Realiza-se no fim de semana de 18 a 20 em Loule, a
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sábado, 19 de setembro de 2026
Feira do Ambiente e Vegan de Loulé, 18 a 20 de Setembro em Loulé. O Clube de Cordas da Casa de Cultura, e três das melhores expositoras.
Realiza-se no fim de semana de 18 a 20 em Loule, a
Das efemérides principais dos dias 20 a 30 de Setembro do encontro entre o Oriente e o Ocidente, dos Descobrimentos aos nossos dias.
Não se deixe limitar na tão manipulada contemporaneidade, e peregrine, navegue e voe na perenidade histórica e espiritual da Humanidade. Nesta selecção, com novas biografias ou ensinamentos de grandes almas. Um resto de Setembro bem harmonioso, axializado e luminoso!
De Sevilha partem neste dia, em 1519, os 238 tripulantes das cinco naus capitaneadas por Fernão de Magalhães que vão realizar a primeira viagem de circum-navegação do planeta. Seguem vinte e quatro portugueses e vários gregos, genoveses, bretões, franceses e ingleses para esta tremenda odisseia em que revoltas, traições, tempestades e fomes provam as mais altas qualidades humanas. Ao fim de três anos, chegarão a Espanha dezoito num navio, com direito a oito arrobas de especiarias por cabeça. Fernão de Magalhães, com a experiência do Oriente de 1504 a 1512, ferido em Cananor e em Diu, esteve à altura da tarefa, até a passar para Juan Sebástian Elcano.
Chegam a Macau em 1640 os treze sobreviventes da embaixada portuguesa enviada ao Japão ao Xógum Iemitsu, tendo os outros sido martirizados, quando pediam o restabelecimento de relações comerciais, proibidas desde o levantamento e morte dos 37.000 japoneses de Arima, pobres e aspirando a uma vivência humana mais justa, o que contribuíra para a terceira e última ordem de expulsão dos portugueses em 1639. Um século de boas relações entre portugueses e japoneses terminava em tragédia, mas a comunicação de conhecimentos artísticos, científicos e religiosos fora razoável.

Morre repentinamente em 1819, em Paris o então famoso abade Faria, o goês José Custódio Faria, nascido em 1759, doutorado em Roma e hipnotizador de grande sucesso embora contestado em França, onde chegara em 1786. O único prémio Nobel português, o prof. Egas Moniz, escreverá no estudo que lhe consagrou: «O P. Faria foi quem defendeu, pela primeira vez, a verdadeira doutrina sobre a interpretação dos fenómenos sonambúlicos, fulcro em torno do qual voltejam todas as suas doutrinas filosóficas». O que «é glória bastante para o nosso país, que no campo científico nem sempre marcou de maneira tão saliente como noutros ramos da sua actividade». Alguns estudos tem-lhe sido dedicados destacando-se os do médico Daniel Gelânio Dalgado que prefaciou bem e reimprimiu em Paris, em 1906, em 362 págs., a obra mestra De La Cause du Sommel Lucide ou Étude de la Nature de l' Homme, que contém sugestões valiosas a partir das suas experiências de hipnotismo para o conhecimento da psique humana, nomeadamente pela sugestão e os sonhos: «Todas as vezes que se grava algo na memória dos hipnotizados quando eles acordam narram tal como um sonho que lhes representou uma cena».
21-IX. O imperador Carlos V, filho de Filipe, o Belo, arquiduque da Áustria, e de Joana, a Louca, rainha de Castela, morre em 1558. Chegara a conquistar Florença, ordenara em 1527 o famoso saque de Roma contra o Papa Clemente VII, mas a extensão do sacro império sacro romano-germânico, as lutas contra os franceses e os turcos (que eram aliados), as revoltas alemãs e do Norte da Europa protestantes e a impopularidade de certas medidas obrigá-lo-ão a separar do seu império a Espanha para seu filho Filipe e o Sacro Império Romano Germânico, para o seu irmão Fernando da Áustria.
Sri Ramakrishna, um dos últimos grandes mestres da espiritualidade indiana e universal, neste dia em 1884 no seu quarto (ainda hoje local de peregrinação e meditação) no templo de Dakshineswar em Calcutá, avisa exigentemente: «Subtis são os caminhos do Dharma (dever, ordem). Ninguém pode realizar Deus enquanto houver o mínimo traço de desejo nele. Um fio não pode entrar no olho duma agulha, se há a mais pequena fibra destacada na sua ponta... Sabeis como é o egoísmo? É como um monte de terra onde a água não se pode acumular, mas escorre. Mas a água acumula-se na terra baixa e as sementes germinam, as plantas crescem e dão fruto. Portanto, nunca penseis, só eu tenho o verdadeiro conhecimento e os outros são parvos... Amai todos, não há ninguém que seja outrem que vós. Deus habita em tudo, e nada existe sem Ele». À noite, levado ao teatro, exclama sorridente: «Ah! que belo lugar. É bom termos vindo. A vista duma grande multidão é muito inspiradora. Vejo então claramente que foi Ele quem se tornou isto tudo».
Em Neurá, concelho das Ilhas, Índia Portuguesa, nasce neste dia em 1887, Castilho de Noronha. Formado em Teologia no seminário de Rachol, em 1909, prosseguirá depois uma carreira brilhante como pensador, teólogo, jornalista, vogal, administrador, presidente, deputado da Nação, até deixar a terra em 30-IX-1966. O Budismo em confronto com o Cristianismo, Nova Goa, 1926, é a sua obra de certo modo de polemista e apologista esforçando-se por fazer avultar uma superioridade do Cristianismo sobre o Budismo, por vezes exagerando demasiado ou citando fontes já deturpadas, outras vezes mostrando as contradições seja na doutrina seja na evolução dos vários tipos de Budismo. Tecerá também várias críticas a costumes religiosos indianos aos quais chamará superstições, elogiará bastante Ram Mohan Roy, mostrará a ingenuidade de Swami Vivekananda querer espiritualizar o mundo com o Yoga Vedanta, tal como anunciava no Parlamento das Religiões em Chicago de 1893 e criticará acertadamente a invenção da estadia de Jesus na Índia por Nicolas Notovitch, no seu A Vida Desconhecida de Jesus, ainda hoje aceite por alguns círculos ou autores pseudo-esotéricos, comercializados, ou anti-cristãos.

