O Dr. Amílcar de Souza (1876-1940) foi um dos pioneiros do naturismo e do vegetarianismo em Portuagl, pois nascera em Alijó, nos Campos Elísios do sagrado rio Douro, e esses ares puros respirados na sua infância abriram a sua alma para sempre às harmonias da Natureza.. Formado em Medicina em Coimbra e depois d especializado na cura das doenças da alimentação, pela via dietética e dos cinco elementos, em Paris, onde contactou um meio florescente de pitagorismo, esoterismo e naturismo, entregou-se totalmente ao regressar à sua vocação ou swadharma de apóstolo da cura pela vida sã, graças contacto com a natureza, a marcha, a ginástica, a hidroterapia e a alimentação vegetariana.
Fundou em 1909 O Vegetariano. Mensário Naturista Ilustrado, com Jerónimo Caetano Ribeiro, o qual se publicou grande qualidade e sucesso até 1935. Além das consultas que dava, escreveu muito para jornais e revistas, traduziu e publicou livros, e foi o fundador da Sociedade Vegetariana de Portugal em 1911, no Porto, Sociedade bastante dinâmica - pois teve hotel, editora, venda de produtos orgânicos, consultas gratuitas -, e da qual o Presidente honorário foi Jaime de Magalhães Lima, o discípulo de Tolstoi e de Antero de Quental, pioneiro também do naturismo e agricultura natural, e notável pensador e escritor. Na Sociedade, Amílcar de Sousa foi o Presidente, o secretário Jerónimo Caetano Ribeiro, o tesoureiro Manuel de Oliveira Borges, e os vogais José Barbosa e Aleck Watson.
Além do Vegetariano, a sociedade editava também o Almanaque Vegetariano ilustrado para Portugal e Brazil, que se publicou de 1913 a 1920, e ambas as publicações deram à luz valiosos artigos de Amílcar de Souza, Jaime de Magalhães Lima, Luís Leitão, Ângelo Jorge, Nónio e Dr. João Pinto Soares de Vasconcelos, que em 1916 fundaria a revista de Higiene Natural, Vida e Saúde, além de vozes femininas que testemunhavam a sua sensibilidade, conhecimento ou reconhecimento pelas curas dinamizadas por Amílcar de Sousa.
Um ano depois em Lisboa, em 1912, a 13 de Outubro, era fundada a Sociedade Naturista Portuguesa, pelos Dr. Roberto Neves e Luciano Silva, a qual, passados vários anos frondosos, em 1933, com o advento do Estado Novo e a opressão salazarista à Maçonaria (contra o que muito protestou Fernando Pessoa), à Sociedade Teosófica, ao Espiritismo e ao Naturismo, foi obrigada a mudar de designação e passando a ser a Sociedade Portuguesa de Naturalogia, nome que conserva até aos nossos dias, durante muitos anos sediada, e onde estive muitas vezes, nos tempos do inolvidável prof. António Cardoso, na rua do Alecrim, mesmo ao lado do nº 44 da excelente livraria alfarrabista de Tarcísio e Bernardo Trindade, hoje também deslocada dessa artéria central de Lisboa.
É natural que Amílcar de Souza fosse também sócio da Soc. Portuguesa de Naturalogia mas, mesmo que não fosse, mereceu serem dele as onze regras ou Leis da Vida Sã vinculados no seu cartão identitário pelos dirigentes da Sociedade Portuguesa de Naturalogia, que as escolheram certamente pela admiração ou reconhecimento que tinham por ele, como podemos comprovar-se na na revista Natura, fundada em Abril de 1942, quando Bonifácio Antunes (Márcio Leal) o seu director, com Luciano Silva e Napoleão Gonçalves a redactores, logo no nº1 faria um extenso artigo de homenagem ao «devotado propagandista da Felicidade Humana, o médico eminente e professor de Naturalogia distinto que em vida se chamou Amílcar de Sousa.»
Reproduzimos e transcrevemos as Leis da Vida Sã (regras que até Fernando Pessoa tratou no seu caminho para as condições de iniciação), e creio que não são necessários comentários a não ser talvez destacar a respiração aprofundada segundo métodos próprios, psicosomáticos, e a crítica talvez algo radical feita ao vinho (tanto mais que foi um grande defensor das vinhas do Douro), ao vinagre e ao chá, pois também contêm virtudes medicinais, consumidos com moderação e sabedoria. Certamente poderemos interrogar-nos sobre os gozos da sociedade moderna que ele mais preferia ver substituídos, se manteve sempre a sua predileção pelo frugivorismo, o que pensava do veganismo e o que o levou a partir relativamente cedo, quem sabe se contraparte por tanto doente que curara.
LEIS DA VIDA SÃ
Professar o culto da Natureza. Isto é amá-la e respeitar as suas Leis, afastando-se delas o menos possível sejam quais forem as circunstâncias.
Suprimir da alimentação progressivamente, a carne de todos os animais e todas as substâncias irritantes.
Abster-se de todas as bebidas alcoólicas, mesmo as mais fracas, porque são prejudiciais à saúde e provocam muitas vezes o chamado alcoolismo crónico.
Procurar o ar puro e respirá-lo profundamente, sob regras e métodos próprios.
Conservar sempre a janela do quarto entreaberta, quer de dia quer de noite durante todo o ano.
Praticar, com as devidas precauções para os principiantes, os Banhos de Sol, Ar e Luz.
Executar diariamente alguns exercícios ginásticos, especialmente respiratórios e abdominais, para o pulmão e o intestino se regularizarem.
Abolir o uso do tabaco, vício muito prejudicial a Saúde.
Rejeitar a maioria dos gozos da vida civilizada, buscando outros mais sãos e conformes à Natureza, à Moral e á Verdade.
Simplificar a alimentação, repudiando, por serem tóxicos, o chá, o vinagre, o alcool e tantos outros estimulantes perniciosos.
Tais são as regras desta vida feliz, Saúde duradoura e paz na família e na sociedade pelo Naturismo.»
Dr. Amílcar de Souza.
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