sábado, 20 de fevereiro de 2016

Antero de Quental. O Inconsciente. Soneto.


José Régio, notável poeta e escritor, da geração da revista Presença, seleccionou para a editora Artis, em 1966, trinta e um sonetos de Antero, pedindo ainda a quatro amigos artistas que ilustrassem um à escolha, considerando-os como os mais belos, tal como outras almas já tinham realizado, embora indigitando outros  sonetos. Não está ainda contabilizado, seja nos registos de selecções e antologias, seja na expressão escrita e testemunhal dos preferidos e menos ainda no interior dos seres que os leram, gostaram e acolheram, quais foram os melhores sonetos.
Talvez nestes nossos dias se deva fazer um novo inquérito ou uma nova selecção, mas para já aceitemos a escolha de José Régio e, seleccionando um, dos ilustrados, O Inconsciente, comentêmo-lo ao de leve e na intenção de maior luz Divina em Antero e em nós...


Um poema de certo modo trágico pois Antero de Quental identifica a sombra ou fantasma, guardião do umbral ou inconsciente que vê dentro de si, e que deve ser interrogado e vencido, como sendo Deus, quando é apenas a sombra da Divindade, provinda do Deus do Antigo Testamento e que fica como fantasma em quem não  invoca,  medita,  conhece e ama a verdadeira Divindade.
Dessa falta de trabalho de ligação superior com a Divindade e portanto do seu estado gnóstico mais limitado, obscurecido e ignorante resulta a sua projecção ou criação poética de um Deus fantasma que nem sabe quem é ou como se chama...
Certamente que há que contextualizar seja como simples poesia seja como uma reacção natural ao Deus do Antigo Testamento que embora se chamando "Eu sou aquele que é", IHVH, era tão violento e opressivo e que de certo modo Antero torna um espectro semi-ignorante projectado pelos seres humanos.
Será que ele quis reduzir esse Deus a um mero fantasma ou espectro familiar, ou para ele esse Deus da religião em que fora educado era já apenas um fantasma, desconhecendo-se a si próprio, quase que como tendo sido criado pela imaginação humana mitificante, ou como ele e "Deus" caracterizam, vã?
De realçar, algo menos coerentemente com a sua constante valorização da Voz da Consciência, Antero começar aparentemente de modo socrático, pois de certo modo apresenta o espectro na linha do daimon ou génio interior de Sócrates, que anda consigo e que ele tanto receia como ama, e acabar no fim por o desvendar como um fantasma, um ser não auto-conhecedor de si mesmo...
Estará Antero a reflectir algumas posições filosóficas então em moda e que caracterizavam o Absoluto ou o Divino como Inconsciente, ou está antes a reconhecer que uma certa forma de consciência moral, ou voz da Consciência, derivada da religião católica e do Deus Jehova e seus mandamentos, pode ser ilusória e incorrecta.
É bem natural, e provavelmente já haverá algum comentário nesse sentido de alguns anterianos, mas talvez o mais importante a termos em conta desta incursão de Antero no Divino e até no daimon, ou nosso génio-anjo, é a necessidade de tentarmos despertar mais o nosso espírito enquanto centelha divina para uma auto-consciência de si mesmo mais forte, e em vida terrena, para que após a morte não sejamos apenas fantasmas.
Quanto à Divindade, esqueçamos os ensinamentos exteriores de tantas Escrituras e sintamo-La e invoquemo-La mais dentro de nós e numa vida esperançosa e generosa e de trabalho, amor e sabedoria...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Antero de Quental. Hino à Razão. Soneto.

Os Sonetos completos de Antero de Quental, prefaciados por Oliveira Martins, saíram numa terceira edição no ano de 1918, no Porto, na Companhia Portuguesa Editora, e tendo há poucas horas adquirido um exemplar na livraria alfarrabista do Bernardo Trindade, à rua do Alecrim, partilho o exemplar pois não é vulgar nesta edição encadernada em "pano de chita", que não  vem dos místicos e corajosos Shiias ou Shitas da Pérsia e do Iraque (sobretudo) mas do sânscrito chitra, tecido de algodão, e que em Portugal foi bastante estampado na zona de Alcobaça.

