quarta-feira, 12 de julho de 2017

Biografia de Erasmo de Roterdão, 1º parte, por Pedro Teixeira da Mota

Neste 12 de Julho, dia em que Erasmo em 1536 partiu do seu corpo físico, começamos a partilhar  uma biografia que eu escrevera para o Modo de Orar a Deus, publicado nas Publicações Maitreya, levemente ampliada. 
                                   
                                      Biografia de ERASMO DE ROTERDÃO
                                            1ª parte, de 1469 a 1505.
O nascimento do fino e arguto Erasmo, aliás Desiderius Erasmus Roterodamus, ainda hoje continua um mistério, pois não se sabe se terá nascido em 28 de Outubro de 1467 ou de 1469 ( sendo este o ano mais provável), embora se conheça o local: Roterdão, nos Países Baixos, hoje a Holanda. De igual modo pouco se sabe acerca do seu pai, Gerard, um jovem religioso itinerante, sendo este o seu segundo filho, e acerca de sua mãe, Margareta Brandt. Deram-lhe o nome de Erasmo, um santo popular na região, mas que também quer dizer em grego, amado. Já Desidério é um acrescento posterior voluntário e significativo dele próprio, pois quer dizer desejo, prazer, talvez na aspiração a ser amado da Divindade e quem sabe preservando alguma individualidade desiderativa...
Foi educado pela mãe em casa da avó materna, frequentando a escola de Gouda desde os quatro anos, em seguida a da catedral de Utrech, onde foi menino do coro e, desde 1478, a de S. Lebuíno, em Deventer (Sete Montes), esta última de um grupo cristão então importante, os Irmãos da Vida Comum (ou Simples), nascido em meados do séc. XIV, da acção de Geert Groot (1340-1384), um amigo do famoso místico, nascido perto de Bruxelas, Ruysbroeck.
Dada a influência deste grupo no movimento da pré-reforma da Cristandade, bem como no humanismo de Erasmo e do norte da Europa, mais corporativo e prático, na combinação da fé, moral e obras, do que o humanismo pioneiro da Itália, mais aberto ao singular estudo e concórdia de todas as tradições culturais e religiosas, deter-nos-emos um pouco nele, tanto mais que foi um dos muitos fermentos da passagem da Europa medieval para o Renascimento e a Modernidade
Geert Groot, natural de Deventer, doutorou-se em Artes em Paris e aprofundou estudos e a prática de medicina e astronomia, magia e teologia. Desenvolveu uma grande paixão pelos livros antigos, procurando manuscritos, fazendo-os copiar e emprestando-os. Em 1374 converteu-se pela acção de Aeger, prior de um convento dos Cartuxos e, depois de doar os seus bens e oferecer a sua morada para uma casa de Irmãs, com a vida em comum, partiu para uma via de interioridade e desprendimento. Em 1377 conheceu o sacerdote e notável místico Jan van Ruysbroeck, a quem visitou várias vezes, inebriando-se na ardência espiritual que ele, então com 84 anos, depois de ter escrito em holandês alguns tratados, tal como as famosas Núpcias Espirituais, reveladores do alto grau de união a Deus a que chegara, transmitia no seu convento agostinho nos bosques, tão frequentados pelos eremitas, de Groenendael (onde o místico Taulero também esteve) mostrando como era possível um coração abrir-se à luz e ao amor divino, ou, como Erasmo dirá na Instituição do Matrimónio Cristão, «o Espírito santo habitar no coração das pessoas devotas».
Ordenou-se Geert Groot diácono em 1379 para pregar e reformar a religião cristã, o que fez estimulando a virtude e a oração, e criticando os clérigos dissolutos, os heréticos e o excesso de mendicantes em vez de apóstolos. Um dos seus amigos e discípulos, o sacerdote Florens Radewijns, propôs em 1381 que se juntassem os copistas (de manuscritos) e colaboradores numa casa comum e deste modo ficaram mais protegidos os Irmãos da vida comum, nome este designando em especial, na linha de Ruysbroeck, tanto a comunidade de bens como o facto da realização contemplativa ser partilhada, tornada comum, na vida activa.
Morrendo Geert Groot em 1384, Florens funda, em 1387, uma congregação de Canónicos regulares de S. Agostinho, cuja primeira abadia é em Windesheim, e que chegará a ter mais de cem casas irradiando por toda a Europa graças à sua piedade moderna, ou seja, autêntica e activa, sem superstições, assente na oração, nos Evangelhos e na caridade de Cristo vivo, acessível a todos, fermento de renovação das almas.
