terça-feira, 15 de maio de 2018

À Alma, órfica, e à palavra irradiante de poder de Luama Sócio.

Cada ser é único e merecedor de muito respeito e amor, tendo o seu caminho próprio de peregrino ou peregrina na Terra por uns tantos anos, com esta ou aquela missão. E depois parte e leva consigo como alma espiritual não só o que pensou e viu, sentiu e agiu, ligou e realizou, mas também os sons e músicas que proferiu e ouviu e assim avançará pelos mundos subtis e espirituais rumo à sua plenitude comunicativa e união com a Divindade.
Somos seres de palavra, de conversa, de diálogo aprofundante e por isso em várias religiões se diz que o mundo nasceu da Palavra divina, do som, da vibração primordial, que ainda ecoa na música das esferas quase silenciosa no nosso ouvido interno mas que por vezes se solta mirificamente no interior ou que mais facilmente brilha no en-cantamento imenso, ondulado e rítmico das cigarras nocturnas no Verão quente de mil estrelas no céu.

A Palavra foi então considerada mágica desde a mais alta Antiguidade, pois ela reflectia o poder criador Divino e o que era dito podia tornar-se realidade, podia manifestar o que se evocava, se fossem cumpridos certos requisitos ou se houvesse tal dom ou graça. 
Os Egípcios desenvolveram muito o que eles chamavam o poder irradiante das palavras, dos nomes divinos, e a palavra pronunciada justamente, que constituíam a base das suas orações, liturgias e até ritos com que se procuravam dotar a almas vivas e as já desencarnadas com as forças ascensionais e libertadoras que as palavras em papiros ou em cantos continham e derramavam iluminadoramente  nos seus caminhos no além...
No conhecimento e mestria dos sons sagrados, dos hinos  védicos e depois mantras yoguicos, devocionais e das iniciações, a Índia excedeu-se a todos os povos e ainda hoje os seus mantras em sânscrito são diariamente recitados por milhões de seres, nomeadamente o Aum e a Gayatri, certamente em litanias madrugantes e encantantes do mundo espiritual na terra e nas almas...

Orfeu, na Grécia primordial, é talvez, a ser mais do que um nome colectivo, o primeiro mestre ocidental individualizado reconhecidamente dessa tradição, em pouco antecedendo Pitágoras, sendo um shaman, um comungante de braços abertos às energias e seres da terra e do céu, um ser espiritual consciente das energias que do seu corpo, alma e  mundo espiritual emanavam com as palavras, e como com tal se poderia acalmar e curar, inspirar e despertar e, em especial, tocando simultaneamente música, a harpa ou lira. 
 
 A tradição Órfica atravessará os séculos, conhecendo-se historicamente dela as lamelas em ouro que alguns iniciados levavam no peito com as palavras mágicas que os guiariam no além, e ainda os belos hinos órficos, e serão os poetas, as musas e os trovadores os que mais se filiarão  nela, mas também escritores e pintores, filósofos e teólogos, tal como o florentino Marsilio Ficino, que no final do séc. XV valorizou muito Orfeu como um dos elos da transmissão do que ele chamava a Prisca Religião, a Filosofia Perene que antecedera as Religiões do Livro, e que em vários dos seus livros ou nas cartas abordou, tanto mais que  também dedilhava a lira, seguindo os conselhos pitagóricos que estudara.
Dos elos notáveis na tradição Espiritual Portuguesa nomearemos somente as Cantigas de Amigo, tão cheias de amor, Camões e Jorge Ferreira de Vasconcelos, Bocage, Antero de Quental e Fernando Pessoa, todos eles assumidamente Cavaleiros ou Fiéis do Amor e da palavra mágica, mas muitos outras almas podiam ser chamadas, evocads da comunidade de língua portuguesa que une tantos povos e seres por em cima dos oceanos, e em especial do Brasil.

