Já partilhamos em dois artigos as máximas, mottos ou ditos da obra A Doutrina Moral ou dos Costumes, no original La
Doctrine des Moeurs, tiree de la Philosophie des Stoiques, en cent tableaux et expliqvee en cent discovrs pour l'instruction de la ieunesse, publicada em Paris em 1646 por Marin Le Roy Gomberville e reimpressa em 1683 sob o título La Doctrine des Moevrs, qui represente en cent tableavx la différence des passions: et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, que contém na sua I Parte sessenta figuras, e na II Parte quarenta e três,, valiosas de serem contempladas, cada uma delas com o seu mote ou lema, o epigrama ou quadra e por fim a explicação ou comentário, igualmente dignos de serem lidos e meditados por quem quer trilhar melhor o caminho da Sabedoria humana e Divina.

Foi um manual de virtus et sapientia para muitos, dinamizando o discernimento do bem e do
mal, a virtude e o vício, sem excessos de atemorizações ou
rigores e com observações valiosas psico-espirituais. Também os títulos debaixo das imagem - motes, ditos ou lemas -, e depois os epigramas ou quadras em verso eram facilmente assimiláveis na
alma, na sua tão importante faculdade retentiva, a memória, a que se seguia o breve texto explicativo, a narratio, de página e meia da autoria plena de Gomberville, já que motes e epigramas tiveram diferentes autores e Gomberville apenas os modificou ou mesmo simplificou.

Na verdade, tanto os motes e os epigramas, como as figuras ou emblemas, vinham da obra de Otto Vaenius intitulada Quinti Horatii Flacci Emblemata imaginibus, in æs incis, notisq́; illustrata, publicada em 1607, 1612 e anos seguintes, conhecida também por Emblemata Horatiana, estando constituída por emblemas inspirados sobretudo na obra do poeta e filósofo romano Horácio (65 a 8 a. C.). Com as sucessivas edições e traduções, outros gravadores e editores entraram em acção e a qualidade e os pormenores das imagens oscilaram. As edições impressas por Francisco Foppens, em Bruxelas, são das melhores. As francesas de Gomberville, impressas por Pierre Daret em 1646 e por Jacques le Grass em 1688 ressentem-se de serem em tamanho in-8º ou de 16 cm, sendo as primeiras de Pierre Daret mais nítidas ou melhores, mas mesmo assim inferiores às primordiais de Otto Vaenius, ou Otto van Veen (1556-1629), como podemos observar:
Vamos neste artigo apresentar um resumo ou breve hermenêutica de dez motes e suas narratio ou explicações contidos na I Parte do livro, respeitantes ao Amor, nas suas indicações mais originais ou valiosas:
- O Homem nasceu para amar. -
- Amando, tornamo-nos perfeitos.
- É preciso amar para ser amado.
- O amor dos Povos é a força dos Estados.
- A verdadeira amizade é desinteressada.
- O amigo não vê o defeito do amigo.
- Respeita o teu amigo e cuida de ti. -
- O Silêncio é a vida do Amor.
- A inveja é a morte do amor.
- Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.