22-IX. Guru Nanak morre em Kartapur, actual Paquistão, em 1539. «Escoltado à presença de Deus e bebendo do cálice da adoração do seu Nome», após uma vida de grande busca, ascese e realização. Guru Nanak dirá que Deus não é nem hindu, nem islâmico e que o caminho que segue é o de Deus. Nascido em 15 de Abril de 1469, viajara por toda a Índia até fundar uma comunidade de discípulos espirituais, que se tornará a religião Sikh, de certo modo sintetizando os melhores ensinamentos do hinduísmo e islamismo vivificados pela sua experieência interior, espiritual. Interrogado sobre a maneira de atravessar o mundo, responderá: «Assim com a flor de lótus cresce na água e permanece sempre desprendida; assim como o pato flutua despreocupado na superfície da água na corrente, de igual modo atravessa o Mar da Existência sintonizando constantemente a tua mente com a Voz da tua Consciência Moral e pronunciando sempre o Nome, Nam, de Deus». Depois dele vieram mais nove gurus, até que o último, Guru Gobind Singh, determinou em 1708, que o guru a partir de então seria o livro das orações e cantos: o Guru Granth Sahib, que se encontra no Templo Dourado em Amritsar, a cidade santa, a ser lido, cantado e meditado sempre.
D. Álvaro de Abranches, trisneto dum dos heróis de Alfarrobeira, companheiros da milícia do infante das Sete Partidas, D. Pedro, lidera com o capitão Diogo de Sá Pereira, corajosa e habilmente, os assaltos vitoriosos sobre as tropas muito mais numerosas que sitiavam Chaul, a partir duma fortaleza no morro sobranceiro, em 1594. O sábio historiador Faria e Sousa descreve os simbolismos em jogo: «não menos que com a multidão pretendia o inimigo assombrar-nos com arrogâncias, explicadas em imagens engenhosas. Eram de bronze. Em posto bem à vista estava um leão com este dístico: «Quem aqui houver de entrar mais que este há-de pelejar», e além no inexpugnável cume, uma águia que sustentava nas garras este semelhante aviso: «Quem aqui intenta chegar, mais do que eu deve voar». Nos nove anos de comissões na Índia foi também um diplomata notável.
23-IX. «No Outono da era Tembum, aos 25 do 8º mês (23.9.1543) chegou um grande navio a Nishimura Ko-ura. Não se sabia de onde vinha. A tripulação do navio era de cem homens. Tinham um aspecto diferente de nós. A sua língua era incompreensível. Todos que os viram ficaram admirados. Entre a tripulação, um, de nome Goho, conhecia a língua chinesa. Não sabemos o seu nome de família. Era então chefe da povoação de Nishimura um chamado Oribenojo, que conhecia a escrita chinesa. Este encontrou Goho e escreveu com o bastão na areia: Não sabemos de que terra vêm os homens do navio. Goho escreveu em resposta: estes homens são negociantes do país dos bárbaros do Sudoeste». Assim narra a Crónica da Espingarda (chegada também com os portugueses), de 1606, o desembarque dos primeiros portugueses no Japão, citando ainda os nomes de Francisco Zeimoto e António da Mota.