 Alcobaça, a terra natal do pai do Bernardo Trindade, Tarcísio, poeta e sábio bibliófilo durante décadas na sua mrífica livraria no nº 44 da rua do Alecrim mas também munícipe ilustre e filantropo de Alcobaça e que, embora já nos mundo subtis, tem no seu filho Bernardo um digno continuador, tal como nos irmãos e primos também dedicados às artes, antiguidades e livros, embora agora ameaçados pela invasão turística e a venda retalho de Portugal
Este exemplar tem ainda a particularidade de apresentar várias assinaturas, carimbos e ex-libris de posse de antigos usufrutuários que se abeiraram do Logos, o mundo das Ideias, servido por Antero neste belo cálice, que ostenta agora também, embora a lápis, a pertença ou se quisermos a ligação desta hora: "Antero de Quental, escritor." 
Ora o ex-libris,  criado pelo e para o último dono Carlos J. Vieira, é bastante simbólico, e nele mencionarei apenas o oceano, a montanha que se ergue para o Sol e, no mais alto, a vieira ou concha das bênçãos divinas para os peregrinos da Verdade, certamente bem apropriada para um livro de Antero.
Aníbal Antunes Graça terá sido o seu 2º possuidor, o que fez a encadernação que ostenta ainda o seu carimbo, tendo o senão de ter riscado no frontispício o nome do anterior possuidor, que fica assim privado da imortalização neste texto e na internet...






Apresentamos, depois destes pormenores bibliófilos, um soneto, dos mais belos e luminosos, um daqueles em que Antero aspira mais ao alto, à luz da razão e confia nela: o Hino à Razão.

Posto como sendo o último da série dos sonetos escritos entre 1864 a 1874 deveremos destacar e invocar em nós o que Antero conjura ou apura em si: alma livre e a nada submissa senão à Razão, certamente um ideal pelo qual devemos lutar, pois ora pelos instintos, emoções ou pensamentos incorrectos, ora pelas manipulações exteriores, afastamo-nos do que seria o "Verdadeiro", o Logos, e utilizamos esta palavra para não usarmos "Racional" ou "Lógico", hoje no séc. XXI bastante mais diminuídas das suas dimensões de suficiência para a vida ou ainda de importância na psique humana. 
Com efeito o Logos dos gregos, que era discurso, palavra e razão mais do que reduzido ao racional cerebral  deve ser visto, sentido e trabalhado como a visão e dimensão universal,  como a unificadora dos contrários,  e portanto supraracional e supramental. Aliás a isto está intimamente ligado o que Antero entendeu por Razão,  e que nós hoje poderemos tentar compreender melhor com tanta abertura seja às cosmovisões orientais como aos clássicos gregos e sucessivos gnósticos e iniciados, que realizaram de uma modo ou outro tal dimensão universal e espiritual da Razão ou Logos.
Para tal tarefa de assunção maior do Logos, e portanto de uma vivência mais profunda e harmoniosa na vida, já Antero de Quental carreou duas  colunas suas irmãs, o Amor e a Justiça.
Esta Razão é então uma com o Amor e a Justiça, é Divina, e é para ela que Antero ergue a voz do coração, ou seja a sua prece, mostrando-nos assim que a oração deve brotar do íntimo do peito, do coração, da nossa essência amorosa, consciencial, espiritual...
O que faz o nosso coração e que o tinge e o caracteriza? 
O que deseja, apetece, aspira, ama, sonha, quer?
Antero fez a sua escolha neste poema, não por rima mas por opção determinada e consciente, cremos...
Intui ou acredita  que a Razão Universal tudo penetra, o tal Logos Divino omnipresente, e é mãe dos que robustamente lutam por ela, aspiram a ela, meditam nela.

Oiçamos então Antero neste seu poema filosófico, fortificando-nos na nossa consagração ao Logos, à Verdade, isto é, à palavra e pensamento, sentimento e acto justos e harmoniosos, os quais, segundo Antero e tanto a Filosofia de Kant e Hegel como a Tradição Perene, originam ou permitem que a virtude prevaleça sobre o egoísmo e o heroísmo floresça de modo que tanto a Presença espiritual e divina como a Fraternidade venham mais ao de cima...

                                          HINO À RAZÃO       
        
        "Razão, irmã do Amor e da Justiça,
       Mais uma vez escuta a minha prece,
       É a voz dum coração que te apetece,
       Duma alma livre, só a ti submissa.


       Por ti é que a poeira movediça
       De astros e sóis e mundos permanece;
       E é por ti que a virtude prevalece,
       E a flor do heroísmo medra e viça.


       Por ti, na arena trágica, as nações
       Buscam a liberdade, entre clarões;
       E os que olham o futuro e cismam, mudos,


       Por ti, podem sofrer e não se abatem,
       Mãe de filhos robustos, que combatem
       Tendo o teu nome escrito em seus escudos!"

