Semi anónimas obras, pois quantos elos desta cadeia nos são hoje desconhecidos, já que geralmente apenas se conhece o nome do dono da oficina tipográfica, fosse ou tivesse sido ele ou não tipógrafo?
É certo que por vezes o autor ou o organizador da obrazinha devocional, em vez de apenas se intitular um devoto de..., acrescentava não o seu nome mas as iniciais. Outras vezes há a dedicatória a alguma personagem importante, enriquecendo-se assim o que se denomina a marginalia, a qual muitas vezes é acrescentada pelas assinaturas, notas, carimbos de posse, e ainda comentários manuscritos ou mesmo orações.
Estampas ou gravuras inseridas nos livrinhos representando o Arcanjo, e de novo assinadas ou não quanto ao desenhador e gravador ou mesmo local de venda também existem.
Por fim refiram-se os suportes físicos: o tipo de papel, ora mais rude ora mais fino, com marca de água ou não, a mancha ou aspecto gráfico dos caracteres em cada página, as margens maiores ou menores e finalmente o revestimento final, a capa da brochura, em papel simples ou pintado e a encadernação. em carneira.
Imaginemos então a quantidade de pessoas que animaram um livrinho que nos chega, nestes tempos do digital e virtual, até às mãos na sua fragilidade de ser mais que centenário e que nos desafia a apreciá-lo devidamente, tanto mais que privados estamos do conhecimento real de quem foram os autores dos elos da produção, ou mesmo da sua distribuição, pois continuando a sondar a obra, poderemos interrogar-nos onde se vendia o livrinho, se apenas numa ou duas lojas de venda de obras devocionais, geralmente junto a igrejas, ou se circulou mais, levado por vendedores ambulantes de festividades e feiras, ou mesmo se ainda estiveram pendurados ao vento, quais orações de pano e papel tibetanas, com sucedia com a literatura de cordel.
Tenho presente uma ediçãozinha, Novena do Archanjo S. Miguel, adquirida recentemente na ANNO leilões, do amigo Raul Pereira, e que ostenta na capa verde a assinatura de D. Maria de Sales Bragança, que pelo tipo de tinta azul parece ser já do séc. XX, embora a obra, um in-12º (13x9 cm) de 16 páginas, tenha sido dada à luz em Lisboa, em 1844, na tipografia de S. J. R. da Silva, à rua do Jardim do Regedor, nº 2, a qual seria o ponto de partida para uma reconstituição clarividente, no mundo subtil etérico ou akasico...
Anote-se no frontispício um carimbo redondo, as letras entre o primeiro e o segundo círculo, sem nada ao centro, Residentia Olisiponensis, que nos remete para a casa ou residência dos Jesuítas, em Lisboa, provavelmente aposta após a terceira expulsão dos jesuítas - 1ª de 1759 a 1829, a 2º de 1834 a 1858, a 3ª, na instauração da República, de 1910 a cerca de 1923-1930) - quando começava a desvanecer-se o anti-jesuitismo mais forte, pois é só de 1930 o regresso oficial da Companhia de Jesus. O facto de não ter o IHS no centro, nem a abreviatura da Societas Jesu, S. J., poderá indicar então ter sido carimbado pouco antes de 1930.
Quem de facto conseguirá recuar a sua visão cerca de 182 anos e observar a feitura desta obra tão frágil mas tão poderosa de evocações? Ou então quem conseguirá sondar no além um dos intervenientes da publicação do livro e entrevistá-lo quanto ao processo da sua realização? Ou ainda a passagem da obra pelos sucessivos possuidores e leitores, com os efeitos devocionais ou ardentes causados? Por fim as ligações verticais ao mundo angélico ou mesmo ao Arcanjo Miguel, nomeadamente quando foi recitada no dia da festa de S. Miguel a 29 de Setembro que culminaria a novena preparatória da sua manifestação ou bênção maior?
Desprovidos de tal clarividência, abdicaremos de sonhar desvendar tais enigmas e transcrevamos antes algumas passagens valiosas da Novena que inclui orações, jaculatórias e ladainha de Nossa Senhora, e as meditações ou considerações para cada um dos nove dias, algumas bem ricas (as aparições no monte Gargano e a D. Afonso Henriques, o papel de transmissor-intermediário das nossas orações e obras pelas almas no além ou purgatório), concluindo com vinte quadras para a festa, uma Antífona (oração e resposta) e o Oremos final.
Oração a S. Miguel
Ó Glorioso Arcanjo S. Miguel nós vos rogamos encarecidamente pelas graças, que recebeste de Nosso Senhor que nos defendeis nas batalhas para que não pereçamos no dia do tremendo juízo, livrai-nos de todos os males presentes e futuro, intercedei sempre por nós ó celestial Arcanjo ao Senhor que tanto vos honra, pedi-lhe a salvação das nossas alma, para que vamos connosco louvá-lo eternamente.
Hermenêutica:
Antes de começar a orar, pedir a Deus para que a nossa boca seja aberta ou accionada por ele e que possa louvar, dar graças, ou amor ao seu Nome, o seu ser e vibração no Cosmos e em nós. O Amen, Ameen, Aum, Hum, Su, Hu, Allah, são palavras que tentam condensar o nome de Deus em sons, repetidos pelos fiéis das diferentes religiões, com maior ou menor consciência, profundidade e alcance.
É uma grande graça estar-se a rezar e a repetir estas, da Novena e do texto, e outras Palavras com a consciência de que é Deus que nos abriu a voz e a vontade de orar e nela e pela voz vinda do íntimo repetirmos invocadoramente o seu Nome, Verbo, Palavra, Sermo, Logos na nossa alma e para a pluridimensionalidade do Universo e seus seres.
Destacaremos desta novena quatro efeitos das orações: Purificar o coração, limpando-o de manchas, sombras, erros, vibrações negativos. Inflamar no coração o amor a Deus, ao Espírito, à Verdade, à Unidade. Conseguir-se chegar à Presença Divina através delas. Merecer-se a imortalidade, o acesso à eternidade, ao mundo espiritual dos amigos de Deus, ao corpo Místico da Igreja, à mais intensa ou permanente ligação amorosa à Divindade no coração, alma e espírito...
Jaculatórias
1ª Ouvi ó meu Deus os rogos do vosso povo fiel, valha-nos a protecção do Arcanjo S. Miguel. Padre N. Ave Maria, e Gloria Patri.
2ª Em nossa última hora mandai Supremo Senhor, que o Arcanjo S. Miguel seja o Nosso Defensor. Pai N. Ave M. Gloria.
3ª Meu Arcanjo S. Miguel nossos rogos atendei, e a Jesus, e a Maria por nós sempre intercedei. Padre N. Ave Maria, e Gloria Patri.
Das vinte quadras ou jaculatóriaa para o dia da Festa:

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