quarta-feira, 27 de maio de 2026

Titus Burckhardt, sobre as Miniaturas Persas: As paisagens simbólicas manifestam a visão do cosmos subtil iraniano, e são a base da unidade da sua nação e estado religioso ou teocrático.

                              
Titus Burckhardt (1908-1984) foi um artista suíço, historiador de arte,  atraído e convertido cedo ao Islão, que procurou a iniciação em Fez e conseguindo-a na ordem sufi sunita Darqawiya, tendo vivido com dificuldades em vários trabalhos até poder em 1936, em Basileia,  estabilizar e estudar mais o árabe e a história da arte e começar  em 1937 a colaborar com artigos de simbolismo e traduções de filósofos espirituais árabes na revista de esoterismo Études Traditionneles, com René Guénon, então mestre do seu amigo de infância Frijtof Schuon, com quem também colaborava e o apoiou. Em 1939 casou-se, e tornou-se o director artístico da editora Urs Graf, em Basileia, especializada em reprodução de manuscritos antigos iluminados, onde trabalhou até se reformar em 1968. Os livros que escreveu de história de arte islâmica e sagrada com grande qualidade tiveram  sucesso e foi considerado o melhor conhecedor ocidental da arte islâmica. Os livros sobre o sufismo bem como o seu posicionamento metafísico e a sua relação muito próxima ou coincidente com Frithjof Schuon e  René Guènon, tornaram-no um dos principais representantes da escola tradicionalista, ou perenialista, teorizada principalmente por eles, além de Ananda Coomaraswamy e Seyyed Hossein Nasr

Titus Burckhardt e Frithjof Schuon perenizados numa varanda.

Entre 1972 e 1976 esteve em Fez a dirigir a restauração da cidade velha e da Medina, pela UNESCO e o Governo de Marrocos, e nesse ano último publicou uma valiosa obra Art of Islam. Language and Meaning, num in-fólio de XVI-204  páginas, muito bem ilustrada com fotografias de Roland Michaud, onde traça uma boa síntese em oito capítulos da evolução artística e principais épocas, estilos, características e questões, e de cujo capítulo III A Questão das Imagens, selecionamos dois extratos do segundo sub capítulo A Miniatura Persa,

Se o 1º extracto, mais especificamente sobre a miniatura Persa, revela uma boa captação da essência dela, já o 2º, sobre o Shi'ismo, manifesta um pouco mais ser  um sunita e não shi'ia, e não ter alcançado, aceitado ou valorizado plenamente a metafisica e o "espírito" shi'ia, sobretudo se o comparamos com Henry Corbin, que apesar de ser um cristão protestante, pelo seu grande amor ao Shi'ismo e ao Irão, atingiu uma grande penetração intuitiva, sensível e imaginal no mundo subtil e espiritual e na tradição dos XII Imams e dos místicos shi'ias. O livro contém como bibliografia apenas uma lista de quatro livros seus e onze não seus, sobre arte e arquitectura, sendo dois de cultura islâmica em geral. 

                                                            

Sobre as miniaturas persas: «(... O que dá à miniatura o seu quase único tipo de beleza não são tanto as cenas que retratam mas a nobilidade e simplicidade da atmosfera poética que as penetra.

Esta atmosfera, ou este modo - para usar um termo que carrega um significado preciso na música - confere ocasionalmente [ou melhor frequentemente] na miniatura Persa uma espécie de reverberação Edénica, e isto é profundamente significante, pois um dos seus temas básicos, com raízes iranianas distantes [alude veladamente ao que Henry Corbin desenvolveu profundamente, a partir dos textos avésticos, madzeístas e de Sohrawardi], é o da paisagem transfigurada, simbolizando ambos o paraíso terrestre e a "terra celestial"  [conforme a obra editada em 1960 de Henry. Corbin, Terre Céleste et Corps de résurrection, de l'Iran Madzéen à l'Iran Shi'ite, revista e modificada em 1978, como Corps espiritual et Terre céleste, de l'Iran Madzéen à l'Iran Shi'ite], os quais, enquanto se encontram  escondidos dos olhos da humanidade caída [tal das pessoas semicegas pelo mau jornalismo televisivo], permanecem existentes no mundo da luz espiritual que está manifesto aos santos de Deus [ou às pessoas com pureza, sensibilidade, aspiração, devoção, abertura.] 

É uma paisagem sem sombras, na qual cada objecto é feito de uma substância preciosa de inexcedível perfeição e onde cada árvore e flor é única no seu género [algo que devíamos ver mais mesmo neste mundo físico e desse modo nos elevarmos ou nos ligarmos aos outros mais subtis e perfeitos], tal como as plantas que Dante situa no Paraíso terrestre, na montanha do Purgatório, e cuja sementes nascem do vento perpétuo que sopra  no topo da montanha a fim de produzir todo o tipo de vegetação sobre a terra. (...)

