Neste dia 14 de Junho, de aparente cessação da luta do império norte-americano, mas não certamente do regime de Telavive, contra o sagrado Irão, o seu povo e a Republica Islâmica, sendo até tradicionalmente o dia da Temperança, cremos ser adequado sabermos um pouco mais das razões da luta constante contra o Irão e a sua civilização e religião. Para isso partilhamos umas páginas da obra do notável historiador Paul du Breuil, Zarathoustra et la transfiguration du Monde, publicada em 1978, em Paris, dado o seu grande valor. Faremos alguns comentários posteriormente.
«Desde o primeiro estabelecimento hebreu na Mesopotâmia e na Média, devido à deportação da aristocracia judaica por Sargão (721) após a tomada de Samaria por Salmanasar V (II.Reis.XVIIL.6) depois com o êxodo maciço da Babilônia por Nabucodonosor, que durou de 598 a 587, e de 539 a 537, e considerando as colônias que, se bem que implantadas no Irão aqueménida, parto e selêucida, depois sassânida, ali permaneceram na Diáspora muito tempo após a queda de Israel (ocorrida em 70/ 135 da nossa era) -, a permanência judaica no império persa durou sete séculos antes do nascimento do cristianismo e, no total, mais de treze séculos até o fim do império sassânida (651).
Antes da escola helenística que brotará de Alexandria, o único período pré-cristão é de longe o mais significativo na evolução do pensamento religioso de Israel. Se mantivermos na memória a importância da ajuda política, financeira e moral que os aqueménidas ofereceram aos judeus exilados e ao Estado de Judá reconstruído sob sua proteção, o ascendente exercido pelo espírito religioso iraniano e, em particular, pela gnose zoroastriana sobre a metamorfose do judaísmo depois do Exílio revela-se bastante natural. Assim, quando o imperador Ciro convidou os judeus a regressarem à Judéia, ele não despertou qualquer entusiasmo entre eles. Muitos preferiram permanecer lá, cultivando as suas terras férteis da Mesopotâmia, fazendo comércio ou na banca. Flavius Josephus observa: « Foi principalmente para não perderem os seus bens que eles permaneceram na Babilônia.» Desde então, várias colónias espalharam-se livremente por todo o império persa, mantendo contatos estreitos com Jerusalém. Em 515, Dario materializou a promessa de Ciro, permitindo a reconstrução do Templo de Jerusalém com a ajuda de seu principal arquitecto, Depois, com a ajuda do levita Neemias, copeiro do Grande Rei nomeado sátrapa da Judéia, Jerusalém ressuscitará de suas ruínas. Finalmente, reiterando a promessa de seus predecessores, Artaxerxes subvencionou o profeta Esdras para realizar a primeira recolha autêntica dos textos da Torah, o compêndio das prescrições atribuídas a Moisés, e a sua observância como a «Lei de Deus e lei do rei» (do rei mazdeu-zoroastriano) - (Esd.7.26). A intervenção do soberano persa foi então constante, e solicitada por vezes. Por exemplo, durante as disputas a favor ou contra a reconstrução do Templo, quando Xerxes e Artaxerxes tiveram que intervir referindo-se, a pedido deles, não às leis judaicas, mas aos éditos anteriores de Ciro e Dario (Esd.4.5).
Cada religião entendendo afirmar a sua total originalidade devido à sua revelação exclusiva, fez ignorar por muito tempo essa influência benéfica do Irão religioso sobre o judaísmo e da gnose zoroastriana sobre o cripto-judaísmo e sobre o espírito dos profetas pós-exílio. Também o cristianismo, que tanto lhe deve, esforçar-se-á por esquecê-la até os dias de hoje. No século passado, teólogos, organicamente marcados pela tradição judaico-cristã, acreditaram não apenas dever ignorar essa influência histórica, mas, alguns entre eles, tentaram até inverter a história para fazer crer que era a religião iraniana, mesmo em sua forma arcaica dos Gâthâs, que tinha tomado de empréstimo a sua fé das crenças hebraicas. A profunda ignorância dos fatos e a ausência de objetividade tinham como única desculpa a prioridade indiscutível dada pelo cristianismo às únicas origens bíblicas de sua fé.
