sexta-feira, 4 de maio de 2018

Contos Espirituais, 2º. Ensinamentos da Mulher e da Natureza.

Era uma mulher e, como todas as mulheres, tinha momentos de transfiguração nos quais a sua face resplandecia duma forma e vibração tão perfeita que parecia iluminada pelo amor ou a perfeição,  ou porque se sentisse bem, ou porque estivesse a ser vista amorosamente, ou ainda porque fosse mais transparente ao espírito ou, quem sabe, à Divindade Feminina, à Grande Deusa. Era verdadeiramente difícil discernir o que teria mais influência, o que estava mais presente e actuante.
 
  A face tinha também as borbulhas e ângulos, as rugas e manchas que normalmente povoam as paisagens dinâmicas que são as faces humanas e que de algum modo reflectem o percurso do microcosmos humano inserido no macrocosmos.
Gostava bastante da Natureza e não se cansava de a ver com os seus olhos atentos e irradiantes e de a sentir, compreender e amar. Podíamos dizer que estava bem consciente das vidas expressas nos fenómenos da Natureza e sabia harmonizar-se com os seres, correntes e ambientes tanto exteriores como interiores, preferindo bem mais a aura da terra e do céu, das árvores  e dos espíritos da natureza que a das cidades e espaços fechados, com os seus seres tão frequentemente stressados, artificializados, com pouca ligação ao coração...
Meditávamos os dois frequentemente na Natureza e não era tão invulgar sermos visitados pela luz, a visão interior,  seres subtis. Ela vivenciara algumas experiências e intuições mais fortes e ao revelar-mas não sabia o que isso geraria em mim, pois eu não acreditava em tudo tal e qual  ela narrava, pois questionava os níveis e hipóteses interpretativas, embora alguns fossem-me literalmente evidentes e compreensíveis.
Uma das suas revelações foi ter sentido mais fortemente um dia uma energia ígnea
a subir do fim da coluna até ao cimo da cabeça, no momento em que vira alguém que sentira que amava e que era a pessoa mais importante da sua vida.
Ora esse fogo ascendente, interrogava-me eu, era a sua energia
anímico-nervosa, na sua totalidade, ou no seu aspecto de fogo subtil no eixo vertebral, e denominado Kundalini na Índia, ou fora antes a imagem subtil de uma unificação das suas energias com o seu espírito? 
Considerava ela que tinha sido a energia de Kundalini, pois sentira e vira-a subindo pela coluna vertebral, mas eu tinha outra interpretação, também proveniente de algumas meditações: a consciência em nós é como uma esfera luminosa que sobe e desce ao longo da coluna e, conforme os desejos e os actos, vai-se posicionando mais nesta ou naquela zona, de tal modo que há pessoas que estão mais localizadas na zona sexual, outras na alimentar, ou no peito das emoções, ou na garganta das palavras, ou na cabeça dos pensamentos, certamente mudando bastante de andar ou nível em que se encontram conforme a mutabilidade das  paixões, amores e interesses.  Assim o que ela vira e sentira, fora uma absorção, pela esfera da consciência individual, de várias energias ao longo da coluna, entusiasmadas, unificadas nessa chama ascendente e consagrando-se ou dedicando-se seja a essa pessoa, merecedora de tal adesão dela seja ao seu próprio nível mais elevado dentro dela.
Ela sorria, e dizia que  as duas compreensões complementavam-se, pois cada ser sente o que vivencia tanto de acordo com o seu despertar energético-espiritual como pela sua subjectividade psico-somática própria, a persona, por onde soa o que experiencia.
Em verdade, sabemos pouco dos níveis energéticos e
psíquicos que nos constituem e tal reflecte-se até dramaticamente não só nas doenças físicas e psíquicas, hoje mais facilmente diagnosticadas embora por vezes  tendo subrepticiamente minado  as defesas, mas sobretudo no desconhecimento de sermos seres espirituais, lagos de forças anímicas, ora mais cheios, limpos e serenos, ora agitados e intensos, ora enfraquecidos e obscuros, mas em geral pouco discernidos nas suas melhores potencialidades benéficas para nós, a humanidade e a natureza, nomeadamente a energia ígnea, denominada Agni, na Índia, onde foi mesmo uma divindade nos tempos védicos, e que é tão essencial na nossa constituição psico-espiritual.
Quanto ao espírito, ainda que bem reflectido na natureza, sabemos tão pouco, pois em geral mesmo os mais psicólogos, ou que com eles dialogam, ou que se tentam auto-conhecer e controlar melhor, não conseguem concentrar-se o suficiente para desenvolverem os sentidos subtis adequados a poderem contactar com ele, que mais vale  pararmos regularmente de falar ou agir e tentar sondá-lo e meditá-lo, neste aqui e agora que é sempre um eixo iluminativo, conectivo e integrativo... 
Uma vez propus-lhe a visão da alma já não ígnea mas líquida, como um mar, um lago: cada um de nós tinha ou era um lago de forças anímicas e devia ser o zelador e unificador delas. Uns tratavam-no bem, não deixavam qualquer tipo de barca navegar, não o deixavam ser poluído, faziam chegar as melhores fontes ou cursos; outros usavam pouco o discernimento e abriam a energias menos harmoniosas e deixavam-se turvar, insensibilizar e não viam mais o céu, com as nuvens, e o fundo com os peixes, nem as suas águas e energias eram já boas e benéficas... 
