sexta-feira, 12 de maio de 2017

Abriu nova livraria na Guilherme Cossul, a Santos

Imagens rápidas da inauguração na Gulherme Cossul de um espaço de livros que desejamos auspicioso...

O espaço de uma livraria, reflecte sempre o mundo e felizes os que conseguem dar com a porta e atravessar o labirinto da busca e chegar ao livro desejado ou necessitado... 
O director da livraria, Duarte Pereira, confiante no amor e na leitura dos livros, verdadeiros, de papel e alma, olha para o futuro com alegria... 
A garimpagem, a busca das linhas, páginas ou autores que nos tocam, encantam, ensinam e elevam, une as almas amantes dos livros... 
O sorriso do serviço intelectual, de disponibilizar a obra que faz luz... 
Buscas do sentido da vida, na imensidade e na intimidade, nas nuvens e céus, nas estrelas e nas almas.

Ainda há dias comemorávamos os 156 anos de Rabindranath Tagore num texto deste blogue e onde referíamos autores tagoreanos e algumas obras traduzidas... 
Imagem desfocada da mesa central de livros, para estimular as pessoas a verem e tocarem, a folhearem e comprarem 
Os autores procuram sempre a imortalidade, não de si porque o espírito é imortal, mas das suas obras. Eduardo Galeano morreu há pouco mas o dragão que ele assumiu continua a correr nas veias humanas e terrenas para que a humanidade continue, pela liberdade e a solidariedade, a sonhar, a lutar e a amar 
A prateleira da infância, a garantia de que as crianças não terão que ler apenas em materiais plásticos e electronicos...
Uma jovem amante dos livros e da sua sabedoria na procura da obra ou do autor que a ajudarão a avançar no seu luminoso caminho. Que afluam muitas almas como ela à Guilherme Cossul e que a aventura da livraria frutifique para todos!

Apareça!

segunda-feira, 8 de maio de 2017

As nuvens artificiais em Lisboa serão ou não uma fonte de Turismo?

Sem legendas, apenas as imagens de 8-V-2017, algumas delas com nuvenzinhas subtis a desprenderem-se dos rastos químicos dos aviões, quem sabe sopradas por algum vento angélico...


































Que a luz da verdade e a sabedoria do amor protejam e inspirem a humanidade... 

Rabindranath Tagore e a Índia contemporânea, pelo médico Santana Rodrigues, 1926.

