Abd-Ul Ghafour Ravan Farhadi foi um dos seus bons comentadores modernos (in Iran Moderne) e vamos citá-lo e, embora os dois mártires recentes a quem dedicamos este texto, Ali Larijani e Ali Khamenei não escreveram, que saibamos, sobre a sua obra e intuições, pois ambos tiveram de lutar muito militar e politicamente para conseguirem manter a República Islâmica do Irão livre da opressão do Ocidente hegemónico, certamente o leram e apreciaram.
Como sabemos, o Amor é no Irão quase que a religião nacional, no interior da religião islâmica, e nesse sentido tantos mestres e poetas o aprofundaram e transmitiram ensinamentos bem valiosos. Poderemos nomear como exemplos os Fiéis do Amor de Isfahan, Mevlana Rumi, Hafiz, e Ruzbehan de Balk, este já abordado neste blogue e que tive a graça de visitar e meditar no seu túmulo em Shiraz, gravando um vídeo, no Youtube.
Já em Zoroastro, todavia, a visão de Deus, Ahura Mazda, é a do Ser Supremo da Sabedoria e da Bondade, que nos apela a desenvolver a trindade dos Bons Pensamentos (Humata), Boas Palavras (Huxta) e Bons Actos (Huvarshta). O Amor entre os seres, na família, e do cultivo da Terra e da Pátria, da Justiça e da Verdade, numa luta contra a mentira e a injustiça são considerados deveres de todos, e essenciais para que Asha, a Ordem e Providência Divina e amorosa, se realize.
Com Jami já se passaram muitos séculos desde ensinamentos dos magos e de Zoroastro e houve muita experiência, visão e doutrinação sobre o Amor, pelo que Jami, filho dum sufi, iniciado e místico, pode doutrinar melhor ainda que Al Ghazali (1058-1111) e voar bem alto na sua visão cosmogónica e do caminho espiritual, de certo modo lucrando com os que o antecederam, tais Ibn Arabi, Rumi, Attar, Sohrawardi, Ruzbehan. Vejamos a sua visão do Amor:
«A Beleza do Único existe desde a pré-eternidade (azal). A Vontade do Único alegrou-se em manifestar (tajjali) esta Beleza. Esta Vontade foi portanto a base da Criação, que vendo do nada à existência, aspira a adorar a Beleza. Esta Vontade esteve consequentemente na origem do Amor que está fora do tempo, sem princípio nem fim (Sabhat-ul Abrar Silsilat-us-Zahab). Tudo depende portanto do Amor: a criação, o movimento dos astros e dos ceus, o desabrochar das flores.»
No ser humano o amor manifesta-se como o desejo instintivo da união sexual, e o desejo de união psíquica e espiritual, com a amada ou com Deus. Neste amor mais intenso e verdadeiro, há necessidade de nos libertarmos do que nos prende, seja por desejo seja por receio. Assim, nos estados de amor mais intensos ou elevados, tanto a razão ou racionalidade, como o ego ou o eu são abandonados, queimados no fogo do amor do coração, no fundo trocados pelo ser Amado,
Nesta movimentação o ser tanto conserva o amor humano, como passa ao divino, que é o elixir da vida eterna, Muitos místicos sentiram-no mais no coração transparente ao Amor Divino, tornado taça ou cálice.
Esta movimentação passa por estações sucessivas, que vão «da sua procura do ser que se ama por causa de nós mesmos, e depois já se deseja esse ser por ele mesmo, e por fim consagra-se a tal ser pelo Amor.»
«Quando esta consagração é realizada, a dualidade diminui ou desaparece , já pouca ou nenhuma distinção havendo entre os dois amantes, só havendo o amor para sempre, ou até ao fim dos tempos ou da manifestação. Esta vontade unificada pode então reger ou determinar tudo, num equilíbrio entre o destino, o dever, a providencia, e o livre arbítrio.»
O ser que mais sente o amor deve renovar a sua consagração ao Divino, à Verdade, ao Amor, e ser-lhe mais fiel, mesmo quando sente mais intensamente o amor humano, pois só por esta aspiração ígnea não materializada ou fixada é que o coração se torna o atanor ou o ovo alquímico onde o oceano de Maomé, ou a Haqiqat mohammadiya, a realidade mohammedica, se manifesta e apura a nossa essência divinamente, pois para todos os níveis, e em espacial nos internos, a Fonte do Amor na Criação e Manifestação é Deus, Allah.
Transcrevemos agora um bem elevado poema do Diwan de Jami, que oferecemos a Ali Khamenei e a Ali Larijani, neste findar do dia 8 de Julho enquanto oiço em directo as orações e cantos em homenagem a Seyyed Ali Khamenei, na cidade santa de Karbala.
Assassinados pelos invejosos e opressivos do eixo do Mal, ressuscitaram como mártires, shahid, os seres que testemunham nas dificuldades e perante a ameaça da morte o seu amor e união a Deus, entrando no além bem conscientes da sua dimensão espiritual, imortal e fiel do Amor e de Deus, passando a reflectir a Luz divina, tal como os profetas, e os Imams, para nós, como todos nós, não cegos pelo infrahumanismo ocidental, observamos com os mais de 30 milhões de seres que tem participado nestas procissões e orações, e recebendo do heroico e sábio Ayatollah Ali Khamenei e dos awlia, ou amigos de Deus que estão com ele, certamente muitas inspirações e bênçãos, para que a vitória das forças da Luz e da Justiça seja bem contribuída pelo povo iraniano e a família shiia, ahl al-Bayt.
«Olha, Jami, desde a criação
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