24-IX. 24-IX. Aureolus Theophrastus Bombastus Paracelsus nasceu a 17-12-1493, filho de um médico suíço, com quem veio a aprender muito, frequentando em seguida escolas e universidades, Basileia e Viena, até se doutorar em Medicina, em 1516, em Ferrara, Itália, viajando depois sete anos (e diz-se que até Portugal chegara), estabilizou em Basileia em 1523, mas apenas por um ano e pouco, sendo obrigado a sair, o que veio a acontecer mais vezes noutras cidades, pelos conflitos que criava ao desmascarar os embustes da época, num dos casos dos próprios grandes banqueiros Fuger. Notabilizou-se pela sua erudição, coragem e mente prescrutadora, e por ter sido um dos grandes descobridores na medicina experimental e laboratorial em vários campos e terapêuticas, socorrendo-se ainda nas suas curas do conhecimentos das subtis correspondências de propriedades entre diversos reinos e elementos da Natureza, visível e invisível. Deixou alguns tratados médicos além escritos das suas intuições, prognósticos e crenças, nomeadamente quanto aos sinais da Natureza e quanto à eficácia dos talismãs, estes desenhados com formas geométricas especiais e sob os efeitos ou influxos dos posicionamentos dos astros, e que eram acompanhados de palavras e orações. Teve algumas crenças exageradas nos poderes da alquimia e da fabricação de remédios a partir do partes do corpo humano e animal, nas linhas da alquimia, espagiria, astrologia e magia operativa, sob o céu das ideias pitagóricas, neoplatónicas e herméticas que circulavam no Renascimento. Foi amigo dos humanistas Fröben, Erasmo e Johannes Oekolampad, tendo tratado mesmo os dois primeiros.

25-IX. Cinco naus capitaneadas por Diogo Lopes Sequeira chegam a Samatra em 1509 e são bem recebidas, implantando-se um padrão. O rei escreve a D. Manuel: «Os vossos chegaram até nós e de nos verem alcançaram bandeiras de trato e amostraram sinal de amor e vieram à nossa companhia, e nós os recebemos em nossas mãos com a melhor maneira que pudemos. Agora entre nós e vós há amizade e amor, e o ódio é longe de nós, e concertado que cada ano mandeis vossas gentes, vossas naus e gente com mercadorias de vossas terras para começar o trato, proveito e ganho, e tornarem com o que nós tivermos e houver em nossa terra, e a paz seja sobre os que forem merecedores dela. E o Deus que é verdade mostre o caminho da verdade».
Tratado entre os portugueses e o raja de Coulão pelo qual é-lhes concedida autorização para construírem o forte de S. Tomé em Coulão, na costa do Malabar, no ano de 1518.

