terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Bom-Senso e Bom-Gosto, carta de Antero de Quental a A. F. Castilho, em 1865


              Costuma considerar-se como excessiva, atrevida ou violenta a resposta que o jovem açoriano de 23 anos Antero de Quental ofereceu em carta às críticas de António Feliciano Castilho menos apreciadoras da escola Coimbrã, nomeadamente a  ele, a Vieira de Castro e a Teófilo Braga, exaradas numa carta posfacial dirigida ao editor e amigo A. M. Pereira, e inserida na obra do seu discípulo Pinheiro Chagas, Poema de Mocidade, publicada nesse mesmo ano de 1865. Quanto muito, talvez nas últimas linhas, em duas frases, algo se possa sentir de mais ofensivo, ao referi-lo como velho de idade mas não de maturidade interior (e Antero reconheceu isso mais tarde, em 1887), pois de resto o texto é um ensinamento vivo, ardente, perene...
Antero em 1864
Bem sabemos que António Feliciano Castilho, na época já tinha 65 anos e que se tornara praticamente cego pelo sarampo aos 6, mas cedo manifestara um génio poético e ajudado por um irmão se formara em Direito e muito aprendera no que ouvia tornando-se um dinamizador cultural valioso, nomeadamente com o seu método de ensino de leitura que pretendeu tornar-se o oficial mas em vão, levando-o a entrar em  polémicas, em que por vezes se manifestou duramente. Por tudo isso, pelos seus poemas, traduções, livros, revistas, críticas e amizades era considerado um patriarca das letras portuguesas, nomeadamente no formalismo e romantismo, e como tal venerado. 


Foi contra tal figura, escola e ideias que Antero se ergueu, defendendo a nova geração e escola literária naturalista e realista, provinda de estudantes da Universidade de Coimbra, bastante mais europeia, filosófica, revolucionária, idealista e socialista. E fê-lo em termos que consideraremos harmoniosos, justificando-se as referências mais críticas talvez ao facto de, como Antero aprendera com ele aos 10 anos francês (e relembra tal grato nesta carta), terá tido uma intuição anímica  quanto ao fundo da alma crítica de Castilho ("... debaixo de cabelos brancos... travesso cérebro..." ) o qual, se publicamente manifestou-se sem grandes ofensas,  já nas cartas aos seus seguidores e defensores deixa escapar expressões e palavras acerca de Antero e dos outros (mafomas coimbrões, bácoros, vândalos) que preferimos não partilhar neste blogue...
Sem irmos ao posfácio causador, já que algumas das afirmações de Castilho são de certo modo evocadas por Antero na sua réplica, foquemo-nos antes em destacarmos três aspectos mais fortes presentes em Antero, vividos mesmo animicamente, e que parecem de grande valor, perene, advertindo que no texto da carta, que transcrevemos em seguida adaptando a ortografia para actual correcta, sublinhámos as partes mais importantes.
1ª - Para Antero, as ideias de Ideal, Justiça, Verdade, Bem,  Liberdade,  Independência e de pensar-se por si próprio e com probidade  são o que  animam a sua consciência e o levam  a escrever, tanto mais que tais valores e princípios,  que estão a ser visados pelas críticas de Castilho, são o que de mais essencial há na missão do escritor público e nos seus efeitos futurantes, para que possa emergir "uma humanidade viva, sã, crente e formosa".
 2ª Para tal missão e criatividade luminosa e benéfica as qualidades mais importantes são "a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter." Tais virtudes tornam o peito ou o coração puro, inocente, luminoso e irradiante, benéfico à humanidade, e é consciência- energia a mais importante de ser cultivada.
3ª  Antero, na sua época mais verdejante e luminosa, sentia em si que a recompensa dos que se conservam independentes e frequentemente pobres era: «as ideias serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas imensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a aumentar o seu bem próprio. Vivem na região das bênçãos, escutando as palavras da boca invisível, e com os ecos dessa voz celeste compõem os hinos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes». 
Há aqui já um prenúncio de toda a sua teoria da audição da Voz da Consciência (e no fundo, da tão necessária meditação silenciosa), tão partilhada em cartas aos seus amigos e como ela interioriza, alinha com o espírito e nos estimula ao Bem.
Há ainda algo de profético neste enunciado pois intuímos que Antero, fazendo como ele diz "sacrifício do eu às tristezas e misérias da humanidade," e não se ligando tanto à Divindade solar e amorosa, acabou por carregar um peso grande demais e não conseguir estabilizar suficientemente a luz e o amor espiritual em si, e logo sofrer demasiado os efeitos das desilusões, vazios e atracção da morte libertadora, para o que a sua doença psico-somática de certo modo também o predispunha, ao enfraquecê-lo. 
Segue-se um pequeno vídeo de 20 minutos sobre a carta de Bom- Senso e Bom-Gosto de Antero e as suas duas primeiras páginas, com leitura comentada (e algum ruído de fundo nos minutos finais); após o vídeo podemos encontrar transcrita a excelente carta, plena de aspiração, de filosofia, de moral, de espiritualidade, de visão, bem merecedora de ser lida, aprofundada, assimilada e vivida...
 
                            



«Acabo de ler um escrito (1) de v.ª ex.ª onde, a propósito de faltas de bom-senso e de bom-gosto, se fala com áspera censura da chamada escola literária de Coimbra, e entre dois nomes ilustres (2) se cita o meu, quase desconhecido e sobre tudo desambicioso. 
Esta minha obscuridade faz com que a parte de censura que me cabe seja sobremaneira diminuta: em quanto que, por outro lado, a minha despreocupação de fama literária, os meus hábitos de espírito e o meu modo de vida, me tornam essa mesma pequena parte que me resta tão indiferente, que é como que se a nada a reduzíssemos.
Estas circunstâncias pareceriam suficiente para me imporem um silêncio, ou modesto ou desdenhoso. Não o são, todavia. Eu tenho para falar dois fortes motivos. Um é a liberdade absoluta que a minha posição independentíssima de homem sem pretensões literárias me dá para julgar desassombradamente, com justiça, com frieza, com boa-fé. Como não pretendo lugar algum, mesmo ínfimo, na brilhante falange das reputações contemporâneas, é por isso que, estando de fora, posso como ninguém avaliar a figura, a destreza e o garbo ainda dos mais luzidos chefes do glorioso esquadrão. Posso também falar livremente. E não é esta uma pequena superioridade neste tempo de conveniências, de precauções, de reticências—ou, digamos a cousa pelo seu nome, de hipocrisia e falsidade. Livre das vaidades, das ambições, das misérias duma posição, que não pretendo, posso falar nas misérias, nas ambições, nas vaidades desse mundo tão estranho para mim, atravessando por meio delas e saindo puro, limpo e inocente.

A este primeiro motivo, que é um direito, uma faculdade só, acresce um outro, e mais grave e mais obrigatório, porque é um dever, uma necessidade moral. É esta força desconhecida que nos leva muitas vezes, ainda contra a vontade, ainda contra o gosto, ainda contra o interesse, a erguer a voz pelo que julgamos a verdade, a erguer a mão pelo que acreditamos a justiça. É ela que me manda falar. Não que a justiça e a verdade se ofendessem com v. ex.ª ou com as suas apreciações. Verdade e justiça estão tão altas, que não têm olhos com que vejam as pequenas cousas e os pequenos homens das ínfimas questiúnculas literárias dum ignorado canto de terra, a que ainda se chama Portugal.

Não é isso o que as ofende. Mas as ideias que estão por de trás dos homens; o mal profundo que as cousas apenas miseráveis representam; uma grande doença moral acusada por uma pequenez intelectual; as desgraças, tanto para reflexões lamentosas, desta terra, reveladas pelas misérias, tão merecedoras de desprezo, dos que cuidam dominá-la; isso é que aflige excessivamente a razão e o sentimento, o que prende o olhar ainda o mais desdenhoso a estas baças intrigas; isso é que levanta esta questão do raso das personalidades para a elevar até à altura duma questão de princípios, e que dá às ridículas chufas, que entre si trocam uns tristes literatos, todo o valor duma discussão de filosofia e de historia.
Sim, ex.mo sr. Eu não sei se v. ex.ª tem olhos para ver tudo isto. Cuido que não: porque a inteligência dos hábeis, dos prudentes, dos espertíssimos é muitas vezes cega em lhe faltando uma cousa bem pequena, que se encontra nos simples e nos humildes—a boa-fé.
À luz dela, porem, eu hei de sempre ver uma péssima acção, digna de toda a importância dum castigo, nas impensadas e infelizes palavras de v. ex.ª, dignas quando muito dum sorriso de desdém e do esquecimento. E se eu nem sequer me daria ao incomodo de erguer a cabeça de cima do meu trabalho para escutar essas palavras, entendo que não perco o meu tempo, que sirvo a moral e a verdade, censurando, verberando a desonesta acção de v. ex.ª
Porque é uma acção desonesta. O que se ataca na escola de Coimbra (talvez mesmo v. ex.ª o ignore, porque há malévolos inocentes e inconscientes), o que se ataca não é uma opinião literária menos provada, uma concepção poética mais atrevida, um estilo ou uma ideia. Isso é o pretexto, apenas. Mas a guerra faz-se à
 independência irreverente de escritores, que entendem fazer por si o seu caminho, sem pedirem licença aos mestres, mas consultando só o seu trabalho e a sua consciência. A guerra faz-se ao escândalo inaudito duma literatura desaforada, que cuidou poder correr mundo sem o selo e o visto da chancelaria dos grãos-mestres oficiais. A guerra faz-se à impiedade destes hereges das letras, que se revoltam contra a autoridade dos papas e pontífices, porque, ao que parece, ainda a luz de cima lhes não escreveu nas frontes o sinal da infalibilidade. Faz-se contra quem entende pensar por si e ser só responsável por seus actos e palavras...

Agora quem move estes ridículos combates de frases é a vaidade ferida dos mestres e dos pontífices; é o espírito de rotina violentamente incomodado por mãos rudes e inconvenientes; é a banalidade que quer dormir sossegada no seu leito de ninharias; é a vulgaridade que cuida que a forçam—nós só lhe queremos puxar as orelhas!
Isto, resumido em poucas palavras, quer dizer: combatem-se os hereges da escola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, do atrevimento de sua rectidão moral, do atentado de sua probidade literária, da impudência e miséria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem às virtudes de respeito humilde às vaidades omnipotentes, de submissão estúpida, de baixeza e pequenez moral e intelectual.
V. ex.ª, com a imparcialidade que todos lhe conhecemos, deve confessar que uma guerra assim feita é não só mal feita, mas também pequena e miseravelmente feita. Mas é que a escola de Coimbra cometeu efectivamente alguma cousa pior de que um crime—cometeu uma grande falta: quis inovar. Ora, para as literaturas oficiais, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sofismas, do que envenenar com o erro as fontes do espírito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, pior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer e não repetir, de inventar e não de copiar. Por que? Porque todos os outros crimes eram contra as ideias: haveria sempre um perdão para eles. Mas esta falta era contra as pessoas: e essas tais são imperdoáveis. Inovar é dizer aos profetas, aos reveladores encartados: «ha alguma cousa que vós ignorais; alguma cousa que nunca pensastes nem dissestes; ha mundo além do círculo que se vê com os vossos óculos de teatro; há mundo maior do que os vossos sistemas, mais profundo do que os vossos folhetins; há universo um pouco mais extenso e mais agradável sobre tudo do que os vossos livros e os vossos discursos.» Isto, sim, que é intolerável! Isto, sim, que é infame e revoltante e ímpio e subversivo! Contra isto, sim, às armas, ergamo-nos na nossa força, mostremos o que somos e o que podemos... escrevamos três folhetins e um prólogo!...

V. ex.ª fez-se chefe desta cruzada tão desgraçada e tão mesquinha. Não posso senão dar-lhe os pêsames por tão triste papel. Mas se eu, como homem, desprezo e esqueço, como escritor é que não posso calar-me; porque atacar a independência do pensamento, a liberdade dos espíritos, é não só ofender o que há de mais santo nos indivíduos, mas é ainda levantar mão roubadora contra o património sagrado da humanidade—o futuro.—É secar as nascentes da fonte aonde as gerações futuras têm de beber. É cortar a raiz da árvore a que os vindoiros tinham de pedir sombra e sossego. E atrofiar as ideias e os sentimentos das cabeças e dos corações que têm de vir.
O contrário disto tudo é que é a bela, a imensa missão do escritor. É um sacerdócio, um oficio público e religioso de guarda incorruptível das ideias, dos sentimentos, dos costumes, das obras e das palavras. Para isso toda a altura, toda a nobreza interior são pouco ainda. Para isso toda a independência de espírito, toda a despreocupação de vaidades, toda a liberdade de jugos impostos, de mestres, de autoridades, nunca será de mais. O mineiro quer os braços soltos para cavar buscando o ouro entre as areias grossas. O piloto quer os olhos desvendados para ler nos astros o caminho da não por entre as ondas incertas. O sacerdote quer o coração limpo de paixões, de interesses, para aconselhar, guiar, julgar, imparcial e justo. O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, incorruptível e intemerato. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras: só assim merecerá o lugar de censor entre os homens, porque o terá alcançado, não pelo favor das turbas inconstantes e injustas, ou pelo patronato degradante dos grandes e ilustres, mas elevando-se naturalmente sobre todos pela ciência, pelo paciente estudo de si e dos outros, pela limpeza interior duma alma que só vê e busca o bem, o belo, o verdadeiro.
Este é o escritor, o poeta, o apóstolo. Se o obrigassem a respeitos convencionais, a terrores supersticiosos diante de certos homens, a espantos cegos diante de certas cousas; se o fizessem baixar a cabeça e as costas para entrar a porta do panteão literário; ele, o pobre, ficaria sempre curvo e submisso, humilde e sem força própria, servo de alheias ideias e apostolo apenas de palavras decoradas e vazias de alma. Como se havia ele pois erguer, entre seus irmãos, tão alto que seus olhos fossem uns como faróis para todos os outros olhos, a sua fronte uma como montanha de luz; tão alto que as palavras de sua boca caíssem sobre as cabeças como uma chuva benéfica e fecundante? Seria, depois das provas e das torturas, das genuflexões e das baixezas da iniciação no grémio dos senhores, seria um aleijão e não gigante, um aborto em vez de herói e, em vez de sobre exceder a todos com a fronte, andaria sumido entre eles, visitado escassamente pelo sol e pela luz. Ele, que não soubera procurar para si o seu caminho, como poderia ele alumiar o dos outros? Ele, humilde, como ensinaria a altivez e a dignidade? Respeitador de conveniências estéreis, como daria o exemplo das revoltas fecundas? Sem alma, como a insuflaria no peito dos tristes e humilhados? Sem vontade, como resistiria às tiranias da opinião omnipotente, ao capricho dos grandes, às ambições, às tentações?
As grandes, as belas, as boas coisas só se fazem quando se é bom, belo e grande. Mas a condição da grandeza, da beleza, da bondade, a primeira e indispensável condição, não é o talento, nem a ciência, nem a experiência: é a elevação moral, a virtude da altivez interior, a independência da alma e a dignidade do pensamento e do carácter. Nem aos mestres, aos que a maioria boçal aponta como ilustres, nem à opinião, à crítica sem ciência nem consciência das turbas, do maior número, deve pedir conselhos e aprovação, mas só ao seu entendimento, à sua meditação, às suas crenças. Nesta escola do trabalho, da dignidade, das altas convicções, se formam os homens em cujos peitos a humanidade encontra sempre um vasto lago onde farte a sede de verdade, de consolações, de ensinos para a inteligência e confortos para o coração.
No peito dos outros, dos que andam de capela em capela na lida afanosa de incensar cada dia todos os ídolos, dos que fazem da glória uma Bastilha para aventureiros levarem de assalto, e não púlpito aonde se suba com respeito e amor, no peito desses não habita mais do que ambição, vaidade, endurecimento e miséria. Esses lisonjeiam os grandes; e os grandes dão-lhes a mão para que subam, e desprezam-nos depois. Lisonjeiam as maiorias; e as maiorias inconstantes lançam-lhes no regaço um pouco de ouro e algum aplauso de momento, e depois passam e esquecem. Afagam todas as vaidades; e têm em cada vício humano um capital, cujo juro dissipam em quanto vivos, porque essa moeda corrompida para mais ninguém serve. Enfim, nos quinze ou vinte anos em que dão que falar às gazetas, aos botequins, aos grémios, a todos os vadios, a todos os fúteis, folgam, vivem alegres e esquecidos de tudo quanto não seja a satisfação do que há no homem de mais pequeno—a vaidade e o interesse.
Para os outros a obscuridade, e a miséria muita vez—mas a estima dos melhores entre os homens pelo espírito, e, o que excede tudo, a posse duma consciência superior a quanto não seja a verdade, a justiça e a formosura. As ideias serenas brilham-lhes na escuridão do isolamento e alumiam-lhes com uma luz doce mas imensa toda a sua obscuridade. Dão-se a desbaratar o mal dos outros homens, como muitos se dão a aumentar o seu bem próprio. Vivem na região das bênçãos, escutando as palavras da boca invisível, e com os ecos dessa voz celeste compõem os hinos de esperança e de amor para a humanidade. Morrem; mas morrem nobres e puros. Tudo isto porque foram independentes. Não pertenceram a corrilhos; não elogiaram ninguém para que os elogiassem a eles; não incensaram os fetiches dos ridículos pagodes literários. Foram honrados. Foram simples.
A estes tais chamo eu poetas. Porque nos ensinam o bem. Porque são originais e dizem sempre alguma cousa nova à nossa curiosidade de saber. Porque dão com a elevação das vidas confirmação à sublimidade dos escritos. Porque são tão poéticos como os seus poemas. Porque vão adiante abrindo à luz e ao amor novos horizontes. Porque não conhecem ambições nem orgulhos. Porque têm a cabeça do génio e o coração da inocência. É por isso tudo que lhes chamo poetas.
Os outros adoram a palavra, que ilude o vulgo, e desprezam a ideia, que custa muito e nada luz. São apóstolos do dicionário, e têm por evangelho um tratado de metrificação. Fazem da poesia o instrumento de suas vaidades. Pregam o bem por uso e convenção literária, porque se presta à declamação poética, mas praticam o egoísmo por índole e por vontade. Fazem-nos descrer da grandeza humana, porque são uns sofismas que nos mostram a pequenez e a má fé aonde as aparências são todas de nobreza. Preferem imitar a inventar; e a imitar preferem ainda traduzir. Repetem o que está dito há mil anos, e fazem-nos duvidar se o espírito humano será uma estéril e constante banalidade. São os enfeitadores das ninharias luzidias. Põem os nadas em pé para parecerem alguma cousa. São os ídolos literários da multidão que mal sabe ler. São os filósofos queridos da turba que nunca pensou. São, enfim, génios no Brasil como v. ex.ª
Estes tais escusam da nobreza e da dignidade: têm a habilidade e a finura. Para a obra que fazem, isso lhes basta. Mas a obra, ex.mo sr., é que é uma obra vulgar: bem feita para agradar ao ouvido, mas estéril para o espírito. Soa bem, mas não ensina nem eleva. Ora a humanidade precisa que a levantem e que a doutrinem. São, pois, necessárias outras e melhores obras.

Mas, se já alguma hora da história impôs aos que falam alto entre os povos obrigações de seriedade, de profunda abnegação, de sacrifício do eu às tristezas e misérias da humanidade, de trabalho e silencioso pensamento; se alguma hora lhes mandou serem graves, puros, crentes, é certamente esta do dia de hoje, da idade de transformação dolorosa, de cepticismo, de abaixamento moral, de descrença, que é o nosso século. Refundem-se as crenças antigas. Geram-se com esforço novas ideias. Desmoronam-se as velhas religiões. As instituições do passado abalam-se. O futuro não aparece ainda. E, entre estas duvidas, estes abalos, estas incertezas, as almas sentem-se menores, mais tristes, menos ambiciosas de bem, menos dispostas ao sacrifício e às abnegações da consciência. Há toda uma humanidade em dissolução, de que é preciso extrair uma humanidade viva, sã, crente e formosa.

Para este grande trabalho é que se querem os grandes homens. Sairão esses heróis das academias literárias? das arcádias? das sinecuras opulentas? Dos corrilhos do elogio-mútuo? Sairão as águias das capoeiras? Saltarão as ideias salvadoras do choque das maledicências e dos doestos? Nascerão as dedicações do casamento das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horácio? Inventarão as novas formulas os que decoram as frases rabugentas dos livros bolorentos que chamam clássicos? E os Sócrates e os Epictetos descerão para as suas missões das cadeiras almofadadas, das rendosas conezias literárias, das prebendas, das explorações?
Fora dessa atmosfera corrupta, e, quando não corrupta, pelo menos esterilizadora, é mais provável encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os homens úteis e necessários às transformações do espírito humano.
Não é traduzindo os velhos poetas sensualistas da Grécia e de Roma; requentando fábulas insonsas diluídas em milhares de versos sem-sabores; não é com idílios grotescos sem expressão nem originalidade, com alusões mitológicas que já faziam bocejar nossos avós; com frases e sentimentos postiços de académico e retórico; com visualidades infantis e puerilidades vãs; com prosas imitadas das algaravias místicas de frades estonteados;com banalidades, com ninharias; não é, sobre tudo, lisonjeando o mau gosto e as péssimas ideias das maiorias, indo atrás delas, tomando por guia a ignorância e a vulgaridade, que se hão de produzir as ideias, as ciências, as crenças, os sentimentos de que a humanidade contemporânea precisa para se reformar como uma fogueira a que a lenha vai faltando.
Mas fora de tudo isto, destas necessidades tradicionais, é o nevoeiro, é o metafisico, é o inatingível—diz v. ex.ª
Todavia, quem pensa e sabe hoje na Europa não é Portugal, não é Lisboa, cuido eu: é Paris, é Londres, é Berlim. Não é a nossa divertida Academia das Ciências, que revolve, decompõe, classifica e explica o mundo dos factos e das ideias. É o Instituto de França, é a Academia cientifica de Berlim, são as escolas de filosofia, de historia, de matemática, de física, de biologia, de todas as ciências e de todas as artes, em França, em Inglaterra, em Alemanha. Pois bem: a Alemanha, a Inglaterra, a França, comprazem-se no nevoeiro, são incompreensíveis e ridículas, são metafisicas também. As três grandes nações pensantes são risíveis diante da critica fradesca do sr. Castilho. Os grandes génios modernos são grotescos e desprezíveis aos olhos baços do banal metrificador português.
O grande espírito filosófico do nosso tempo, a grande criação original, imensa da nossa idade, não passa de confusão e embróglio desprezível para o professor de ninharias, que cuida que se fustiga Hegel, Stuart Mil, Augusto Comte, Herder, Wolf, Vico, Michelet, Proudhon, Litré, Feuerbach, Creuzer, Strauss, Taine, Renan, Buchner, Quinet, a filosofia alemã, a crítica francesa, o positivismo, o naturalismo, a história, a metafísica, as imensas criações da alma moderna, o espírito mesmo da nossa civilização.... que se fustiga tudo isto e se ridiculariza e se derruba com a mesma sem-cerimónia com que ele dá palmatoadas nos seus meninos de 30, 40 e 50 anos, de Lisboa, do Grémio, da Revista Contemporânea!
Quem seguir tudo isto vai com o pensamento moderno; com as tendências da ciência; com os resultados de trinta anos de critica; com a nova escola histórica; com a renovação filosófica; com os pensadores; com os sábios; com os génios; vai com a França; vai com a Alemanha—mas que importa? não vai com o sr. Castilho! não vai com o novo método repentista! não vai com o moderno folhetim português!
O metrificador das Cartas d'Echo diz ao pensador da Filosofia da natureza—tira-te do meu sol!—O mitólogo do dicionário da fábula diz ao profundo descobridor da Simbólica—és um ignorante!—A retórica portuguesa diz à ciência, ao espírito moderno—cala-te daí, papelão!
É que tudo isto não passa de ideias. Ora há uma cousa que o sr. Castilho tomou à sua conta, que não deixa em paz, que nos prometeu destruir... é a metafísica... é o ideal...
O ideal! palavra mística; de gótica configuração; quase impalpável; espiritualista; impopular; que o artigo de fundo repele; que desacreditaria o deputado do centro que a empregasse; que Victor Hugo adora e de que se riem os localistas; que não chega para um folhetim e que enche o maior poema; imensa aos olhos dos que a vêem com os olhos fechados e que nunca viram os que os trazem sempre arregalados; palavra péssima para uma rima de madrigal; palavra que faz desmaiar as beatas; grotesca num botequim; disforme numa sala; medonha numa assembleia de literatos horacianos... decididamente v. ex.ª devia odiar esta desgraçada palavra!
O ideal quer dizer isto: desprezo das vaidades; amor desinteressado da verdade; preocupação exclusiva do grande e do bom; desdém do fútil, do convencional; boa fé; desinteresse; grandeza de alma; simplicidade; nobreza; soberano bom gosto e soberaníssimo bom senso... tudo isto quer dizer esta palavra de cinco letras—ideal.
Por todos estes motivos ela é sobremaneira odiável; ela é desprezível por todas estas causas; e v. ex.ª tem toda a razão, chacoteando, bigodeando, pulverizando esse miserável ideal.

Ele, com efeito, nada do que ele é ou do que vem dele, serve ou pode servir jamais para alguma cousa do que se procura na vida, do que nela procuram os homens graves, os homens sérios, os homens de senso e gosto como v. ex.ª, que nada querem com ideais ou com ideias, mas só com realidades e com tactos; para captar a admiração das turbas; o aplauso das multidões; para formar um grande nome composto de pequeninas letras; para merecer os encómios dos gramaticões e o assombro dos burgueses; para ser das academias; das arcádias; comendador; citado pelos brasileiros retirados do comercio; decorado pelos directores de colégio; o Tirteu dos merceeiro e um Homero constitucional.
Para isto é que não serve o ideal. E é por isso, pela sua absurda inutilidade, que v. ex.ª o apeia com tanta sem cerimonia do pedestal aonde, para o adorarem, o têm posto os loucos que nunca foram nada neste mundo, nem das academias nem do conselho de instrução pública, um Cristo, um Sócrates, um Homero...
Por isso é que v. ex.ª faz muito bem em o destruir, a esse pobre diabo do ideal; de o pôr fora de casa a bofetões; de o banir das suas obras, que não haver por lá nem a mais leve sombra dele. Agradam a todos assim. Os versos de v. ex.ª não têm ideal—mas começam por letra pequena. As suas criticas não têm ideias—mas têm palavras quantas bastem para um dicionário de sinónimos. Os seus poemas líricos não são metafísicos, não precisam duma excessiva atenção, de esforços de pensamento para se compreenderem—e têm a vantagem de não deixarem ver nem um só ideal. Nas suas obras todas há uma falta tão completa dessas incompreensibilidades, que deve pôr muito à sua vontade os leitores que v. ex.ª têm no Brasil. V. ex.ª diz tudo quanto se pode dizer sem ideias—boa, excelente receita para não cair nas nebulosidades do ideal. Os seus escritos são óptimos escritos—menos as ideias: e é v. ex.ª um grande homem—menos o ideal.
Dante, que era um bárbaro, e Shakespeare, que era um selvagem, é que rechearam as suas obras de ideal. Victor Hugo também cai muito nesse defeito. V. ex.ª é que o tem sempre evitado cautelosamente, e por isso não é um bárbaro como Dante, nem selvagem como Shakespeare, nem um mau poeta como Victor Hugo. Não é Dante, nem Shakespeare, nem Hugo—mas é amigo do sr. Viale, que fala latim como Mevio e Bavio.
Mas, ex.mo sr., será possível viver sem ideias? Esta é que é a grande questão. Em Lisboa, no Curso de Letras, na Academia, no Conselho Superior, no Grémio, nos saraus de v. ex.ª, dizem-me que sim, e que é mesmo uma condição para viver bem. Fora de Lisboa, isto é, no resto do mundo, em Paris, Berlim, Londres, Turim, Goetingue, New-York, Boston, países mais desfavorecidos da sorte, na velha Grécia também e mesmo na Roma antiga, é que nunca puderam passar sem essas magnificas inutilidades. Elas o muito que têm feito é servirem de entretenimento aos visionários como Christo (um metafisico bem nebuloso), como Sócrates, como Çakia-Mouni, como Mahomet, como Confúcio e outros sujeitos de nenhuma consideração social, que se entretinham fazendo sistemas com elas, e com os sistemas religiões, e com as religiões povos, e com os povos civilizações, e com as civilizações códigos, leis, sentimentos, amores, paixões, crenças, a alma enfim da humanidade, cousa que se não vê nem rende, e é também inútil e incompreensível. Eis aí o mais a que as ideias têm chegado. Creio que pouco mais ou nada mais têm feito do que isto.
Em Lisboa é que nem isto. Não sei se tem havido quem tente introduzi-las nessa capital. V. ex.ª é que eu tenho a certeza de que não era capaz dessa má acção. Por isso Lisboa não cai como caíram Atenas e Roma, por causa das suas ideias, e Jerusalém e outras cidades infelizes, cujos poetas tiveram um amor demasiado ao ideal... Uma só cousa ficou delas: uma memoria grande, honrosa, nobilíssima. Caíram, mas deram ao mundo um espectáculo raro—o espírito e a consciência humana triunfando da matéria e brilhando no meio das ruínas como a chama que se alimenta da destruição da lenha donde sai e que a gerou. Eu não sei se v. ex.ª acha isto sensato e de bom gosto. Cuido que não. O que eu sei somente é que isto é sublime......................

Paro aqui, ex.mo sr. Muito tinha eu ainda que dizer: mas temo, no ardor do discurso, faltar ao respeito a v. ex.ª, aos seus cabelos brancos. Cuido mesmo que já me escapou uma ou outra frase não tão reverente e tão lisonjeira como eu desejara. Mas é que realmente não sei como hei de dizer, sem parecer ensinar, certas cousas elementares a um homem de sessenta anos; dizê-las eu com os meus vinte e cinco! V. ex.ª aturou-me em tempo no seu colégio do Pórtico, tinha eu ainda dez anos, e confesso que devo à sua muita paciência o pouco francês que ainda hoje sei. Lembra-se, pois, da minha docilidade e adivinha quanto eu desejaria agora pode-lo seguir humildemente nos seus preceitos e nos seus exemplos, em poesia e filosofia como outrora em gramática francesa, na compreensão das verdades eternas como em outro tempo no entendimento das fábulas de La Fontaine. Vejo, porém, com desgosto que temos muitas vezes de renegar aos vinte e cinco anos do culto das autoridades dos dez; e que saber explicar bem Telémaco a crianças não é precisamente quanto basta para dar o direito de ensinar a homens o que sejam razão e gosto. Concluo daqui que a idade não a fazem os cabelos brancos, mas a madureza das ideias, o tino e a seriedade: e, neste ponto, os meus vinte e cinco anos têm-me as verduras de v. ex.ª convencido valerem pelo menos os seus sessenta. Posso pois falar sem desacato. Levanto-me quando os cabelos brancos de v. ex.ª passam diante de mim. Mas o travesso cérebro que está debaixo e as garridas e pequeninas cousas, que saem dele, confesso não me merecerem nem admiração nem respeito, nem ainda estima. A futilidade num velho desgosta-me tanto como a gravidade numa criança. V. ex.ª precisa menos cinquenta anos de idade, ou então mais cinquenta de reflexão.
É por estes motivos todos que lamento do fundo da alma não me poder confessar, como desejava, de v. ex.ª

Nem admirador nem respeitador

Antero do Quental.  
                                                Coimbra 2 de Novembro de 1865.


Notas:
(1) Carta ao editor António Maria Pereira, inserida no Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, Lisboa,1865. 
(2) Teófilo Braga e Vieira de Castro.


Que tanto Antero como Castilho estejam com os espíritos bem laureados nas suas vidas subtis....
E entre nós todos circulem os Anjos e as inspirações ou bênçãos psicomórficas e divinas...

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