Mas o procedimento não era novo. Hoje já ninguém se surpreende ao ver como a política pode influenciar a história. Na época da helenização da Judéia, da Síria e da Mesopotâmia pelos Selêucidas, cujos adversários eram então os Partas, alguns judeus fizeram de Abraão o iniciador de Zoroastro e o pai da astrologia (Bouché-Leclerq, Astrologie greque, p. 578, cf. Bidez-Cumont). Isso mostra pelo menos a influência exercida sobre os eruditos judeus pelo Profeta iraniano e pelos conhecimentos dos magos astrólogos. O prestígio de Zoroastro tornou-se tão inevitável aos olhos dos escribas, que, em vez de nos depararmos com uma única e mesma vontade de anexação da personagem, constatamos várias tentativas contraditórias de absorção pela tradição bíblica.
Assim, o profeta Ezequiel, que pregava no final do séc. VI na Babilônia, foi identificado com Zoroastro, ou melhor, com o pseudo-Zaratus que supostamente ensinara Pitágoras na mesma cidade (Bidez-Cumont,41). Na confusão que domina o problema da assimilação de Zoroastro, vê-mo-lo, ora identificado com Nemrod, o grande caçador do Senhor, ora com Balaão, o profeta mesopotâmico enviado pelo rei de Moabe, e finalmente com o escriba Baruque, secretário de Jeremias e autor do Livro de Baruque no Antigo Testamento (Bidez-Cumont, 42). O denominador comum dessas manobras díspares era, de facto, incluir Zaratustra/Zoroastro na tradição hebraica (Bidez-Cumont,49).). Longe de ocultarem a importância da influência zoroastriana no judaísmo iranizado, essas tentativas provam bem mais a amplidão das relações judaico-mazdeístas.
Diante de uma religião bem viva na Pérsia até o séc. VI da nossa era, o judaísmo, não podendo voltar atrás nos empréstimos exóticos incorporados à sua teologia, não tinha mais do que travestir o inescamoteável Zoroastro num profeta do Antigo Testamento. O procedimento não era novo e os judeus helenizados procuraram igualmente atribuir-se muitos sábios da Antiguidade: Orfeu tornou-se discípulo de Moisés, assim como Platão e Pitágoras. O que poderia ser mais natural, portanto, se o predecessor dos grandes Helénicos, o próprio Zoroastro, recebera a sua ciência astrológica de Abraão? Os magos não tinham eles feito melhor, colocando o Profeta [Zoroastro] como fundador de sua casta e de suas crenças, fossem estas contraditórias com sua mensagem?
A manobra devia finalmente servir mais doravante aos apologistas cristãos quando procuraram refutar as múltiplas "heresias" da gnose e do maniqueísmo vindas do Irão, ou seja, daquele império que, após ter sido o adversário da Grécia clássica e de Roma, havia caído no século VIII sob a dominação da "impostura muçulmana". O falso histórico ressurgiu no século XVIII quando os teólogos se inquietaram ao ver o interesse dos especialistas orientais por essa antiga religião concorrente. O Rev. H. Prideaux, fervoroso defensor da apologética cristã e autor de uma Vida do impostor Maomé, tornava muito verosímil a origem judaica da fé zoroastriana (cf. The Old and New Testaments connected with the history of the Jews and neighbouring nations, London, 1718-1719.). No séc. XIX, o Rev. John Wilson foi encarregado por uma missão americana de reforçar tal ideia com bastante mais fervor, uma vez que as comunicações de Anquetil Duperron sobre o Avesta perturbavam consideravelmente os meios clericais da França e da Inglaterra (cf. The Parsi religion as contained in the Zand-Avesta, Bombay, 1843).
Enquanto que veremos como o cristianismo se enraízou profundamente nas crenças pós-exílicas do judaísmo emprestadas ou tiradas da gnose zoroastriana - conceitos que, aliás, eram originais em relação à tradição mosaica restrita - as asserções dos teólogos tinham a vantagem de encontrarem apenas o silêncio da minoria remanescente dos Parsis da Índia e dos Guébros do Irão. Apesar de raras e pertinentes respostas de eruditos parsis, esses piedosos representantes do zoroastrismo, dominados pelo Islão ou exilados, estavam mais preocupados em viver de acordo com os preceitos de Zaratustra do que em entrar em vãs polémicas sobre a prioridade manifesta de sua religião. Depois dessas teses subjetivas sobre o antecedente judaico das ideias zoroastrianas, com o conhecimento aprofundado do zoroastrismo, da alta antiguidade indo-iraniana comum aos Vedas e aos Gâthâs, e do arcaísmo filológico da língua avéstica, próxima ao antigo sânscrito (A dúvida sobre a origem pseudo-judaica do zoroastrismo surgiu assim que foi revelada a parentesco entre a língua dos Gäthâs e do antigo Avesta com as inscrições arqueológicas em caracteres cuneiformes dos aquemênidas, decifradas por E. Burnouf, Lassen e Rawlinson no século passado), tornou-se mais claro que a tese da pseudo-origem judaica do zoroastrismo havia sido aventada apenas para mascarar uma evidência demasiado incómoda: indiscutíveis empréstimos cripto-judaicos à gnose zoroastriana; influência notável especialmente após o exílio da Babilônia e até as últimas redações do Talmude babilônico nos primeiros séculos da nossa era. Consequência, por um lado muito mais grave para o cristianismo do que para o judaísmo, este último tendo que sofrer tal como a Gnose com a supremacia [católica apostólica] romana, se as Igrejas tivessem que inverter a visão tradicional de sua fé, para além das fontes judaicas, sobre uma antiga tradição esotérica há muito considerada adversa e herética.
Finalmente, a fábula absurda do judaísmo-zoroastrismo, agitada aliás por teólogos cristãos e não mais por judeus, acaba por suscitar reações enérgicas, até mesmo polémicas lamentáveis nas quais se acreditou, por vezes, no final do século XIX, ser um realento de anti-semitismo. Contudo, o orientalista Clermont-Ganneau, já em 1880, observava: «Como a Bíblia insiste em identificar o seu Deus com o de Ciro, o judaísmo não é mais do que uma emanação do mazdeísmo (Revue Critique. Paris, Janvier, 1880).» Charles Bellangé reforçava ainda mais essa posição em 1889 com esta observação audaciosa: «A Pérsia não terá um dogma que o judaísmo não se aproprie dele (Le Judaisme et l'histoire du peuple juif. Paris,1889).» Por outro lado, se essas afirmações parecem excessivas aos olhos de uma Cristandade marcada neste ponto pelo que um autor chamou recentemente de "uma falsificação maliciosa da história", em favor da única tradição judaico-helénica (M. Firouz. L'Iran face a l'imposture de l'Histoire. Paris, l'Herne, 1971), os trabalhos do século XX demonstraram amplamente a influência determinante das ideias zoroástricas sobre o judaísmo. Paralelamente essa descoberta demonstrava a ineptidão da tese anterior e, com A. Jackson e E. W. West, o eminente Dr. Charles Gore concluía: «Não é evidentemente possível estabelecer que esta religião imponente (o zoroastrismo) - por mais estreita que seja a semelhança com a fé do judaísmo - tenha sido tomada de empréstimo aos judeus; a sua datação torna isso inconveniente... Não existe também nenhuma outra fonte estrangeira à qual se possa associar. Na sua grande severidade, ela permanece, criação de importância suprema, se ao menos não fosse mais sábio designá-la, como teria feito o próprio Zoroastro, sob o nome de sinal pelo qual se reconhece a inspiração de uma personagem escolhida como profeta pelo Espírito divino.» Finalmente, R. P. Masani concluía a respeito da distorção judaico-cristã da história: «Desde então, muitos são os sábios que rejeitaram essa teoria, mas tais erros têm vida longa. (Le Zoroastrisme, religion de la vie bonne. Payot, 1939)».
Para meditarmos melhor nos ditos livros sagrados e divinos e nos que foram ostracizados e perseguidos. Continuaremos. E comentaremos...

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