François Bernier (na imagem em cima), nasce neste dia em 1620 em Anjou. Doutora-se em medicina em 1652, tendo-se preparado com o filósofo Gassendi, o polemista sobre a alma com Descartes e Henry More, e em 1658 parte para o Oriente onde convive com os príncipes mogóis Dara Shikoh e Aurangzeb, regressando a França em 1669. As suas crónicas das viagens e da corte mogol estão repletas de observações interessantes. Respigamos sobre os portugueses: «A decadência do seu poder nas Índias é atribuída justamente aos seus delitos, e pode ser considerada, como eles ingenuamente confessam, uma prova do desagrado divino. Outrora o seu nome era uma torre de força; todos os príncipes indianos cortejavam a sua amizade, e os portugueses distinguiam--se pela sua coragem, generosidade, zelo pela religião, imensa riqueza, e pelo esplendor das suas proezas; não eram como os portugueses de agora, habituados a todos os vícios e a todos os prazeres baixos e ordinários».
O P. António Vieira, escreve o seguinte numa carta da Baía, neste dia em 1695, à rainha D. Maria Sofia de Neudurg, 2ª mulher de D. Pedro II: «Em fim, não achando em Portugal em El-Rei, que Deus guarde, a correspondência de afecto, que sempre experimentei em seus pais e irmão, como quem pela menor idade não conhecia o muito que eu os tinha servido, e arriscado por eles a vida nas viagens de Holanda, França e Itália, com maior perigo dos mesmos negócios que eram os do mar, e dos inimigos da nossa Coroa no mar e na terra; me condenei ao desterro deste Brasil, para nele comutar, se pudesse, o Purgatório. Aqui estou ainda vivo, já quase desacompanhado de mim mesmo, na falta de quase todos os sentidos; mas sempre com toda a alma nesse Palácio da Natividade, sacrificando a Vossa Majestade o que só posso, que é o coração, e amando, e adorando a Vossa Majestade com todo aquele amor e extremo (permita-me Vossa Majestade falar assim) que a El-Rei D. João, à Rainha D. Luísa, e ao Príncipe D. Teodósio devem a minha memória e saudades... Enfim, minha Rainha, minha Senhora, e minha Ama, em um livro impresso em França vejo aqui, e venero o retrato de Vossa Majestade, mas o que eu tenho impresso no coração, quisera eu que Vossa Majestade visse; posto que tão quebrantado dos anos, ainda posso dizer Missa todos os dias, e em todas, não sei se em mim, ou fora de mim, peço a Deus me deixe ver a Vossa Majestade na eternidade, pois nesta vida não posso».
26-IX. As casas dos jesuítas são cercadas e eles presos neste dia em 1759, em Goa, por ordem régia executada pelo vice-rei Manuel de Saldanha de Albuquerque e Castro, ou conde da Ega, que foi o 47º entre 1758 e 1765. Terminava a grande aventura missionária em que santos, sábios, cientistas e fanáticos se irmanaram numa disciplina férrea, numa dedicação e abnegação grandes, influenciando sobretudo a educação e os centros de poder e criando um estado dentro dos estados, o que não podia durar muito. Em Portugal foi o marquês de Pombal quem lhes encostou o machado, mas já muitos se queixavam deles antes. A sua eficácia estando comprovada, dissolvida a ordem por Clemente XIV em 1773, o ambiente mais liberal permitir-lhe-á renascer com o papa Pio VII em 1814, embora a instauração da República em Portugal a tenha expulsa de novo.
O Pandita Iswar Chandra Vidyasagar nasce neste dia de 26 de Setembro de 1820 em Gathal, perto da cidade de Hugli, onde os portugueses estiveram, na costa de Bengala no séc. XVI e permaneceram bastante tempo, deixando algumas igrejas e muitos luso-descendentes, que ainda visitei e conheci. Notável estudante, sábio professor, empenhou-se na abolição da queima das viúvas, na abolição da proibição de se casarem e no estímulo do seu casamento. Modernizou o ensino, fundou escolas e institutos. Sri Ramakrishna reconheceu nele um oceano de conhecimento e os ingleses o «líder da porção mais avançada da Comunidade Indiana».

Thomas S. Eliot nasce neste dia em St. Louis, USA, 1888, o ano do nascimento de Fernando Pessoa, e receberá o Prémio Nobel de Literatura em 1948. Formado em Filosofia aprendeu com mestres como Irving Babit e Paul Elmer More. Estudou também em Paris com Henry Bergson e Alban-Fournier e outros. Sensibilizado ao orientalismo pelos seus antecessores Ralph Waldo Emerson, Edward Fitzgerald’s, Ezra Pound, Kipling e Edwin Arnold, estuda entre 1911 a 1914 de novo em Harvard com orientalistas como James Woods e Lanman, com estes iniciando-se nos Yogas Sutras de Patanjali e o sânscrito. Após um 1º casamento que lhe proporcionara sobretudo entrar em Inglaterra mas que fora infeliz, encontrou quando tinha 68 anos, no seu 2º casamento, com a sua secretária Valerie Fletcher, 30 anos de idade, quem o apoiasse e completasse amorosamente em vida e na preservação e edição do seu espólio. Nas suas poesias de elevada sabedoria, as fundações indianas ou da metafísica oriental ecoam: «O Tempo passado e o Tempo futuro / permitem só pouca consciência. Estar consciente é não estar no tempo»; «E a correcta acção é liberdade / do passado e também do futuro. / Para a maior parte de nós, este é o objectivo»; «A libertação não é tanto amor mas expansão / do amor para além do desejo, e portanto a libertação / tanto do futuro como do passado. / Assim, o amor dum país / começa com um apego ao nosso campo de acção / e chega a descobrir como de pouca importância tal acção, / apesar de nunca indiferente. História pode ser servidão, / História pode ser liberdade».

