sábado, 28 de outubro de 2017

Do Ocultismo e da Espiritualidade em Fernando Pessoa.

Embora poucas pessoas conheçam o ocultismo e espiritualidade de Fernando Pessoa, não é difícil entrar em contacto com a sabedoria ou gnose realizada na sua curta vida de 47 anos, pois deixou-a semeada em muitos poemas, textos e entrevistas, ainda que por vezes de formas discretas ou pouco perceptíveis...
 47 anos, escassos face ao muito que escreveu e causou como génio que era, ou seja, um ser espiritual que à nascença já vinha com  sensibilidade, inteligência e criatividade notáveis. Ele viria mesmo a escrever que o génio era um iniciado à nascença e estudaria e referiria tal situação, por exemplo, em Bacon e Shakespeare: «Iniciado exotérico é, por exemplo, qualquer mação, ou qualquer discípulo menor de uma sociedade teosófica ou antroposófica. Iniciado esotérico é, por exemplo, um Rosa-Cruz, um Francis Bacon, seja. Iniciado Divino é, por exemplo, um Shakespeare. A este tipo de iniciação vulgarmente se chama génio.
Quando Shakespeare disse, "uns nascem grandes, outros chegam à grandeza, a outros é a grandeza imposta" deu, talvez sem querer e julgando ser simplesmente irónico, a chave das três iniciações, na ordem descendente». E noutros textos, evocando de novo Shakespeare (a quem chamou confrade), desenvolve  questionamentos elevados sobre o génio enquanto proximidade ou ligação ao mestre, ao Eu superior,  ao Anjo e a Deus.

Não chegou aos 49 anos, os sete vezes sete, talvez em sincronia com uma vida que não lhe correra tão bem como desejara e antevira e, de facto, quando morreu em 1935 era ainda em grande parte inédito e pouco reconhecido, a não ser por uma minoria de intelectuais, sobretudo lisboetas, ocultistas, modernistas e monárquicos e, por fim, pela geração da revista coimbrã Presença, da qual seria a certo nível um mestre, em especial para João Gaspar Simões e Adolfo Casais Monteiro, e serão umas poucas dezenas de amigos entristecidos que o acompanharão na sua última viagem terrena, a que levou o seu corpo físico para o cemitério dos Prazeres, subtis, em Campo de Ourique, bem perto da sua casa dos últimos anos na rua Coelho da Rocha e onde se ergue hoje a sua casa museu de cultura e poesia.
E contudo tivera os seus momentos de fama na revista Orpheu em 1915 e em 1934 quando publicou a Mensagem num concurso de poesia do S.N.I. e recebera apenas o prémio Antero de Quental, reforçado monetariamente para o galardoar quase que compensatoriamente, pois o prémio principal  fora atribuído algo conservadoramente a uma Romaria, poemas de um padre com pouquíssimo valor, como o premiado veio a confessar, ou quase a penitenciar-se anos mais tarde. 
E como Salazar instaurara a regra de "tem de se dizer isto e não se pode dizer aquilo". Fernando Pessoa escreveria em papéis que se conservaram inéditos, nesse ano final de 1934-35, que já não publicaria mais nada para não dar trabalho aos funcionários da censura. O poema "Nevoeiro" com que termina a Mensagem está bem em sintonia com o que se passava e de certo modo, a certos níveis mais profundos, ainda permanece um pouco:
«Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)


Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora! 


