sábado, 30 de dezembro de 2017

A VERDADE em si, em nós, no Cosmos...


 Aproximar-nos da Verdade, ou talvez não sairmos muito da Verdade, significará não nos deixarmos enredar e obscurecer pelas mentiras, dúvidas e conflitos, nossos e do mundo e antes estarmos em estudo (studium) e demanda de comunhão com a Verdade, a qual é a essência dos seres e a correspondência justa entre o que é ou somos e o que se pensa e sente, diz e faz. 
A Verdade, no seu nível mais elevado humano, é pois uma ligação e união com o Espírito Divino em nós e a Ordem do Universo em que estamos inseridos,  uma luta pela harmonia, um esforço pela plenitude e felicidade nossa e dos outros, nomeadamente a Natureza, os campos, os animais, tão explorados e violentados...
Esta Verdade, esta realização do Ser e desabrochar,  é nossa no  interior, na alma espiritual e no coração, e é a que por si só nos bastaria, se a conseguíssemos sentir e intuir mais nas nossas meditações, diálogos e vivências.
Assim, temos de a demandar e observar também no exterior e na história, porque algo é a verdade interior, a transparência, sintonia  e comunhão que podemos conseguir com a essência do nosso ser e a sua verticalidade espiritual, outra é a procura dela, mais ou menos activa, por vezes mesmo conflituosa, com as outras aproximações ou realizações da verdade, num mundo interactivo cada vez mais global e no qual milhões de egos, com as suas relativas tendências, informações, conhecimentos e verdades se encontram e confrontam.  
Em termos históricos, o sentimento de que há a Verdade e que portanto se deve  demandar a Verdade é uma característica bem essencial da Humanidade, e não tentaremos cingir mais de onde ela vem, senão apontando para o núcleo mais profundo do nosso ser,  e será a partir dessa imanência quase sanguínea que se deverá compreender tanto  a busca do conhecimento de biliões de seres como também alguma violência quando o sentido de justiça, irmão-gémeo da verdade, indignado perante a falsidade ou violência, sai do amor e usa outra forma de violência para estabelecer limites ou castigos aos erros e falsidades, algo bem próximo da mítica mas bastante real sede justiceira de vingança, tão visível, por exemplo, no que se tem estado a semear tragicamente pelos mais ricos no Médio Oriente e noutras partes do mundo mais sujeitas a violências e opressões.
A demanda da Verdade é então realizada tanto na realidade do dia a dia e das relações humanas e sociais, desde a alimentação à saúde, vivendo-as com discernimento, equanimidade, justiça e com perspectiva contextualizante histórica, como também na demanda do conhecimento que paulatinamente se ergueu na civilização moderna até aos níveis desafiantes, por exemplo, da física quântica, mas sem deixar de a procurar também mais psicologica e espiritualmente  na demanda do conhecimento psíquico, espiritual, filosófico religioso e divino, acima tanto das ditas Escrituras sagradas das várias religiões como também acima da quase religião última, e a sua objectividade replicável laboratorialmente, da ciência moderna.
Poderemos questionar se havendo uma Verdade absoluta poderemos ter acesso a ela, nas condições frequentemente tão limitadas pelos Estados e as políticas e media, ou se devemos antes contentar-nos com as verdades relativas, particulares, específicas, próprias de cada ser na sua humanidade e temporalidade, ou apenas em cada campo do saber que possa investigar mais? 
- "O que é a Verdade", perguntou Pilatos, a Jesus, este respondendo com o silêncio e provavelmente com a irradiação psico-espiritual do que ele conseguira realizar da Verdade e Unidade, e que poderia transmitir aos que acreditando nele se abrissem ao que nele já brilhava. Algo disso em testamento prometeu, nomeadamente aos que se reunissem em seu Nome, que mais do que Jesus, é o de Verdade e a Vida, isto é, o Amor Sábio e Justo provindo do Espírito e da Unidade.
Já Gautama, o Budha, acentuou na procura da Verdade o Caminho do Meio, por um processo de libertação  da ignorância, do desejo e do sofrimento e vivida num posicionamento ora activo ora introspectio correcto, desprendido, sem ego conflituoso antes compassivo. 
A tradição indiana yoguica, que o nutriu, sempre valorizou muito a Verdade, Satya, repudiando a mentira, a falsidade, a hipocrisia e caracterizando mesmo o núcleo essencial do ser humano como Sat, Chit, Ananda, ser verdadeiro, consciência pura e beatitude, mais atingível porém por quem estuda, se disciplina e aspira a tal unificação.
