sábado, 7 de julho de 2018

"AMARE": O Amor Divino em Pedro e Inês. Exposição de Maria de Fátima Silva, em Alcobaça.

                         
O Amor de Inês e de Pedro, no século XIV, foi tão intenso, mas também tão trágico, que se tornou lendário, imortalizou-se, evoluiu para um mito sempre presente e fundador de maior consciência do valor do amor espontâneo, livre, pleno e que, apesar dos perigos mortais que frequentemente o ameaçam, se torna perene, imortal.
Um mito verídico e dinâmico, não baseado apenas em especulações e imaginações mas fundado na realidade, testemunhado na vida e ampliado ao longo dos séculos por todos aqueles, nacionais e estrangeiros, e foram muitos, que se deixaram comover, inspirar e tocar por tal sintonia, entrega e vivência de amor e paixão, acima das convencionalidades e pseudo-razões que se opõem à união livre dos seres que se atraem e ressoam, dedicam e amam.
Esta história amorosa, tornada legendária e perene pela literatura popular e erudita e a arte, continua a fecundar-nos e não podemos deixar de congratular-nos pelo seu arquetipismo operativo, já que, apesar do longo tempo decorrido de oito séculos, estes dois seres ainda estão tão vivos no imaginário e na alma dos portugueses que podem surgir a qualquer momento recriações da sua vida, amor e paixão.
 