                                           
António Aleixo de Santana Rodrigues (Salsete, 1887- Lisboa, 1966) foi um notável médico e escritor que participou como Tenente médico na 1ª Grande Guerra e deixou uma boa bibliografia, iniciada com a sua tese de doutoramento, Estudos de Psychologia. A dinâmica do pensamento, impressa em Lisboa em 1919, a qual recebeu aplausos de Henry Bergson, Sigmund Freud e Júlio de Matos. Em 1926 deu à luz em Lisboa a Índia Contemporânea, prefaciada pelo prof. Azevedo Neves, o qual, como director do Jornal Dia, a publicara semanalmente em dezasseis artigos no ano de 1924, com grande sucesso. 
No 1º capítulo, A Muralha do Mistério, Santana Rodrigues defende com veemência o valor e a riqueza a todos os níveis da Índia e como ela desde sempre foi atacada e minimizada pelos historiadores gregos e mais tarde pelos ocidentais, incapazes de compreender e aceitar a sua religião e cultura ou as civilizações orientais. Só a partir de meados do séc. XIX (embora tenho havido excepções, tais como Anquetil Duperront) e começo do séc. XX é que reconhece tal capacidade em autores como Burnouf, Champolion, Maspero, Renusat, Gobineau, Silvanin Levy, Ramlinson, Lavard e De Morgan. Dos pensadores indiano realça Tilak, Benov Kumar Sarkar, Jadunath Sarkar e Radhakumud Mookerji. 
No 2º capítulo, A Fraude da História, valoriza o génio hindu e põe em causa a albinocracia, a anglofilia e as mitificações portuguesas, demonstrando como a Índia entre o séc. VI a. C. e o VII d. C. foi verdadeiramente poderosa e criadora e que Chandragupta Maurya (321-298 a. C), vencedor dos sucessores de Alexandre Magno, inaugurou um império que duraria até ao desfalecer da dinastia Gupta. Em relação aos portugueses teve a ousadia, talvez possível porque antes da instalação da Censura de Salazar, de escrever: «A conquista da Índia pelos portugueses é uma épica fantasia. Na vasta península hindustânica não possuíram os portugueses mais do que vagas feitorias marginais. A própria cidade de Goa, tomada aos mouros, com assentimento de Vijayanar e com a ajuda dos seus naturais, era de apoucada extensão. (...)  O chamado Império Português na Índia foi o predomínio dos mares: a armada portuguesa, no séc. XVI, preponderava sobre todo o tráfico marítimo indo-europeu.»
No 3º artigo ou capítulo, A Lenda da Barbárie, valoriza os indianos como povo pacifico e sábio, mostrando os relatos sinceros de alguns viajantes que invalidam as críticas por outros apregoadas, citando por exemplo o sábio cronista do místico imperador mogol Akbar, Abu-Fazl: «Os hindús são religiosos, afáveis, vivos, amorosos da justiça, dados ao recolhimento, hábeis nos negócios e de uma indiscutível fidelidade...».
O 4º capítulo, O Dogma da Inferioridade, no qual defende os valores e realizações da civilização Indiana, começa assim bem lúcido e crítico: «Uma crença absorvente e intangível, como um dogma, infesta e seduz o espírito euro-americano: a da inferioridade das raças do Oriente. O domínio da raça europeia, o white man's burden, é o fulcro, o eixo que orienta a literatura, a história, a filosofia e a política interior e exterior das nações da EUROPA e da AMÉRICA. Há uma perversão singular da inteligência histórica, um eclipse quase total do sentido próprio da História.»
No 5º capítulo, Confronto Sincrónico entre a Civilização Europeia e a Civilização Hindu, lembra algumas das filosofias ou darshanas e dos grandes nomes indianos, terminando assim: «A Índia do séc. XX se embeleza e se exorna pelo exercício de rútilas virtudes para restaurar o fio maravilhoso da tradição, o sutra [fio] interrompido do sincronismo histórico. Um escol de patriotas e pensadores vibra e afervora a alma nacional. É RAM MOHUN ROY, humanista profundo e precursor da emancipação religiosa (...) é RABINDRA TAGORE, o Mecenas carinhoso das letras e artes pátrias; é toda uma pleiade de estatuários, a polir, a cinzelar, a alçar a abóbada dos Estados Unidos da Índia