Poderemos então admitir que a Verdade Absoluta é primacial ou primordialmente o Divino Ser-Consciência-Felicidade e depois a Consciência, a Vida Cósmica e o Amor Sábio divinos que perpassam por tudo e todos. Uma Verdade que é também a totalidade coincidente ou harmoniosa do que é e se conhece e se ama, cada um de nós sentindo ou vivendo mais ou menos tal vera Unidade.
Esta Verdade em si mesma é todavia algo de tão infinito, incomensurável e  transcendente que apenas nos é acessível em parte em experiências imanentes místicas ou de expansão de consciência  que a afloram, pelo que temos antes de mais de acolher e trabalhar  os aspectos que estão manifestados na realidade física, energética e psíquica e nos desafiam ao sim e ao não, à verdade e à mentira, à dispersão ou à unificação anímica. Tais desafios ou testes, se são bem resolvidos ou respondidos, permitirão conseguirmos intuir e conhecer, amar e vivenciar mais a Verdade e a Unidade, o Amor e a Divindade.
Nesta vivência entramos ou estamos na Sabedoria-Amor, a qual é uma relação entre a destilação interior de toda a nossa experiência exterior e a arte de conseguirmos unir harmoniosamente o céu e a terra, o universal e o particular, os princípios e os factos, a teoria e a prática, o idealismo e o pragmatismo, o espírito e o corpo, o múltiplo e o essencial, nós e os outros, o eu e o tu, o anjo ou o mestre e cada um de nós.
A Verdade Absoluta está, subjaz ou paira em toda a parte e sobretudo está mais manifesta psíquica e humanamente em cada ser que a admite e se abre a ela, e acende no seu coração a chama da aspiração-realização-irradiação dela, tentando interrelacionar-se correctamente com as ideias, as energias, os seres, o sagrado. Os mestres serão os seres que mais plenamente a realizaram e vivem...
Tal vivência da Verdade manifesta-se num estado de amor e alegria interno e no aprofundamento da luz do discernimento, tentando-se alcançar a visão espiritual dissipadora das ilusões e desenvolvendo-se uma vida ecológica, ética e aprofundante das relações justas e até amorosas entre as partes no Todo, na Unidade, no Infinito Divino.
Mas como poderemos aprofundar a consciência da Unidade, que é a Verdade, se não expandindo e subtilizando a consciência, fazendo-a sair de uma dependência corporal e personalística distorcedora e permitindo-lhe ser banhada pelas águas da inspiração e da intuição da Unidade e da Divindade, através da meditação e contemplação, visão e sonho,  paz e  amor,  força e doçura?
A Verdade, o Bem e o Belo foi e é uma trindade famosa filosófica, e nela somos chamados a cultivar o conhecimento, a ética e a estética ou beleza. E inegavelmente a Verdade está intimamente dependente de uma vivência ética e estética, se queremos vivenciar a sua plenitude libertadora. 
Maat, a palavra justa e verdadeira no Egipto marcava esse coincidência entre o que se pensava e conhecia, sentia e se amava e, finalmente, o que se fazia, dizia e se vivenciava...
A busca da Verdade, e sobretudo do que deve ser o nosso agir, ou o que vai acontecer, leva muitas pessoas a entrarem em técnicas, saberes e mistagogias de adivinhação, em geral deixando-se explorar por intermediários semi-ignorantes, mas sem dúvida a melhor forma de nos alinharmos mais com a Verdade será sempre o silêncio meditativo e o alinhamento ou sintonização receptiva com o subcampo unificado de energia-informação- consciência, ou corpo místico da Humanidade, que diz respeito a nós e ao nosso papel funcional e criativo nele. E eventualmente o diálogo com as pessoas afins e sábias, algo muito desenvolvido no Oriente com a ideia de sangha, comunidade, e satsanga, companhia da Verdade.
Sermos verdadeiros é então o caminho estreito ou árduo de não nos deixarmos submeter ou influenciar demasiado pela sociedade e os outros, a violência, a falsidade e não trocarmos demasiado a Verdade e a comunhão com ela pela dispersão consumista ou alienante. E antes, frequentemente, sintonizarmos com o que do mundo subtil, espiritual e ético do Cosmos, do Bem e da Divindade (adorada e acolhida seja) se quer afirmar e podemos irradiar criativa e corajosa, sábia e amorosamente..

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