Pano de chita ou chitra, que também podia ser do Japão, flor de cerejeira Sakura, e onde pode palpitar mais visivelmente a comunhão com Antero e a  Divindade, sentida tanto no nosso coração, voz e prece como também na omnipresença de nos regermos cada vez mais pela Razão Cósmica e a aspiração à Felicidade Divina e não por instintos ou medos, frustrações ou desejos e assim, lúcidos, nos robustecermos no florescer e frutificar em Amor, Justiça e Verdade...

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Leonor Beltrán expõe pela 1ª vez, na sala das Conferências do Casino

Leonor Beltrán, pedagoga e coreógrafa, inaugurou no dia 13 de Fevereiro (de 2016) a sua 1ª exposição artística, com 12 desenhos a tinta da china, de grande trabalho e qualidade.
Poderá vê-los ou interagir com eles durante mais três semanas na galeria da Livraria Sá Costa, à Rua Garrett, e estão numa sala muito histórica de Lisboa, pois neste edifício e talvez andar se realizaram em 1871 duas das famosas conferências do Casino Lisbonense, a de Eça de Queirós, A Literatura Nova. - O Realismo como nova expressão de arte e a famosíssima e tão reimpressa e estudada de Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares.
Neste manifesto contra as forças mais conservadoras ou opressivas, sempre actual, Antero clama para que se desenvolva «a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano, (isto é, a fusão do divino e do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da Humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento sempre inspirado».
Estiveram presentes algumas pessoas que de algum modo ou outro são lídimas continuadoras de tal luta pela Verdade, Liberdade, Beleza, Amor e Justiça e os diálogos aconteceram, à boa maneira de Agostinho da Silva («A palavra conversa tem a mesma origem etimológica que converter, o que está implicado quando um homem conversa com outro, é uma conversão de qualquer deles ou dos dois ao mesmo tempo – é converter-se aqui, converter-se a qualquer coisa que entenda os dois como as duas partes, as metades de uma certa unidade. Quando conversamos com uma pessoa, no fim de contas queremos converter-nos ou converter a nossa dualidade numa unidade superior»), Agostinho da Silva que neste dia fazia 110 anos.
Seguem-se algumas fotografias, e faltam as de muitas pessoas, tais como as do João Rebolo,  Carmo Póvoa, Vasco Croft, Susana Borges, sendo já do final da exposição...
A Leonor, pedagoga e bailairina, coreógrafa e professora e, desde agora, pintora..



A Paula Oliveira, soprano e de jazz, mais uma sua amiga, e com quem tivemos um bom diálogo sobre a Palavra, Verbo ou Lira de Orpheu...
Juventude que aspira à beleza, ao bem e ao conhecimento...
O vento do Espírito Santo soprando na artista...

Últimos momentos: A Leonor, Mário Azevedo, Joana Consiglieri, Ana Calém, a Filomena Ricciardi, o Zé Sousa Machado. Faltou o Vasco Croft, vindo de Ponte Lima..

Loco tempore... Novas exposições esperam-se...

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Agostinho da Silva e Tolstoi, nos 110 anos de nascimento do 1º

    Em 1941, Agostinho da Silva, na sua meritória tarefa de pedagogo, de educador popular com qualidade, dava à luz na sua vasta colecção Antologia, Introdução aos Grandes Autores, um número (como habitualmente de 24 páginas) dedicado a Tolstoi, com uma pequena biografia e um belo conto, certamente traduzido do francês, A Terra de que precisa um Homem.

Hoje, 13 de Fevereiro de 2016 quando Agostinho da Silva "faz" 110 anos, eis uma pequena homenagem as dois espirituais e pensadores, sábios no bom sentido da palavra e activistas éticos exemplares para os nossos dias de tanta subtil manipulação e violenta opressão...

