segunda-feira, 27 de julho de 2026

A revolução utópica do Vegetarianismo. O Almanaque Vegetariano Ilustrado de Portugal e Brasil: dois subsídios de 1913 para a sua história e propaganda.

                                           

Como sabemos o começo do século XX foi muito dinâmico nos projectos de transformação das pessoas, povos e sociedades, e Portugal seguia a dinâmica europeia tanto mais que se transicionava da Monarquia aristocrática para a República democrática,  concretizada a 5 de Outubro de 1910.
Apoiados no dinamismo tremendo das artes da impressão e da comunicação, sociedades e partidos, editoras e tipografias, revistas e jornais, almanaques e livros, conferências e discursos, comícios e revoluções, as aspirações  duma minoria crescentemente mais consciente e  crítica dos defeitos e limitações nacionais  começaram a dinamizar a massa dominante ainda pouco instruída para a higiene, a cultura aberta, a ciência, o livre pensamento e  os movimentos psíquicos fora das dogmatizações oficiais ou estabelecidas.
Para além do campo das concepções e propostas políticas que se digladiaram por vezes ferozmente, cremos que foram o espiritismo, o esoterismo e o vegetarianismo os que mais se destacaram na luta pela melhoria física e psíquica dos seus cidadãos. 
Abordámos o começo do vegetarianismo no artigo anterior do blogue, sobretudo à volta do médico duriense Amílcar de Sousa e as sociedades e revistas que fundou ou animou no Porto, e as Leis da Vida Sã que a Sociedade Portuguesa de Naturalogia, de Lisboa, dele adoptou. Agora partilharemos dois documentos ligados à revista mensal O Vegetariano e ao anual (de 1913 a 1920) Almanaque Vegetariano ilustrado de Portugal e Brasil, nomeadamente duas desconhecidas ou muitas raras folhas volante de propaganda, impressas no Porto em 1913 pela Sociedade Vegetariana Editora, que  Amílcar de Sousa também fundara concomitante e dirigiria.
A folha volante (de 22x15cm), propriamente dita e bem ao estilo da arte Nova, assinada por Adelino Mesquita, contém um poema encomiástico à revista  O Vegetariano e aos seus ideais de harmonia com a Natureza e de diminuição ou o fim do sofrimento humano.
O reclame, de pequena dimensão (10x9 cm), é bastante irónico e provocador do sistema oficial, com o seu entusiasmo profético pelos efeitos transformadores que o  naturista e vegetarianismo do Almanaque Vegetariano iria provocar não só no Porto mas na Terra. Ei-la:


                                       Revolução Iminente

«Notícias de boa origem recebidas na redação de " O Vegetariano" asseveravam que lavra o pânico na legião dos Esculápios, Galenos, droguistas, carniceiros, etc.
Uma epidemia de saúde ameaça a integridade social dessas classes devido ao vigoroso impulso do 

Almanaque Vegetariano Ilustrado de Portugal e Brasil

 que acaba de aparecer em todas as livrarias. 

Preço 200 reis.

Por quantia tão pequena qualquer cidadão se habilita a ser forte e saudável, fazendo-se vegetariano e naturista.
Está por isso iminente o encerramento dos matadouros, talhos, hospitais, farmácias, etc., num movimento de defesa colectiva, pois veem ameaçada a doença para sempre, rechaçada pelos meios simples que a bondosa natureza a todos prodigamente oferece. Lede sem demora o Almanaque Vegetariano para segurança do vosso futuro, e deste modo reinarão de novo a ordem e a harmonia à superfície da Terra.»

Neste folheto de propaganda do Almanaque Vegetariano Ilustrado (e era muito, nomeadamente com fotografias dos correspondentes portugueses e brasileiros), realce-se a sabedoria com que se põe a causa os talhos, farmácias e médicos, o visionarismo com que se apresenta o vegetarianismo como epidemia de saúde, a consciência revolucionária como se o considera um movimento de defesa colectiva do povo, e a visão optimista e utópica do fim das doenças e das infelicidades humanas pelo regresso à vida harmoniosa com a Natureza.

                                            O Vegetariano
Numa marcha triunfal
Entrou já no quarto ano
Essa revista mensal
- O Vegetarianismo.

No caminho da verdade
Esse obreiro do bem
Despoja a humanidade
Dos vícios que ela tem.

E do povo, na defesa
Segue avante sem cessar
Para que da Natureza
Ninguém se deixe afastar.

Toda a gente ele convida
A viver dos vegetais
Respeitando a sacra vida
D'indefesos animais.

Aconselha a suprimir
Os sofrimentos, a dor.
A todos vai transmitir
Paz, alegria, amor!

Com vantagens à vista
Todo o ser, bom e humano
Deve ler a revista.
- O Vegetariano. »

Porto, Março 1913.                        Adelino Mesquita. 

                                  
Realcemos neste poesia a visão da revista O Vegetariano ou do naturista ou vegetariano como alguém que tenta defender o povo da ignorância e dos vícios causadores do sofrimento e doença, propondo o respeito pela  vida sagrada dos animais, o consumo dos vegetais e uma vida saudável de bondade, paz, alegria e amor.
Consigamos nós viver mais nestas vibrações e qualidades, com mais ou menos vegetarianismo e naturismo!

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