segunda-feira, 19 de junho de 2017

Antero de Quental e José Bação Leal, poetas irmãos da Alma e do Destino.

José Bação Leal foi um jovem poeta e escritor que caiu precocemente com 23 anos nos campos do serviço militar no norte de Moçambique, em 1-IX-65. Conheci-o nesse último ano da sua vida, na messe dos oficiais em Nampula, ele oficial miliciano ferido e doente, eu jovenzinho filho de um oficial também a cumprir a sua missão militar. Sintonizámos, havia uma afinidade anímica, ele tinha frequentado o Colégio Militar, aonde eu ia entrar, mas do que falámos já nem me lembro. Mas ficou-me sempre o seu olhar lúcido e profundo, doce e melancólico, talvez pressentindo já que a sua morte estava predestinada a vir precocemente.
Em 1966, em Lisboa, Francisco Eduardo Silva Alves e José Mário Fidalgo Santos, dois amigos do Zé Bação, com a ajuda da mãe, que recolhera alguns dos manuscritos de uma antologia de poemas que ele queimara pouco antes de partir para África, com consciência sacrificial e de renascimento, publicaram numa edição bela de 250 exemplares uma antologia dos seus poemas e cartas, onde podemos tanto sentir a sua grande sensibilidade e lucidez como ver também a qualidade dos autores que ele com 20 anos lia ou queria ler e amava, tais como Philipe Solérs, Lawrence Durrell,  T. S. Eliot, Antero de Quental, Fernando Pessoa, António Ramos Rosa, Manuel de Castro e Maria Teresa Horta.
Vamos publicar extractos desta antologia numa homenagem a Bação Leal e ao Antero, certamente em vários aspectos irmãos de alma e de destino, e também porque nenhuma alma amante de Antero deveria saber da belíssima aproximação ao suicídio de Antero escrita pelo Zé Bação Leal.
Mas antes de partilharmos alguns poemas e a reflexão anteriana, contemplemos uma fotografia de uma alma tão bela, nos seus 20 anos.

«Vem! deusa de olhos verde
dos meigos cabelos louros

Vem sem medo

Vem descobrir os tesouros
que se escondem para lá do mar

Vem descobrir o segredo
que fez um homem naufragar.

***
Docemente
hei-de agarrar a tua mão
e juntos
seremos os donos da floresta

Levaremos o Outono
às folhas que tombam na Primavera.

Seremos em cada pôr do sol
uma dádiva de amor
uma carícia à morte.

Juntos
enfrentaremos o tempo
com um olhar firme.»

*****
Das suas cartas escritas no Alentejo, no Monte da Tapadinha, Mourão:
«Releio agora a tua carta. Dir-te-ei que ainda não é tempo de eu cantar a glória de Deus. Como queres tu que eu volte os olhos em prece para uma luz superior que a minha natureza de homem, difícil e sequiosa, não alcança? Ainda não é tempo. As frias leis humanas não são justas. Estou certo de que leis diferentes, quais cânticos de justiça, ponderam a minha conta. Por isso tem esperança, Luís, que um dia Deus me chamará a si, nem que isso aconteça só no dia final. (...)»

