«É
muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a
presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim
como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um
instante sem a lembrança de Deus, e ainda que pareça dificultoso este
exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais
dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança.
E se há-de advertir,
que a presença de Deus é de dois modos, um é a presença de Deus
intelectual, e outro o imaginário. O do entendimento não é outra coisa
senão abrir os olhos da razão, e advertir que temos a Deus presente no
íntimo de nossa alma, e isto é tanto assim, que não só na alma, senão
também o está na mais vil e desprezada coisa que há no mundo, dando-lhe
o ser que tem, de modo que havemos de considerar a Deus como uma densa
névoa, de que todo o mundo está cheio, e a nós no meio dela cerrados de
todas as partes, ou como uma esponja metida no ar, que não só está
cercada de água, senão que também a tem dentro em si, ou como o ferro,
abrasado, que não está cercado de fogo, senão que por todas as partes o
tem estranhado e metido em si. E deste modo podemos sempre trazer a Deus
presente, abrindo os olhos da razão, e considerando a Deus em todas as
coisas criadas, dando-lhe o ser que tem, e obrando em todas como
primeira causa, que é de todas, e assim para qualquer parte que
olharmos, temos motivos e ocasião de nos lembrarmos de Deus, e de o
termos presente, e de sempre o andarmos louvando, tendo sempre respeito a
quem está nelas (...)
Comentário: Que extraordinário texto, que excelente modo de fazer bem compreensível e sensível a omnipresença divina. Meditemo-lo bem...
A presença de Deus imaginária é formar dentro de nós com a imaginação uma imagem de Cristo Nosso Senhor nascido, circuncidado, açoitado, ou de qualquer outro modo, que mais no incitar a devoção, e esta havemos de representar ao entendimento, e traze-la sempre diante de nós, como se na realidade o estivera, e com ela havemos de andar falando, representando nossas necessidades, queixando-nos de nossos males, dando-lhe graças pelas mercês recebidas, pedindo-lhe perdão pelos pecados, alegrando-se com ela. doendo-se das suas dores (...)
Comentário: Outro ensinamento presente nos iniciados e místicos de várias religiões, denominando-se o nascimento de Deus em nós, ou ainda o ishtadevata, na tradição indiana, com várias formas ou avatarizações possíveis na imensa religiosidade do Oriente. Nesta instrução, o Dom Prior geral Paulo de Vasconcelos cinge-se a Jesus Cristo, embora haja nela as duas dimensões humana e divina, e cada um sentirá a que lhe é mais afim...
Também servem para a oração o uso das jaculatórias, que é o que acompanha a presença de Deus; estas são umas palavras amorosas, ou aspirações com que o coração se levanta Deus, e são uns afectos da vontade afervorados, com que os contemplativos mostram o desejo que têm de servir, e contentar a Deus; e dá-se-lhe o nome de jaculatórias, porque podem tanto com Deus como se fossem armas de arremesso, que atravessam o coração de Deus; estas pode cada um formar conforme sua devoção, e necessidade, a saber: - "Senhor meu, quem nunca vos ofendera"; Que padecera antes as penas do Inferno, que ter-vos ofendido"; "Deus meu, alumiai-me, tende misericórdia."
Comentário: são muitas as jaculatórias da nossa tradição espiritual, presentes desde os Templários, com o seu Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomine Tuo da Gloriam, e a Ordem de Cristo, aos místicos e místicas que ao longo dos séculos tão fortemente ligaram a grande alma portuguesa à divina, algumas das quais tenho apresentado neste blogue, advertindo que cada um deve ter ou criar algumas, quais mantras orientais. As jaculatórias apresentadas são da via purgativa, ou da propedêutica da humildade, necessária em todas as vias ou estágios...
Estas e outras semelhantes forme cada um conforme a sua
devoção, e estas deve de ter na memória, para que na oração, e fora dele
use muitas vezes delas no exercício da presença de Deus, e não deixe de
as dizer por indevoção, nem por se ver levado com pecados, porque elas
bastam para livrar de todos, e para afervorar a devoção, e não se deixe
este exercício, posto que divirta milhares de vezes em cada hora, porque
quando menos o cuidar, vira Deus com sua luz.»
"Venha a nós a vossa Luz...."
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