1º mote, O homem nasceu para amar, tem esta quadra boa:
Livros, Arte, Amor, Religião, Espiritualidade, Ocultismo, Meditação, Anjos, Peregrinar, Oriente, Irão, Índia, Mogois, Japão, Rússia, Brasil, Renascimento, Simbolismo, Tarot, Não-violência, Saúde natural, Ecologia, Gerês, Nuvens, Árvores, Pedras. S. António, Bocage, Antero, Fernando Leal, Wen. de Morais, Pessoa, Aug. S. Rita, Sant'Anna Dionísio, Agostinho da Silva, Dalila P. da Costa, Pina Martins, Pitágoras, Ficino, Pico, Erasmo, Bruno, Tolstoi, Tagore, Roerich, Ranade, Bô Yin Râ, Henry Corbin.
sábado, 17 de janeiro de 2026
O Amor e a Amizade como estados de dádiva, aperfeiçoamento, união, sabedoria, felicidade. Os ensinamentos de Marin Le Roy Gomberville.
O Amor anima das suas chamas,
Todos os que são dignos da luz do dia
As pessoas que não têm amor
São corpos que vivem sem almas.
Na explicação, Marin Le Roy de Gomberville considera o Amor como fogo animador nosso, e diz-nos que temos todos uma mesma Mãe ou fonte Divina, estando no nosso coração gravado pelo dedo da Natureza o amor a Deus e ao próximo e logo as suas consequências fraternas: sentir os outros com mais amor, como amigos, pois só assim poderemos sentir a felicidade recíproca e a sintonia divina.
No 2º dito ou mote, Amando, tornamo-nos perfeitos, Marin de Gomberville explica que na verdadeira amizade ou amor os defeitos de cada um devem ser iluminados, ajudados ou amados pelo outro, para que haja conversão gradual das imperfeições e vícios, em virtudes que geram "o acordo harmonioso, que é o laço indissolúvel das almas."
No mote ou mantra 3º, bem desafiante, ígneo mesmo, É preciso amar para ser amado, Gomberville volta à necessidade de suportarmos e apreciarmos os temperamentos, inclinações, gostos e qualidades dos outros diferentes ou contrários aos nossos, para nos completarmos na amizade, tal como vemos no caçador e o tocador de lira.
O 4º mote, O amor dos Povos é a força dos Estados, tal como a explicação, são actualíssimos, nesta relembrando que se os povos estão unidos entre si afectivamente, tanto horizontalmente como verticalmente, não podem ser presas ou vítimas dos estrangeiros. Ora vemos como tais divisões destruíram alguns países e como outros, mais martirizados e resilientes, se uniram e vão conseguindo vencer os cobiçosos e traiçoeiros inimigos. Os casos da Síria e do Irão. E mesmo em parte a Venezuela ou Cuba.
O 5º mote. A verdadeira amizade é desinteressada, contém tanto um belo verso, ("O lucro é o objecto da amizade vulgar,/ Mas um coração grande e nobre ama sem interesse, /E creio que o Amor, sendo Deus tal como ele é,/ Não é usurário nem mercenário), como uma ainda boa explicação, onde realça ser uma infâmia ter interesses em vista, ou ser comerciada ou comprada, a amizade, pois só o amor compra ou merece o amor.
O 6º mote O amigo não vê o defeito do amigo, tem uma quadra de grande sabedoria e que eu já glosei há uns anos (tal como encontra no blogue) numa exposição de pintura e textos na galeria Novo Século do Carlos Barroco e da Nadia Bagioli, intitulada o Amor é cego, pois só com essa venda é que vemos tudo perfeito no ser ou coisa amada.
O 7º lema Respeita o teu amigo e cuida de ti, relembra como é mal vermos tantos defeitos nos outros e sermos cegos para os nossos. E existir tal hipercriticismo para com os amigos ainda é pior. Saibamos lavar os olhos e a alma com a humildade, a modéstia, junto ao auto-conhecimento da nossa condição peregrina e frágil.
O 8º mote, que é a 28ª figura no livro, O Silêncio é a vida do Amor, e do qual transcrevemos o epigrama no 1º artigo do blogue sobre a busca da Sabedoria em Gomberville, é explicado em alguns sentidos, tal o de se falar o menos possível das nossas amizades a outras pessoas para não ofendermos ninguém. Aduzindo as três leis do Amor, a primeira de amar, a segunda ter uma boa opinião do seu amigo ou amiga, a terceira o respeitoso silêncio de guardar no coração tudo o que sabemos dele ou dela, cita a regra do silêncio nos Mistérios das Religiões antigas, introduzindo assim na sua obra uma menção expressa à iniciação e à Theologia Perennis. Transcreveremos brevemente toda a explicação. https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/o-silencio-como-deus-ou-daimon.html
O 9º mote ou dito A Inveja é a morte do Amor, é simples pois aponta apenas à inveja dos bens ou da prosperidade dos outros, considerando a sua representação como serpentes saindo dos cabelos muito adequada.
O 10º mote e final desta série que selecionamos, diz-nos Quem tem o necessário, não tem nada a desejar, e nele Marin Le Roy Gomberville, depois de relembrar que o sofrimento faz metade da virtude, e que a outra consiste na abstinência, explica minuciosamente o simbolismo do desenho, algo que aliás faz em todas as explicações das figuras enaltecendo sempre os artistas desenhadores (e vários foram ao longo das edições, tais P. Daret, C. Boel, C. Galle, P. de Jode, A Clouzier), no qual vemos o sábio contentando-se com água da fonte (que algo iniciaticamente lhe é servida por um anjo, génio ou subtil espírito) e, ao longe, um homem que, desmedido na sua hubris ou ambição, acaba por ser levado por uma corrente. Quem não pensará em alguns dirigentes políticos? Ora se nos contentarmos com pouco ou menos, conservaremos a vida física e moral, a cordialidade com os vizinhos e a relação divina. No fundo, implicitamente, diz que quem está no caminho espiritual ou da Sabedoria deve estar contente e muito grato ou em amor pelo que a vida e Deus lhe dão, nos dão... Demos graças... Amen....
Concluamos com um emblema onde Nemésis, tão necessária nos nossos dias de tanta hubris política, expulsa as forças inimigas que tentam com riquezas corromper a Virtude, com um mote que invoca ainda o Amor abordado nos dez anteriores, e meditemo-lo bem: "Ama a Virtude, pelo amor dela mesma, " e recebamos o início da hermenêutica guerreira de Martin Le Roy de Gomberville: Não podemos ignorar que a Virtude não é Virtude, se ela não age, se ela não combate e se mal-grado o grande número de inimigos pelos quais é atacada, ela não permanecesse victoriosa!
Virtus, Sapientia et Amor omnia vincunt!








Sem comentários:
Enviar um comentário