Realcemos apenas na curta biografia que Agostinho traça de Tolstoi os valores que atribui aos seus pais de "vida pura, amor ao próximo e actividade social justa ou frutuosa", tão característicos da alma russa, bem como a forte aspiração ao Amor universal que Tolstoi teria recebido de Jean Jacques Rousseau; e como em si mesmo se debateu numa luta grande contra os seus aspectos instintivos, egoístas e violentos, a qual durará toda a sua vida, dada a sua grande vitalidade, e na qual soube com arte na sua obra literária e religiosa genial mostrar que apesar dos piores defeitos os seres tinham sempre um potencial de transformação, de desenvolvimento, de amor, gerador de beleza, justiça e harmonia, valores tão necessários e valiosos então como agora.
Como sabemos,  Tolstoi tornou-se com o tempo cada vez mais não-violento, austero e desprendido da sociedade, irradiando para todo o mundo a sua espiritualidade simples e fraterna, atraindo a si, na sua Isnaia Poliana, por correspondência ou visitas (tal a do nosso sábio vegetariano Jaime Magalhães Lima, que dele recebeu a missão de trabalhar com as mãos o que se tornará a modelar quinta em Vagos, Aveiro), e Agostinho da Silva, que também viveu algo isso, destacará essa sua lúcida mente e empática alma capaz de ver os erros e dogmatismos dos outros, transmitindo com eloquência, coerência e paixão o seu ideal de sociedades mais abertas à fraternidade, ao amor, à vida harmoniosa simples...
Os paralelos entre Lev Tolstoi e Agostinho da Silva estão ainda parte por fazer-se...
Agostinho da Silva com um gorro russo...
Leiamos então a visão que Agostinho da Silva tinha de Tolstoi, ou a que expôs nesse prefácio em 1941, jovem de 35 anos:



Agostinho da Silva, 110 anos a 13/2/2016. Invocação.

                              
Faz hoje 13 de Fevereiro de 2016 110 anos que nasceu na Terra, em Portugal, em Barca de Alva, junto ao rio Douro e à fronteira espanhola, Agostinho da Silva, grande amigo e pedagogo dialogante e luminoso. Será homenageado na Faculdade de Letras de Lisboa num Colóquio nos dias 16 e 17, no qual participarei a 17, pelas 11:00, com uma oratio sobre Agostinho da Silva e a Tradição Espiritual Portuguesa.
                                                       
Sorrindo-lhe, relembrando-me com amor das tantas vezes que nos encontramos e dialogámos, eis três quadrazinhas muita suas para meditarmos ou decorarmos (isto é, sabermos de cor, de coração e com elas entrarmos luminosamente na outra dimensão) e, depois, um pensamento seu sempre actual e para que aconteçam mais uniões e convergências, entre pessoas e grupos, tão necessárias à grande Alma Portuguesa, a nós, ao Mundo...

Alma esculpes e não pedra
A cada gesto de amor
A ti próprio te fazendo
Como todo o criador.

Se não sabes o caminho
E a sorte nenhum prefere
Toma então pelo mais duro
É esse o que Deus te quer.

Naquela ilha dos Amores
Que sonhou Camões outrora
Só entra e fica liberto
Quem lá viva desde agora.


Como sabemos Agostinho da Silva, e luminoso esteja ele e inspirando os seus amigos, além de um pensador, escritor e pedagogo, foi sobretudo um dialogante, um conversador, sabendo ouvir e falar ou aconselhar, sem premeditação mas espontaneamente, numa linha sempre de unir pessoas, aproximar culturas, reforçar laços de solidariedade para desabrochamentos luminosos. E alguma teorização fez dessa sua particular veia poética dialogante, na qual subitamente se podia começar a navegar no mar alto da unidade dos contrários, na criatividade pura, e à qual, todos os que mais dialogavam com ele, tocava e inspirava:
«A palavra conversa tem a mesma origem etimológica que converter, o que está implicado quando um homem conversa com outro, é uma conversão de qualquer deles ou dos dois ao mesmo tempo – é converter-se aqui, converter-se a qualquer coisa que entenda os dois como as duas partes, as metades de uma certa unidade. Quando conversamos com uma pessoa, no fim de contas queremos converter-nos ou converter a nossa dualidade numa unidade superior».

Este ensinamento, provindo de uma mestre da conversa dialogante, deve ser realmente aprofundado por nós dentro das nossas relações e na tradição cultural e espiritual portuguesa, da qual ele fazia parte, embora já muito aberto à unidade superior universal, matriz ou Campo Unificado de consciência que nos espreita, sobrevoa e recompensa, caso aspiremos a ela e a mereçamos.

Podemos dizer que se convergirmos mesmo para a Verdade e em Amor, então essa Unidade superior supra-racional e temporal, abre-se-nos, manifesta-se e temos intuições valiosas sobre os assuntos em questão.