Os capítulos seguintes intitulam-se Coeficiente Hindu na Civilização EuropeiaA Nacionalidade Hindu, A Dominação Inglesa (A dominação britânica é uma lastimosa «trama de intrigas e crimes», urdida por homens de génio em que «a ausência de  escrúpulos, a mentira, a lisonja hipócrita,a fraude e a contrafacção de documentos» foram  armas eminentes e cujo corolário, odiento e implacável, é «a penúria sem paralelo de quarenta milhões de homens», submetidos a um teoria sem precedentes, a um despotismo bárbaro e repressivo (Macaulay, Essays). E  A Reacção Nacional, neste realçando  o dia 1º de Agosto de 1920, quando  «foi proclamado o movimento de não-cooperação: o abandono rigoroso de todos os empregos, escolas, tribunais, mercês honoríficas e títulos do Estado, a não participação nas recepções oficiais e nos empréstimos do Estado e a guerra sistemática aos tecidos e mercadorias estrangeiras, enquanto num sábio espírito de reconstrução se incitava à unidade de todas as crenças, à integração regular dos párias na colectividade, ao alistamento de voluntários ao serviço nacional, à fundação de escolas, universidades e obras de assistência social e à restauração das antigas industrias nativas. Foi um impulso vigoroso, e o êxito fecundo e brilhante. Centenas de magistrados e advogados abandonaram as suas privilegiadas posições...»
Seguem-se os capítulos As Ideias Políticas e Sociais, As Ideias Religiosas, neste valorizando muito Ram Mohan Roy, pelo seu conhecimento profundo das diversas religiões e pela sua síntese no Brahmo Samaj, e o Mahatma Gandi, por não aceitar nas religiões «o que repugna à razão e ao sentido moral» e por afirmar «não creio na Divindade exclusiva dos Vedas. Creio que a Bíblia, o Alcorão e o Zend-Avesta são tão divinamente inspirados como os Vedas».
Por fim,  entramos nos capítulos Educação Pública, As Letras, As Artes, As Industrias, apreciando assim  Tagore: «Dos seus poetas místicos, Rabindranath Tagore é o mais fulgido expoente. Espírito alto e luminoso, prémio Nobel de literatura de 1913, goza como nenhum outro embaixador de inteligência hindu, o assinalado privilégio dum renome universal; os seus poemas, dramas, contos, novelas e discursos, traduzidos em todas as línguas cultas, atestam exuberantemente a sua indisputável superioridade entre os grandes pensadores contemporâneos. De um tocante e exaltado misticismo nas oferendas devotas do Gitanjali, resplende  de cálida galantaria e veemente amor no Gardener [Jardineiro do Amor] e é um pintor excelso da natureza e da vida social indiana no Chitra - poema dramático, pleno de encantadores pensamentos sobre mulher e o amor, penetrados de augusto carinho pela dignidade da esposa e da mãe. Filósofo que se preocupa com os mistérios do destino no Sadhana, onde se levanta a subtilezas da mais nevoenta dialéctica, é o mais humano e o mais terno cantor da infância no Crescent Moon e no Post Office, em que é de inigualável encanto. A graça e a leveza do seu estilo, o colorido surpreendente das suas imagens e o pendor ingénito em manter um tom delicado e digno na interpretação dos assuntos mais ásperos dão às obras de TAGORE um sabor de delicioso enlêvo e de fascinadora beleza, sem símile em nenhum autor contemporâneo.
Se como contista e novelista, TAGORE não hesita em ir arrancar à chocha do mísero tchandala, [um comedor de cães, o ser tão negativo que está fora do sistema das castas] os modelos vivos das suas personagens, como dramaturgo e, sobretudo, como poeta, é um puro aristocrata; os seus heróis são reis e príncipes; a sua linguagem é de um aprumo e de uma solenidade que se não desmancham nem quando, como pregador e profeta, desce no Sacrifice, no Nationalism e na Creative Unity a profligar o fanatismo e a superstição nacionalista em favor de um poético internacionalismo.
A feição cosmopolita e humanitária do seu proselitismo politico não encontra, porém, sucessores na fogosa juventude bengali. A imaginação indiana é ao presente toda concreta e objectiva, de uma nítida compreensão das realidades», referindo contudo, em seguida, e revelando a sua excelente cultura contemporânea,   os nomes de valiosos bengalis, tais como Jogendra Nath Bose, Satiendra Nath Datta, Hem Chandra Banerji, Dwijendra Lal Roy, Madhu Sudan Dutt, Nabin  Chandra Sen, Girish Chandra Gosh,  Bankin Chandra Chaterji, Saratsandra Chatterji, Sita e Santa Chaterjee, Navalram, Hari Narayan Apté, Madhavaran Tripathi.
Em 1940 publicou ainda uma biografia sobre o famoso padre goês, O Abade de Faria, que ao nível da cura pelo pensamento e pelo hipnotismo, ao qual ele chamava sono lúcido, foi um notável pioneiro na investigação. É contudo a sua dissertação inaugural, sobre o mistério do pensamento e do seu dinamismo, talvez a sua obra mais original e que estando há muito esgotada bem merecia ser reeditada e mais estudada. Esperemos que a possamos ler e comentar...
                                           

