Em março de 1935, René Guénon publicou na revista Voile d'Isis uma resenha crítica sobre o livro de Ludowic Réhault - O Instrutor do Mundo, Krishnamurti, lançado em 1934 na editora Les Tables de l'Harmonie, Nice.
Não lhe interessando se Jidu Krishnamurti (1895-1986) era ou não o Instrutor do Mundo, como os seus tutores quiseram, Ludovic Réhault constatava que «um homem, de facto, percorre o mundo, convidando os homens a rejeitar o jugo que ainda os mantém curvados, e a libertarem-se definitivamente dos mestres e dos deuses e a se tornarem, eles próprios, a sua própria tocha e o seu próprio guia», considerava-o gerador de efeitos benéficos, comparando-o mesmo a Gauthama o Buddha, e que se deveria apoiar o seu apostolado.

Já René Guénon (1886-1951) discordava de algumas ideias da obra, compartilhando o que Julius Evola e outros já tinham contestado (e em uníssono com o seu livro Le Theosophisme), e a orquestração ou fabricação desse novo Messias ou Instrutor do Mundo. E ainda que reconhecendo a Krishnamurti coerência e coragem em se ter libertado dos seus tutores educativos teosofistas, criticava ideias e ensinamentos, além da função, quando Krishnamurti avançava já como pedagogo desligado seja da missão imaginada, seja das religiões, mestres, ritos e esoterismo iniciático, mais virado para a libertação psicológica da pessoas, ou melhor, para certo descondicionamento delas dos seus passados e projecções a fim de viverem no presente e em amor.
Oiçamos o rigoroso pensador metafísico e representante do Tradicionalismo Perene, René Guénon, defendendo sobretudo as religiões e as tradições ou vias iniciáticas, como os meios principais de o ser humano se libertar da ignorância e do egoísmo, e de religar à Identidade suprema, graças às influência vivas que se recebem por elas e à ligação aos níveis superiores espirituais e da Unidade que se podem obter:
«Este livro é sem dúvida o único onde um teosofista ousou expor com toda a franqueza, sem tentar disfarçar ou "conciliar" nada, a divergência ocorrida entre Krishnamurti e os líderes da Sociedade Teosófica [Annie Besant e Charles Leadbeater]; é verdadeiramente terrível para estes, cujo papel aparece extraordinariamente dúplice [ou pouco claro]; e constitui, a esse respeito, um documento digno do maior interesse. Quanto à admiração do autor por Krishnamurti e à sua crença de que ele é realmente o « Instrutor do Mundo » (sem que, aliás, se possa saber exatamente o que se deve entender por essa expressão), essa é, naturalmente, uma questão completamente diferente, sobre a qual devemos fazer as mais expressas reservas. Krishnamurti sacudiu o jugo que eles queriam impor a ele, e certamente se saiu muito bem; reconhecemos muito voluntariamente que para isso ele precisava de uma certa coragem e uma força de caráter à qual não se pode deixar de prestar homenagem; mas isso não é suficiente para provar que ele tenha uma "missão" extraordinária, embora diferente daquela a que seus educadores o destinavam. Que ele tenha aversão a "sociedades" e "cerimônias", isso ainda é muito bem; mas, de lá a se colocar como adversário de toda religião e a repudiar até mesmo toda iniciação, há um abismo; é preciso dizer, e essa é sua desculpa, que ele só conheceu tristes.»
Realce-se a crítica de Guénon à recusa por parte de Krishnamurti das religiões, dos mestres e da iniciação, e ainda a dirigida aos tutores ou instrutores de Krishnamurti, Annie Besant e o reverendo da Igreja Católica Liberal Charles Leadbeater (algo criticado por Fernando Pessoa, como já assinalámos em livro e no blogue), que se atrevera a escrever até um livro, As Vidas de Alcyone , com as últimas 48 encarnações de Alcyone, isto é, Krishnamurti, e das pessoas associadas a ele, muitas então à volta dele de novo. "Eram uns tristes", embora bastante sagazes e imaginativos, desconectados da ligação à Verdade, à Identidade Suprema ou Unidade Divina, como René Guénon, defendia e afirmava?
E como estamos nós mais ou menos ligados à Tradição religiosa ou iniciática e à Divindade? Como está o nosso ser consciência espírito?
Esse é um dos episódios mais interessantes a ser estudado e compreendido, cheio de paradoxos e contradições, que se bem integradas nos eleva a um patamar de consciência sobre nós mesmos!
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