 A Maria Fátima da Silva, muito dada à investigação e ao culto da memória histórica, mítica e espiritual dos locais, tendo recentemente realizado algumas exposições consagradas à Atlântida e ao Portugal megalítico, teve a varinha de condão de sentir na floresta imaginal portuguesa a necessidade de mais uma vez vir ao de cima este veio do amor que ultrapassa as razões sociais, os ditames convencionais e assume a sua chama de conflagração libertadora e unificadora, tão valiosa face à massificação consumista e superficializante que acinzenta ou oprime as pessoas nas sociedades modernas, pouco espaço ou valor dando ao amor, à poesia e à liberdade.
A vida, amor e a morte destes dois apaixonados, para além do seu registo em crónicas e em poemas, adquiriu cedo nos túmulos uma materialidade artística tão radiosa e impressionante, nomeadamente ao serem erguidos no ambiente de um estilo gótico tão austero como o da igreja da abadia de Alcobaça, que facilitou eles serem agradavelmente admirados, contemplados e assimilados pela sensibilidade anímica de qualquer época e pessoa.
A Maria Fátima da Silva aproximou-se deste mito fundamental de Portugal com o triplo trabalho do artista, pois não só pôs as mãos, os pincéis e a paleta das cores em acção mas foi tanto lendo e meditando muitas das valiosas obras, crónicas e dramas, poemas e ensaios, dedicadas ao amor de Inês e de Pedro, como também visitando locais associados à vida e e peregrinação inesiana, na busca de se impregnar mais dos eflúvios ou inspirações que ainda hoje se transmitem a quem souber sintonizar e sentir.
Bocage, um vate bem sensitivo, órfico mesmo,  deu maravilhosamente eco de tal: 
«Da triste, bela Inês inda os clamores// Andas, Eco choroso, repetindo;//Inda aos piedosos Céus andas pedindo// Justiça contra os ímpios matadores.//
«Ouvem-se ainda na Fonte dos Amores//De quando em quando, as náiades carpindo;// E o Mondego, no caso reflectindo,// Rompe irado a barreira, alaga as flores.//
«Inda altos hinos o Universo entoa// A Pedro, que da morte formosura/ Convosco, Amores, ao sepulcro voa.//
«Milagre de beleza e da ternura!// Abre, desce, olhe, geme, abraça e c'roa//A malfadada Inês na sepultura».
Ora é na monumental e poderosa Real Abadia de S. Maria de Alcobaça, no transepto da sua Igreja, que encontramos o testemunho mais imortalizante: os túmulos magistralmente esculpidos em pedra calcárea, e que mais do que servirem para darem guarida aos ossos e serem uma memória, são antes maravilhosas chamas historicizadas celebrando e invocando um amor que, embora fisicamente truncado na Terra, animico-espiritualmente viverá «até ao fim do mundo», tal como o justiceiro rei D. Pedro I (1320-1367) pediu ao escultor para gravar na cabeceira do seu túmulo jacente, e certamente numa encomenda tanto transmitida como esculpida com muita carga psíquica, pathos, já após a feitura do túmulo da sua amada e mulher Inês de Castro (1325/7-I-1355).
Estes dois túmulos góticos, nos quais um mestre provavelmente de Coimbra, e quase que num estilo de miniaturas iluminadas de Livro de Horas, ou hoje de banda desenhada, esculpiu magistralmente (embora mutilados em algumas partes pelos invasores franceses) nas edículas cenas da vida e morte de Inês e de Pedro, e de passos da vida de Jesus e da tradição cristã, estando as esculturas em tamanho natural acompanhadas de Anjos, serão a fonte mais consultada ou inspiradora da forte pintura, histórica e cromaticamente, psicológica e espiritualmente, de Maria Fátima, a qual certamente ao longo dos dois anos do trabalho criativo de trazer o potencial à tela e nos seus sonhos e devaneios, pensamentos e meditações, comungou com o mundo histórico e trágico, amoroso e divino de Pedro e Inês e, quem sabe, com as suas almas espirituais, agora livres de todos ou muitos dos constrangimentos.
Poderemos talvez dizer que a bela e doce Inês é erguida, tanto pela cultura portuguesa como sobretudo pela pintura de Fátima, a um ser crístico, um ser ungido de amor, um ser sacrificado e martirizado, mas para que amor desabroche imparavelmente, perenemente.
É um Cristo (um ser ungido) feminino português, amparado pelos Anjos, abraçado pelo marido e cuidando das suas crianças que contemplamos.
 Nas edículas do túmulo de Inês, preenchidas com cenas das descrições do Novo Testamento, tendo a facial a crucificação de Jesus, podemos admitir essa implícita comparação de que a morte de Inês é como a morte de Jesus: um ser de amor a quem é recusado pelos pais ou sogros, o sacerdócio judaico e o estado romano, tal como Inês é rejeitada pela convencionalidade religiosa e pelo pai do seu amado, o rei D. Afonso IV e vários do seu conselho, a que se seguirão ao longos dos séculos os que não serão Fiéis de Amor, ao dela e de Pedro, ou em si mesmos e nas suas vidas...
É no túmulo de D. Pedro que as delícias do amor conjugal e o trágico assassinato de Inês são representados, assumindo D. Pedro o papel tanto de amoroso, como de queixoso e justiceiro, embora em ambos os túmulos jacentes estejam representados com as feições serenas, belas e apoiados pelos Anjos. 
  Muito disto ecoa nas pinturas da Fátima, por vezes trazendo Inês e Pedro para os nossos dias, tanto mais que a capacidade de ultrapassar os limites da linearidade do tempo é bem visível na sua obra, como que tendo acesso ao campo unificado de energia consciência e informação ou, pelo menos, tentando intuir e penetrar os mistérios que a História sempre deixa nele.