sábado, 6 de maio de 2017

156º aniversário de Rabindranath Tagore. Com tradução parafraseada.

A 7 de Maio de 1861 nasce em Calcutá, Bengala, o genial poeta, pensador, romancista, pintor e pedagogo Rabindranath Tagore. Um dos muitos filhos do sábio e abastado Devendranath Tagore, com Ram Mohum Roy, um dos líderes do renascimento bengali e indiano do séc. XIX, foi educado no meio da sabedoria milenária da Índia, sobretudo em casa, e da sua natureza maravilhosa. Aos doze anos o pai começa a levá-lo nas suas viagens e aos treze começa a escrever poemas e contos. Não consegue aceitar as escolas oficiais, já que não o tocavam anímica e criativamente, e estuda só. Aos 16 anos parte para estudar dois anos em Inglaterra, para se tornar advogado mas a paixão de criador foi mais forte e voltou à Índia para se tornar escritor e pedagogo.
                                            
É nesta altura que ele tem uma expansão de consciência, a sua iluminação, numa manhã na Free School Lane, em Calcutá. Augusto Casimiro, traduziu assim a relação dessa visão-sensação que durou sete dias: «Todas as coisas se tornaram luminosas. Toda a cena emanava uma música admirável de maravilhoso ritmo (...) Sentia-me cheio de alegria, de amor, por todos, por todas as coisas, até as mais pequeninas (...) Naquela manhã experimentei uma das primeira sensações que me deram a visão interior e tentei dizer isto nos meus versos. Desde então compreendi qual era o meu objectivo: exprimir a plenitude da vida na sua beleza, como sendo a perfeição, uma vez que lhe retirasse o véu que a encobria». 
Com Mrinali Devi, a sua mulher, em 1883.
Aos 22 anos casa-se com a muito jovem Mrinali Devi e vai viver os próximos 17 anos bem felizes e administrando uma extensa propriedade, onde entra em grande comunhão com a vida natural e espiritual tradicional indiana, num meio rural. Mas depois morre Mrinali, as duas filhas e, por fim, o filho, tudo constituindo uma demorada iniciação na dor e no desprendimento forte, mas que conseguirá transmutar e continuar a crer, a sentir e a criar Beleza e Amor, no Espírito e na Unidade.
                                               
Em 1901, com 40 anos, fundou uma Universidade Livre em Shantineketan, a Abóbada da Paz, onde passou a receber alunos e a partilhar o conhecimento de formas pioneiras próximas do que se entende hoje como o movimento da Escola Livre, mas numa relação mais íntima entre o professor ou guru e os alunos. Esperamos noutro texto desenvolver alguns aspectos da sua visão educativa e desabrochadora da alma espiritual.
 Também aderiu à contestação da opressão colonialista inglesa, embora em vez de uma revolução preferisse uma maturação educativa e uma pressão consciencial, opondo-se a um certo exagero no nacionalismo hindu. Nas conversas com Gandhi confessou o seu receio que a divisão da Índia entre muçulmanos e hindus acontecesse, o que infelizmente se veio a concretizar e de um modo tão trágico.
 Viajou por todo mundo bastante (desde a América do Sul ao Irão e ao Japão) e dialogou com grandes pensadores e políticos, o que não foi apreciado por toda a gente. Em relação à tradição hindu também contestou a intocabilidade dos párias, e a renúncia à Natureza no clássico caminho espiritual (sadhana), defendendo que Deus «está junto do lavrador que lavra a terra dura, e à beira do caminho onde o trabalhador parte as pedras, está junto deles ao sol e à chuva; a sua túnica está manchada de poeira».
Pintura de Rabindranath Tagore

        Com a qualidade e o sucesso das suas obras, em especial a poética traduzida para inglês por si próprio em 1912,  Gitanjali, que foi muito apreciada e elogiada, e depois prefaciada por W. B. Yeats, recebe o Prémio Nobel da Literatura em 1913 e mesmo uma condecoração real inglesa. Mas em 1919, após uma mortandade da opressão inglesa no Punjab, devolveu-a. Desenvolverá também os seus dotes musicais, escrevendo muitas letras e músicas, vindo duas delas a tornarem-se os hinos da Índia e do Bangladesh. E já com bastante idade, aos setenta, começará a pintar deixando-nos cerca de 3.000 desenhos e pinturas. E será até 1941, quando morre levado para a casa ancestral em Calcutá,  reconhecidamente um apóstolo da literatura, da beleza, da cultura. O seu enterro e cremação será vivido intensamente por milhares de seres. Defenderá sempre a «Índia livre; mas livre para servir e preencher a missão que lhe cabe na história da Humanidade». 

