Henry Corbin, um dos melhores iraniólogos, no seu brevíssimo ensaio Sufismo e Sophiologia, escrito em 1955, um dos nove textos dados à luz em 1990 em L'Iran et la Philosophie, toca aspectos bem valiosos da demanda espiritual, nomeadamente ao realçar o aspecto feminino na Divindade, a sua manifestação na Terra e como a mulher é por excelência a manifestação da Beleza Divina e que vista e relacionada sabiamente é a fonte de iluminação do homem, destacando ainda como a nossa parte espiritual e subtil foi vista como uma entidade feminina, a fravarti, no Irão antigo. Algo desta valorização encontramos em Alexandre Dugin, no seu recente artigo sobre o Logos Iraniano, Noomachia, que traduzi parcialmente para este blogue.
Pode-se considerar Henry Corbin como um pensador algo heterodoxo, ao estabelecer à primazia do Ser Feminino no caminho espiritual, e ao unir as tradições zoroástricas, cristãs e islâmicas nessa confluência valorizadora de Daiane (Daena) e das Fravashi, de Sophia, de Maria e de Fatimah, dos Anjos femininos, e das mulheres que iniciam os homens no Amor mais forte.
Neste ensaio Henry Corbin começa por apresentar um dito do Profeta Muhammad segundo o qual Zaratrusta foi um profeta enviado pelo Senhor do Amor e cujo culto nos templos do Fogo (attar) simbolizava e invocava o Amor Divino,
Neste ensaio Henry Corbin começa por apresentar um dito do Profeta Muhammad segundo o qual Zaratrusta foi um profeta enviado pelo Senhor do Amor e cujo culto nos templos do Fogo (attar) simbolizava e invocava o Amor Divino,
Com a conquista pelo Islão da Pérsia, lembra Corbin que o terceiro Imam, Hosseim (Hosayn ibn Ali, 626-680) casou-se com a princesa persa, Shahrbanu, ou Shahzanan,filha do último shah sassânida Yazdegard III ( reinante de 632 a 651), da qual nascerá o 4º Imam (658-712), Ali ibn Husayn.
A reforçar esta abertura ou confluência do shiismo persa, apresenta o caso do 11º Imam Hasan ibn Ali (846-874) casar-se com uma cristã da Roma bizantina, Narkes ou Narjis, e que segundo tradições seria ora uma descendente de um discípulo de Jesus, ora segundo Corbin uma princesa, a qual será a mãe do 12 º Imam, Hujjat Allah ibn al-Hasan, nascido em 869, denominado o Madhi, o que se ocultou desde então e se tornou aquele que ainda há de vir, para instaurar uma época de paz, uma crença fundamental e ainda hoje muito viva no Shiismo e no Islão.

Henry Corbin vai então, na peugada de alguns místicos e gnósticos, realçar que «na vida destas duas princesas, ou nos seus sonhos, e visões, intuições e premonições, quem mais surge é Fatima, a filha do profeta, que foi saudada misticamente também como Virgem-Mãe, a qual vem a identificar com a Sophia celeste, a santa Sabedoria que tantos místicos e gnósticos cultuaram, nomeadamente ou em especial a tradição russa com Soloviev, Berdiaev, Florensky, ou mesmo Nicholai Roerich (na pintura) e Alexander Dugin.
Em Portugal não tivemos tanto o culto à Santa Sabedoria (embora haja um ou dois registos dela no séc. XVIII), mas mais à maternidade de Jesus e sua dor na Paixão e mais tarde à imaculada Concepção, para já no séc XX surgir Maria com o nome de Nossa Senhora de Fátima, uma manifestação do espírito feminino da devoção, da oração e de paz, numa certa união, pelo menos sonora e nominal, islâmico-cristã...
Henry Corbin não pode provar a afirmação de que Fátima, uma das filhas de Maomé, seria uma virgem-mãe, pois a sua demanda não é a da história objectiva e crítica, e ele próprio o diz, mas sim da real vivida pelas almas e no fundo a metafísica, imaginal e mítica, pelo que factos ou aspectos sem terem necessariamente efeitos causais evidentes são assumidos como simbolizações de realidades superiores e mitos actuantes nas almas.
Se tal designação for tomada num sentido simbólico em relação à sua feminidade divina, e que está presente virtualmente em toda a mulher, a qual é tanto Virgem inspiradora como Mãe educadora, embora depois se actualize mais num ou outro aspecto conforme o seu devir relacional, creio que estaremos todos de acordo. Mas fazer crer-se que era um ser divino, ou a mãe de Deus, que não teve relação sexual, que teve eventualmente até uma união com o Anjo, parece-nos uma mitificação desnecessária, que pode até retirar alguma sacralidade à mulher normal, ao casamento, à geração natural, recorrendo a uma intervenção divina ou à divinização extraordinária ou única de alguém, pois a possibilidade de se gerarem seres ungidos cai em todos os casais luminosos, que se preparam para tal e o merecem, e a virgindade é sobretudo um estado de pureza psíquica.
Henry Corbin não pode provar a afirmação de que Fátima, uma das filhas de Maomé, seria uma virgem-mãe, pois a sua demanda não é a da história objectiva e crítica, e ele próprio o diz, mas sim da real vivida pelas almas e no fundo a metafísica, imaginal e mítica, pelo que factos ou aspectos sem terem necessariamente efeitos causais evidentes são assumidos como simbolizações de realidades superiores e mitos actuantes nas almas.