Valete, Fratres.» 
Termina, todavia, com o apelo a que «é a Hora», uma expressão que usou por vezes na sua ânsia de renovação nacional, e com uma saudação espiritual em latim dirigida aos irmãos. Valete, Fratres. Força, saúde, vale, Irmãos... Então e agora...
Podemos então constatar que, apesar de uma certa desgraça individual e nacional, apesar do isolamento afectivo, da fraca situação económica, do álcool e do tabaco e de certa tristeza e depressão, Fernando Pessoa mantinha a chama interior, a imensa inteligência sensível activa e continuava na demanda oculta e espiritual, que uns meses antes de morrer reafirmaria mesmo em três textos importantes, o último dos quais a sua nota autobiográfica ou testamento anímico de 30 de Março de 1935, a fazer lembrar a nota autobiográfica que Antero de Quental passara em 1887, a Willhelm Stork, o tradutor dos seus Sonetos para alemão, sonetos que também o jovem Fernando Pessoa traduzia para inglês, a que se vieram juntar as versões de Edgar Prestage.
E tal como a doença misteriosa e a morte voluntária de Antero suscitaram interrogações e teorias, também a morte precoce de Fernando Pessoa as gerou, em especial tentando-se compreender o  que se teria passado de errado, ou quando é que começara a desenhar-se a desencarnação precoce, temida até por ele em cálculos astrológicos, impedindo-o de realizar os seus anseios mais espirituais e literários, embora já em vida tivesse vislumbres que estes teriam sucesso e depois de morto concretizando-se imparavelmente com a publicação e a consagração da sua obra em grande parte inédita, em primeiro lugar os seus heterónimos, depois o Livro do Desassossego e muitos dos seus textos de análise sociológica e política, os seus poemas ortónimos, e alguma da sua parte ocultista, tanto astrológica como esotérica. 
Não é contudo fácil discernir bem ou hierarquizar quantitativa e qualitativamente os vários factores psíquicos que foram contribuindo para a desagregação orgânica, pesem contributos bons como os de João Gaspar Simões, Dalila Pereira da Costa e António Quadros. Em geral pensa-se na pouca ritmicidade saudável e sobretudo  no tabaco e do álcool, neste caso testemunhando a própria namorada Ofélia em carta de 4-V-1930, ao avisá-lo profeticamente: «Estrague-se Nininho, depois, quando quiser remediar o mal já não pode»...

Se tentarmos observar a curva espiralada da sua vida constataremos um despertar grande precoce, tal como Antero de Quental estudantil, que culmina em intensidade nos anos de 1912 a 1916, a época em que anuncia na revista portuense Águia a vinda de um Super-Camões e, quando além do esfusiar literário e humano da revista  Orpheu, e dos heterónimos, traduz obras do ocultismo teosófico orientalista e tem mesmo certas experiências psíquicas, assinaladas na famosa carta à tia Anica, de 24 de Junho de 1916: «Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam «a visão astral», e também a chamada «visão etérica». Tudo isto está muito em princípio, mas não admite dúvidas. É tudo, por enquanto, imperfeito e em certos momentos só, mas nesses momentos existe».
Pensamos que tais capacidades se possam ter mantido como um  estado de graça subtil pelo menos até aos começos da década de 1920, pois nesse ano, em 29 de Novembro,  em defesa do corte dos laços do namoro com Ofélia Queiroz, alega, embora talvez algo mistagogicamente, que tem de seguir os Mestres e as suas disciplinas: «Que isto de "outras afeições" e de "outros caminhos" é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam». 

Arthur Highes, "Ophelia". 1852. Reprodução parcial.
Oito anos depois, em grande parte de trabalhos comerciais, poemas (English Poems I, II e III), colaborações em revistas (sobretudo a Contemporânea e a Athena, iniciando na Presença em 1927),  Livro do Desassossego e Fausto, retoma o seu namoro e correspondência por cerca de um ano e ao terminar pela segunda vez a razão que dá é dormir com uma lápis na mão e a ânsia da obra literária que tinha de cumprir,  não evocando já os mestres.
Ophelia, por Millais, um dos notáveis pre-rafaelitas...
Independentemente de a morte de cada ser vir como fruto de vários factores interiores e ambientais, poderemos perguntar se terá sido o cultivar de ideias, imagens e sentimentos negativos, tão presente nos últimos anos da sua vida na poesia, uma das principais causas? Não reflecte tal a escolha das obras de fundo da sua vida, tais como o Livro do Desassossego e do Fausto, tão cinzentas, depressivas ou abismais por vezes?
Terá a sua ligação com o famoso ocultista de magia de todos os tipos Aleister Crowley contribuído para o desagregar? Não cremos, embora Raul Leal, que foi iniciado por A. Crowley quando este veio em 1930 a Lisboa encontrar-se com F. Pessoa ponha essa hipótese bastantes anos mais tarde numa entrevista, e Fernando Pessoa tenha confessado num apontamento longamente inédito a sua iniciação, directa ou indirecta, por ele.
E as ligações com os Mestres ou Superiores incógnitos, com os Anjos, com Cristo e com Deus, como alguns textos ou poemas parecem indicar, que forças lhe deram, que influências benéficas nele derramaram?
Se repararmos bem, no final da sua vida, quanto aos Mestres
, num poema de 5-IX-1934, intitulado Superiores Incógnitos, que publiquei em 1988, diz «Nunca os vi nem falei/ E eles me têm guiado/ Segundo a forma e a lei/ Do que, ainda que conhecido,/ Tem quee ficar ignorado», acrescentando ainda quanto ao Anjo:
«Mãos do meu Anjo da Guarda,
Que bem guiais, como dois,
O meu ser que teme e tarda,
Postas firmes nos meus ombros
Sem de que eu saiba de quem sois!

Vou pela noite infiel
Sentindo a aurora raiar
Por detrás do alguém que me impele;
Mas já adiante de mim
Vejo a luz a se espelhar.»

 E relembremos ainda sua afirmação, ecoando a de outros, que «a conversação com o santo Anjo da Guarda é a mais alta obra de magia». 
Já quanto a Deus são dezenas e dezenas as páginas de especulações sobre a Divindade, o Cristo, a Trindade e os vários níveis, escalas ou graus de seres humanos normais, iniciados,  mestres, anjos,  deuses e a Trindade, mas diz em mais de uma passagem que não crê na comunicação directa com Ele, tal como nesta: «para fins práticos, o plano arcangélico e o sobreplano divino têm que ser eliminados da nossa consideração, pois, salvo no íntimo inatingível do nosso ser, estamos fora do contacto com esses níveis. O máximo que se alcança na iniciação humana é o plano astral; o máximo que se atinge na iniciação sobrehumana é o plano espiritual.»  
Contudo, nos últimos dias ou meses da sua vida creio que rompeu com tais delimitações que lhe vinham do ocultismo, da cabala, da magia e da maçonaria escrevendo, por exemplo, aqui traduzido do inglês:«O homem de génio é um iniciado da mão-esquerda. Shakespeare. É um iniciado que sente, mas que não conhece, a sua iniciação./ A iniciação é a admissão à conversação com os Anjos. Alguns ouvem e outros ouvem e vêem. Os primeiros estão na esquerda, os outros na direita./ A essência da doutrina oculta é que não há comunicação com Deus. ( [Martins] Pasqualls a [Louis Claude] Saint-Martin). A essência do misticismo é procurar essa comunicação, quebrar os limites da pluralidade (fado)./ (1) Conhecimento e conversação com o Anjo da Guarda. (2) Conhecimento de outros Anjos. (3) Caminho para Deus.»

Embora Fernando Pessoa pareça não ter uma frequência tanto clarividente como mística grande nos últimos anos da sua vida, espelha porém em vários textos  uma boa compreensão do  ser humano psico-espiritual e do Caminho, nas suas vertentes místicas (emoção), alquímicas e gnósticas (inteligência) e mágicas (vontade), e dos seus perigos e limitações, ecoando por vezes algo de pessoal e de mais místico em algumas notas pouco (re)conhecidas ainda hoje...
Mas sabe-se   pouco destes assuntos e aspectos pois quase não houve ainda comentadores à altura e profundidade de tal tarefa, algo clarividente e iniciática, apenas algumas publicações isoladas de pessoas, mais ou menos de boa vontade, mais ou menos ligadas a este grupo, doutrina ou preconceitos, mais ou menos conhecedoras. Certamente algumas com boas compreensões ou relações bem discernidas, mas outras opinando sem saberem, juntando textos inéditos que não estavam juntos, ou dando-lhes títulos enganadores, ou não transcrevendo certas partes ou anotações, ou ainda vendo confusão e confundindo ao não compreenderem, ao não meditarem, ao não fazerem o caminho espiritual que Fernando Pessoa de certos modos conheceu, fez e escreveu...
Se queremos aproximar-nos do esoterismo e espiritualidade de Fernando Pessoa temos de concentrar-nos nos seus ensinamentos mais valiosos, e tentarmos compará-los e aprofundá-los num ou outro texto, ver o seu lado interior ou superior e, vivenciando-o, podê-lo compreender e explicar, nomeadamente no que ele apenas repetia ou seguia e no que era original ou intuitivo, no que provavelmente errou, ou mistificou e no que desenhou perfeitamente...
Fernando Pessoa leu e escreveu muito sobre as religiões, os Mistérios, o Cristianismo,
as profecias, o sebastianismo, o simbolismo nas tradições e nos grandes autores, o ocultismo, a astrologia, a iniciação, as ordens secretas e altas ordens mágicas, a Ordem do Templo e a Ordem de Cristo, os Rosacruzes e a Maçonaria,  no fundo sobre certas linhagens esotéricas e espirituais, e a sua visão e gnose, que certamente foi bastante ampla mesmo com as limitações do ocultismo-esoterismo da época e as próprias que ele traçou por afinidades e repulsões,   culminou em vários poemas de grande qualidade literária e espiritual, nomeadamente na Mensagem e, em 1935, na sua confissão de ser um cristão gnóstico e um iniciado nos três graus menores da aparentemente extinta Ordem Templária de Portugal. 
 
A sua evolução do Catolicismo normal até ao de iniciado Templário foi longa e publiquei em 1988, na obra Moral, Regras de Vida e Condições de Iniciação, um contributo para tal, assinalando a sua procura dos sentidos e regras de vida e depois da iniciação, com o estabelecimento de alguns textos sobre as condições da iniciação e finalmente um escrito com datas dos cinco últimos anos da sua vida relativas ao preenchimento de tais condições e graus, as quais correspondiam a certas provas, testes ou estados. 
Mas termos certezas firmes sobre os estados doutrinários, psíquicos e iniciáticos de Fernando Pessoa no fim da sua vida não é fácil, tal como compreender-se e aceitar-se a sua evolução espiritual, daí que para muitos dos comentadores de Fernando Pessoa, e em especial os mais materialistas ou anti-espiritualistas, o seu esoterismo era uma mistificação, um faz de conta, um exercício intelectual descrente, ou uma demanda proveniente de frustrações sexuais. 
Contudo, as afirmações, textos e poemas feitos ao longo de tantos anos, o tempo, dinheiro e energias que gastou até praticamente ao fim em tal demanda, e as suas atitudes no último ano da sua vida em corajosa defesa pública da liberdade de associação das Ordens Secretas (noutro curto momento de fama, nos jornais, pelos ataques que sofreu) e a sua confissão como Cristão gnóstico e iniciado na tradição Templária obrigam-nos a sermos menos superficiais, materialistas ou tendenciosos e a tentarmos estudar e compreender melhor o muito que ele nos deixou escrito ou poetizado, por vezes com grande beleza ou profundidade, sobre tais aspectos do ser e do cosmos e do vaso ou graal da Tradição Espiritual.
Para além dessa leitura com a Luz e o Amor despertos, que Luís de Camões também pedia para o entenderem, outro dos instrumentos críticos ou científicos, se assim quisermos chamar, a estudarmos são as fontes lidas por  ele , e as pessoas, doutrinas ou tradições com quem conviveu ou que conheceu e o inspiraram ou influenciaram. 
Ora hoje com o seu espólio de textos digitalizados e com a sua biblioteca pessoal na casa Fernando Pessoa e no domínio público podemos discernir melhor a importância das suas fontes ou referências, pela quantidade de obras do mesmo autor ou do mesmo tema, pelas muitas obras  anotadas e sublinhadas, ou referidas expressamente por ele e, finalmente, aquelas cujo conteúdo se encontra ou reflecte nas doutrinas, textos e poemas de Fernando Pessoa. 
Há  muito por se fazer neste sentido, apesar de alguns contributos já dados em colóquios ou revistas. O Fernando Pessoa que se tem divulgado e se quer divulgar inclui pouco ou nada o mais oculto ou espiritual. E é natural nos nossos dias de pensamentos e obras bem influenciados por um Sistema civilizacional em grande parte delimitador e massificante, que aceita e realça bem mais as aparências espectaculares do que as essências valiosas. 
 Contudo, como ele terminou um dos tais textos mais importantes da sua vida, o seu testamento de 30-III-1935, dizendo-nos: «Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania»,  temos a obrigação de demandar a Luz e testemunhá-la, fazendo-o aliás de acordo com os seus três princípios das ordem espiritual de Portugal que ele sonhava restaurar, na continuidade da Templária e da Ordem de Cristo: «Talent de bien faire. (1) Executar na máxima perfeição todos os actos da vida, e sobretudo todos os actos da vida superior. (2) Fazer o bem. (3) Criar a vinda do Bem.» 
Saibamos pois aprofundar harmoniosamente e corajosamente a nossa inserção na Tradição Espiritual e Portuguesa ou, que seja, a nossa realização social e espiritual e as ligações e nós, em filigrana dourada, fraternos, subtis, espirituais, celestiais e divinos.

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