Amigos que se respeitavam, embora com algumas discordâncias, antes de morrer Tagore pediu a Gandhi que Shantiniketan fosse protegida, e assim foi. Ainda hoje o seu arvoredo, almas e aura nos inspiram ou abençoam. E por lá passei eu.
Em Portugal e Índia Portuguesa, General José Ferreira Martins, E. Tudela de Castro, Augusto Casimiro, Mariano Saldanha, Adeodato Barreto (que se correspondeu com ele, como descrevemos noutra efeméride deste 7 de Maio, mas em 1928, e que anexamos no fim deste texto), Bento Jesus Caraça, Telo de Mascarenhas, António Figueirinhas, Cecília Meireles, Lúcio de Miranda, Santana Rodrigues, Leniz de Castro Norton de Matos e Sylvina de Troya Gomes admiraram-no e escreveram sobre ele ou traduziram-no. 
A sua Universidade Vishva Bharati, a Índia Universal, de ensino livre e ao ar livre continua a funcionar, com uma grande livraria e algumas escolas, mas certamente já sem o fulgor da sua época. Visitei-a em 1995 e dialoguei com o seu director, mas ficarão para outra vez os apontamentos de tal encontro. Setenta anos antes, em 1925, com Tagore vivo, E. Tudella de Castro, publicava a sua obra Shankinketan (O Asilo da Paz) na qual escrevia entusiasmado: «Rabindranath Tagore, figura excelsa de sábio e de educador, é o Poeta do Oriente que, com o seu esforço individual, lançou mais uma pedra básica para o monumento a erigir à Comunhão Universal, foi ele que, por seu turno, revelou ao Ocidente duma forma completamente privada, eco mântrico dos Upanishads - voz melodiosa e meiga dos filhos do Ganges. O seu apelo para a criação duma Universidade Internacional, onde todas as mentalidades se possam envolver num amoroso amplexo, num abraço fraternal, teve o magismo de arrebatar toda uma culta elite mundial.
Essa Universidade - segundo o seu pensar - é destinado àqueles que querem trabalhar juntos em prol da Verdade; àqueles que querem herdar da herança comum; àqueles que chegarem a compreender que os artistas do Universo criaram formas de beleza, que os homens da ciência descobriram segredos, que os filósofos resolveram problemas, que os santos viveram segundo a sua fé, não unicamente para a glória da raça a que pertenceram, mas para a prosperidade da humanidade inteira.» Aspirações e palavras ardentes, de Tudella de Castro, algo queimadas nos nossos tempos tão violentados pelo imperialismo americano e seus coligados, mas sempre renascendo em seres de boa vontade...
O seu dia de aniversário continua a ser celebrado em todo o mundo. São muitos os institutos, as obras, as revistas, os filmes e as músicas ligados a ele... 
Como portador e transmissor do Santo Graal da Paz, da Beleza, do Amor, da Harmonia e do Espírito, Rabindranath Tagore continua vivo... 
                                                    
 Rabindranath Tagore,   em Stray Birds, Aves Vadias, dada à luz em 1916, oferece-nos um ramalhete de frases poéticas e espirituais valiosas das quais escolhi algumas e traduzi da edição inglesa antiga. E entre chavetas, a seguir às traduções, vão paráfrases ou comentários, ou seja, como é que eu parafraseei o seu ensinamento poético-espiritual... num ramalhete das frases poéticas, traduzidas por mim.  Vou autonomizar esta tradução parafraseada num artigo do  Blogger, ficando apenas aqui as iniciais...
  
3. O mundo tira a sua máscara de vastidão para o seu amante. Torna-se pequeno como uma canção, como um beijo do Eterno. 
 [Ama mais a Natureza, diminui o teu ego e ela envolver-te-á amorosamente.]
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6. Se derramas lágrimas então perdes o sol, e perdes também as estrelas 
 [Luta para vencer as tristezas, desilusões e medos, e para que o sol do Divino Amor chegue até ti e irradie através de ti].
***
18. O que tu és não vês, o que vês é a tua sombra.
[Desconhecemos muito ainda a nossa dimensão espiritual].
***
25. O ser humano é uma criança recém-nascida, o seu poder é o poder crescer.
[Não te satisfaças, nem te limites, e aspira sempre a desabrochares mais.]
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28. Ó Beleza, encontra-te a ti própria no Amor, não no espelho lisonjeador.
[Sê mais activo e irradiante de Amor e a tua beleza natural e verdadeira brilhará]
***
35. A ave deseja ser uma nuvem. A nuvem deseja ser uma ave.  
[Aceita melhor a forma de consciência e de vida em que estás e com ela participa no grande jogo cósmico (lila)]
***
38. Mulher, quando te moves no serviço da casa os teus membros cantam como um regato montanhoso entre as suas pedras.
[Que nas tuas lides domésticas não te deixes prender pela rotina ou a frustração mas encontra criatividade, habilidade e fluidez alegre]
***
41. As árvores, como as aspirações da terra, estão em bicos de pé para espreitar o céu.
[Eleva-te em aspirações e realizações espirituais, universais, divinas, comungando com o céu da Unidade.]
***
43. O peixe na água está silencioso, o animal na terra é barulhento, o pássaro no ar está cantar. Mas o ser humano tem em si a capacidade do silêncio do mar, o barulho da terra e a música do ar.
[O ser humano tanto pode degradar-se como elevar-se a um epítome da natureza inteira.]
***
46. God finds himself by creating. A Divindade descobre-se ao criar, ou por criar.
[Sê um criador, exerce o poder divino de uma ou outra forma, participa na Criação historicamente, dharmicamente]
***
51. O teu ídolo é destroçado em pó para provar que o pó de Deus é maior que o teu ídolo.
[Não cries ídolos terrenos, a natureza imperfeita ou perecível virá ao de cima. Valoriza e ama mais Divindade]
                           
