terça-feira, 17 de outubro de 2017

O Auto da Vida Eterna e o ocultismo de Augusto de Santa Rita; e Fernando Pessoa

 O Ocultismo e a Espiritualidade de Augusto de Santa-Rita, em especial no Auto da Vida Eterna. Transcrevemos o proémio, e falaremos do seu relacionamento com Fernando Pessoa, nomeadamente na revista Exílio, dada à luz em 1916, bem como a apreciação que o poeta da Mensagem faz ao Auto da Vida Eterna, impresso em 1925.  
Na revista Exílio Fernando Pessoa afirmou fortemente o ocultismo de Orpheu e dos que a seguiam no texto final.
O
 Auto da Vida Eterna, publicado em Lisboa em 1925, proporciona uma boa entrada nna sensibilidade astral, na sublimidade de visão do Amor e no conhecimento ocultista de Augusto de Santa Rita, em suma, na sua espiritualidade e cosmovisão, a qual podemos considerar próxima da desenvolvida por Fernando Pessoa, que a valorizará ou elogiará, se descontarmos tanto o maior conhecimento esotérico como a menor abertura do poeta da Mensagem aos aspectos femininos, nomeadamente a Maria, mãe de Jesus (ao contrário de Santa-Rita que como António Boto poetizaram Nossa Senhora de Fátima), ainda que a poucas semanas de morrer tivesse voltado a ela e à sua invocação poético-orativa.
No proémio, que transcrevemos, escrito provavelmente antes da peça, destacaremos o carácter mântrico, ou seja, de se poderem orar, de alguns versos, e sobremodo o segundo da tríade inicial: “Místico encanto/ Graça bendita,/ Alma infinita,/ Espírito santo” o qual tanto se pode ligar a Maria, como ao Espírito Santo, como à alma humana aberta ao Espírito. 
Após tal invocação trina divina dá-se, à graças ao misterioso ou anónimo génio (expressão-estado de consciência-ser, já invocada na revista Exílio, como a descida «do Anjo da Guarda do autor do poema», originalíssima utilização do Anjo da Guarda, o qual expõe em belas quadras a «génese da peça e o estranho tema», vindo para «falar do Além, da Eternidade», seguindo-se uma bela série de analogias da luz angélica com a vida humana e a natureza, tendendo a despertar ou fazer «palpitar o Coração das Cousas» e seres e que a visão interior do poeta capta e partilha, desvendando, por exemplo, muito lapidarmente, que:  
                        «Há depois desta Vida outra existência,
                        Que é outra realidade mais real;
                        Em tudo quando existe há uma essência
                        Divina, eterna e sobrenatural».
E que «quem ama traz as chaves do Céu na própria mão».
Eis a transcrição do proémio: 
                                        «VISÃO
                                          Proémio
       Sobe o pano... O do fundo, em translucido azul
       E em cuja face incide um foco: - oiro e lilaz,
       Conserva-se descido, ecoando por detrás,
       Uma coral canção longínqua, vaga, exul!...

             CORO CELESTIAL, como em nocturna paz
                                    As virações do Sul:

                                    Virgem Maria,
                                     Mãe de Jesus,
                                     Divina Luz...
                                     Eterno Dia!
 
Místico encanto                                  Claro esplendor
Graça bendita                                      Hosanna aos Céus
Alma infinita                                       Hosanna a Deus
'spirito Santo!                                       Nosso Senhor
                     De súbito um relâmpago se faz,
                          Relâmpago de génio,
                          O génio que em si traz
                  Um Anjo que do Céu baixa ao proscénio,
                  Anjo de essência excepcional, divina,
          O ANJO DA GUARDA DO AUTOR DO POEMA
                 Que expõe, ao som da música, em surdina,
                 A génesis da peça e o estranho tema:

         Salvé Mortais!... Baixei dos Céus, neste momento,
         Para vos vir falar do Além, da Eternidade!
         Sou o Anjo da Guarda, o Guia, Amparo, Alento
         De um Poeta que tem cem mil anos de idade!
 
        Que morre de hora a hora e nasce a cada instante,
        Que os Céus, a Terra, o Mar e as coisas decorou
        Na memória do Instinto, eterno caminhante,
        Em cujo alforge ideal tudo o que viu guardou.

        Sou o Anjo da Guarda, a Sombra que se esbate
        Em penumbra, se esconde e apenas se presente
        Quando, pela noitinha, à luz de uma cor mate
        É uma voz que segreda à alma de toda a gente.

       Sou essa luz que fala, em silêncio rezando,
       Murmurando, dolente, uma nova linguagem
       Que alguns não sabem ler, mas que outros soletrando,
       Começam a entender nos bafejos da aragem.