Lahiri Mahashaya, o mestre divulgador do Kriya Yoga, sai do corpo e regressa ao mundo espiritual em 1895, com 67 anos. Fora o mestre de Yukteswar Giri e este sendo de Paramahamsa Yogananda, os quais partilharam a sua técnica de Kriya Yoga. Esta técnica de de interiorização e circulação energética pelos chakras estimula o despertar dos sentidos espirituais de muitos discípulos, capazes assim de se recolherem e de se auto-conhecerem melhor na Luz, no meio das condições por vezes tão dispersantes e desassossegadas dos tempos modernos.
Lafcadio Hearn, filho duma grega e dum irlandês, natural da Grécia, apaixonado como Wenceslau de Morais pelo Japão, casa-se em 1891 com uma filha de um samurai, torna-se budista, naturaliza-se japonês e é professor de língua e literatura inglesa até morrer com 54 anos neste dia em 1904, em Tóquio. Explicará a aparente frieza dos casais japoneses pela «obediência a uma ética fundada sobre o princípio que as demonstrações públicas das relações maritais são inconvenientes. Porquê inconvenientes? Porque elas parecem, na opinião oriental, a manifestação dum sentimento pessoal, e, por consequência, egoísta». Deixa uma obra bem acessível e com muita informação valiosa sobre o Japão antigo, tal como Wenceslau de Moraes, e no seu livro A Luz Vem do Oriente narra um costume antigo curioso ligado com a crença na metempsicose: «Parece que há um dia, um só, na vida duma criança, na qual ela se pode lembrar e falar da sua vida anterior. No dia em que completa dois anos, o bebé é levado pela mãe ao canto mais...»
Morre em Bristol, na Inglaterra, em 1833, neste dia 27-IX, Rammohan Roy, um dos líderes do Renascimento de Bengala e da valorização da tradição indiana perante o avassalamento da cultura ocidental trazida pelos ingleses. Tradutor e comentador dos textos da filosofia Vedanta, estudioso das várias religiões, o seu movimento do Brahmo Samaj é uma tentativa de indicar que há uma fraternidade de adoradores de Deus, mesmo que pertençam a religiões diferentes, pois as suas essencialidades são comuns. No centro de cada alma está o Supremo Ser, mas não pode ser descrito por qualquer nome ou imagem, donde a sua crítica à idolatria e o seu esforço de provar que o hinduísmo original aceita um só Deus. Foi um dos primeiros brâmanes a descobrir o Ocidente, vindo por mar. O Padre Castilho de Noronha na sua obra O Budismo em confronto com o Cristianismo, 1926, depois de citar várias apreciações entusiastas feitas ao Cristianismo e a Jesus por Rammohan Roy, cita Mounier William, o grande sanscritólogo, que na altura afirmava que Roy era «o mais inteligente e o mais apaixonado investigador da Ciência comparada das Religiões que o mundo até hoje produziu».

