quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Frei Paulo de Vasconcelos: a Consciência da Presença de Deus é um modo de oração. Das jaculatórias. Venha a nós a Vossa Luz. Extractos da sua "Arte espiritual."

 Frei Paulo de Vasconcelos, mestre prior geral da Ordem de Cristo, na sua Arte espiritual, dada à luz em 1649, e reimpressa em 1725,  já abordada num primeiro artigo, num sub-capítulo valioso  partilhou a sua visão e compreensão da omnipresença de Deus, e do estado de oração permanente que tal realização permite, o que para nós nestes tempos agitados é bem fecundante. Intitula-se Também a presença de Deus é modo de oração.

 «É muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um instante sem a lembrança de Deus, e ainda que pareça dificultoso este exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança.
E se há-de adv
ertir, que a presença de Deus é de dois modos, um é a presença de Deus intelectual, e outro o imaginário. O do entendimento não é outra coisa senão abrir os olhos da razão, e advertir que temos a Deus presente no íntimo de nossa alma, e isto é tanto assim, que não só na alma, senão também o está na mais vil e desprezada coisa que há no mundo, dando-lhe o ser que tem, de modo que havemos de considerar a Deus como uma densa névoa, de que todo o mundo está cheio, e a nós no meio dela cerrados de todas as partes, ou como uma esponja metida no ar, que não só está cercada de água, senão que também a tem dentro em si, ou como o ferro, abrasado, que não está cercado de fogo, senão que por todas as partes o tem estranhado e metido em si. E deste modo podemos sempre trazer a Deus presente, abrindo os olhos da razão, e considerando a Deus em todas as coisas criadas, dando-lhe o ser que tem, e obrando em todas como primeira causa, que é de todas, e assim para qualquer parte que olharmos, temos motivos e ocasião de nos lembrarmos de Deus, e de o termos presente, e de sempre o andarmos louvando, tendo sempre respeito a quem está nelas (...)

 Comentário: Que extraordinário texto, que excelente modo de fazer bem compreensível e sensível a omnipresença divina. Meditemo-lo bem...

A presença de Deus imaginária é formar dentro de nós com a imaginação uma imagem de Cristo Nosso Senhor nascido, circuncidado, açoitado, ou de qualquer outro modo, que mais no incitar a devoção, e esta havemos de representar ao entendimento, e traze-la sempre diante de nós, como se na realidade o estivera, e com ela havemos de andar falando, representando nossas necessidades, queixando-nos de nossos males, dando-lhe graças pelas mercês recebidas, pedindo-lhe perdão pelos pecados, alegrando-se com ela. doendo-se das suas dores (...)

Comentário: Outro ensinamento presente nos iniciados e místicos de várias religiões, denominando-se o nascimento de Deus em nós, ou ainda o ishtadevata, na tradição indiana, com várias formas ou avatarizações possíveis na imensa religiosidade do Oriente. Nesta instrução, o Dom Prior geral Paulo de Vasconcelos cinge-se a Jesus Cristo, embora haja nela as duas dimensões humana e divina, e cada um sentirá a que lhe é mais afim...

Também servem para a oração o uso das jaculatórias, que é o que acompanha a presença de Deus; estas são umas palavras amorosas, ou aspirações com que o coração se levanta Deus, e são uns afectos da vontade afervorados, com que os contemplativos mostram o desejo que têm de servir, e contentar a Deus; e dá-se-lhe o nome de jaculatórias, porque podem tanto com Deus como se fossem armas de arremesso, que atravessam o coração de Deus; estas pode cada um formar conforme sua devoção, e necessidade, a saber: - "Senhor meu, quem nunca vos ofendera"; Que padecera antes as penas do Inferno, que ter-vos ofendido"; "Deus meu, alumiai-me, tende misericórdia."

 Comentário: são muitas as jaculatórias da nossa tradição espiritual, presentes desde os Templários, com o seu Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomine Tuo da Gloriam,  e a Ordem de Cristo, aos místicos e místicas que ao longo dos séculos tão fortemente ligaram a grande alma portuguesa à divina, algumas das quais tenho apresentado neste blogue, advertindo que cada um deve ter ou criar algumas, quais mantras orientais. As jaculatórias apresentadas são da via purgativa, ou da propedêutica da humildade, necessária em todas as vias ou estágios...
                                                
Estas e outras
 semelhantes forme cada um conforme a sua devoção, e estas deve de ter na memória, para que na oração, e fora dele use muitas vezes delas no exercício da presença de Deus, e não deixe de as dizer por indevoção, nem por se ver levado com pecados, porque elas bastam para livrar de todos, e para afervorar a devoção, e não se deixe este exercício, posto que divirta milhares de vezes em cada hora, porque quando menos o cuidar, vira Deus com sua luz.»

                                   "Venha a nós a vossa Luz...."









Sem comentários:

Enviar um comentário