O melhor lago era o transparente, não só pela qualidade da sua água como por reflectir quem nele se contemplasse, e também o que estivesse nas suas profundidades ou nas  distantes alturas, e para tal era bem necessário uma certa higiene ou ecologia de vida, com invocações regulares das melhores energias e ligações possíveis do Multiuniverso.
Quem não se lembra de conversas à noite perto deles, com dona Lua e as estrelas a brilharem contentes, na nossa visão e alma, molhadas e onduladas nas suas cristalinas águas e refrescando o ar quente do Verão e inspirando amorosa e intuitivamente os nossos diálogos e comunhões com o vasto campo unificado de energia consciência?
Mas sabíamos como era difícil tanto os lagos da natureza estarem neste estado de correnteza ou de estabilidade limpa, como também o lago interior das pessoas, já que para tal se exigem qualidades de grande discernimento e pureza, algo muito difícil de se conseguir vivendo-se em sociedade e em interacção com o vasto mundo, cada vez mais acessível nas suas potencialidades evolutivas e activistas pela internet mas tão manipulado dilacerado por más ou nocivas mentalidades e intenções de pessoas, grupos, meios de comunicação e governos.
Ela concordava que como quase todos, excepto os monges e pessoas mais
retiradas, temos de viver no mundo, só nos resta esforçar-nos constantemente por manter desperto, sensível, vibrante o lago ou aura da nossa alma, esvaziando-o dos desejos e pensamentos mais turvos ou perturbados, não nos deixando levar demasiado por instintos e reacções, e antes cultivando ou fomentando o acesso e o desabrochamento de energias elevadas e harmoniosas pela absorção luminosa, a vontade pura, o diálogo, a meditação, a oração e a irradiação. 
A Lagoa Azul, da serra de Sintra, um sugestivo nome para evocar o protótipo do Lago puro que deixa reflectir em si o anil celestial, situado numa serra sagrada, entre Lisboa e o Oceano Atlântico, era um dos lagos, que não de jardins, onde algumas vezes íamos tanto para senti-lo e aprender alguns segredos da pureza e da impureza, da transparência e da reflexão, das brisas e seus sussurros nas canas, ramos e almas, como para em momentos especiais dos ciclos da natureza e das religiões,  celebrá-los em unidade com esse pequeno oceano ali à nossa disposição e sobre o qual emanávamos orações, mantras e invocações, utilizando eu em especial os da tradição indiana, tal como o bija mantra, da água, Vam, ou sobretudo o nome da Divindade que paira sobre as águas Vishnu Narayana por mim muito amado e no seu mantra Om Namo Naryana tão cantado.
Quando regressávamos a casa só nos restava de olhos fechados na meditação sentirmos a aura espraiada e harmonizada, dedilhar de novo algum mantra de apelo e abrir-nos ao sol espiritual e divino, o qual podia então reflectir-se no espelho calmo da nossa consciência, mais sintonizada com as harmonias da natureza e logo mais serena e aspirando ou abrindo-se aos mestres e anjos, à Divindade, e à Sua paz, luz e amor. Não encontrávamos nós menção em tantas religiões e tradições que no mítico começo da manifestação era a vibração sonora, o espírito divino na sua intencionalidade e vibratilidade potencial cogitando, flutuando ou soprando sobre o pré-espaço das vibrações ou águas, na  potencialidade do espaço e tempo, da consciência e da energia, e como também tal processo criador de certo modo se reflectia no nosso eu e nas nossas ondulações mentais que acalmávamos pela respiração e pela paciente observação, desprendimento e harmonização dos pensamentos sempre tão reactivos a tudo, até que finalmente a presença ou a graça divina se pudesse manifestar mais estavelmente?

Com o tempo, assim como nos conhecêramos, meditáramos e nos amáramos,  cada um seguiu o seu caminho independente e, embora não estejamos já próximos fisicamente, essa transparência e unidade comungada mantém-se  real e  o lago da nossa alma continua a reflectir  o azul celestial e os raios divinos e na meditação ora a energia ígnea eleva-se ora a luz espiritual, levando-nos a sentir a beatitude da consciência da presença do Espírito e do fulgor do Amor, que se orientam, abrem e dirigem-se  para o Ser, a Verdade e a Divindade...

2 comentários:

Luama Socio disse...

Esse texto vai além de um conto. Nos ensina e descreve vivências interiores possíveis a quem se põe a meditar. Muito bom!!!!!

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças, Luama. Sim, se meditarmos podemos vivenciar estes e outros aspectos do ser e dos mundos psíquicos e espirituais. Tal como o seu belo poema musicado "À Alma", do seu último CD "O Bárbaro", trata-se de nos abrirmos mais à Luz e ao Amor Divino e partilharmos tal em sopros que façam as asas bater e as almas elevarem-se...