28-IX. Noite de S. Miguel, Mi Ka El, Quem é como Deus? Noite de veladas às estrelas cadentes e às intuições luzentes, para fortificação do Eu espiritual, aconselhar-se-á também. O Padre missionário António de Andrade (1580-1634) quando chegou ao Tecto do Mundo, o Tibete, nos princípios do século XVII, observou que os lamas «pintam aos Anjos, a que chamam Lâs, de várias maneiras; uns muito formosos como mancebos; outros em figuras horrendas pelejando contra os demónios; e dizem, que os representam nesta forma, não porque a tenham, mas para exprimir os vários efeitos que têm contra os Espíritos malignos. Crêm, que são sem número, e que todos se reduzem a nove ordens, todos espíritos, sem corpo, uns maiores, outros menores. Entre outras pinturas destes Lâs vi por vezes uma, nesta forma: tinha a figura de mancebo com peito de armas, espada na mão direita, com que ameaçava ao diabo que tinha debaixo dos pés, e dizem deste Lâ que é o principal de todos, e grande medianeiro entre Deus e os homens. A quem não parecerá ser este Lâ o Arcanjo são Miguel, posto que não pintem com asas e balança na mão? E as nove ordens, ou castas deles, os nove Coros (Querubins, Serafins...) que temos na escritura?» Escritura, um modo de dizer pois a visão das nove ordens só a partir do séc. V e VI é que começou a ser construída como uma escadaria para o céu
mais alto...
O governador Afonso de Albuquerque e os portugueses conquistam pela 1ª vez a ilha de Ormuz em 1507, após uma batalha naval com os muçulmanos. O rei concede autorização de construção de fortaleza e de feitoria, prestando vassalagem ao rei de Portugal, mas a insubordinação de alguns capitães de Albuquerque, desejosos de regressar ao reino ou a Goa, e despeitados pela sua voluntariedade, obrigam-no a retirar-se antes de concluída, só voltando a esta cidade em 1514 e estabelecendo então um firme domínio de protectorado sobre o rei de Ormuz. Uma das suas primeiras medidas foi abolir o costume dos regentes de Ormuz cegarem aqueles que poderiam ser seus rivais. As alfândegas rendiam imenso («delas soia vir um grande golpe de dinheiro»), pois controlavam a circulação de pessoas e bens para o Médio Oriente e a Europa. Frei Bernardino S. Pedro descreve-a em 1605, com cinco igrejas, duas mesquitas e uma sinagoga; 500 portugueses vivem no baluarte com os seus protectores: «em entrando pela fortaleza, a primeira coisa que vemos, é a imagem e figura de Afonso Albuquerque, que Deus tenha em glória, com uma barba que lhe dá pela cinta, como ele a trazia. Eu vi muitos homens tirarem o chapéu a esta imagem, como se fôra a de um santo, e com muita razão por certo». Em 1622, apesar da resistência valerosa de Rui Freire de Andrade, a praça cai nas mãos dos ingleses e dos persas.

William Jones nasce em Londres em 1746. Atraído pela Índia, chega lá a juiz do Supremo Tribunal de Justiça. Traduz a vida do clássico Nadri Shah e desenvolve o estudo do sânscrito, acerca do qual afirma: «A língua sânscrita, qualquer que possa ser a sua origem, é de uma estrutura maravilhosa. É mais perfeita que a Grega, mais copiosa que a Latina e é infinitamente mais requintadamente formada do que ambas. E pelas suas semelhanças decorre duma fonte comum». Funda a Real Sociedade Asiática, em Calcutá em 1784, um poderoso instituto na recolha e investigação dos monumentos e documentos indianos ainda hoje vivo e que tem publicado inúmeras obras de grande valor. Já a Sociedade Real de Artes e Ciências da Batávia, dos holandeses em Java e que fora mesmo fundada antes da de Calcutá, não sobreviverá ao regime indonésio. A prestigiosa Societé Asiatique, de Paris nascerá em 1822 e continua em pleno vigor nos nossos dias. Em Portugal os fumos da Índia esfumaram-se.

29-IX. Nasce D. Fernando em 1402, filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, e depois do cativeiro em Fez, de 1437 a 1443, denominado o Infante Santo, vítima sacrificial das lutas entre o catolicismo ibérico e os povos do norte de África islâmicos. Com efeito nas cortes de Leiria, contra o desejo do povo e dos infantes D. Pedro e D. João, foi decidido que só o Papa podia escolher entre a entrega ou não de Ceuta em troca da libertação do príncipe; a resposta dele foi a de que era melhor para a cristandade sacrificar-se um só do que muitos. Outra das razões dadas, foi a de não se poderem entregar as igrejas já consagradas. A sua tenção de vida Le bien me plait, nasceu-lhe mesmo dos ramos espinhosos da roseira, que lhe foram atribuídos, talvez profeticamente, no corpo da divisa. Há quem pense que será ele a misteriosa figura central dos famosos painéis de Nuno Gonçalves.