Livro de Horas que pertenceu a Geert Groot
Nas suas obras devocionais, Groot cita os clássicos antigos e, em especial, os mais religiosos, Séneca e Cícero. Critica a escolástica, o sistema teológico da época demasiado baseado na arte da disputa, de sentenças e proposições abstractas, e valoriza a realização interior dos simples, que pela fé, a pureza e a oração conseguem receber a graça santificadora e libertadora. Assim, os irmãos e cónegos vão aliar ao culto das letras humanas uma ligação afectiva e interior com Jesus, o regresso à pureza do cristianismo primitivo e um trabalho social de assistência aos desvalidos e de ensino às crianças, nessa época a serem acolhidas assim nas primeiras escolas públicas abertas a todos, numa vida simples, de humildade e de partilha.
Chamou-se Devotio moderna a este movimento porque, em contraste com a devoção anterior, muito condicionada pela armadura especulativa e escolástica, tão dependente das autoridades e sentenças, libertou a condição de religioso e a metodologia da oração e da meditação de várias dessas peias limitantes, aprofundando o sentido vivencial interior, renovando-o e incarnando-o num modo de vida ao serviço de Deus e da comunidade, pois a caridade dinâmica com o próximo era a principal prova do amor a Deus.
A orientação dos Irmãos da Vida Comum, laicos ou religiosos, ao tempo de Erasmo tinha já duas linhas: a que pouco valorizava ou mesmo desdenhava dos estudos clássicos, poesia e filosofia, mormente dos autores pré-cristãos, e a linha mais avançada que privilegiava a interioridade espiritual ou mística mas acompanhada ou fortalecida pela cultura e sabedoria antiga, e que teve mestres como os humanistas Rudolfo Agricola e Alexandre Hegius, com milhares de alunos.
A obra que circulará mais por toda a Europa foi a Imitação de Jesus, escrita por Thomas von Kempis, discípulo de Florens Radewinjs, um diálogo pleno de humildade, submissão e devoção amorosa, mas de qualquer modo propondo a imitação de Jesus, o que era até ousado para a época. Houve mais irmãos a distinguirem-se na literatura de espiritualidade, como Gerlac Peters, também discípulo de Florens, autor de um valioso Soliloque Enflammé avec Dieu, pour rapeller son esprit de ses dissipations et le ramener vers le bien unique et suprême, Geert Zerbolt de Zutphen, autor das Ascensões Espirituais, e Jean Wessel Gansfort, que ensinou o método da escada meditatória onde, em relação à comunhão, afirmava ousadamente a presença de Cristo em qualquer pessoa que o invocasse sincera e merecidamente, numa linha já próxima da justificação ou salvação sobretudo pela fé e pela graça. Queria aprender o hebreu, valorizava os estudos bíblicos e morreu em 1499, pelo que Erasmo poderá tê-lo conhecido ou recebido algumas forças anímicas dele.
Os anos em que o jovenzinho Desiderius desabrochou para a inteligência num meio como Deventer, um grande centro cultural e do começo da tipografia, onde se publicaram cerca de 450 “incunábulos”, ou seja, livros do berço (cuna) ou início da tipografia (o que se considera ir até 1500), devem ter sido determinantes na sua vida e seria interessante sabermos quando terá, pela primeira vez, espreitado ou entrado numa oficina tipográfica a funcionar, com todo o entusiasmo que o dar à luz os filhos do espírito gera em todos os que participam ou presenciam, ouvem e cheiram, e o que sentiram os seus sentidos interiores e alma, ele que viria a ser um dos primeiros escritores europeus a fazer a sua vida e fortuna nas obras das tipografias...
Teve então a felicidade de contactar os humanistas Jan Synthen, Alexander Hegius (1433-1498), director do colégio de St. Libuíno, bem como o seu mestre, que admirou, como se lerá num dos Adágios (Canis in balneo), Rudolph Agricola (1442-1495), discípulo do notável místico e matemático Nicolau de Cusa, pioneiro no norte da Europa do aprofundamento da tradição greco-latina unida ao Cristianismo que caracterizava o Humanismo, recebido ou aprendido na Itália durante onze anos, destacando-se Agricola como renovador da dialéctica e da retórica, ao empregá-las no estudo da poesia e da literatura (nomeadamente no De inventione dialectica, estudado e divulgado por Erasmo, tornando-se mesmo, com uma obra congénere de Lorenzo Valla, a nova metodologia então adoptada pelo ensino mais humanista). Rudolfo Agricola terá até um dia, lendo uma composição premiada de Erasmo, então com 14 anos, e encarando-o demoradamente, profetizado que viria a ser um grande homem, como nos refere Pierre Bayle no seu Dictionaire Historique et Critique, embora haja também a versão do humanista Beatus Rhenanus de que teria sido outro professor, Jan Synthen...