Se tal designação for tomada num sentido simbólico em relação à sua feminidade divina, e que está presente virtualmente em toda a mulher, a qual é tanto Virgem inspiradora como Mãe educadora, embora depois se actualize mais num ou outro aspecto conforme o seu devir relacional, creio que estaremos todos de acordo. Mas fazer crer-se que era um ser divino, ou a mãe de Deus, que não teve relação sexual, que teve eventualmente até uma união com o Anjo, parece-nos uma mitificação desnecessária, que pode até retirar alguma sacralidade à mulher normal, ao casamento, à geração natural, recorrendo a uma intervenção divina ou à divinização extraordinária ou única de alguém, pois a possibilidade de se gerarem seres ungidos cai em todos os casais luminosos, que se preparam para tal e o merecem, e a virgindade é sobretudo um estado de pureza psíquica.
Henry Corbin destaca então Fatimah al Zahra como a fonte dos 12 Imam shiias e
como foram reconhecidos nela os traços da Sophia ou Sabedoria Celeste. E ainda como
ela é a confluência das duas luzes, a da santidade e a da profecia.
Também quanto à luz profética poderemos questionar Henry Corbin e alguns filósofos espirituais
que continuam a valorizar excessivamente os que foram designados como profetas,
seres demasiado mitificados e dos quais os relatos que temos na Bíblia são por vezes algo inventados, fantasiados e não resistem a um observação mais
lúcida nos nossos dias.
Acrescenta em seguida um hadit ou dito de Maomé bem profundo e valioso e que em muitas tradições místicas foi trabalhado e que eu até decifrei em equações interrogantes de Fernando Pessoa: "Aquele que conhece Fatimah tal qual ela é, esse conhece-se a si mesmo. Ora quem se conhece a si mesmo, conhece o seu Deus."
Este dito atribuído ao profeta do Islão instalaria Fatimah, «como símbolo eminente do Si (em francês, soi) e ter este conhecimento de si, é ter conhecimento do seu Deus».
O Eternamente feminino da Essência Divina, embora se manifeste sob símbolos e nomes no sufismo islâmico com outros nomes, dirá Henry Corbin, é em Fatimah Zhara, a Fátima resplandecente, que atinge o máximo, pois assinala a continuidade da sacrosanta luz do mazdeísmo, Xvarnath, a Luz da Glória Divina numa mulher, num corpo material e espiritual.
Acrescenta em seguida um hadit ou dito de Maomé bem profundo e valioso e que em muitas tradições místicas foi trabalhado e que eu até decifrei em equações interrogantes de Fernando Pessoa: "Aquele que conhece Fatimah tal qual ela é, esse conhece-se a si mesmo. Ora quem se conhece a si mesmo, conhece o seu Deus."
Este dito atribuído ao profeta do Islão instalaria Fatimah, «como símbolo eminente do Si (em francês, soi) e ter este conhecimento de si, é ter conhecimento do seu Deus».
O Eternamente feminino da Essência Divina, embora se manifeste sob símbolos e nomes no sufismo islâmico com outros nomes, dirá Henry Corbin, é em Fatimah Zhara, a Fátima resplandecente, que atinge o máximo, pois assinala a continuidade da sacrosanta luz do mazdeísmo, Xvarnath, a Luz da Glória Divina numa mulher, num corpo material e espiritual.
Henry Corbin, na sua arqueologia do sagrado iraniano, tal como entre nós a nossa querida amiga Dalila Pereira da Costa, que o admirava e tão bem realizou em relação a Portugal (como tenho partilhado neste blogue), relembrará ainda a devoção que Zaratustra teve pelos Anjos
femininos, os quais são mencionados no Avesta e que parecem exemplificar uma mesma figura
central «Daênâ, que é sabedoria, que é visão, que é em pessoa a religião
da Luz: aquela que é propriamente a Fravarti de cada fiel, ou seja a
entidade feminina que é por sua vez o seu arquétipo e o seu anjo guia, o
seu Eu transcendente ou celeste.»... Os mistérios da Daênâ-Fravarti., abordados por Henry Corbin com grande qualidade e repetidamente desde cedo, tal no seu seminal Corpo Espiritual e Terra Celeste: do Irão madzeista ao Irão shiita, 1961.
Como Henry Corbin (14/4/1903-7/10/78) foi amigo de Carl Gustav Jung (26/7/1875-6/6/1961) e dialogou bastante com ele nos Encontros de Eranos na Suíça, reafirmou então neste curto ensaio a importância de vermos o nosso eu normal «como uma pequena parte do nosso ser total», ou o inconsciente de Carl G. Jung, e condensa depois a sua compreensão da correspondências dessa subtil e misteriosa entidade, do zoroastrismo e do mazdeísmo, com o eu espiritual e com a Divindade, continuando assim: «Ora é esta pessoa invisível e tutelar que pressentia o velho Irão formulando a ideia de Fravarti: contraparte transcendente e celeste deste ser tornado terrestre, companheiros eternos co-respondentes um do outro, ideia metafísica dum casal numa só essência. A ideia esteve presente tanto no maniqueísmo como no zoroastrismo. Toda a esperança, toda a alegria na morte estavam lá: reencontrar o ser meu que me deu origem à sua imagem, como parte de si mesmo.»Dando graças, fiquemo-nos por aqui, pois já temos muito para meditar, embora no artigo Corbin aborde ainda os Fiéis do Amor, e cite a Etienne Souriau, e a função angélica dos seres,
a propósito de não deixarmos perecer o Amor, algo tão em perigo nos
nossos dias de violência extrema do sionismo epsteiniano
americano-israelita, e exactamente contra o Irão da mulher e do amor
sagrado, e conseguirmos seguir o Anjo invisível, que devemos reconhecer
ou fazer nascer em nós...

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