Lanza del Vasto, o sábio peregrino às fontes orientais da não-violência e das comunidades harmoniosas, nasce na Sicília, em 1901. Cristão, mas discípulo de Gandhi e do seu sucessor Vinoba, artista, músico, ecologista não violento de resistência activa à energia nuclear, fundador da comunidade laboriosa L'Arche, escreverá livros importantes para o aperfeiçoamento humano e virá por mais de uma vez a Portugal partilhar a sua maneira de ser e viver, tendo com ele estado algumas vezes, sob a égide da Manuela Lourenço, a fundadora em Portugal do Grupos dos Amigos da Arca. Recentemente entre nós o amigo e pioneiro da ecologia (com Afonso Cautela) José Carlos Marques editou a sua obra chave Peregrinação às Fontes, com tradução da amiga Helena Longroiva (recentemente desincarnada), na qual relata a sua bela e sábia peregrinação à Índia e a vivência e aprendizagem com Gandhi.

O romancista japonês católico Shusaku Endo, autor de belas obras baseadas na história da presença portuguesa e ocidental no Japão, entre as quais se destaca o Silêncio, a propósito do provincial jesuíta Cristovão Ferreira (que abjurou porque não quis sofrer ainda a morte e para transmitir a cultura e a medicina ocidental durante 18 anos como bonzo), morre em Tóquio aos 73 anos, em 1996. Algumas das suas obras estão traduzidas em português. Gravei um pequeno vídeo sobre o Silêncio, que se encontra no Youtube.
30-IX. O 3º governador da Índia Lopo Soares de Albergaria (1460-1520), o substituto algo incompetente de Afonso de Albuquerque, com uma armada de 17 navios, faz tributário o rei de Colombo, no Ceilão, em 1518 e constrói-se uma fortaleza.
Chega a Goa vindo numa das naus da Carreira da Índia, em 1583, o holandês John Huighen Linschoten, autor dum livro de viagens e observações de cinco anos em Goa (na imagem, o mercado), com belos desenhos que irradiarão no imaginário colectivo europeu e mapas roteiros que facilitarão as navegações e incursões holandesas.

Nasce neste dia em 1828, na Bengala Ocidental, Lahiri Mahashaya. Iniciado por Babaji nos Himalaias, atingiu a iluminação através das práticas de concentração interior do Kriya Yoga e passou-as em seguida, entre outros, a Sri Yukteswar Giri, o mestre de Parahamsa Yogananda, que tornará esta tradição famosa ao escrever a divulgadíssima mas sempre inspiradora Autobiografia dum Yogi, verdadeiramente retratando a autêntica Índia yoguica tão distante das caricaturas modernas de vários gurus ditos universais, que são mais produtos de marketing, mas que, graças a Deus, têm sido desmascarados recentemente, tal como a Federação Portuguesa de Yoga e o seu fundador presidente. Ao contrário dos seus discípulos, Lahiri Mahashaya era um funcionário público casado e por isso tentou mostrar que em qualquer situação as pessoas podem atingir a libertação, se dispuserem-se a viver com certo conhecimento. Dirá: «Procurando dominar-se quanto fôr possível e praticando regularmente a sua metodologia espiritual, uma pessoa deve chegar ao objectivo: a realização».
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Efmérides dos dias 9 a 19 de Setembro do encontro do Oriente e do Ocidente, seleccionadas do conjunto do mês.
9-IX. O P. António Monserrate, o destemido participante nas discussões das várias religiões na Casa da Adoração (Ibadat Khana), na cidade imperial Fatehpur Sikri, sob a égide do ecuménico («cada pessoa pode adorar a Deus à sua maneira») e genial imperador mogol Akbar, escreve neste dia em 1580 a propósito desses pioneiros encontros inter-religiosos: «Fiquei descontente de empeçarem na verdade das Escrituras, que é o limiar da porta nesta matéria, porque como os dogmas da nossa fé se fundam no que Deus tem revelado nas sagradas Escrituras, a razão humana as não alcança, se a esta se não dá inteiro crédito; por demais é porfiar (como dizem), se os Deus por outra via não alumiar». O problema da fé cega nas Escrituras vinha assim ao de cima, pois querendo que os outros aceitassem tudo delas, punha as dos outros em causa, chegando até a afirmar, para grande irritação dos teólogos islâmicos (muttafiqan), que «não tinham sido os cristãos que corromperam as escrituras mas Maomé, e que o Corão estava cheio de erros».




