Até 1483, aprende nessa escola perto de Roterdão, onde certamente foi bem impulsionado no desabrochar do seu génio literário. Mas, depois, com a morte dos pais, numa epidemia de peste, em 1484, os tutores forçam-no a partir para a escola dos pobres (domus pauperium) de Hertogenbosh (a cidade onde viveu até 1516 o misterioso pintor Jerónimo Bosh), também dos Irmãos da Vida Comum, mas que, já sem abertura humanista e antes pelo contrário muito na linha da humildade, da penitência e do afastamento do mundo e da cultura não religiosa, atrasaria de certo modo durante três anos o seu desabrochar cultural, como ele próprio dirá.
Em 1487, com dezoito anos, algo forçado pelas circunstâncias e alguma pressão dos Irmãos, pelo pudor ou temperamento tímido e pelas febres («desde a minha infância tive sempre um corpo frágil, de uma textura muito pouca densa, como os médicos dizem, facilmente exposto às agruras climáticas»), aceita ingressar no convento dos cónegos regulares de S. Agostinho, em Emaús, Steyn, perto de Gouda, ligado aos Irmãos da Vida Comum e à devotio moderna, pronunciando os votos de religioso no ano seguinte. Pode aí, apesar das tarefas e horários da regra de vida comunitária, dedicar-se à leitura e ao estudo dos autores clássicos (Virgílio, Horácio, Ovídio, Juvenal, Séneca e Cícero, cujo livro De Officiis, Os Deveres, sempre valorizará) e até dos humanistas italianos (como Lorenzo Valla, Enea Silvio Piccolomini, Guarino de Verona e Poggio), para além de cultivar, como era então moda, o amor ou a amizade ideal na forma epistolar, com alguns amigos mais íntimos animados do mesmo zelo estudioso, tornando o convento num foco de estudo das letras antigas e humanas e não só divinas e cristãs, numa espécie de comunidade ideal dos cultores das letras e das virtudes, ou seja, uma República Literária.
É ordenado sacerdote em 25 de Abril de 1492 por David da Borgonha, arcebispo de Utreque, começando a redigir então o seu primeiro livro De contemptu mundi, Do menosprezo do mundo, na linha do De vita solitaria de Petrarca (1304-1374, autor com quem se considera começar o Humanismo, sincrónico com a vinda de vários gregos para Florença). Neste ensaio demonstra, com grande cópia de citações da tradição pré-cristã, de Pitágoras às fabulosas Sibilas, como o desprezo dos bens mundanos, ilusórios e fugazes é natural em quem segue o caminho da sabedoria, e como o caminho da felicidade consiste sobretudo na visão do mundo espiritual e divino, para a qual o estudo e a contemplação sossegada da sabedoria antiga e da cristã são o melhor meio.
Neste sentido afirmará «os pagãos que só conheciam a luz da Natureza não estavam na escuridão mas eram iluminados pelos raios que brilhavam da luz imortal e nós podemos usá-los como escadas. Porque aquele que tenta escalar as ameias do céu cai no desagrado de Deus, mas o que sobe degrau a degrau não será derrubado». Na parte final, fazendo de advogado do diabo da causa que defendera tão persuasivamente, tenta dissuadir os que pensariam que só num convento se pode atingir tal estado, tanto mais que na época muitos entravam por pressões familiares, emocionais, reactivas e pouco fundamentadas numa verdadeira vocação...
Num ambiente propício ao estudo mas também eriçado pelas barreiras dos cerimonialismos, costumes e ignorância, Erasmo sente fortemente as limitações da vida monástica, tanto mais que o prelado superior, assustado com o desabrochar humanístico de alguns membros da comunidade, o proibira de estudar e de escrever nessa linha. Este Antibarbarorum liber primum, o Antibárbaros, só será publicado e bastante corrigido mais tarde, em 1520, em Basileia, constituindo uma crítica aos que se opunham aos estudos seculares, um repto contra a ignorância e preguiça intelectual dos fechados na escolástica das discussões e deduções, dos baseados em dados pouco exactos ou falsas alegorizações, ou, ainda, dos que não queriam subir degrau a degrau a escada do aperfeiçoamento pela combinação da erudição e elegância humanista com a devoção e a revelação, e não queriam aceitar o acordo possível entre as letras profanas e as sagradas, entre a cultura pagã e a cristã, algo que, pelo contrário, caracterizava a comunidade das letras ou a Respublica Litterarum.
Aí ousará questionar certas verdades: «Dizes-me que não devíamos ler Virgílio porque está no inferno. Achas que muitos cristãos, cujas obras lemos, não estão no Inferno? Não nos compete discutir se os pagãos antes de Cristo não foram condenados. Mas, se me autorizarem a raciocinar, ou eles estão salvos, ou ninguém se salva». 
Ao seu lado defendendo a causa da união entre as belas letras e as letras divinas, entre a piedade e a cultura elegante, estão sobretudo S. Agostinho e S. Jerónimo, e também os padres da igreja helenistas Basílio e Crisóstomo. E escreve ainda uma Vida de S. Jerónimo, um exemplo para muitos humanistas e pintores que trabalharam esse santo e doutor da Igreja, de quem transcrevera todas as cartas, num trabalho paciente de copista de manuscritos, valorizando a separação ou o retiro em relação ao mundo dos bárbaros, para que, na quietude, as fontes da Sabedoria eterna manem e ressuscitem.
     A sua intensa dedicação ao estudo, a qualidade do seu domínio do latim e da sua inteligência e talvez o seu desassossego aspiracional, levam o abade Wernar a sugerir ao bispo de Cambrai, Hendrik van Bergen, a convidá-lo para seu secretário, e assim Erasmus parte em meados de 1492, com autorização do abade do seu mosteiro de Steyn, acompanhando-o durante cerca de dois anos pelos Países Baixos (Holanda, Bélgica e Flandres). Gorada a hipótese do bispo se tornar cardeal, é autorizado em 1495 a aperfeiçoar os estudos, ou a doutorar-se mesmo, na Universidade de Paris.
Erasmo inicia-se então na vida errante de peregrino independente do conhecimento, partindo para Paris e inscrevendo-se como estudante pobre no colégio de Montaigu, do qual, anos mais tarde num dos Colóquios, intitulado a A refeição de Peixe, retrata o fanatismo idealista e ascético que o regia, e por onde ainda passarão Rabelais ou S. Inácio de Loiola.
Este colégio era então dirigido por Iohann Standonck que, tal como Erasmo, aprendera numa escola dos Irmãos da Vida Comum, tendo-se, após um percurso árduo, doutorado na Sorbonne, a famosa universidade parisiense, onde chegou a ensinar. Animado de grande entusiasmo religioso e ascetismo (mas por vezes roçando a humilhação exagerada dos seus alunos), quis ajudar a reforma dos costumes do clero e fez vir expressamente da então grande abadia de Windesheim, tanto Jean Mombaer, autor do Rosetum Exercitiorum Spiritualium, de 1501, um livro devocional importante e pioneiro, como um amigo de Erasmo, Cornelius Gerard, criando-se um grupo de reforma cristã no qual o jovem Erasmo também participou e com cujos membros se foi correspondendo.
Não se sentia, porém, nada bem com a salubridade do alojamento, nem com as condições gerais mortificantes e pouco favoráveis aos estudos das letras humanas, nem com a parca (só se comia depois das 11 horas da manhã) e má alimentação, à base de ovos já estragados e peixe, que Erasmo, de saúde frágil, pouco apreciava.
Também as temíveis epidemias mortíferas repetiam-se, pelo que não se deteve no Colégio muito tempo, voltando à Holanda para estar de novo com o seu patrono, e regressar ao mosteiro de Steyn. Aí decide, apoiado pelo bispo, hospedar-se numa casa particular em Paris, onde regressa em Setembro de 1496, podendo agora mais facilmente escrever poesia, estudar e, como estava sem dinheiro, receber alunos, logo atraídos pela sua inteligência e ironia, afabilidade e idealismo evangélico.
Para eles, ou impulsionado por eles, escreverá alguns manuais de aprendizagem humanista, que se tornarão mais tarde tanto o De conscribendis epistolis, Como redigir cartas, publicado em 1521, segundo os exemplos dos grandes escritores, o De ratione studii, Da metodologia do estudo, publicado em 1512, e o De duplici copia verborum ac rerum, Da dupla abundância de palavras e de ideias, publicado em 1511 e dedicado ao sábio inglês John Colet, e que era quase um manual de retórica, a arte de bem escrever e persuadir. E vai redigindo os futuros Colóquios, então como Fórmulas para conversas familiares, em que a par do ensino de etimologias, regras gramaticais e um bom pecúlio de frases e provérbios clássicos, há um claro intento de diálogo socrático de auto-conhecimento e transformação bem como de crítica social e civilizacional. Será das obras com mais impacto e sucesso, ainda hoje nos fazendo rir, instruindo...
Convive entretanto com os outros cultores das letras antigas, em especial com um dos pioneiros do Humanismo italiano em França, Robert Gaguin, um trinitário flamengo, fundador da tipografia na Universidade da Sorbonne, deão da Faculdade de Decretos, diplomata, que estivera em Itália, nomeadamente na Academia platónica florentina, e era amigo do genial Pico della Mirandola (que convivera com ele em Paris, em 1485, e de quem traduzira uma importante carta em 1498, que Erasmo terá conhecido). Gaguin aconselha-o literariamente e publica-lhe a sua primeira poesia, o género que Erasmo na época mais cultivava, embora mais erudita ou intelectualmente do que sentidamente. Mas também conviverá muito com o poeta italiano Fausto Andrelini, irreverente e da sua idade.
Lefèvre d'Étaples (1455-1536)
Dos outros conhecimentos destacamos tanto Jean Mombaer (formado como ele nos Irmãos da Vida Comum, e autor do tal texto de meditações e exercícios espirituais que influenciará o fundador dos jesuítas, S. Inácio de Loiola), como o teólogo e reformista Lefèvre d’ Étaples, que fora mesmo a Itália na busca do conhecimento. Lefèvre unia o estudo da ciência (matemática, geometria, lógica) ao misticismo (em 1499 publicara uma tradução comentada da obra de Dionísio Areopagita, e mais tarde de Ricardo de São Victor, Ruysbroeck e Nicolau de Cusa), valorizando o bom honesto, o silêncio meditativo e a adesão ao Espírito pela leitura e divulgação dos Evangelhos. Poderá ter provocado em Erasmo um maior interesse no estudo dos textos sagrados originais, desiludido como este estava do ensinamento escolástico reinante então na Universidade e no meio teológico parisiense, e cuja excessiva ortodoxia o fizeram mesmo profeticamente recear vir algum dia a ser condenado como herético (como de facto veio a suceder, ao censurarem partes da sua tradução dos Evangelhos e algumas posições ou proposições religiosas). O sonho de uma viagem à Itália acalenta-o e tenta arranjar patrocínios mecenáticos, mas não consegue, apesar das cartas e insistência.
Um dos seus alunos, William Blount, o futuro conde de Mountjoy, convida-o entretanto a partir para Inglaterra no Verão de 1499, onde conhece e se torna muito amigo dos primeiros humanistas ingleses Thomas More, John Colet, Thomas Linacre e William Grocyn, tendo estes três últimos ido mesmo acender a vela na fonte do Humanismo, a Itália, e mostrando-lhe as suas insuficiências na língua e na cultura helénica, o que o levou a começar desde logo a aprendê-la com Grocyn.
John Colet (1466-1519), que regressara de Itália em 1496, explicava então em Oxford as Epístolas de S. Paulo com grande profundidade e misticismo. Erasmo dirá mais tarde numa carta «que lhe parecia então ouvir o próprio Platão», pois Colet estava bem por dentro da teologia platónica e neoplatónica, através de Dionísio Areopagita, e dos pioneiros do platonismo florentino, Marsilio Ficino e Pico della Mirandola, que cita e comenta.
Por todas estas experiências dá-se em Erasmo uma intensificação da consciencialização do valor da imanência divina e da combinação da mensagem de Cristo, enquanto auto-conhecimento, ligação ao Pai ou Divindade e à caridade, com o amor à sabedoria e literatura antiga ou pagã, sobretudo transmitida com pureza e elegância de estilo, impulsionando-o numa senda de estudo crítico e livre das fontes sagradas antigas, em especial dos Evangelhos.
          Em 1500 regressa ao continente, sem não deixar de ser desapropriado do dinheiro ganho, ao atravessar a fronteira inglesa, como narrará ironicamente em cartas mas mesmo assim prosseguindo cheio de força e entusiasmo graças à fermentante combinação dos ensinamentos de Jesus com os estudos humanistas de raiz clássica, platónica e neoplatónica, e vindo decidido antes de mais a aprofundar o estudo de grego, indispensável à leitura dos manuscritos antigos dos Evangelhos, ou dos primitivos Padres da Igreja bem como dos autores antigos greco-latinos.
Publica nesse ano de 1500 em Paris a primeira edição da Adagiorum Collectanea, dedicada a Mountjoy, onde colige 800 adágios e provérbios da sabedoria antiga, de vários autores, nomeadamente do sacerdote e iniciado Plutarco, com grande sucesso, e até uns meses antes de morrer estará sempre acrescentando e corrigindo aquele que se torna o livro de referência da sabedoria greco-latina e humanista, um verdadeiro manual, tanto nas escolas (sobretudo na forma abreviada, o Epítome, desde 1521) como nas pessoas cada vez mais despertas para a cultura, uma obra que assentando em exemplos antigos é completada com reflexões ou críticas irónicas de factos e mentalidades actuais. Será talvez a obra geradora de maior número de exemplares no século XVI, com mais de cento e vinte edições. 
E em 1501 publica a sua primeira edição anotada de um texto da sabedoria antiga, o De Officiis, Sobre os Deveres, de Cícero, autor romano muito valorizado durante toda a sua vida, inaugurando assim a sua longa carreira de filólogo e comentador de autores clássicos e patrísticos (dos primeiros Padres da Igreja), que se enquadra bem na sua missão de restaurador da filosofia perene ou crística, piedosa (face a tanto dogmatismo e violência) e libertadora (face a tanta ignorância e superstição).
Viaja bastante entre Paris, Steyn (onde lhe concedem mais um ano de itinerância estudantil) e Saint-Omer, onde convive no Outono de 1501 com o guardião franciscano Jean Vitrier, um homem «cheio de ardor pela piedade», entrando quase em êxtase nos sermões e fazendo-o sentir aos ouvintes, como descreverá mais tarde no seu extenso e profundo elogio, e que era grande adepto de S. Paulo e de Orígenes, tendo confidenciado acerca deste a Erasmo: «não é possível que o Espírito Santo não tivesse habitado esse peito donde saíram tantos livros sábios, redigidos com tanto ardor». Este amor a Orígenes e à sua sabedoria é significativo, até pelo seu aspecto corajoso, pois uma das treze, das 900 Teses propostas por Pico della Mirandola nas suas Conclusiones para serem discutidas em Roma com qualquer teólogo, consideradas heréticas pelo papa e uma comissão, afirmava: «é mais racional crer que Orígenes está salvo, de que crer que ele esteja condenado (dannatum)».
Vitrier, um sábio e místico, ou um espiritual, vai impulsioná-lo na busca das verdadeiras bases do cristianismo em espírito e em verdade, ou seja, dos sentidos mais profundos e transformadores dos Evangelhos, através do estudo, meditação e publicação dos primeiros padres da Igreja, sobretudo os que receberam ou aceitaram mais a cultura ou paideia grega (e nesse sentido os mais próximos do Humanismo), e que valorizaram também os sentidos místicos e alegóricos na interpretação dos textos: antes de mais Orígenes (185-254), e depois Clemente de Alexandria (m. 212), Cipriano (m. 258) Ambrósio (333-397), Crisóstomo (347-407), S. Jerónimo (m. 419) e S. Agostinho (354-430), a maior parte deles vindo a ser publicados e comentados ou anotados por Erasmo. É possível que tenha sido deste contacto com Vitrier, com as suas Homilias sobre os Evangelhos, e através dele com Orígenes, que começaram a germinar em si as futuras Paráfrases aos Evangelhos, e antes de mais o Enchiridion.
Começa então de facto a redigir o Enchiridion militis Christiani, o Manual do cavaleiro Cristão, repleto de salubérrimos preceitos ou, se quisermos ainda, o Manual do militante Cristão, para indicar a rota da virtude que leva à tranquilidade da alma, que sairá em 1503, no meio da Lucubratiunculae,  Miscelânea, ou seja, várias pequenas obras ou lucubrações de carácter religioso e ético, impressa em Antuérpia (que continha uma oração a Maria, mãe de Jesus e outra ao seu filho), e onde expõe a sua concepção da filosofia de Cristo, uma designação dos primeiros Padres da Igreja mas desafiante já que a filosofia e a essência do ensinamento de Cristo estavam soterradas pela pesada e indigesta escolástica medieval (discutindo interminavelmente sentenças e dogmas tão abstractos), e pelo excessivo cerimonialismo, de tal modo que pouco se conseguia viver e transmitir do espírito de Jesus Cristo e da sabedoria amorosa e libertadora que ele encarnara e suscitava.
Serão os pioneiros como Lorenzo Valla, Pico della Mirandola, Erasmo, Lefèvre d’ Etaples, John Colet, John Fisher e Thomas More que vão tentar impulsionar o despertar crítico e espiritual da humanidade, através de uma melhor preparação cultural e moral, através do retorno ou recurso à teologia patrística, em substituição das sumas e sentenças escolásticas, e através de um olhar mais penetrante e livre sobre os textos antigos, a par de uma vida piedosa e misericordiosa.
Daí o esforço e a dedicação de Erasmo ao estudo científico filológico e comparativo dos textos antigos e das escrituras sagradas, no fundo à investigação racional e livre da verdade (sem limitações de imposições exteriores), de modo a que a transformação e a intuição interior aconteçam, não pela imposição mas pela compreensão, a qual deriva de um estudo e aprendizagem baseados na assimilação inteligente pessoal em vez da mera acumulação na memória do que se decora. Disto resulta uma sã investigação, pioneira criatividade, estímulo a melhores interpretações e até respeito pelos trabalhos e conclusões dos outros, conduzindo à tolerância e à concórdia entre as diferentes visões, compreensões ou mesmo facções ou religiões, ideias estas que transmitirá na sua missão pedagógica ao longo de toda a vida.
O Enchiridion, o Manual do cavaleiro Cristão ou do soldado Cristão, o que, alistado na milícia de Jesus Cristo, luta por uma vida sábia e justa de amor a Deus e ao próximo, torna-se uma obra verdadeiramente popular pois era muito prática e nela estão dadas «algumas regras gerais do verdadeiro cristianismo», nomeadamente contra os vícios, como a luxúria, a cupidez e a ambição, «para que guiado por elas, como por um fio de Dédalo, possas facilmente emergir dos erros do mundo, como de um labirinto difícil de se sair, e atingires a luz pura da vida espiritual» e assim recuperares «aquela luz puríssima da face (vultus) divina, que o Originador infundira sobre nós», bela e profunda afirmação a merecer meditação maior nossa. 
Continha a sua visão da verdadeira religião cristã, que culminará mais tarde com a sua grande obra: a tradução, a partir de manuscritos gregos antigos, do Novo Testamento, significativamente intitulada na sua primeira edição Novum Instrumentum, e que será ainda continuada por outras, como o Modo de Orar a Deus. O sucesso internacional do Manual foi grande pois entre a data da primeira edição, 1503, quando estava ainda incluída na colectânea ou miscelânea de escritos (só se autonomizando desde 1515), e o ano de 1533, com Erasmo ainda vivo, publicaram-se sessenta edições, chegando-se às cem, aproximadamente, em 1550.
Uma das grandes luzes da Península Ibérica na época do Renascimento, Cisneros.
Na península Ibérica houve um esplendoroso florescimento humanista graças à visão e acção humanista do cardeal Jiménez de Cisneros (1436-1517), fundador, no ano em que Vasco da Gama chegava à Índia, da Universidade de Alcalá, onde leccionarão notáveis humanistas, a maior parte deles concordando com as ideias de Erasmo, tais como Juan de Vergara, Bartolomeu Carranza de Miranda (autor de um Catecismo da Doctrina Cristã, muito simples e bondoso mas atacado e censurado de tal forma que sobreviverão pouquíssimos exemplares), Antonio de Nebrija, Hernán Núñez e Pablo Coronel. Será o impressor da Universidade Miguel Eguía, protegido pelo Arcebispo Don Alonso de Fonseca, a conseguir publicar não só o Enchiridion mas mais vinte e três obras entre 1516 e 1527, impulsionando a influência erasmiana na península Ibérica (embora já só em 1541 saia a primeira edição em Portugal de uma obra de Erasmo, em Lisboa, na oficina de Luís Rodrigues, o Enquiridio o manual dei caballero Christiano), a qual se prolongará por muitos autores, tal como Marcel Bataillon expôs magistralmente no seu Erasme et l’Espagne e muitos outros investigadores têm comprovado, tais como ntre nós Pina Martins, Moreira de Sá, Silva Dias, Manuel Augusto Rodrigues e Cadafaz de Matos.
A vida é então uma luta dentro de cada ser contra as tendências e potências da carne, do ego e do mundo, uma batalha constante, que exige o querer tornar-se cristão de todo o coração (toto pectore, velle fieri christianum), a qual é agraciada com momentos de luz e deleite divino, ou de maior ligação ao mestre Jesus Cristo. As duas asas, a da oração e a do estudo dos textos sagrados, além das boas obras pelo amor ao espírito em cada ser, são apontadas como os meios essenciais de religação a Deus, pois ajudam a vencer a cegueira da ignorância, os desejos ou sensualidade da carne, as fraquezas e enfermidades do corpo. A missa e a paixão e morte de Cristo reproduzem-se em nós pela morte das paixões desenfreadas. O estudo, tal como vinha da tradição clássica, começa pelo conhecer-se a si próprio, na triplicidade corpo, alma e espírito, passa pelo culto interior de Deus e do amor, e derrama-se na vida social lúcida, fraterna e livre.
Numa carta escrita ao seu grande amigo John Colet, em Dezembro de 1504, diz: «compus o Enchiridion, não para provar a inteligência ou a eloquência, mas só com a intenção de curar do seu erro os que colocam comummente a religião nas cerimónias e nas observâncias mais que judaicas, pode-se assim dizer, respeitantes a coisas materiais, enquanto, para espanto, negligenciam tudo o que diz respeito à piedade. Esforcei-me por dar uma espécie de método à piedade, à semelhança dos que redigem métodos precisos de ciências».
A edição espanhola do Enquírídio, impressão do erasmiano Miguel de Eguia
E de facto era uma obra pioneira, propondo a douta piedade, ou seja, a união do conhecimento e da cultura com a oração e a religiosidade, liberta de todas as gangas e desvios, superstições e hipocrisias, autêntica em si, amorosa com todos e acessível a toda a gente. Da sua ressonância, de certo modo o primeiro verdadeiro catecismo da Europa, escreverá o tradutor (e adaptador...) da primeira edição espanhola (saída em 1526), o arcediago (chefe dos diáconos numa catedral) Alonso Fernandez, de Madrid, escreverá mais tarde: «Na corte do Imperador, nas cidades, nas igrejas, nos conventos, mesmo nas pousadas e caminhos, todo o mundo tem o Enchiridion de Erasmo em espanhol. Até agora lia-o em latim uma minoria de latinistas, e mesmo estes não o compreendiam completamente. Agora lêem-no em espanhol pessoas de todo o género, e os que nunca tinham ouvido falar de Erasmo, sabem agora da sua existência por este livro simples.»
Em 1502 morre o seu protector Hendrik van Bergen e estabiliza em Lovaina, onde convive com o futuro papa Adriano, convidando-o mesmo este a tornar-se professor de retórica na Universidade, mas Erasmo recusa (não tanto talvez por humildade mas mais por liberdade, a sua mais fiel dama), preferindo antes trabalhar só e fazer incursões nos mosteiros à procura de manuscritos antigos, iniciando as suas primeiras traduções dos textos gregos e dos primeiros padres da Igreja.
Em 1504 lê o extenso Panegírico congratulatório ao ilustre príncipe borgonhês Filipe, filho do imperador Maximiliano e pai do futuro Carlos V, regressado triunfante e feliz da ida a Espanha, diante de uma eminente corte em Bruxelas, todos encantados com as virtudes do príncipe, sem pressentirem a sua morte eminente, a qual Erasmo sentidamente comentará mais tarde no adágio Homo bulla, O Ser humano é uma bolha. Erasmo será presenteado com uma soma considerável, que bem falta lhe fazia (pois Bergen prometia muito mas dava pouco...) e entrará no círculo imperial, pelo menos nominalmente. Este Elogio será recomendado no Modo de Orar a Deus como um texto de educação dos príncipes e nele, Erasmo, depois de recomendar várias virtudes, exemplificando com heróis e sábios da antiguidade, denuncia a calúnia e a adulação como os piores perigos que rodeiam o príncipe e apela ousadamente não só ao amor da pátria acima do familiar, como ao diálogo, à não-violência e à concórdia.
No final de 1504 está de novo em Paris e publica as valiosas Anotações ao Novo Testamento de Lorenzo Valla (1407-1457), um manuscrito que descobrira no Verão, «um dia que caçava numa biblioteca muito antiga», na abadia carmelita do Parque, perto de Lovaina, que continha a segunda versão, até então desconhecida, das anotações de Valla ao Novo Testamento. É uma obra pioneira da crítica textual, na qual, a partir da colação de sete manuscritos gregos e três traduções latinas, desenvolvera uma crítica filológica, gramatical e estilística, mais do que um comentário, corrigindo assim a até então intocável Vulgata, a versão do Novo Testamento por S. Jerónimo, consagrada desde os remotos ou iniciais tempos pela Igreja. 
É de certo modo o começo da crítica filológica livre dos textos base do cristianismo, que Erasmo aprofundará e alargará com o seu fino discernimento, até irónico ou céptico, das circunstâncias, contextos e hipóteses, não só nas cinco edições crescentemente anotadas realizadas até ao seu fim da vida, como sobretudo nas suas investigações nas letras sagradas, em especial nesse, para muitos, cavalo de Tróia que é a Bíblia, e mais concretamente no Novo Testamento, realizadas por Erasmo numa busca da verdade, com rigor metodológico,  imparcialidade e ausência de sectarismo ou seguidismo.

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