quinta-feira, 16 de julho de 2026

Evangelho de Tomé, escrito entre os anos de 40-50. Um dos 114 ditos de Jesus pouco conhecidos, gnósticos, valiosos.

Do Mosteiro do Salvador do deserto encarpado, em Klykovo, Kaluga
Entre os cinquenta e um códices ou livros encontrados em 1946 no Alto Egipto, em Nag-Hamadi, nas imediações do mosteiro copta de S. Pacómio, em Chenobokya, o mais importante é sem dúvida uma das primeiras recolhas, provavelmente dos anos 40-50 d. C.,  de ditos de Jesus, intitulada Evangelho de Tomé.  Os sábios e clarividentes monges, enterrando-os dentro de ânforas seladas nas areias, quiseram provavelmente fazer escapar tais obras considerada não ortodoxas ou canónicas  mas que contém ensinamentos muito valiosos. Se a maioria dos 114 ditos ou logions  foi incluída nos Evangelhos sinópticos, embora com diferenças e por vezes significativas, outros só os conhecemos por este evangelho de Tomé, ou então por fragmentos gregos e citações dos primeiros padres da Igreja.
Como ao longo dos anos os tenha trabalhado, resolvi partilhar alguns, para relembrar a sua existência e as suas palavras.
Um dos desafiantes ditos ou logions é este:

21. «Maria Madelena perguntou a Jesus: Com quem se parecem os teus discípulos? Ele respondeu-lhe: Parecem-se com jovens crianças instaladas num campo que não é delas. Quando vierem os donos do campo dizem-lhes: deixai-nos o nosso campo. Eles despem-se diante deles de modo que o deixam e o dão a eles.
Por causa disto eu digo isto: se ele sabe, o mestre da casa, que o ladrão vem, vigiará antes que venha e não o deixara penetrar no interior da casa do seu reino, de modo a que ele tome conta dos seus bens.
Vós, pelo contrário, vigiai em face do mundo, ligai-vos sobre os vossos rins por uma grande potência de modo a que os salteadores não descubram o caminho para chegarem até vós, pois o lucro, colheita que esperais, eles o descobrirão. Que esteja no vosso centro um homem experiente, que quando o fruto está maduro, vai à pressa, a sua fouce na mão e colhe-o. Quem tiver ouvidos, para ouvir, que entenda.»

Um dito que mostra como a intensidade da invocação da realização espiritual deve ser grande nos que aspiram à luz, nos gnósticos, nos discípulos. O engendramento da Divindade, da consciência do reino do Pai ou espirito em nós, é exigente. Como estarmos abertos e sentindo a subtil realização espiritual senão pela aspiração, alinhamento e discriminação constantes, para que haja a identificação com o Espírito e a sua unidade com o mundo Divino?
De que identificações e posses, apegos e preconceitos, devemos despir-nos, desprender-nos?
O dono do mundo que surge a pedir tal é a hora da morte, a morte?
O que é que esperamos de colheita e que pode ser roubado? Será a consciência de pertencermos, de estarmos no reino ou mundo espiritual, que foi mais ou menos alcançada em vida?
Quem são os ladrões, perante quem devemos estar vigilantes? Serão as muitas distracções de pensamentos e de desejos, exteriorizações frequentemente desnecessárias, e que nos desalinham da auto-consciência espiritual, tal como os medos, as dores, os sofrimentos, que nos tornam mais pesados, menos susceptíveis de nos elevar à consciencialização e contemplação do espírito? 
É a ligação interior e contemplação que permite a acção justa de cavalgarmos o dragão, de usarmos a foice que colhe na altura certa o que é necessário ou conveniente?
É interessante observarmos o movimento antitético: ora nos despimos e entregamos o campo, ora nos vestimos, cingimos os rins e resistimos. É o movimento pendular, da exteriorização e da interiorização, do repouso e do movimento, da entrega e da luta, para descobrirmos o animus central em nós, que sabe estar no meio, tender ao centro e  recolher o fruto, a consciência firme, espiritual e divina.
 O grande ladrão que nos rouba e assalta é tanto o mundo como também o ego, sempre pronto a reagir instintivamente ou desferir os seus golpes e por isso  não nos deixemos levar pelas suas ameaças, medos, receios ou ofertas tentadoras e antes saibamos concentrar-nos no verdadeiro lucro, a pérola preciosa, que está no nosso interior, no centro do nosso ser.
Estarmos firme em nós próprios, conscientes das nossas forças e limites e ligações, sem nos deixarmos trespassar por doenças, roubos ou seduções. Estarmos e respirarmos conscientes, o nosso eixo vertical espiritual fazendo a cruz ígnea com o horizontal e discernindo que é o certo a cada momento da nossa participação e passagem actuante no mundo terreno e psíquico, irradiando a verdade.
Quando chegar a hora da morte, e esse é um dos sentidos de ela ser representada como a segadora, ou o Saturno do tempo que tudo leva, há que estar pronto. Demos o melhor a cada momento, para chegarmos à hora final e não partirmos frustrado e ficarmos agarrado à Terra e aos mundos intermediários
Esta hora da morte pode ser também a iniciática quando devemos morrer para o nosso ego e actividades psíquicas e aspiramos e estabilizamos na consciência da unidade no mundo espiritual.
Colhe ou comunga mais a realização espiritual sempre que sintas a tua disponibilidade para a sua proximidade de ti. Comunga com regularidade com o Espírito, sê mais auto-consciente do Espírito imanente, ligado ou parte do transcendente da Divindade.
Eis, brotando do nosso limitado quartzo, umas pequenas centelhas  do profundo e elevado fogo espiritual contido ou invocado no Evangelho de S. Tomé.

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