Nos nossos dias do séc. XXI, infelizmente a mentira tornou-se rainha e sobretudo na classe política e financeira já não há quase promessa ou afirmação verdadeira e que se cumpra, fazendo decair o próprio valor da palavra usada por todos os seres, tal como vemos nas notícias falsas, na manipulação, ou no paradigmático controle exercido pela aliança anglo-americana-israelita-saudita e que origina tanta morte, sofrimento e desilusão no mundo. 
 A magia da unidade pelo Bem comum torna-se um ideal que paira bem acima das organizações internacionais tão manietadas, ainda que algumas certamente brilhem com alguma eficácia compassiva. Quanto a agrupamentos de pedagogos, cientistas, activistas, escritores,  esoteristas, poetas, filósofos e ecologistas que consigam formar-se e irradiarem luminosa e eficazmente são precisos bem mais...
Necessita-se então de mais palavra irradiante de poder, órfica, brotando dos livros e das músicas, dos festivais, das conferências e satsangas, com pessoas aptas a serem tocadas e impulsionadas luminosamente e para que a Terra seja mais harmonizada e feliz... 

Assim, não mentirmos, sermos verdadeiros, não recearmos dizer a verdade, desmascarar as mentiras e cobardias, unir-nos pelo bem comum é fundamental, para que depois pela nossa vida justa e por uma prática psico-espiritual que nos ligue à nossa identidade mais profunda e à solidariedade humana, numa unidade espiritual supra-religiosa, o ser-palavra possa também, porque repudiou o mal da manipulação e da alienação, da mentira e da violência, receber o bem e a paz, o Divino e o amor,  e logo manifestá-los e transmiti-los, tocando no interior das pessoas, nessa unidade energetico-psico-espiritual caracteristicamente mais vivenciada pelos elos da Tradição Órfica ou Espiritual e que hoje vários cientistas mais sensíveis designam num certo nível como o Campo Unificado de energia, informação e consciência, com as suas sincronias, ressonâncias e telepatias...


Porque por vezes algum ser nos surpreende na imensa planície por vezes alcantilada dos seres humanos e nos encanta pela sua voz e face, mensagem e alma, brotou  este poema à palavra, à poesia, à música, ao diálogo, ao esforço em grupo  pela Verdade, o Amor e o Bem e, mais, concretamente à Luama Sócio, e seu grupo musical, e em especial à sua música e poema À Alma, uma obra-prima, recentemente publicado no seu CD O Bárbaro ( www.luama.com/o-barbaro) e que de certo modo inspira este poema...
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"Ouvia a tua voz e ora trabalhava com ela,
Ora partia com sua harmonia num voo divino,
No céu azul e na sonoridade cristalina
Que nos purifica, harmoniza e reintegra,
Na plenitude desejada e agora realizada:
Descobrir que a música e a voz da alma
Ajudam a recuperar a nossa identidade,
Nossa ligação ardente com a Divindade.


Não mais cairia nem recearia,

Não mais mentiria nem desanimaria,
Apenas comungaria na Verdade,
No Amor e no aprofundamento 

Do mistério Divino em todos nós.

Cantaria contigo, com a tua voz

Abrindo primaveras no horizonte das almas
Viva e mortas, próximas ou longínquas,
Ou não fossem a música e o canto
Eixos luminosos ligando os mundos 

E tornando-nos seres de braços abertos 
Às melhores invocações divinas
E que pelos nossos olhares e palavras
Se derramam magicamente pelo Cosmos.


Rituais de celebração de cada dia
Como um novo começo primaveril, 

Tantas possibilidades e esperanças
Na participação no Plano Divino
.


Sopraria também docemente sobre ti
Os melhores mantras orientais,
Ou as preces do coração português,
Descendente dos antigos navegadores,
Que demandaram os mares e distâncias
Para encontrar portos, terras e diálogos,
Tal como nós, separados pelo Oceano,
Neste momento órfico realizamos,
Pelos raios dos nossos corações,
Gerando asas em arco-íris de sons,
Cascatas de palavras belas e inspiradoras,
Vibrações subtis e iluminações fulgurantes,
Na comunhão sacra dos Anjos e Espíritos,
Na imensa mas também íntima Divindade." 


2 comentários:

Luama Socio disse...

Fico realmente emocionada com tão belo texto, partido da música que tenho tocado... muito agradecida... Pedro!!!!

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Eu ainda agradeço mais pela sua música tão companheira nos meus trabalhos,Luama, e também a sua amizade e ser tão luminoso, e inspirador!