       Sou essa luz que fala e que um Poeta ouviu,
       E ouvindo-a, a estendeu! Sou essa voz divina
       Que embala o Mar à noite e à tarde em cada rio
       Se ouve rezar, orando uma prece em surdina.

       A luz que ao pôr do Sol encara as gelosias,
      Bate, leve, à vidraça e acena adeus às almas;
      Sou a luz que, ao soar na ermida Avé-Marias,
      Faz joelhar os jardins ao baloiçar das palmas...

      Sou a luz da manhã, quando os lírios, no val',  
      E as camélias, no parque, acordam do seu sono;
      Que ao sorrir, para os Céus, ergue o seu avental,
      No gesto que traduz a Primavera e o Outono.

      A luz azul-violeta, a lua, pelos astros,
      Beijando a solidão na quieta paz das lousas;
      Que extasia de espanto as torres e alabastros,
      Fazendo palpitar o coração das Cousas!
 
      Sou essa luz... a luz que já não é só luz
      A luz que Deus filtrou num filtro d'oiro: a Hora. 
      Luz-essência, Luz-fé, Luz-Alma de Jesus,
      Que, de tanto chispar, se fez clarão de Aurora.

     A luz que não alcança a retina do astrólogo
     E que só a Visão do Poeta, atinge e vê,
     Corporizada aqui, neste proémio-prólogo,
     Para vos vir dizer o que este poema é.

      Há depois desta Vida outra existência,
      Que é outra realidade mais real;
      Em tudo quando existe há uma essência
      Divina, eterna e sobrenatural.

      É, pois, essa existência e esse outro Mundo,
      Que ides ver perpassar, com pasmo e assombro,
      Pisando o mesmo lodaçal imundo,
      De braço dado, ou antes, de ombro a ombro!

       Nada mais achareis que um simples drama
       De um grande Amor, de uma eternal paixão,
       Mas esse pouco é tudo, pois quem ama
      Traz as chaves do Céu na própria mão!

      Chaves com que eu irei abrir as portas
      Do Céu, do Alem, de toda a Eternidade;
      A fim de que aprendeis que as coisas mortas
      São as coisas mais vivas em verdade!
                  …............................
    Ficai atentos!... Preparai as almas
    Para a divina comunhão da vista!
    Se entenderdes, no fim, coroai com palmas
    Não o autor, mas Deus: - o Único Artista!

     E num rápido voo ascensional,
     O Anjo excepcional,
     Desaparece, abandonando o Mundo,
     Num melódico gesto de harmonia;
 
      O translúcido pano azul do fundo
      Ergue-se e logo a peça principia.» 


Como vemos, um magnífico proémio cheio de sensibilidade e conhecimento subtis, transmitindo uma intensificação da beleza no mundo pela sua espiritualidade divina imanente.
       E segue-se o belo e emocionante auto, em 3 Sonhos e nove Cânticas, em cerca de 170 páginas, tudo num belo livro de formato in-4º impresso em papel de linho e com desenhos e vinhetas de Eduardo Malta.
      Este teatro lírico trata do amor do poeta Gabriel e da etérea Leonor e faz entrar em cena tanto o corpo astral de cada um como o Anjo de Guarda deles, e revela bastante sensibilidade e intuição ao mundo astral, com a sua dualidade, e à vida depois da morte, bem como aos Anjos, ao Amor, aos mundos espirituais e à Divindade.
 
    Não admira assim que Fernando Pessoa muito apreciasse Augusto de Santa Rita e depois de já ter colaborado na sua revista Exílio de Abril de 1916 (sobre a qual gravei uns vídeos para o youtube e escrevi em: http://www.revistas2.uepg.br/index.php/uniletras/article/view/9409), e de ter assinalado numa carta de Setembro do mesmo ano a Armando Côrtes-Rodrigues, após mencionar que Orpheu 3 em breve estaria nas bancas, que de importante literáriamente só havia a registar, além do Manifesto anti-Dantas de Almada Negreiros, a Luz Poeirenta de Silva Tavares, dedicado a ele, e as Praias do Mistério de Augusto de Santa-Rita (uma obra com bastante sensibilidade às subtis almas e Anjos), escrevesse em 1925, num texto inédito até hoje, e a que já me referi uma ou outra vez, um novo elogio forte de Augusto de Santa Rita.
Oiçamo-lo então em alguns extractos desse texto que fala do ocultismo de Fernando Pessoa, de Orpheu e de Augusto Santa Rita:
«O ocultismo, porém, como a todas as religiões transcende e excede, excede e transcende cada um per si através dela mesma. Não lhe diminui os símbolos, as lendas e os ritos, senão que os eleva, interpretando-os, para fora da materialidade que lhes impôs o baixo espírito, crédulo que não crente, da maioria dos seus fiéis.(...)
«Como se têm infiltrado na mesma substância da inteligência europeia, é de ver que as ideias teosóficas e ocultistas por toda a aparte aparecem na literatura. Aparecem de três modos distintos: com teorias formando parte da tese ou fábula da obra – o que se vê nos numerosos romances ocultistas que hoje se escrevem; como emoção profunda de mistério e de além permeando indefinidamente já a fábula, já o estilo, já ambas as coisas – como tanto consciente como inconscientemente se faz em Portugal (mais e melhor que em qualquer outro ponto) na corrente que surgiu no Orpheu; como novo modo de encarar os antigos ritos e lendas que constituem a substância aparente do cristianismo, e sobretudo da sua parte pagã, que é a religião católica.
Esta última espécie de infiltração ocultista é a mais rara de todas. É a ela que claramente pertence – e entre nós é, creio, a primeira obra distintivamente dessa espécie – o Auto da Vida Eterna, de Augusto de Santa Rita. Num enredo, ou fábula, formado directamente de elementos católicos e sentimentais, no pleno sentido tradicional entre nós, infiltra o poeta – sem contradição real e com verdadeira emoção sincrética – vários elementos do ocultismo, e designadamente a sua teoria do corpo astral. Não leva Santa Rita esta sua interpretação ao ponto herético de não afirmar claramente a imortalidade da alma, afirmando tão somente a sua sobrevivência».
***  

 Como todos sabemos, se ambos os poetas nasceram no mesmo ano de 1888, Santa Rita uns meses antes,  outra seria a longevidade de Augusto de Santa Rita que publicaria ainda em vida de Fernando Pessoa vários contos infantis e juvenis (além de fundar e dirigir desde 1925 a famosa revista infantil Pim Pam Pum) e o Poema de Fátima (1928), no qual insere no proémio um veio pagão e islâmico de uma princesa de nome de Fátima convertida ao amor de um cavaleiro cristão e logo ao Cristianismo, desenvolvendo depois a hagiografia mariana dos três pastorinhos. 
Vinte e dois depois do poeta da Mensagem ter partido deste mundo físico, em 1957, era a vez de Augusto de Santa Rita despreender-se, sem que nesse ano não fosse publicado postumamente pela Câmara Municipal de Lisboa o seu belo livro O poema de Lisboa, mas será em 1952, que sai à luz o Caderno nº 1 Produções Literárias d'Augusto de Santa-Rita, onde um testamento de  ideias e espiritualidade se transmite (nomeadamente as Coisas que convém saber e dedicado ao pai do nosso companheiro e alma desta homenagem, Guilherme de Santa Rita), do qual destacaremos os dois últimos parágrafos do Preâmbulo e depois uma proposta-realização semi-pessoana. Oiçamo-lo então: 
«Fazer versos não é um simples entretenimento como, por exemplo, fazer ou decifrar palavras cruzadas. É uma nobre missão, um apostolado que se cumpre por uma imposição terminante da própria existência espiritual, depois de muito experimentada pelo sofrimento de sucessivas gerações ancestrais.
Poesia é a a exaltação da Vida com todas as suas manifestações de dor e alegria, de Passado e Presente, de pecado e de redenção. É uma forma de agradecimento a Deus pela divina dádiva do Amor, uma prova de gratidão e uma expressão de humildade, que é a maior, a melhor e a mais bela conquista das criaturas humanas.»
Quanto à proposta, e já na época de certo modo realizada, e com qual encerramos este artigo de homenagem aos irmãos Santa Rita e a Fernando Pessoa, na véspera do debate de 18-X-2017 que a Casa Fernando Pessoa acolhe e homenageia, intitulado Os irmãos Santa Rita e Fernando Pessoa. Dos cafés do Chiado às tertúlias no Estoril (com a participação do Guilherme de Santa Rita, João MacDonald e eu), foi a seguinte, que conclui um texto de Santa Rita intitulado Iniciativas particulares. «Imaginar, sonhar, tentar, executar e apresentar»: «Alguém se lembrou já entre nós, de construir na rua Coelho da Rocha uma série de estúdios para artistas plásticos (...)» 

E eis-nos  imaginalmente numa humanística domus studium de Fernando Pessoa, sob a égide  dele e dos Santa Rita ou, quem sabe, dos misteriosos Génios ou Anjos...

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