Esta paisagem simbólica é essencialmente distinta da sugerida pela pintura chinesa. Diferentemente desta, não é definida; não parece estar a emergir dum vazio, a origem indiferenciada de todas as coisas; é como um cosmos bem ordenado, ocasionalmente contido numa arquitectura cristalina que o encerra como numa incantação mágica e prepara as cenas sem as fazer muito materiais.

Em termos gerais, a miniatura Persa - e estamos a considerá-la nas suas melhores fases - não procura retratatr o mundo exterior como ele se apresenta a si mesmo aos sentidos, com todas  as suas desarmonias e acidentalidades; o que está indirectamente a descrever é a imutável essência das coisas (al-a' yan ath-thabitah), pela qual um cavalo não é um simplesmente um membro particular da sua espécie mas o cavalo par excelence; é a qualidade genérica que a arte da miniatura procura captar. Se a imutáveis essências das coisas , os seus arquétipos, não podem ser apreendidos porque estão para lá da forma [discutível, pois têm é formas mais subtis e em movimento] elas ainda assim reflectem-se na contemplação imaginativa [ou imaginal, como diria H. Corbin]; daí a qualidade de sonho - não o de uma preguiçosa divagação - que pertence às mais belas miniaturas; é um sonho claro e translucente como se iluminado de dentro. (...)

Por causa do seu carácter normativo, a miniatura Persa pode servir para exprimir uma visão contemplativa; esta qualidade particular deve-se em parte ao meio ambiente (milieu) Shi'ita no qual a fronteira entre a lei religiosa e a livre inspiração é muito menos talhante que no Sunita. Estamos a pensar em certas miniaturas  de tema religioso tais as que, apesar de toda a regra tradicional, retratam a ascensão  (mi'raj) do Profeta através dos céus.

                                                                                      De longe a mais bela, e a mais espiritual, miniatura neste tema é a que forma parte do manuscrito Khamsah de Nizami, datado de 1529-1543, no período Safavida. Com as suas nuvens em convoluções no estilo Mongol e os seus anjos portadores de incenso reminiscentes das apsaras [indianas], esta miniatura exibe um ponto surpreendente de contacto entre o Budismo e o Islão [ou manifesta ainda a grande ligação com os anjos da antiga Pérsia, pioneira mundial nessa capacidade de visão com os Ameshaspenta e as fravartis de Zoroastro e depois continuada com Sohravardi, os seus condiscípulos da Luz oriental ou Ishraqiyyun, e vários místicos do Islão, seja sufis ou não pertencentes às tariqas ou confrarias.]

 «É bem apropriado, neste momento, dedicarmos algumas palavras a  clarificar a especial natureza do Shi'ismo. O que o distingue particularmente do Islão Sunita é a teoria do Califato, de acordo com o qual a autoridade spiritual conferida pelo Profeta sobre Ali, seu sobrinho e genro, está perpetuada  nos santos Imams (modelos ou guias) da sua família. O último dos Imams conhecido para a história - o décimo segundo de acordo com o Shi'ismo oficial [o Madhi]  - não está morto, mas está escondido dos olhos do mundo enquanto permanece em comunhão espiritual com os fiéis. 
Esta teoria é uma formulação [ou realização] devocional de uma verdade esotérica: a cada momento da sua história, cada mundo tradicional é regido por um polo (qutb) o qual é como o coração [ou eixo ou polo], um local onde a influência dos céus derrama-se para o plano terrestre; este "polo" é acima de tudo uma realidade cósmica e espiritual; coincide com a Presença Divina no centro do mundo - ou o centro dum certo mundo ou, de novo, de cada alma, de acordo com vários níveis - mas é normalmente representado pelo santo, ou santos, [ou pelos imams, ou os mestres, santos e profetas que estão ligados como eles] cuja estação ou estado espiritual corresponde a tal "localidade" cósmica e divina. Ficará claro a partir destas poucas observações que o Shi'ismo envolve uma verdade muito subtil, cuja formulação em termos que sejam comumente aceitáveis levam inevitavelmente a uma certa mitologização, e isto é o que caracteriza principalmente [chiefly] a imamologia do Shi'ismo [algo redutor reduzir assim a imamologia, tão bem aprofundada e valorizada por Henry Corbin, considerá-la sobretudo mitologização.] 

A memória do tempo em que os Imams estavam ainda presentes visivelmente, o fim trágico de alguns [ou de todos] deles, a ocultação do último deles, e o desejo de se atingir a misteriosa região onde ele reside ainda confere à piedade devocional [ou à aspiração mística e amorosa]  Shi'ita o seu tom característico, que pode ser descrito como uma nostalgia pungente pelo paraíso, o estado de inocência e plenitude que se encontra igualmente no começo e fim do tempo [ou à aspiração mística e amorosa à ligação ou união com os Imams, os Profetas e mesmo Deus, na sua imanência].