 O monumento magistral gótico tumular é interpelante, fracturante, no seu apelo e afirmação do Amor sacralizado e eterno acima das conveniências sociais, e a sua recriação artística ou pedagógica pode ser bem poderosa para despertar mais o amor em nós, a nossa vontade de sermos mais verdadeiros, sinceros e intensos nos breves momentos que a Roda da Fortuna acompanha a da Vida...
Assim a pintura de Maria Fátima da Silva está carregada dessa intensidade do amor, do pathos, da paixão nos dois sentidos que aconteceram, o feliz e o trágico, e, simultaneamente, da ressonância ou acompanhamento dos mundos espirituais e angélicos nos passos de amor e de dor e desencarnação, e logo reunião e ressurreição em corpo psico-espiritual.
 Esta consciencialização e visão do amor que se acontece tanto nesta vida como no além, é fundamental e está bem desenhado e colorido por Maria Fátima da Silva em cenas de beatitude amorosa que tanto podem ser terrenas como já nos mundos subtis, para além do sofrimento e da morte, da efemeridade e transitoriedade.
 Talvez possamos dizer que historicamente a sagração lendária e perenizante foi começada a ser talhada nesses fabulosos dias 23, 24 e 25 de Abril de 1361 quando o corpo de Inês foi levado em procissão ou cortejo, à luz de archotes, de Santa Clara a Velha em Coimbra para a igreja de Alcobaça, a Abadia real, onde coroada e sobre um trono recebeu na sua mão os beijos dos nobres, religiosos e da corte, ao som de ladainhas, cantos e música, à luz dos archotes e velas, com os aromas dos incensórios, sem dúvida uma extraordinária antevisão da ressurreição, realizada feericamente na Terra, em carne, tal era a intensidade do Amor que os unia e percorrera os corpos, o pescoço ou colo, a pele, os lábios e todos os membros deles e que, no fundo, também quer acontecer em nós, apelando a tornar-mos mais seres de amor, em chama corajosa divina de criatividade e de dádiva.
A pintura de Maria Fátima Silva, ainda que com muitos laivos de amor cortês ou de religiosidade gótica e angélica, está carregada de tal intensidade amorosa, que se torna carnal, musculada, de mãos, pés, seios, cabelos, sorrisos e ora em fusão amorosa ora em pieta de compaixão, e surge para a nossa contemplação apoiada nas geometrias e rosáceas góticas da época que ela soube sentir e recolher, recriando os ambientes do mundo histórico e da natureza que os envolveram, com destaque para as aves, e imaginando ainda a graça da companhia dos Anjos no mundo psico-espiritual a que eles têm acesso, qual ilha do Amor intuída por Camões nos Lusíadas.
  O realizar-se esta exposição e recriação do mítico amor de Inês e de Pedro, em Alcobaça, junto ao local onde se depositaram os seus corpos e onde algo deles é mantido, ou mesmo intensificado ocasionalmente, ao longo dos séculos, permite-nos auspiciar a esta exposição um carácter quase mágico, de ressurreição, de boa nova ou evangelho, anúncio do amor eterno ou perene que vence todos os obstáculos e limitações e nos chama a sermos verdadeiros e sinceros na entrega total ao amado ou à amada, de corpo, alma e espírito, e procurando verdadeiramente atingir a unidade e nela recebermos a bênção divina, a desvendação da nossa ligação espiritual, e que Inês e Pedro conseguiram certamente tocar e entrar e, através desta bela e intensa arte impregnada do amor, janela entre os mundos, partilhar. 
 Na longa feitura e preparação desta exposição, nutrida por leituras e peregrinações , meditações e diálogos, dos quais um ou outro eu ainda participei, é evidente que a Fátima se apoiou no amor que sente e vive com o marido, a família, as amizades, o trabalho, as terras, a natureza, as pedras sagradas e a cultura de Portugal e, claro, com Inês e Pedro...
Poderemos então dizer que esta exposição Amare é uma recriação perenizadora do Amor, na melhor tradição dos Fiéis do Amor de Portugal, na qual Inês e Pedro, D. Dinis e Isabel, o Infante D. Pedro das Sete partidas, Damião de Goes, Camões, Jorge Ferreira do Vasconcelos, Fernão Mendes Pinto, Bocage, Antero, Wenceslau de Moraes, Florbela Espanca, Leonardo Coimbra, entre outros, se inseriram, testemunhando tal qualidade na busca e vivência do amor e da justiça, da unidade e da Divindade. 
 Possa esta exposição Amare ser uma bênção para as forças do Amor em Portugal, e de Portugal para o Multi-universo, e possa a comunhão dos e das Fiéis do Amor, o corpo místico da Humanidade e dos amantes, concretizar-se, tornar-se mais perceptível no nosso coração e consciência íntima e aí como chama de Amor divino desabrochar e ser mais sentida e contemplada, cultivada e partilhada...
Possa esta exposição no Verão ardente de 2018 ser verdadeiramente um comunhão no Graal de Portugal, tal como Maria de Fátima da Silva nas suas palavras introdutórias apela, e que no coração de cada um de nós, e no coração de Portugal e do seu Arcanjo, a chama do Amor seja intensificada e desvendada e que todos os que aqui vierem em peregrinação de estudo histórico ou artístico, pedagógico ou contemplativo do Amor tão manifestado por Pedro e Inês, sejam por Ele inspirados e fortalecidos.

Pedro Teixeira da Mota.

Sem comentários: