quarta-feira, 25 de abril de 2018

Contos Espirituais e de Amor, 1º Jerónimo e Bastos..

 Outrora pensava gerar um livro de contos espirituais mas hoje em dia é melhor as pessoas pouparem dinheiro e a Terra árvores e papel, e assim vou partilhar pela internet alguns de tais contos com  ensinamentos espirituais, escritos por vezes há algum tempo mas sempre melhorados e concluídos nos dias em que os publico.

I. Jerónimo e Bastos, as amizades e metamorfoses espirituais.
  Por vezes quando chegava a casa ao entardecer sentia uma grande vontade de ajudar as pessoas a ultrapassarem alguns dos seus bloqueios e sofrimentos, tão desnecessários. Custava-me vê-las a sofrerem, deixando-se manipular e alienar e entregando-se a coisas tão inúteis ou mesmo nocivas, tendo tantas energias que bem poderiam ser  melhor aproveitadas. 
Mas como dizer-lhes, ou sobretudo fazê-las compreender todas as potencialidades que tinham dentro de si, toda a riqueza das suas almas, apesar de todas as limitações que as cercavam? 
Como ajudá-las a libertarem-se das excessivas malhas envolventes e a discernirem as suas especificidades e serem mais elas próprias, para que,  mais  concentradas e conhecedoras, serem capazes de se realizarem individuamente, de se sentirem melhor, de desenvolverem as suas capacidades espirituais e de serem mais úteis na evolução histórica da Humanidade?
Jerónimo era um homem muito calmo e sorridente. Não se deixava levar pelo meu idealismo juvenil e podia até rir-se das minhas utopias:
- Ah, Ah, Ah! Para que queres ajudar ou reformar o mundo se ainda não te controlas e pouca gente te ouvirá? Quantas palavras desnecessárias proferes diariamente? Quanta energia se escoa
constantemente de ti  pelos teus desejos e pensamentos? Quanto tempo ocupas nas tuas reacções ao que se passa no mundo da política internacional ou nacional? Como podes acumular em ti a força necessárias a entrares em estados mais elevados de realização interior? Não sabes que ela é o que de mais importante há na vida e que por isso não se deve gastar  superficialmente?
E eu tinha que voltar a mim, rebaixar o convencimento, ser mais humilde e consciencializar-me que a passagem da corrente Divina tinha de ser mais desimpedida para eu estar bem e  agir mais adequada e luminosamente... 
Bastos, dizia-me Jerónimo, quando conseguirás juntar a tua energia anímica dos pés à cabeça e sublimá-la determinadamente na intensificação da tua visão interior e, mais que forçando os véus dos mundos intermediários  a dissiparem-se, criando a transparência ambiental interna que permite a visão espiritual? 
  Quantos não procuram a ligação espiritual ou divina, mas ao chegarem finalmente à porta, ao veio,  estão tão cansados que adormecem, admitindo que talvez nos sonhos possam receber a revelação, a iniciação?  
Bastos, tens que despertar a tua alma, com esforço e dor, lágrimas e aspiração ardente e flamejante. Tuas têm que ser as dores dos que sofrem as injustiças e opressões no mundo, mas para com elas  gerares a aspiração e a determinação invencível de não te deixares afastar do Caminho da realização do Bem e de Verdade, difícil de ser perseverado e que se diz ser estreito como o fio da navalha. 
Jerónimo, perguntava-lhe eu, como posso juntar e conseguir as forças necessárias?
Ele sorria e replicava: Calmamente, põe os olhos no mestre da Palestina e lembra-te de algumas das suas frases mais importantes:«o reino dos Céus está dentro de vós», «Eu sou o Caminho a Verdade e a Vida», «Eu e o Pai somos um». E medita-as, assimila-as, como sendo o espírito em ti a pronunciá-las.

 Jejum e oração, têm recomendado os mestres dos caminhos espirituais das várias tradições. Há quanto tempo não transmutas a refeição da noite, pelo jejum,  em meditação serena que te aproximará das raízes do tesouro que tens de desenterrar de bem fundo? 
Precisas de entrar mais no reino de Deus dentro de ti,  sentires os níveis de paz que resultam inevitavelmente da tua identificação com o espírito imortal, acima de todas as situações e envolvimentos terrenos, ainda que tenhas de persistir até chegares à diminuição das vagas de pensamento resultantes deles que o permite. Só então mais unificado e iluminado poderás ajudar os outros...
Jerónimo era um descendente de Índios americanos, que eu encontrara há muitos anos e que de vez em quando vinha até à Europa, dizia ele, irradiar um pouco da sua civilização, outrora florescente na harmonia com a natureza e livre e agora reduzida a sobreviver numa ilhas aqui e acolá. Mas desde que nos encontrávamos no aeroporto eu sentia-me imediatamente elevado a uma sabedoria poderosa, como se alguma energia tivesse despertado no meu interior, galvanizando certas conexões subtis que me tornavam mais vivo e atento, determinado mesmo a dar tudo por tudo para me aproximar dos meus objectivos, trabalhados há tanto tempo. 
Quando caminhávamos pelas terras e montes do Gerês, ele dizia-me por vezes: - Bastos, Bastos, vês aquela águia pairando lá no alto? Pois, quando ela quer, em segundos estará segurando o coelho. Consegues tu concentrar-te assim no que queres adorar interiormente? Se não consegues pôr essa aspiração e determinação, então de pouco resultará a tua vontade ou, melhor, desejo... 
Para quê pensares que andas a meditar muito, se metade do tempo tens a tua consciência atravessada por pensamentos do quotidiano, e andas constantemente escada acima escada abaixo? Como queres tu entrar mais na dimensão espiritual se os teus pensamentos e preocupações constantemente te estão a prender à Terra? 
Jerónimo, dizia-lhe, mas nós temos que sobreviver, fazer dinheiro, relacionar-nos com as pessoas, entender o que se passa no mundo, denunciar o mal, contribuir para o Bem Comum...
- Claro que sim , mas tudo tem a sua hora. Não me citaste já algumas vezes a frase desse teu querido amigo Fernando Pessoa: “É a hora”. Pois aprende que quando é a hora, é mesmo ela, e mais nada deve então penetrar na tua alma, se a queres transformar num templo onde o teu Deus, ou como lhe chames, possa ser invocado e sentido, adorado e amado. E medita simultaneamente no desprendimento face à mutabilidade e transitoriedade da vida no plano físico

Mais, Bastos, tens de aprender também que a vontade se tem de tornar em ti uma espada afiada que discerne a verdade, a essência, e afasta tudo o que não queres e que, erguida ao alto, se torna uma Excalibur, um eixo e canal entre o céu e a terra. 
                                      
Eu olhava as árvores altaneiras com as raízes bem mergulhadas no solo, admirava os montes pedregosos, com tantos penedos talhados em formas e feitios tão sugestivos a reluzirem à luz do sol, e, imaginando os milhares e milhões de anos vividos por aquelas pedras com as alternâncias de neves e  calores, perguntava-lhe: - Jerónimo, como é que esta paisagem ou estrutura geográfica é relativamente tão duradoura e os nossos corpos e vontades tão frágeis? Mesmo aquele carvalho tem mais de quinhentos anos. A quantas mortes não assistiu já ele? 

Tudo passa entre nós e o que ficará até da nossa amizade, se não forem os registos de livros ou monumentos? Um dia um de nós morrerá primeiro e o outro chorará. Teremos forças anímicas afins que nos permitirão depois comunicar? Como poderemos criar laços de amizade eterna?
- Bastos, Bastos, não chores um dia por mim. Mesmo que os sinos dobrarem nos teus ouvidos fortemente não deixes que as lágrimas sulquem a tua face, nem que elas enfraqueçam o teu discernimento. Nenhum de nós morre verdadeiramente, e se agora nos vemos limitados e quase que identificados a estes corpos mortais a nossa identidade é a de espíritos imortais, certamente revestidos de alma e de corpo.  
- Quer isso dizer que não nos separaremos se quisermos, pois enquanto que espíritos eternos poderemos sempre comunicar?
Jerónimo fez um silêncio e deixou o seu olhar acompanhar a marcha lenta dos bois pela estrada a fora.  