O Paraíso é um tempo primaveril eterno, uma jardim perpetuamente em floração, refrescado por águas vivas; é também um estado final e incorruptível como o de minerais preciosos, cristais, ouro. A arte Persa, e em particular a ornamentação das mesquitas Safávidas [séc. XVI e XVII], tem como programa combinar estas duas qualidades: o estado cristalino é exprimido na pureza das linhas arquitectónicas, a geometria perfeita das superfícies arqueadas e a decoração em formas rectilíneas; quando ao tempo primaveril celestial, ele desabrocha nas flores estilizadas e nos azulejos de cerâmica de cores frescas, ricas, moderadas.»

                                           

Já com as duas partes transcritas, investigando as relações entre Titus Burckhardt e Henry Corbin, confirmei que houve discordâncias  entre os dois, pois  Corbin seria considerado pouco ortodoxo no perenialismo de Guénon, Schuon, Burckwardt e Nasr, e demasiado valorizador da individualidade, do génio, da ligação pessoal íntima. No livro de S. H. Nasr e Ramin Jahanbegloo, intitulado In Search of the Sacred: A Conversation with Seyyed Hossein Nasr on His Life and Thought, de 2010,  e legível no Internet Archive, na p. 92 e ss., S. Hossein Nasr confessa que Henry Corbin não influenciou o seu pensamento metafísico, e dele apenas aproveitou   das suas obras eruditas, elogiando sobretudo os livros sobre Avicena e Ibn Arabi, e conta um choque forte acontecido em 1958, no Instituto Francês de Estudos Iranianos em Teerão, entre ele e Corbin, pouco depois de se terem conhecido, por este ter criticado fortemente Titus Burckardt, que era muito amigo de Nasr e se ofendeu com isso. A partir daí nunca mais tocou nesses aspectos para respeitar as idiossincrasias próprias de Corbin.
Henry  Corbin valorizou bastante mais realização interior própria de cada ser único com o seu espírito, ou mestre, ou anjo,  e com o imam e o Arcanjo Gabriel, do que a adesão ao ritualismo exterior ou à autoridade de um sheik ou mestre exterior. Também na abordagem  ao Alcorão ele era sobretudo um hermeneuta, um exegeta dos vários níveis de cada sura, para que eles reconduzissem a pessoa à realidade espiritual e divina. Assim a interpretação literal do Alcorão não era o mais importante, e importava mais a presença fenomenológica do que se acreditava, meditava e via, por um trabalho filosófico e místico ou espiritual em simultâneo.
É possível que por Henry Corbin não se ter convertido ao Islão e considerar-se um cristão, heterodoxo, tanto protestante como cavaleiro espiritual, conhecendo e dominando simultaneamente tão bem a filosofia e mística do Irão, e do sufismo shiia e sunita, provocasse alguma frição ou mesmo repulsão dos islâmicos ou ocidentais mais observadores da sharia, das observações legais ou exteriores do Islão. 
Não nos é dito claramente na entrevista quais foram as divergência com Titus Burckhardt, mas de qualquer modo o sunita, e metafisico perenialista ortodoxo e guenoniano, Burckhardt reconhece a especificidade forte da alma e ambiente subtil shi'ismo, onde certamente se fundamenta ou enraíza hoje a luta corajosa pela independeência soberana da República Islâmica do Irão contra o Ocidente opressivo degenerado, liderado pelos USA e Israel. 
Esta grande alma iraniana está bem presente nas miniaturas persas: uma nostalgia ou aspiração ao estado de plenitude, de verdade, de inocência,  de primordialidade, de ligação ao mundo imaginal e espiritual (Malakut, Hurqalya), e à Divindade,  mais sentida nas almas mais luminosas, translúcidas, dotadas de farrah, xvarnath, ou seja, a luz da Glória, já discernida por Zoroastro.
                                   
Almas que se conhecem e adoram a Deus e que assim medeiam entre a Divindade e a Humanidade e Natureza, sendo qutbs, polos ou eixos, ou, na forma em que Titus Burckhardt transmite, corações, e no fundo Graais, propiciando o derramamento  da luz abençoadora (barak) do Alto, ou mesmo Imams, os guias, realizações estas que os iranianos tanto viveram ao longo dos séculos seja com os profetas, filósofos, poetas, místicos, orafas (gnósticos ou teósofos) e sufis, e que na tradição e culto dos XII Imams do Shi'ismo continuam tão vivas e inspiradoras nestes tempos de grande luta e de tantos shahid, mártires, ou testemunhos vivos no auto-conhecimento espiritual, corajoso e imortal... 
Que as paisagens ou ambientes  interiores espirituais do grande amor e Luz da Glória da tradição e civilização persa sobrevivam ou resistam no povo iraniano e vençam as forças ahrimanicas neste confronto tão decisivo...

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