Que Unidade é esta, que já a Filosofia Perene ou Prisca Teologia falava, como Anima Mundi, Alma do Mundo?
É uma unidade que tem vários níveis, desde os cósmicos, solares e planetários aos humanos, onde, por exemplo, podemos realçar a lei do Amor: o amante torna-se o ser amado e a amada o amante.
Ou o que procura intensamente a Verdade e a ama, guinda o outro a tal vibração e então, aumentada, algo mais dela se poderá revelar, expandir, frutificar.
«Quando dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles», disse o mestre Jesus.
Isto é, quando duas pessoas ou três se reunirem, convergindo para a a busca inteligente do que será melhor, eu (verdade, unidade) revelar-me-ei na melhor compreensão ou solução a adoptar.
Ou seja, se vos reunirdes em meu Nome, ou na minha vibração de amor e verdade, então eu estarei presente, eu como a Sabedoria e Verdade subjacentes ao Cosmos, eu como mestre e inspirador possível dos que procuram, batem e aspiram, eu como o Espírito santo, eu como comunhão dos santos, ou dos que mesmo já partidos "bodhisatvicamente" agem pela Humanidade na Terra...
Unidade superior ainda à humana (incarnada e desincarnada), mas com ela contactando, teremos os Anjos nossos, que em tais momentos também se encontram, dialogam, inspiram...
Esta harmonia de seres e campos energéticos e psíquicos, que se fundem e intensificam, fazem desabrochar mais a Alma Mundi ou corpo místico e amoroso da Humanidade, iluminada e intensificada com tais momentos de maior irradiação benefica para todos, para o Cosmos...
Saibamos pois conversar convergentemente e abrindo-nos ao Espírito, de cada um de nós e do Todo, espírito da verdade e do Amor...
E, para terminar com o nosso Agostinho da Silva, eis uma última ideia força perene e optimista, nesta luta ainda forte contra o mundo violento e desequilibrado que alguns poderes tentam impor.
                                   
Diz-nos então Agostinho que «aos povos e pessoas da língua Portuguesa cumpriria uma missão», entre os quais particularmente o Brasil, onde Agostinho tanto desabrochou, que, embora comum a todos os povos, alguma relevância poderia ou poderá ter: «guiarem o mundo ao reconhecimento da sua verdadeira essência: a do espírito na matéria esplendendo», essencial verdade e meta do caminho, mas que sabemos só se vai fazendo individualmente e em pequenos grupos...
Pax, Lux, Amor.
                                  

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Poema "Iniciação" de Fernando Pessoa.

Iniciação, certamente um dos poemas mais mágicos, esotéricos e iniciáticos de Fernando Pessoa (1888-1935) e escrito nos últimos anos da sua vida, foi publicado pela primeira vez na revista coimbrã Presença, no nº 35 de Março-Maio de 1932, e eis a sua reprodução:


Pela sua difícil ou exigente interioridade iniciática e espiritual ainda não conseguiu ser lido e discernido condignamente pela gens pessoana, embora Rudolf G. Lind e Fernando de Moraes Gebra, por exemplo,  fizeram afluir uma boa luz sobre ele. 
Mas como há muita desinformação e manipulação quanto ao caminho Espiritual, nomeadamente em Fernando Pessoa, convém  tentarmos clarificar, na medida do possível, ou parcelarmente, tal processo, realização e vivência...
                               
A Morte, qual esfinge, sobre a Roda da vida, e a borboleta ou psique humana voltejante e sob o esquadro e compasso do grande Arquitecto do Universo, expressão tradicional do que se tem intuído de uma ordem divina, sincronizadora e inspiradora, e de um Ser Primordial, mais até do que um Demiurgo,  a quem nos devemos  religar, merecida, amorosa e gratamente. (Mosaico romano de Pompeia).

Meditemos e sintamos então o que se transmite nos versos, tentando, iniciaticamente, sairmos da identificação e apego ao corpo físico e à personalidade e, consciencializando-nos das vestes e capas "assombrosas" dos corpos subtis, daí passarmos, finalmente, à nudez simples da consciência do Ser em si mesmo, do Espírito de origem Divina, capaz então de comunicar ou ser instruído supra-terrenamente pelos Espíritos mais realizados, tal como o poema nos transmite, numa linguagem ascensional própria do ocultismo ou das ordens mágicas do começo do séc. XX que Fernando Pessoa estudara e recriava numa linha sua, com bastante incidência no corpo: 
                                                   INICIAÇÃO 

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
..........................................


O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.


Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.

Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa:
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.

Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.



Por fim, na funda caverna, 
Os Deuses despem-te mais. 
Teu corpo cessa, alma externa, 
Mas vês que são teus iguais.
.........................................

A sombra das tuas vestes 
Ficou entre nós na Sorte. 
Não estás morto, entre ciprestes. 
............................................
Néofito, não há morte. 

                                      
                          Ressurreição, no Tarot mais antigo, italiano, dos Visconti.
Embora um poema de ensaísmo iniciático, quer seja tenha sido talhado racionalmente ou escrito inspiradamente, ele tem bastante força e sabedoria, condensando uma vida de estudos ocultistas, nos quais a demanda iniciática foi uma presença importante ou fundamental, tendo sido dado talvez até já à luz do pressentimento que a morte ou desincarnação se aproximava.
Demanda na qual o entendimento dos símbolos e a sensibilidade a eles foi muito valorizada pois, por tais modos, os sentidos e caminhos ascensionais da vida se revelariam melhor; daí as suas múltiplas leituras ocultistas e simbolistas que a sua biblioteca espelha, hoje na Casa-Museu em Campo de Ourique,  e das quais assinalou em carta juvenil a Mário de Sá Carneiro, de 1915, como das mais importantes no impacto anímico-espiritual, a de Hargrave Jennings, The Rosicrucians, their Rites and Mysteries (de 1907), e as das obras de Teosofia que estava traduzir para a Editora A. M. Teixeira, leituras estas que depois foi aprofundando em várias  direcções, em relação às teosóficas opondo-se mesmo, as quais se depreendem ou reflectem dos seus textos, fragmentos e poemas mágicos, ocultistas, iniciáticos. 
No ano de 1915, em pleno período de euforia dos dois números da revista Orpheu,  experimentou alvoradas dos  sentidos supra-físicos, o que de certo modo constitui uma iniciação, ou um sinal dela, como escreveu ainda que cinco anos depois à sua namorada Ofélia Queiroz, para em parte justificar, exagerando ou não, o rompimento do namoro: «O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam». 
                                          
Ora neste poema escrito já em idade madura podemos ver a morte tanto  como uma morte literal como uma morte interior em vida,  em ambos os casos dentro um percurso iniciático, no qual os iniciadores de sucessivos planos - Anjos, Arcanjos e Deuses, ou seja, estes últimos as entidades ainda mais elevadas que os Arcanjos e às quais Fernando Pessoa se refere em alguns fragmentos acerca dos graus das Ordens Mágicas -  abrem o iniciando a limpezas ou reduções de conteúdos de consciência exteriorizante,  as quais culminam na entrada da gruta ou caverna, tanto telúrica como do íntimo Ser, onde se reconhece, verticalizado ou axializado entre os ciprestes, árvores de folha perene, como um espírito imortal e divino, e donde retorna iniciado, seja porque lhe dizem e o sente, seja porque o sente e o diz, ou nos diz: "Não há morte, Neófito!"... 
 
 Certamente que há outros aspectos subtis e simbólicos de estados conscienciais nas imagens e palavras empregadas por Fernando Pessoa, tais como a multicolorida e animada Estalagem do Assombro, ou ainda a nudez que corresponde ao silenciar de todo o pensamento e identificação externa, mas tal aprofundamento irá sendo realizado aqui progressivamente  ou mesmo noutro texto futuro...
A iniciação foi lida e estudada, concebida e intuída por Fernando Pessoa tantas vezes e por tantos modos (tendo tido mesmo  projectos de livros, dos quais há textos de duas ou mais páginas) que consideraremos agora apenas alguns aspectos, tal como o intensificar da capacidade de compreensão sentida do interior dos seres e coisas, ao que ele chama o lado simbólico ou espiritual da Vida, ou ainda o ser a iniciação como um sopro anímico-espiritual que é transmitido por símbolos, acontecimentos ou por alguém. 
No seu caso devemos mencionar  mais especificamente como seus relativos mestres ou iniciadores alguns dos seus familiares, como a tia Anica e, alegadamente em textos de escrita automática, o pretenso espírito do platonista de Cambridge  Henry More e, depois, presencialmente e mais fortemente o mago inglês Aleister Crowley,  com quem se encontra algumas vezes em 1930 e, por fim, subtil e espiritualmente,  o mestre Jesus Cristo. 
Iniciação que foi e é também, como ele escreve, um dissipar gradual de ilusões ou um despertar energético-consciencial e unificador e unitivo, que abre o ser às dimensões subtis e espirituais, suas, dos outros e do Universo.
Este processo gradual foi também classificado por Fernando Pessoa como uma alquimia espiritual e em alguns textos assinalou mesmo que tipos transmutações nos nossos metais interiores deviam acontecer, nomeadamente o Cobre do Egoísmo que devia passar a ser desinteressado e assim estar mais na Liberdade, a Prata da Vaidade que se deveria transmutar e aproximar-se da Igualdade entre os seres e, finalmente, o Ouro do Orgulho ultrapassado, sublimado, ao se aprender e ao realizar-se mais a Fraternidade, tal como Fernando Pessoa, contra a sua linha mais individualista e selectiva, consegue realizar e afirmar em alguns raros textos.
Neste sentido corre a purificação final do poema da Iniciação, quando os Deuses, ou seres mais elevados, o despem de  subjectividades e especulações e fica nu ou exposto ao núcleo ígneo e solar do espírito, algo que Fernando Pessoa contudo não vivenciou tanto como desejaria em vida. Mas reconhecer-se-á tanto no poema como em vida, ainda assim, como irmão desses elevados seres, a quem chamou num poema de 1934 "Superiores incógnitos", por mim lido transcrito na obra Poesia Profética, Mágica e Espiritual, em 1989.
No sentido iniciático da alquimia áurea escreveu ainda: «A Grande Obra é o elaborar em nós, no sentido estrito e pessoal, a transmutação do chumbo do nosso ser perecível no ouro do nosso ser que não perece.» 
Este poema dirige-se então e orienta-nos para a entrada profunda e libertadora em nós mesmos - espíritos supra-cerebrais - capazes de, chegada a hora da morte, atravessarmos o umbral ou abismo da extinção da consciência cerebral e entrarmos pelos planos energéticos, astrais e psíquicos,  estando identificados à centelha divina em nós e, quanto a mim, no corpo espiritual que conseguirmos talhar ou gerar em vida.... 
Na demanda de realização desta consciência superior interna convergem em Fernando Pessoa certas interrogações elevadas por ele feitas, que transcrevemos traduzindo do inglês: 
«Individualmente alma e corpo são um, mas a alma é mestre do corpo no sentido inferior, assim como o Cristo é mestre no sentido interior. Está o mestre separado contudo inseparado? Quando a morte ocorre a unidade dual torna-se uma unidade dupla? É este o significado da frase Grega, “morrer é ser iniciado"?» 
Refira-se que este "morrer é ser iniciado", que vinha da milenária Antologia Grega, fora também utilizado por Antero de Quental, como epígrafe inicial de um dos seus sonetos, donde Fernando Pessoa o deverá ter retirado, e por isso neste artigo inserimos então a imagem de um poema de Antero dessa luta entre Anteros, o Anjo do Amor correspondido e Thanatos. o Anjo da Morte, que tanto ele como Fernando Pessoa viveram, por vezes bordejando e cultivando abismos perigosos e incomensuráveis nas suas repercussões, e que o Fausto ou o Livro do Desassossego, a sua "produção doentia" como lhe chamava, muito contêm ou exalam...
                                                             
Antero de Quental, foi muito admirado-amado, e elogiado, por Fernando Pessoa, sobretudo em jovem, traduzindo até vários dos seus sonetos para inglês, mas mais tarde escreveu num apontamento que Antero sucumbira às provas iniciáticas da Ordem de Cristo, por ter tido relações maçónicas, num apontamento pouco claro e algo mistagógico, ou seja, imaginário, se bem que possamos pensar que Fernando Pessoa considerara maçónica a Ordem do Raio, que Antero de Quental estudante em Coimbra fundara com os irmãos Sampaio e dinamizara, quando tal ordem só mais tarde e já quando Antero não estava nela se tornou uma ordem maçónica. 
Claro que Fernando Pessoa literariamente considerou-o sempre a grande ponte, com Cesário Verde, para o modernismo do séc. XX.  Ora Antero, como todos sabemos, tem muitos sonetos ligados à morte que ele tanto cultuou, e afirma o "morrer é ser iniciado", mas não desenvolve esta viagem iniciática no além, e em graus ascendentes, como vemos nesta descrição de Fernando Pessoa, que certamente podemos pôr em causa na exactidão da imaginação esquemática dada por Fernando Pessoa, na qual põe em acção duas das tradicionais ordens celestiais, Anjos e Arcanjos e, depois, seus superiores, os Deuses, a participarem no processo iniciático, algo que deverá acontecer ainda em vida terrena, com a ajuda do Anjo da Guarda ou do Mestre, mas que de algum modo também ocorre com a morte, mas certamente em ambos os casos sem esta presença de tantas entidades ou seres espirituais. 

Quem deu outra interessante visão da morte iniciática foi o humanista do séc. XV Giovanni Pico della Mirandola, que considerava a primeira morte como a separação da alma do corpo e a segunda morte como o beijo e abraço da alma com Vénus ou o Amor Divino, algo que infelizmente nem Antero de Quental nem Fernando Pessoa conseguiram muito, embora Antero, na sua juventude, estudante e poeta do Mondego, tenha voado muito alto nas asas do Amor humano, platónico e não só, e no Amor divino à Verdade, ao Bem e ao Belo. Já quando Antero de Quental morreu, até onde ele subiu, libertando-se precoce ou voluntariamente da tumba (sema, como lhe chamavam os iniciados gregos órficos) do corpo (soma) e rumo à Mors-Amor libertadora, e quem o poderá ter ajudado, não é fácil intuir-se...
Outro aspecto que resulta da demanda pessoana da iniciação é inegavelmente a valorização da intuição pois, a iniciação, através do estudo e da sensibilidade simbólica, deveria resultar num desenvolvimento da compreensão e intuição do lado interno e divino dos seres e da coisas, dimensão que tanto nos inclui a nós  como aos outros e os  ambientes, pois para Fernando Pessoa também eles (ou mesmo paisagens) são dotados de alma, como por mais de uma vez o afirmou, numa certa intuição da unicidade da existência, a anima mundi dos antigos greco-romanos.
Neste entendimento, a iniciação é primacialmente uma gnose, um auto-conhecimento espiritual e libertador cultivado, realizado e transmitido, embora com diferentes níveis,  desde os tempos mais antigos em quase todos os povos, no Ocidente mais reconhecidamente  nos Mistérios Gregos (algo que Fernando Pessoa afirmou repetidas vezes, referindo a filiação neles dos gnósticos, dos templários e das ordens secretas), até aos nossos dias e assim, no seu testamento espiritual de 30 de Março de 1935, Fernando Pessoa afirma-se religiosamente Cristão Gnóstico e confessa-se iniciado  na tradição e ordem Templária. 
Neste sentido o seu Mestre principal (e tantos foram os textos e poemas em que referiu os Mestres e os Anjos, tal como demonstrei nas entradas respectivas no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenado por Fernando Cabral Martins) e o que terá mais invocado no fim da vida, e quem sabe à hora da morte, sempre misteriosa e sobre qual incide o seu último e humilde pensamento e texto conhecido: "I know not what tomorrow will bring", "Desconheço o que o amanhã trará", teria sido o mestre Jesus,  o Cristo, directa ou indirectamente...
                                
Muito provavelmente será a quem alude na carta autobiográfica a Adolfo Casais Monteiro, de 13-I-1935, talvez pensando em Antero de Quental, quando se descreveu a 14-V-1887 a Wilhelm Storck. Nessa carta, explicando o seu ocultismo, refere o Grande Arquitecto do Universo, mas que não acredita na comunicação directa com ele, mas sim com seres intermediários. Será noutros fragmentos e textos que Pessoa afirmará ser Jesus um laço ou o laço entre a Humanidade e a Divindade...
Ora no seu testamento auto-biográfico de 30-III-1935, oito meses antes de desencarnar, reafirmará isso: «Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.» 
Porque preferiu Ordem Templária de Portugal à designação de Ordem de Cristo de Portugal, com que por vezes se identificou ou epigrafou textos, é significativo embora ainda pouco esclarecido...
Quanto à capa ao ombro do poema não será a de um cavaleiro templário em iniciação, pois não diz ele que foi iniciado nos três graus menores da Ordem?
Certamente que este poema e, no fundo, a Iniciação em Fernando Pessoa, em nós e na História é uma demanda da jóia ou cálice precioso do Graal, da comunhão do Espírito...
Assim, que a leitura recitada ou de cor, ou meditada silenciosamente, do poema da Iniciação produza harmonizar e despertar interno anímico-espiritual e florescimentos bemfajezos, é o que todos desejamos ou aspiramos, ou seja,  que brilhe mais tanto a auto-consciência espiritual como o Dharma, missão e dever de cada um, no grande Campo unitário de consciência, energia e informação, tanto mais que planeta física e eticamente está tão necessitado de acolher e desenvolver mais a Luz e o Amor divinos... 
Pax, Lux, Amor! Vale!
                                                     
                           Do mundo do Espírito, pintura do mestre alemão Bô Yin Râ.