quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

 La Doctrine des Moevrs, tiree de la philosophie des stoiques, representee en cent tableavx et expliqvee en cent discovrs pour l'instruction de la ieunesse, publicada em 1646 e reimpressa com modificações na década de oitenta sob o título La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, de Marin Le Roy Gomberville, é talvez a obra mais valiosa de um espírito de precoces dons, poeta, historiador, escritor criativo (sobretudo no seu romance estilo de cavalaria, barroco, Polexandre, bastante universalista), moralista piedoso e que viveu entre 1600 e 14/6/1674, sendo mesmo um dos quarenta membros fundadores da Academia Francesa. Na sua última obra, sobre a casa dinástica de Never, justifica por causas políticas não ter sido tanto historiador como foi publicista, poeta, ficcionista e moralista. Teve descendência, cinco filhos, vivendo os últimos anos retirado em estudo e meditação. Esta obra revela a clara intenção pedagógica de inspirar as pessoas ao auto-conhecimento e ao caminho da virtude, sobriedade, harmonia, sabedoria, amor, felicidade aqui e no além...
A Doutrina dos Costumes, ou Doutrina Moral,  apresenta o caminho para se chegar ou viver na Sabedoria, segundo a tradição ética e filosófica ocidental greco-latina e cristã, e seguindo o que era veiculado com impacto e sucesso pelos autores de emblemata, tais Alciato (1492-1550) e Otto Vaenius (1556-1629). A obra desfrutou de grande sucesso editorial (1646, 1681, 82, 83, 84, 85, 88) provavelmente por estar em vernáculo (embora a 1ª edição tivesse também motes e epigramas em latim) e apresentar cento e três sugestivas gravuras desenhadas pelo pintor humanista Otto Vaenius (Otto van Veen) e abertas por seu irmão Gijsbert van Veen no seu Studio, para os Q. Horati  Flacci Emblemata, publicados em 1607, 1612, 1683.
A 1ª edição em francês de Gomberville, em 1646, dedicada à rainha Ana da Áustria e ao seu filho o rei Luís XIV e ao cardeal Mazarin, está  dividida em duas partes de sessenta e de quarenta e três emblemas, gravados pelo gravador e impressor Pierre Daret seguindo os de Otto Vaenius, e cada um deles tem um mote ou lema, um epigrama ou quadra e duas páginas da explicação ou hermenêutica moral. A base dos motes e epigramas são Horácio e a tradição greco-romana, pitagórica, socrática e estóica moderada, e humanista, e Le Roy de Gomberville segue-as nas suas explicações,  aprofundando mais ou menos o epigrama e a simbologia do emblema, e não cita autores nas margens, apenas mencionando  uma vez cada Sócrates, Catão, Licurgo, Diógenes, Zenão e Plutarco, embora haja menções de poemas e mitologias greco-romanos, com seus heróis, tais Aquiles e Hércules, e deuses, tais Júpiter nos céus, Minerva, Harpócrates, Mercúrio...
Foi um manual de sabedoria para muita gente, providenciando uma base de discernimento do  bem e o mal,  virtude e vício, sem  excessos de atemorizações ou rigores, e os motes ou títulos, e os epigramas ou quadras eram autênticos lemas ou mantras facilmente assimiláveis na alma, a que se seguia o breve texto explicativo, este o único da plena autoria de Marin Le Roy Gomberville.
 
Por exemplo a 1ª divisa, "A Natureza começa: o alimento (cultivar) completa (aperfeiçoa)", que no latim original era bem melhor, Naturam Minerva perficit, a quadra é: 

«Ne te promets pas tout des soins de la Nature
Il faut que ton travail accompagne le sien:
Le Champ le plus fertile a besoin de culture
Et si le Laboureur ne l'ensemence bien, il n'y recueille rien.
 
Não esperes tudo dos cuidados da Natureza
É preciso que o teu trabalho acompanhe o seu:
O campo mais fértil precisa de cultura
E se o lavrador não o semear bem, nada recolherá.»
 
A versão original de Pierre Daret, em 1646. mais perfeita
                                     

Nas edições seguintes, tal a de 1688. a qualidade é mais fraca

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   Vamos transcrever  os motes das divisas da I Parte, e num segundo artigo os da II Parte, com alguns dos emblemas 
A Natureza começa: o alimento aperfeiçoa
O alimento supera a Natureza
O alimento pode tudo
A Virtude pressupõe a pureza da alma. 
Fugir do vício é seguir a virtude
A virtude pressupõe a acção 
Quem nunca começa nunca saberá acabar
Correndo, chega-se ao objetivo 
A virtude foge dos excessos 
Fugindo de um vício, o imprudente cai noutro.
A Natureza regula nossos desejos.
Para odiar o Vício, é preciso conhecê-lo.
O estudo da Virtude é o fim do Homem.
Em qualquer condição, se pode ser virtuoso.
A cura da Alma é a mais necessária.
Ama a Virtude por amor dela própria.
Só Deus não tem Mestre.
Treme diante do Trono do Deus vivo. 
A impiedade causa todos os males.
Os maus punem-se uns aos outros.
O homem nasceu para amar.
Amando, tornamo-nos perfeitos.
É preciso amar para ser amado.
O amor dos Povos é a força dos Estados.
A verdadeira amizade é desinteressada.
O amigo não vê o defeito do amigo. 
Respeita o teu amigo e cuida de ti.
O Silêncio é a vida do Amor.
A inveja é a morte do amor.
 Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.

 A Temperança é o supremo bem.
Quem ama a sua condição, é feliz.
A vida do Campo é a vida dos Heróis.
A vida escondida é a melhor.
Os excessos da boca são a morte da alma.
Quem compra as Volúpias, compra um arrependimento.
Não há crime sem castigo.
O Vício é uma servidão perpétua.
O debochado passa de um crime a outro.
Só é rico quem despreza as riquezas.
O medo da Morte é a punição dos Ambiciosos.
O medo é a companhia do poder.
Por toda a parte a preocupação acompanha-nos. 
A pobreza é antes bem que mal.
A pobreza nem sempre prejudica a Virtude.
 
Tudo cede ao Demónio das riquezas.  
Se Tersite é rico, tomam-no por Aquiles.
O desejo de bens é contrário às coisas honestas. 

 
O dinheiro corrompe tudo. 
A fortuna não faz de modo algum o mérito.
O amor aos bens é um suplício sem fim.  
A avareza é um grande mal.
O avarento teme tudo e não teme nada.
A avareza é insaciável.
O avarento é o seu carrasco.
Uma cegueira é seguida por uma outra.
O avarento morre como viveu.
A malícia do avarento vive depois da sua morte.
As riquezas são boas aos bons. 
O homem que faz bem é amado por todo o mundo.»

Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf

 Concluamos esta homenagem à Sabedoria, a Otto Vaenius e a Marin Le Roy Gomberville, com a 28ª figura, intitulada  O Silêncio é a vida do Amor, e a sua quadra:
«O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do Sábio e a dum Amante.
Quem não fala que raramente
Não ofende jamais aquele que ama.» 

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