- Bastos, onde estiver o teu coração, aí estarás tu. E quando os corações de dois se reunirem em comum, aí há comunhão, aproximação, união. 
O teu coração é um santo Graal, um vaso de atracção e de irradiação,  de convergência e comum comunhão.
Quando Jerónimo partia, confesso, ia-me um pouco abaixo, sentindo mais a minha solidão sem grandes comunhões com outras pessoas, mas depois isso passava e de quando em quando, lembrando-me dele quando meditava repetia o seu nome como um mantra indiano, um nome sagrado de oração e invocação. 

Sem querer tinha a impressão que ele se tornara como que um mestre para mim e o seu nome fluía no rio de Amor, que os portugueses chamariam saudoso, mas que eu sentia mais ora alegre ora esperançoso, conforme a comunhão era mais ou menos sintonizada. Mas com quantos seres que amamos, conseguiremos comungar assim, libertadoramente, nos planos espirituais e divinos, em vida terrena ou no além?
Todavia, por vezes, como que perguntava: Jerónimo, porque não te sinto ou vejo? Porque não consigo abrir mais o olho espiritual? Porque serão poucas as vezes que sinto mais o Amor divino?
E se o meu pensamento recuava até aos tempos da conquista da América do Norte pelos ingleses,
uma certa revolta perpassava pelo peito, os meus olhos tornavam-se húmidos, dando-lhes um discernimento mais brilhante e penetrante, tal e qual acontece para com a atmosfera depois de caída uma grande tempestade na qual os raios levantaram até pedras do horizonte e ergueram fragores ribombeantes por serras e vales.
Recostava-me para trás, cruzava os braços e de olhos semi-cerrados dava-me conta que de certo modo estávamos mesmo todos sozinhos ou pelo menos separados, mesmo quando acompanhados, cada um levando a sua cruz ou as suas palmas,  cestos e ligações.  E quando de mãos dadas, quão difícil era realizar o grau do Amor na Unidade.
Quando as mãos dadas  manifestam também corações dados, misturados, unidos,
e conseguem intensificar um inter-unidade vibratória-consciencial, então sentimos que não somos apenas um só mas tanto dois amando-se, como também dois num, já que pelas mãos, os olhos, os corações e pela intencionalidade nos corpos espirituais muita energia se comunica e funde, unindo por momentos as almas e os espíritos, com efeitos bem luminosos em tudo.
Mas a verdadeira comunhão perene, acima de distâncias e contactos, quem a conseguirá não apenas nesses momentos de amor unitivo, mas numa permanente ligação, a qualquer momento contactável e desfrutada?

Talvez sobretudo os portadores do santo Graal, os Fiéis do Amor, os Cavaleiros e Cavaleiras do Amor, as almas afins e unificadas pelo amor e a graça da Divindade, os grandes e simples amantes, os grupo pequenos invocando a verdade e convergindo para o Graal...

Por vezes, na meditação nocturna, tentava sintonizar com Jerónimo, mas outros pensamentos surgiam e, cansada a mente ou o corpo, ia-me deitar, adiando ou atrasando mais uma vez aquele contacto ou encontro consciente e supra-espacial que a minha alma desejava e que ora tinha a certeza que atingiria um dia, não mais reduzido à insignificância de ser um mero trabalhador e consumidor do Sistema e contribuinte dum Estado tão enfraquecido nas suas verdadeiras funções de executor  e impulsionador do Bem Comum..
Em certas alturas, perante certas leituras ou pessoas, compreendia melhor as minhas limitações, tendências ou até erros ou fraquezas. Mas isso fazia-me cerrar os dentes e dizer: Eu quero despertar mais espiritualmente e chegar ao diálogo telepático contigo, Jerónimo! Transformar-me-ei o suficiente, aguçarei o meu olho telescópico subtil, irradiarei mais o espírito e o amor para os que for encontrando, mesmo que discretamente, sem falar...
Via o que se passava à minha volta, e como as energias se voltavam contra as próprias pessoas que as originavam a fim de as purificarem. Havia pessoas que tinham acumulado tanta informação negativa ou mesmo vivenciado sentimentos violentos, torcidos, egoístas, maldosos, que subitamente adoeciam para se purificarem de todas essas vibrações que em si continham e que de outra forma continuariam a irradiar e até a influenciar ou a contagiar.
Aprendera com Jerónimo a reagir menos com as pessoas, mesmo que me insultassem ou provocassem. Havia um baque imediato, mas não reagia logo, a não ser que a espada esclarecedora devesse defender a aura, a justiça, a verdade, mas mesmo assim deixava com lucidez e calma a inteligência espiritual funcionar, escrever, falar...

Aprendera também a não revelar tanto  o que se passava na minha alma, os projectos e investigações ou mesmo as novas amizades. Havia muitas energias a escoarem-se desnecessariamente, que não tinha depois nos momentos em que seriam mais precisas. E porque também não era muito adequado expor à consideração dos outros o que ainda estava a enraizar-se, a fundamentar-se, a crescer...
À noite, quando chegava ao quarto antes de me deitar, deixava arder a aspiração de tornar-me um templo de invocação de Deus e de entrar mais em sintonia com os mundos espirituais e quem sabe com Jerónimo, os mestres, os anjos e, sentado na cama, meditava. E assim não foi de espantar completamente, quando senti pela primeira vez como que a sua voz falando-me interiormente e transmitindo-me uma tal certeza, que todas as minhas dúvidas se desfizeram. Escutava finalmente não só o som espiritual mas uma comunhão de voz-ideia-sentimento  e a alegria grata brilhou na minha alma..
Daí a uns dias porém recebi uma carta dum amigo comum a transmitir-me a notícia da morte ou desencarnação de Jerónimo.

 Senti como que um alçapão a abrir-se sob os meus pés e por segundos vacilei na percepção do mundo físico que me rodeava e tudo me foi distante e enevoado, mas consegui sentar-me e meditar. A força que senti dentro de mim foi impressionante. Recebia algo certamente. Afloraram lágrimas pelo estrangulamento dos centros do coração e da garganta, mas pouco depois sentia-me com acesso a um plano unitivo luminoso e calmo, no qual o amor nos unia próxima e estreitamente.
Podia-o consultar no meu interior, quando me interrogava silenciosamente ou quando o interpelava se isto seria assim ou não, numa subtileza de resposta que era mais da ordem da comunhão num campo de forças conscienciais maior.

 Intuí mesmo que ele em parte partira porque eu conseguira fazer o silêncio interno, conseguira orientar as minhas forças anímicas sob a vontade única de mim mesmo e que isso despertara certas energias no Cosmos, e libertara-o duma obrigação comigo, o que lhe permitira desprender-se do corpo, concluídas as suas tarefas na Terra.

Hoje consciencializei-me que a comunhão amorosa e adoração à Divindade imanente,  a ligação aos  Anjos e Arcanjos e aos mestres da Tradição Espiritual Portuguesa e da Perene são o meu tesouro mais precioso, a minha realização espiritual melhor, além de algumas amizades espirituais profundas, e é com alegria, que seja a qualquer momento seja chegado o fim do dia, depois do trabalho, não me distraio nem me deixo sentir cansado ou disperso e oro, medito e comungo em Amor, no plano espiritual e no corpo místico da Humanidade, onde podem conviver os mestres e mestras,  santos e santas, almas artistas e abnegadas de todas as tradições, além de antepassado e almas amigas, unidos no campo unificado de energia consciência e na Religião Universal do Espírito e do Amor. 
Assim vou talhando o corpo espiritual e nele me relaciono com as pessoas e o mundo, de algum modo contribuindo para a sua harmonização...

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