Alguma da bibliografia portuguesa, além da já citada, de Rabindranath Tagore: 
        Casimiro, Augusto. Poesia Rabindranath Tagore (o músico e o poeta). Lisboa, Seara Nova, 1939,
Casimiro, Augusto. Poesias de Tagore. Introdução, Selecção e Tradução. Lisboa, Editorial Confluência, 1942.
Castro, E. Tudella de. Shantiniketan (O Asilo de Paz). Lisboa, 1925. Conferência realizada na Sociedade Teosófica em 11 de Maio de 1923. 
Barreto, Adeodato. Civilização Hindu. Lisboa, Seara Nova, 1935.
Mascarenhas, Telo de. Rabindranath Tagore e a sua mensagem espiritual. Porto, Edições do Oriente, 1943. 
E da autoria de Rabindranath Tagore: 
O Jardineiro d'Amor. Tradução António Figueirinhas. Porto, Figueirinhas, 1925. 2ª ed. 
        As Quatro Vozes. Tradução de Telo de Mascarenhas. Lisboa, Inquérito, 1942.
        A Casa e o Mundo. Tradução de Telo de Mascarenhas. Lisboa, Editorial Inquérito, 1940. 
        Naufrágio. Tradução de Telo de Mascarenhas. Lisboa, Editorial Inquérito, 1942. 
        A Chave do Enigma e outros contos. Trad. de Telo de Mascarenhas. Lisboa, Inquérito, 1943. 
         A Voz da Mãe dava sentido às Estrelas.     Lisboa, Assírio & Alvim, 2017. Antologia de três obras, uma das quais completa, a Lua Crescente.
*** 
Anexo acerca de Adeodato Barreto, também de comemoração Tagoreana no dia  7 de Maio,  extraído  do blog: http://pedroteixeiradamota.blogspot.pt/2017/04/maio-e-suas-efemerides-do-encontro-do.html:  
Sai neste dia 7 de Maio em 1928 o 1º número do jornal Índia Nova, o grande sonho de Adeodato Barreto (natural de Margão, 1905-1937), em Coimbra (onde terminava as suas licenciaturas em Histórico-Filosóficas e Direito), jornal que dirigirá com José Teles e Teles de Mascarenhas.  Inclui uma carta de Rabindranath Tagore, de apoio a outro projecto da ardente e abnegada alma luso-goesa: «É para mim um motivo de satisfação profunda o saber que procurais estabelecer um centro de Cultura Indiana na Universidade com o fim de tornar mais conhecida e devidamente compreendida do povo português a história e civilização da Índia... Estou plenamente de acordo com os fins do Instituto Indiano e dou-lhe entusiasticamente o meu sincero e caloroso apoio». Foram publicados seis números do jornal, entre 1928 e 1929 e foi criado o Instituto Indiano, dentro da Universidade de Coimbra, apoiado por Joaquim de Carvalho e  Mendes dos Remédios, o qual organizou algumas conferências, bem como uma publicação nas edições Swatwa, impressa na Figueira da Foz. Nos anos vinte e trinta do séc. XX, Adeodato Barreto foi provavelmente nesta época a voz mais ardente da civilização Indiana em Portugal, colaborando em vários jornais e revistas. Rodrigues Júnior, na sua descrição de uma viagem à Índia Portuguesa em 1961 e publicada em Lourenço Marques, Terra Nossa na Costa do Malabar, consagra-lhe um capítulo assim iniciado:«Os nossos primeiros contactos com as coisas espirituais da Índia, fizeram-se através da [revista] Seara Nova, lendo e meditando estudos ali publicados pelo então jovem escritor Adeodato Barreto. Civilização Hindu, era o título desse estudo que definiu não apenas o homem nativo da Índia, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, amando a sua terra, mesmo longe dela, com o calor ardente da sua alma(...)» 
 
Um dos mestres da religião universal do Espírito e do Amor