sexta-feira, 29 de abril de 2016

Antero de Quental, " Palavras Aladas", no Graal de Portugal.


                          

Sob o nome de Raios de Extincta Luz surgiu em 1892 uma colectânea de poemas  juvenis de Antero de Quental, publicada por Teófilo Braga, e que se socorrera da preservação deles por Eduardo Xavier de Oliveira Barros Leite, a qual, contendo bastantes tesouros da sensibilidade afectiva, artística, ética e espiritual de Antero, poderá ser lida ou relida de quando em quando com efeitos luminosos em todos. É neste livro que se encontra talvez o mais belo e profundo poema de Amor de Antero de Quental, à Beira Mar.
                                  
Seleccionamos o primeiro, Palavras Aladas, pelo que de tão elevado animicamente perpassa nele, nomeadamente no apelo à continuidade da Tradição Espiritual Portuguesa (e Antero neste poema glosa Bocage...) que há-de saber cultivar estas folhas e palavras aladas no vento do transitoriedade histórica e recolhê-las na urna ou Graal que cada um de nós tem no seu coração, aí onde pode operar o milagre da ressurreição e da iluminação, ao unir o espírito com a letra ou, como ele sugere, se sonharmos ou imaginarmos a pura essência de Antero animando a sombra fugidia e unindo ainda a voz ao eco, o foco ao raio...
Estamos pois diante de uma invocação mágica, de focalização no círculo ou anel da Graça da meditação do raio subtil do espírito. E quem recitar ainda o poema em voz alta e amorosamente esse ser mais poderá sentir o eco, a ressonância da música das partículas e ondas que nos interligam com Antero e com o Todo, fortificando-se em tal comunhão, o santo Graal em Portugal...
«Se alguém souber do canto o sentir íntimo (...) 
Canto e lira à Liberdade, ao Amor e a Deus votada»
                                

                                  

                                   
                                      PALAVRAS ALADAS

         «Raios de extincta luz, eccos perdidos
           De voz que se sumiu no espaço absorta —
           Meus cantos voarão de edade em edade,
           Como folhas que ao longe o vento espalha.

            Não sabe a folha já mirrada e secca,
            Que um sôpro do tufão levou revolta,
            Que outro sopro talvez desfaça em breve —
            Não sabe a triste o ramo onde nascera,
            A seiva que a nutriu, quando inda bella,
            O tronco que adornou com verde galla,
            E onde entre irmãs folgou por tarde amena?
            Soltos do tronco, sem calor, sem vida,
            Filhos orphãos que um seio não aquece,
            Um seio maternal ebrio de affectos,
            Meus cantos voarão de edade em edade,
            Como folhas que ao longe o vento espalha.

Mas se alguem, vendo a folha abandonada,
Lembrar e vir na mente o tempo antigo
Em que bella, vestindo pompa e gallas,
Brilhou rica de seiva e luz e vida;
Se na mente sonhar a pura essencia
Que animara esse pó ahi revolto;
Se corpo der á sombra fugitiva,
E a voz unir ao ecco, e o foco ao raio;
Se alguem souber do canto o sentir intimo,
Oh, esse ha de entender a vida, a crença
D'essa alma que animara outr'ora o canto.

Se alguem tiver no peito a urna mystica
Onde o Amor se recolhe, esse hade amar-me;
Se livre, por tyrannos não comprado,
Pulsar um coração, esse commigo
Hade a aurora saudar do novo dia;
Se uma alma recordar a eterna patria
Que lhe dera o Senhor, do céo saudosa
Commigo a Deus n'um hymno hade elevar-se.

Aos mais será mysterio o canto e a lyra,
Á Liberdade, a Amor e a Deus votada:
E já, soltos do tronco onde medraram,
Meus cantos voarão de edade em edade,
Como folhas que ao longe o vento espalha».

Coimbra, Novembro, 1860, e recolhida para si agora.

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