| Pequeno oratório erasmiano em Lisboa, com um rosário ou mala jaina e um cálice persa |
Nesta terceira década do século XXI, celebrando-se já quase o quinto centenário da morte de Erasmo, daquele sobre quem André de Resende escreveu a Damião de Goes, que com Erasmo chegara a viver, dando-lhe conta de uma voz que ouvira em sonho: «extinguiu-se para o mundo aquele que era o ornamento que os séculos nunca chorarão suficiente», o que deveremos relembrar do seu ser, vida e obra como sendo o mais perene?
O moralista, o satírico e irónico, o exegeta classicista e cristão, o reformista, , o filólogo e retórico, o pedagogo das crianças e dos príncipes, o dialogante instrutivo dos Colóquios, o amigo dos livros e dos impressores, autor de best-sellers em edições de bolso, o polemista, o epistológrafo, o guia da intelectualidade cristã, o ecuménico, o conciliador, o conselheiro de príncipes, governantes, papas e altos eclesiásticos, o filósofo, o tradutor, anotador e parafraseador dos Evangelhos, o teólogo renovador do Cristianismo essencial, o escritor independente, sem partidos, o mestre do Humanismo europeu, o irenista ou propugnador da pax universalis?
Como humanista, sintetizador ou unificador da sabedoria pagã ou greco-romana e a cristã, recolhendo tanta sabedoria popular dos provérbios e tanta clássica dos exemplos, lucidamente observando e criticando a sua época, o que devemos mais realçar como conceitos, valores, princípios que nos possam inspirar e guiar?
O Logos ou inteligência, intelecto activo, palavra, verbo, sermo, ordem, tão trabalhado pelo estoicos com o logos spermatikoi que permeia o mundo e que ele tanto sentiu nas suas investigações e intuições, ou com os confabulators mais próximos?
O Corpo místico da Igreja, de Cristo e da Humanidade que a todos envolve e que todos pertencemos, subcampo da alma do mundo e no qual colaboramos com a nossa devoção, trabalho, amor e criatividade?
O valor da vida simples e sincera, da justiça distributiva eficaz e alargada, a critica dos poderosos, arrogantes, pedantes, opressores...
O defensor do livre arbítrio, como exemplificou na polémica com a predestinação de Lutero, certamente condicionado pela hereditariedade, o ambiente e a educação mas numa vida que apela à nossa liberdade interior e responsabilidade de sabermos escolher o melhor possível.
A demanda da verdade e a recusa da mentira, o elogio do bem e a crítica do erro, como ele corajosamente praticou toda a sua vida, sendo por isso tão atacado e censurado, mas perseverando nos seus trabalhos e edições e nas suas cartas, que tanta gente inspiravam e guiavam, sobrevivendo hoje cerca de 3.000, publicadas por Allen e pela Toronto University Press e das quais publicamos algumas traduções e excertos no blogue.
Talvez seja transcrevendo uma carta sua a melhor formas de apresentarmos alguns dos seus valores, e concluir esta breve homenagem a um amigo e mestre querido, com quem convivi bastante alguns anos (e que me fez subitamente intuir hoje que era o seu dia), publicando um seu livro, Modo de Orar a Deus, e peregrinando ao local em que está a sua lápide da entrada na imortalidade, e nos quais dialoguei bastante com José V. de Pina Martins, um moreano e erasmiano de valor internacional. Assim, traduzimos um excerto duma sua carta de actualidade perene quanto à formação humanista dos dirigentes e das pessoas, quanto ao valor da História escrita como elogiadora ou condenadora dos governantes e quanto ao amor e leitura dos livros, sobretudo porque a manipulação e imbecilização das populações parece ser desejada e implementada pela UE e a oligarquia mundial:
Carta 586 na Opus Epistolarum de Allen, e na tradução de Marcel A. Nauwelaerts. Antuérpia, 5 de Junho de 1517.
«Ó Frederico e Jorge [duque da Saxónia], duques incorruptíssimos, tal como eu não exigiria dos homens, que uma decisão da Fortuna colocou ao leme do mundo um conhecimento preciso e exacto das disciplinas eclesiásticas, onde vemos que aqueles que envelheceram, longe de estarem capazes de segurar as rédeas do governo, falta-lhes mesmo o senso comum, de igual modo afasto-me resolutamente dos que desviam os reis e governantes, como se fosse algo nocivo, de toda a relação com os livros, como se o que é verdadeiramente real consistisse em pouco saber e nada fazer senão jogar aos dados, caçar, ouvir bobos e entregarem-se a voluptuosidades sórdidas.
Com que amigos, com efeito, um príncipe cordato e piedoso poderá relacionar-se voluntariamente senão com os que estão sempre prontos, sabem de muito e nada dizem por complacência?
Ora não se pode, sentencio eu, extrair mais proveito de um livro que não seja das obras que transmitiram fielmente à posterioridade os feitos realizados nos domínios públicos e privados, sobretudo se é para alguém de sangue real ou nobre e que está imbuído dos preceitos da filosofia a que acedeu. Na realidade, os que se ocuparam em estudar a boa fórmula de conduta a adoptar mais do que narrarem minuciosamente a conduta que tiveram (Heródoto faz parte deles) são úteis na medida em que propõem ao olhar dos outros um simulacro (ou estátua) dum bom príncipe, pelo menos desde que o tenham esculpido com arte e verdade.
Por outro lado, além de outros benefícios, e são numerosos, que se retiram dos escritores de boa fé, há um de primeira importância: nada acende tanto os bons ânimos dos reis e os impulsiona a realizarem acções louváveis, nada retém mais e refreia a cupidez dos tiranos, do que aperceberem-se, uns e outros, que pelos escritos dos historiadores, toda a sua vida vai ser brevemente representada sobre o teatro do mundo inteiro, e o que é mais ainda, por todos os séculos; que tudo o que realizam, por hora em segredo, tudo o que cobrem de um pretexto ou constrangem, pela intimidação, a dissimular mais que a ignorar, vai ser daqui a pouco tempo ser transmitido ao olhos de todos em plena luz e que a posterioridade vai, liberta do medo e da esperança, e incorrupta por qualquer partidarismo [infelizmente tão dominante hoje], num magno consenso, aplaudir as acções rectas, e também livremente apupar e assobiar as que não o são». Resumindo, diminuam ou acabem as acções injustas, desonestas, hipócritas que são hoje muitas no mundo ocidental político oligarquizado, anti-democrático ou mesmo ditatorial, ao perseguir cada vez mais o assobiar e criticar, mesmo nas simples redes sociais, e violentamente anti-multipolar, em tudo isso indiferente à fortuna dos seus cidadãos e do mundo, governando só para uma elite. O que Erasmo condenaria veementemente.
Saudemos luminosamente Erasmo e que ele possa inspirar-nos a reagir e a lutar contra o estado calamitoso do Ocidente em guerra com a Rússia e com o Irão, dois países que lutam pela justiça, a liberdade, a multipolaridade, a república das Letras e da Sabedoria fraterna, de modo a aprofundarmos mais o conhecimento, a gnose, a filosofia e teologia perene, e a religação crística e divina.
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