domingo, 16 de julho de 2017

O mais belo poema de amor de Antero de Quental, "À Beira Mar". Figueira da Foz, 1860. Comentado por Pedro Teixeira da Mota.

Um dos mais belos poemas de Amor de Antero, senão mesmo o mais belo ou conseguido, é certamente aquele escrito em 1860, junto ao Oceano Atlântico, na Figueira da Foz, com 18 anos, quando era estudante em Coimbra,  e foi intitulado "À Beira Mar" . Nele, a sua alma juvenil, plena de aspiração e amor, desvenda-se e transmite-nos uma bela realização do Amor Eterno e Divino.

Foi o poema lido e comentado numa gravação, em Julho de 2017, que pode ouvir em seguida. No fim, encontra-se a transcrição do poema,  com a adaptação de algumas palavras à ortografia portuguesa dos séculos XX e XXI.
Se havia mesmo uma Amada na alma de Antero nesse momento, ou se foi dirigido à Amada perene será difícil ter a certeza ainda que se possa intuir subtilmente o momento, os movimentos anímicos em sintonia com a natureza e, quem sabe, as faces...

                     

                                                                    À BEIRA MAR                                                  
                         O CREPÚSCULO
"Oh! vem Maria! sobre a rocha erguida
Em ásp'ra costa, sobranceira ao mar,
Vamos sozinhos ver as brancas ondas
Sobre os rochedos, em cachões, saltar!

Ali, bem juntos, ao cair da tarde,
De mãos trocadas a falar de amor,
Quero, ao contar-te mil segredos d'alma,
Ver-te nas faces virginal pudor.

É próprio o sitio, é propicia a hora,
Incerta, dúbia entre sombra e luz;
Já descem trevas pelos fundos vales,
Inda algum brilho sobre o mar reluz:

Inda no dorso das inquietas ondas
Dourada fita tremeluz, além;
Mas, já ao longe, da campina os viços,
Envolvem sombras que dos montes vêm.

Gigante imenso de esplendor e brilho,
O sol, um instante, viu-se ali nutar;
Depois cansado, declinando rápido
A lassa fronte repousou no mar.

Semelha ao entrar-lhe pelo seio túmido,
Que de mil fogos inda foi tingir,
Medalha de ouro, que em caldeira imensa,
A pouco e pouco visse alguém fundir.

Em tanto a sombra vai descendo os montes
E envolve as terras misterioso véu;
Já se divisa, vergonhosa e tímida,
Pálida estrela tremular no céu:

Como em teu seio, pura virgem, nasce
Ligeira magoa de fugaz pesar,
Que vai crescendo, e transmudada em lágrimas
Te vem dos olhos nos cristais brilhar:

Como nos brota dentro de alma, e lavra
A pouco e pouco no veloz crescer,
Algum afecto que em paixão tornado
Nos vem no peito com fulgor arder:

Assim da estrela nasce o brilho, e cresce
A pouco e pouco pelo céu de anil;
Ponto luzente, no começo apenas,
Por fim brilhante, entre safiras mil.

Soidão calada pela terra alarga-se
Preludio augusto da nocturna voz;
Em doce enlêvo, cisma o homem stático
Em Deus, consigo meditando a sós.

Hora saudosa de incerteza mística,
De luta harmónica entre sombra e luz.
Por ti nos desce sobre o seio ardente
A santa crença que p'ra Deus conduz!

Hora em que é grato no regaço amigo
De alguma esperança de melhor porvir,
Olvidar magoas de um presente incerto,
E, esp'rando, e crendo, nessa fé dormir.

Em que amor gera dentro de alma os laços
Que as almas ligam com estreito nó,
E que no arroubo de amoroso rapto
Funde dois seres numa vida só.

E eu também quero sentir n'alma os íntimos
Celestes gozos que esta hora tem;
Em livro aberto ler um nome augusto
Que em letras de ouro vejo escrito além.

E no regaço da mulher amada,
Que é minha esp'rança de melhor porvir,
Quero estas magoas ir depor e apenas
Guardar um peito para amor sentir.

E antes que as terras iluminem fogos,
Com a luz divina que o Senhor lhe deu;
E antes que morram esses brilhos últimos
Do sol nas dobras do nocturno véu;

Quero ao soído gemedor das ondas
Casar as mágoas deste imenso amor,
Ardente e puro, como aqueles lumes
Candentes focos de vivaz fulgor.

Quero nas horas do crepúsculo ameno
Sobre o rochedo sobranceiro ao mar,
Aos pés da virgem que escolheu minha alma
Ler-lhe nos olhos confissões sem par."
                    Figueira da Foz, 1860.

Talvez a quadra mais bela e profunda na doutrina dos Cavaleiros de Amor, ou Fiéis do Amor, tão essencial na Tradição Espiritual Portuguesa, seja a que transcrevemos de novo:
"Em que amor gera dentro de alma os laços
Que as almas ligam com estreito nó,
E que no arroubo de amoroso rapto
Funde dois seres numa vida só."
LUZ e AMOR para ANTERO  e para as Almas que o lêem, ouvem e amam....

2 comentários:

CASA DA EIRA disse...

Gratidão pela sábia interpretação das palavras de Antero neste crepúsculo à beira mar.

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças pela sintonia sua, nossa com Antero e o Amor. Que ardamos sempre nele, à beira ou no Mar.