De outra, datada de 15-XI-62, para a Lena:
«(...) Passo muito tempo a olhar o fogo com muita metafísica, de livro na mão e à luz do petróleo. Devo ter, por certo, vocação para a cinza...
E a propósito sou suficientemente honesto para te dizer que ontem sonhei com a tua amiga loira de olhos cor de cinza... É curioso, hem! Os sonhos são imponderáveis.
Calculo que tens ido a essa longínqua Copacabana e que tens estado com o Victor. As pessoas por lá ainda têm o mesmo ar comprado? Assim o creio. É que, não imaginas, ando a ler Buda e Maomé e começo a admirar bastante o primeiro. Foi um homem honesto, bondoso, coerente e isso é muito importante. Ando mesmo com ideias esquisitas. O silencio faz-nos estranhas confidências.
Seria curioso eu descrever-te a lua como ela está hoje. Está na linha do horizonte e tem uma forma oval. Tem uma luz estranhamente sanguínea que se reflecte nas nuvens e lhes dá um tom renunciante. É misteriosamente bela essa luz exangue e estou certa que nunca a viste»
A reflexão sobre Antero é escrita também de Morão, a 22-XI-62, a propósito de um acidente gravíssimo de automóvel em que por pouco não morreu, vivido com plena consciência em tudo, até chegar ao momento de se irem espatifar contra um tractor a uns metros: «Agora o pior ou o melhor, durante décimos de segundo pensei a morte inevitável, sentia uma mão interior a puxar-me para trás. Era o medo. Eis portanto a questão: tive um medo horrível, um medo desesperado de morrer. Começas a compreender porque seria batota ler o Mito de Sísifo. Sim. Seria uma batota repugnante, masturbar-me intelectualmente com frases pr-concebidas sobre uma coisa in-concebível. Claro que perguntei a mim mesmo, porque não houve o choque? Perguntei, mas a resposta nem sequer ecoou. Sobre Alberto Camus que era por certo um eleito dos deuses até porque morreu novo (concepção antiga) admito que ele era um lúcido, um intelectual avisado, tudo o que quiserem menos um ressuscitado.. As suas considerações sobre o suicídio só eram válidas para ele próprio. Digo mesmo que ele não tinha direito de as tornar públicas. A morte é uma experiência de uso pessoal. É mesmo, pelo menos assim o creio, irredutível a termos de vivos (...)
E sobre o suicídio um pouco mais. Descobri o mistério de Antero de Quental. Antero não se suicidou. Foi apenas Deus que o chamou. Vê se me acompanhas, Antero em vida foi um constante combatente do destino, principalmente do destino dos outros. Ora Deus, que o conhecia bem, quis dar-lhe essa última alegria, a de morrer sozinho e por escolha. Antero sofria horrivelmente. Nem o sabor da glória o apaziguava. Exigia uma vida ideal, na qual, quem sabe? os homens morreriam só quando o achassem justo. Deus compreendeu-o. Naquele entardecer em que, num banco de jardim Antero se despediu, foi Deus que o acompanhou. Não consideres isto uma blasfémia. A vida de Antero é digna de a dum santo. Li algures, que Antero podia ter sido um companheiro de S. Francisco de Assis. E é verdade. Quando um homem luta pelo destino dos outros, como Antero lutou, tem por certo na alma uma chama etérea.
O meu caso pessoal, infinitamente mais humilde que o de Antero, é no entanto difícil. mais do que nunca, sinto que passeio agarrado a uma nuvem numa extensão de ar infinita. Não aceito a vida, nem a morte. Nunca sei bem se estou agarrado à nuvem ou se estou cair. Passeio apenas . Com consciência e sem consciência, passeio. Percorro os dias sem que uma distância se elabore. E não ter distâncias, não ter perto nem longe, dói, dói bastante. (já nem pena das palavras... tenho.)» 
Acerca destas linhas sobre Antero, muito originais, e que não sabemos  sobre que bases de conhecimento da vida e obra de Antero foram sentidas e escritas,  destacaremos apenas três ideias-forças: a do ideal de as pessoas morrerem só quando sentissem que era a hora ou era justo. A de morrer acompanhado por Deus. E, finalmente, «quando um homem luta pelo destino dos outros, como Antero lutou, tem por certo na alma uma chama etérea». 
Que esta chama etérea que brilhou mais em Antero e em Bação Leal se intensifique também em nós, em comunhão com eles, na Tradição Cultural e Espiritual Portuguesa, e com a Divindade...
Já terminado este texto, no Google vi que a sua obra, além de uma reedição que já conhecia de 1971, teve uma em 2014, pelo jornal O Público e que «um documentário de 53 minutos dedicado a José Bação Leal, intitulado Poeticamente Exausto, Verticalmente Só, foi realizado entre 2003 e 2007 por Luísa Marinho. Está disponível online em versão integral, em http://vimeo.com/25109453 e com o trailer no YouTube.»

Sem comentários: