Antero de Quental e nós na mão de
Deus.
Na
mão de Deus
À Exm.ª Sr.ª D. Vitória de O. M.
«Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.
Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!»
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A
escolha arbitrária de Joaquim Oliveira Martins de finalizar a edição dos Sonetos, da qual foi o organizador e prefaciador, com um soneto que não é dos finais, antes escrito bastante antes, teve um
intuito provavelmente moralizador e talvez mesmo catolicizante,
fazendo terminar, aparentemente, a bem ou na entrega a Deus o
percurso filosófico, poético e anímico de Antero de Quental, manifestado em parte no livro dos Sonetos, o qual foi
mesmo dividido e ordenado cronologicamente.
Neste poema, profundo e complexo, certamente algo
autobiogáfico, vemos o autor a depor os seus movimentos anímicos
antigos, considerados agora como infantis, ilusivos, passionais e a
entregar-se definitivamente a Deus, sob a forma do coração a quem
"ordena" ou sugere que vá dormir na mão direita, a
benéfica ou misericordiosa deDeus, numa simbologia tradicional de uma visão humana ou antropomórfica da Divindade.
Há
contudo no soneto algumas vozes que parecem algo passivas e
derrotistas. Por exemplo, essa recomendação para a alma adormecer e
dormir não parece muito de Antero, um ser com uma aspiração enorme
muito forte da Verdade e do seu dinamismo perene e que o marcou
sempre, provavelmente mesmo ou muito na hora insatisfeita em que se
suicidou.
Talvez
a possamos compreender melhor o soneto se virmos Antero a dizer: «eu
não sou este coração nem o ser que se iludiu com ele; antes sou o
ser espiritual que diz ao coração, algo desiludido dos palácios
da ilusão, algo cansado ou trôpego da caminhada agreste à mera luz
da fé e da razão: «dorme em Deus, descansa». E certamente apenas
por algum tempos, a fim de se recompor, e não numa ideia de descanso
eterno a que este poema remete pela associação da terminologia e
visão católica da morte e do além: «Descansa em paz, adormecei no Senhor».
Realcemos no começo, a expressão de passado empregada:
"descansou". Se no fim do soneto está mais um presente
imperativo: "dorme" é dito ao coração, no princípio há
um passado, que nos abre para a ideia da vivência árdua da vida
interior que Antero fez e que o obrigou a descer das grandes
esperanças ou ilusões ,das quais nomeia o Ideal e a Paixão.
Se
a palavra ideal está perfeitamente de acordo com a filosofia e
o ambiente cultural e revolucionário da época, e nela ressoam
muitos escritores e filósofos com os quais dialogou nas suas leituras
e conversas com os amigos (embora se tenha encontrado pesoalmente, anónima e
humildemente com Jules Michelet, em Paris), já a Paixão é menos esperada.
Eu
pensaria na palavra e conceito, sentimento e realidade do Amor, mas
Antero preferiu por certas razões escolher a Paixão e não vamos
pensar que as escolhas foram apenas por questões de rimas, ainda que
possam em certos casos terem sido os sinónimos encontrados mais
próximos. O Amor intenso, talvez absolutizante, divinizante, qual
o por Beatriz de Dante, e então Antero se inseriria nos Fiéis do Amor. Mas
das paixões, sobretudo amorosas, de Antero ficaram apenas zonas
esbatidas, íntimas quase angélicas juvenis...
Neste
soneto que encerra a obra prima de Antero, escolha do seu grande
amigo Oliveira Martins, e a que Antero aquiesceu, e seria bem
interessante sabermos melhor do diálogo parturiense, deparamo-nos
com as duas colunas do Palácio da Ilusão, na tradição Indiana
denominada Maya, e que é tanto o poder dinâmico da criação
de formas e da manifestação da Divindade, mais tarde cultuada como
a Shakti, e que é também a energia interna de cada um de
nós, pelos shaktas e tântricos, e que também poderia ser
chamado segundo a tradição Ocidental o Templo da Divindade, com as
suas duas colunas, a do Ideal do intelecto, razão, mente e a da Paixão e amor do
coração, o masculino e feminino que temos de equilibrar ou
complementar dentro e fora de nós para se realizar o milagre da
Unidade.
Antero
desceu dos grandes sonhos juvenis revolucionários filosóficos e
passionais afectivos, e reconhece que deve libertar-se do que são
ainda conceptualizações e formas transitórias e almeja o Divino,
ao qual acaba por se entregar por fim como que numa fé de criança que vai levada
pela mão da mãe na jornada tão misteriosa ou complexa da vida
cósmica.
É
numa posição de humildade, de ser como húmus da terra, que Antero
se confessa perante o mistério do Universo, entregando o seu coração
nas mãos da Divindade para que nela repouse.
Diria
que a minha discordância maior quanto às palavras e estados
psíquicos que se evolam deste soneto, como já assinalei de certo
modo, está no "dormir" e sobretudo no final "eternamente",
que sabe um pouco a campa romântica do séc. XIX mas que pode ser
redimida se consideramos que o dormir tem a sua utilização
figurada ou simbólica no sentido de se estar em íntima e confiante
paz, repouso e entrega, algo que certamente desejaremos tanto para
Antero como para todos nós, e não só para depois da morte mas no
aqui e agora, de ser a Hora, de nos ligarmos mais confiantemente à
Divindade.
Ou
seja, que o nosso coração se ligue, entregue ou abra a Deus e que as suas
agitações e ilusões estejam como suspensas ou adormecidas e que
nele vibre sobretudo a Luz e o Amor do Espírito e da Divindade,
mistério dos mistérios, que as crianças por vezes têm bem vivo e
às mães transmitindo no aperto de mão confiante, mãos dadas, em Roma o junctio dextrororum, que as impulsiona
reciprocamente no Caminho.
Estamos na mão de Deus, ou de mão dada com Ele, quando vivemos bem,
bela e verdadeiramente e confiamos na Providência divina e nos seus
mensageiros e guias para avançarmos no verdadeiro caminho da Vida, rumo a uma melhor ligação íntima com a Divindade.
Que no nosso íntimo, e no de Antero de Quental, a Divindade arda e brilhe mais.... Aum...