Inquisição católica), ou um antigo cristão, que discutirá mesmo teologia com ele, lhe lançam: terá Sebastião Rodrigies direito a fazê-los sofrer na fossa e por fim morrerem, ao não apostatizar, já que a inexistência de um padre missionário seria considerado suficiente para um natural definhar do Cristianismo, sem necessidade de mais perseguições e mártires?
Tudo se vai então encaminhar para um desfecho inesperado, pois após vários diálogos com o temível mas afável interrogador Inoue, e sujeito a pressões grandes mas nas quais vai conseguindo identificar-se com Jesus aprisionado e vilipendiado, acontece a viagem até Nagasaki e o encontro com o seu antigo companheiro Garrpe, aprisionado e que recusando-se a apostatizar faz com que três japoneses morram.
Neste momento, numa primeira mudança radical, Sebastião Rodrigues, telepaticamente, tenta dizer a Garrpe para apostatizar e salvar os outros, abrindo assim brechas no seu proselitismo de candidato a mártir mas permitindo que haja menos mortes de japoneses cristãos. Todavia, Garrpe naturalmente não o ouve e prefere lançar-se ao mar, antes dos dois cristão serem também atirados borda fora presos em cruzes.
É um dos momentos culminantes do livro, a anteceder dois outros decisivos, e sozinho, preso, cogitando,  a questão da existência de Deus surge de novo, e a famosa frase atribuída a Jesus pouco antes de morrer: Eli, Eli, lama sabachani, "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste", é pela primeira vez interpretada por Sebastião não como uma oração ao Altíssimo mas como um possível desespero de Jesus perante o silêncio divino...
E quase logo a seguir surge Cristóvão Ferreira, calmamente acompanhado por um bonzo e um intérprete, colaborando com as autoridades japonesas e demarcando-se dos sonhos de proselitismo cristão, aliás num diálogo dramático, no qual, após um silêncio angustiante, Cristóvão Ferreira explica como está a ser útil àquele povo e país traduzindo obras médicas, de cirurgia, ajudando na astronomia, de facto necessidades se calhar tão valiosas como as de tratar das almas...
Nesse diálogo tremendo e no qual Sebastião Rodrigues está sempre a ver fisicamente em traços fisionómicos os aspectos negativos psíquicos de um traidor, de um sensual, de um apóstata, subitamente a missão de Cristóvão para com Sebastião surge calma, lúcida, racional: levá-lo a apostatizar, pois como diz o intérprete: «o caminho da misericórdia não é senão o da renúncia a si mesmo. Ninguém deveria fazer proselitismo pela sua própria crença religiosa. Ajudar os outros, segundo o ensinamento de Budha ou de Cristo é um ensinamento idêntico nas duas religiões. O que importa é de seguir, ou de deixar, a via da verdade. É o que Sawano Chuan (Cristóvão Ferreira) diz no seu livro Gengiroku», o tratado que explica os erros do Cristianismo.
São das linhas de maior sabedoria e perenidade de todo o livro, que sabiamente Endo põe na boca do intérprete japonês, mas compreende-se ainda assim que quando este livro foi impresso tanto protestantes como católicos, a começar pelo bispo de Nagasaki, algo ridiculamente, não tenham gostado dele, seja por apresentar os cristãos japoneses não da melhor forma seja os protestantes, cientes de si mesmos, atribuindo antes as apostasias à falta de fé dos missionários portugueses.
Porém, inegavelmente, a relatividade das crenças religiosas, e a importância da religião mais simples do amor e de se viver em paz, cada um na sua, ganha nos dias de hoje realmente uma dimensão de claridade urgente para se sair dos confrontos violentos que ensombraram e ainda calcinam tantas zonas, povos e gentes...
O diálogo de Ferreira e Rodrigues é bem valioso porque nele vemos levantados alguns aspectos das limitações de qualquer proselitismo de pregadores, ou missionários já que mesmo com doutrinas e dogmas a concepção que cada crente alcançará do seu Deus é sempre subjectiva e diferente do outro crente e que a Divindade pode falar ou chegar a cada um conforme a sua tradição e aspiração...
Vemos então Cristóvão Ferreira, um português, um ocidental, já compenetrado da mentalidade nipónica, assinalar como a concepção do Deus cristão foi incompreendida e modificada pelos japoneses, que o identificavam mais como Sol, Dainischi, pois: «os japoneses não conseguem conceber um Deus completamente distinto do ser humano, nem imaginar uma existência transcendente», e portanto o cristianismo adoptado é como uma borboleta presa e morta numa teia de aranha...
Esta última afirmação e imagem ficará a percorrer em círculo a mente emaranhada de Sebastião, preso e solitário, meditando no que se passou e na sinceridade de Ferreira, quando as proferiu.
Acorrem-lhe porém também as palavras de Jesus que estará com os que sofrem até ao fim do mundo, e as cenas da paixão de Cristo, mas é abalado pelo som dos cristãos que gemem torturados ali perto e a lembrança da confissão de Cristóvão Ferreira da razão de se apostatizar: não fazer sofrer mais outros seres por uma fé estrangeira ao país e por um Deus silencioso perante o sofrimento e as orações.
O ponto dramático ocorre então quando diante de Sebastião Rodrigues o antigo missionário Cristóvão Ferreira lhe põe a tremenda questão: - Se Jesus estivesse ali, o que faria? Deixaria morrer os outros? Teria esse egoísmo?
E, perante o grito ou queixume horrorizado de "não" de Rodrigues, qual "Senhor, afasta de mim este cálice", a resposta que Cristóvão Ferreira, ou Sawano, dá é simples e clara: Jesus apostataria, por amor dos seres humanos, para os salvar.
O livro atingiu o seu clímax, e Cristóvão Ferreira, ou Sawano Chan (tal fora o nome que recebera pela morte do antigo possuidor dele), em vez de obedecer ao pedido de Sebastião Rodrigues para se ir embora, põe-lhe a mão sobre o ombro, empurra-o docemente e sussurra-lhe: «ides agora realizar o mais doloroso acto de amor que foi realizado», encaminhando-o pelo corredor para a sala onde lhe será apresentada o fumi-e, que ele vê pela primeira vez, uma medalha em metal  com a imagem de Jesus,  na Última Paixão, e algo desfigurado pelos sinais de ter sido muito pisada. Sebastião segura-a nas mãos, perde-se na lembrança ou anamnese de como tal face divina o acompanhou e inspirou em toda a vida e missão, e questiona-se dilacerado (talvez como alguns cavaleiros Templários na sua iniciação secreta) como é que poderá agora pisá-la? 

 Cristóvão Ferreira e o intérprete encorajam-no: - é apenas uma formalidade e muitas vidas serão salvas. Uma lágrima brota-lhe, o pé pesa-lhe, só faltaria mesmo assentá-lo sobre a efígie, uma dor e tristeza imensa por ter de trair os seus ideais afloram, mas eis que de repente na própria imagem de bronze ele ouve o mestre Jesus a dizer-lhe: «"pisa, pisa [(e Endo não diz "pisa-me, pisa-me", como eu escrevera inicialmente)], é para ser pisado ou menosprezado pelos homens que vim ao mundo. É para partilhar o sofrimentos dos seres humanos que carreguei a minha cruz".
O sacerdote pisa o e-fumi. A aurora explode. Ao longe, o galo canta».

Poderíamos imaginar que explodira também a alma de Sebastião Rodrigues, como se fosse um seppuko ou harakiri, em que o espírito vital se liberta do corpo, a apostasia libertando-o de uma prisão dogmática de fidelidade já desadequada e mortífera para os crentes japoneses. Algo disso fica na sua mente sentindo que não pode ser desconsiderado pelos religiosos da Companhia de Jesus na rectaguarda, mas mesmo assim de noite acorda com visões tétricas da Inquisição ou do Apocalipse, sem dúvida um texto no seu messianismo extremista bem escolhido para par do Santo Ofício por Shusaku Endu, pois nada tem de S. João e do Logos Inteligência e Amor Divinos que o Cristianismo helénico conseguiu introduzir no Quarto  Evangelho.
Para mim a cena da apostasia foi mais comovente de toda a história, mas fica-se na dúvida se a escolha da tristeza ou amargura sentida posteriormente foi a melhor, pois deveria haver alívio, alegria, felicidade, choro, seja em Sebastião Rodrigues, seja em Shusaku Endo, seja na maior parte dos leitores devotos que poderão até sentir lágrimas do Amor purificador e libertador...
E assim acabava o sonho e ambição do proselitismo missionário cristão, vindo das praias do extremo Ocidente e finalizando nas costas do extremo Oriente...
Talvez o fim do romance (ainda que haja algumas notas históricas posteriores) pudesse estar melhor, pois diz-se ainda que Sebastião Rodrigues ficara a desprezar Cristóvão Ferreira  por o ter encaminhado para a apostasia, quando ambos deveriam  antes reconhecerem-se e conviverem na plenitude de espíritos filhos de Deus, livres e fraternos, acima das divisões, formalidades e barreiras religiosas e dogmáticas, podendo-se dizer que tinham cumprido as suas missões ou deveres (swadharma) da Vida em aspiração ao Amor e à Divindade, a qual não se deixa fechar nem sentir em concepções limitadas de religiões ou seitas...
Shusaku Endo imagina-os reciprocamente  se desprezando, embora sintam piedade pela comum desgraça que os une. Mas a unidade interna da procura da Verdade, o amor da religião do Espírito e do Amor, a abertura à Divindade deveria antes desabrochá-los e uni-los interiormente, embora se intua bem todas as tensões e limitações estreitas da época e dos ambientes e cosmovisões gerais.

Na verdade, não houve desgraça mas simples reconhecimento que o Cristianismo não podia vincar no Japão, pese o sonho missionário ou evangélico audacioso e que tivera um florescimento inicial tão grande e prometedor, e proporcionandoa ainda assim alguns momentos de grandes diálogos interreligiosos como os protagonizados por S. Francisco Xavier com religiosos japoneses.
  Os séculos posteriores darão razão aos que apostatizaram e evitaram mais mortandade de japoneses, e de igual modo hoje o sonho de uma religião qualquer triunfante no mundo é um sonho imperial de um iludido ou mesmo extremista, o Cristianismo convivendo com o Budismo, o Shintoísmo e sobretudo com as centenas de grupos espirituais que testemunham a perene aspiração numinosa do povo nipónico...
Deus ou a Divindade não pode ser para as pessoas apenas uma concepção exterior, uma crença, mas deve ser sim uma vivência interior e espiritual, um presença mística e amada, e logo de consequências libertadoras em relação à letra que mata o espírito.
Assim as religiões devem ser  dialogantes e universais e comungarem fraternamente nos princípios éticos e nas realizações espirituais comuns, estas  sobretudo pelas almas mais místicas alcançadas e partilhadas, embora não tenham sido tão divulgadas e assimiladas como o mundo precisa...

Sebastião Rodrigues dar-se à conta posteriormente que de facto a sua luta maior não foi contra os opositores exteriores, seja perseguidores e inquisidores, ou mesmo o pântano infértil para o cristianismo, mas contra a sua própria fé limitada e certamente incompreendida agora pelos religiosos que estivessem em Macau, Goa ou Lisboa, pois se os traíra não traíra a Voz Divina ou da Consciência, entre nós tão realçada por Antero de Quental ou como, escreve Shusaku Endo, «ele não traíra o seu Senhor», e continuava amando-o...
E assim no seu interior o Amor Divino ardia, a sua vida, mesmo com um nome japonês e casado, continuava a ser a do último sacerdote ou sacralizador ocidental no Japão (e nesse sentido ainda teria que absolver no fim o escorregadio Kichijiro) e ela falava por si só do mestre Jesus, duma face Divina, mesmo perante toda a incompreensão ou silêncio...

                       

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