quinta-feira, 22 de junho de 2017

O Arcanjo Rafael e Tobias, na História da Arte e no Caminho das Almas.

      O aparecimento de um espírito celestial com o nome de Rafael (Rª pa El, Deus curou) surge apenas por volta de 175 A. C., num livro escrito em aramaico e em hebraico e que acabou por ser recebido no cânone das Escrituras pelo Cristianismo, mas não pelo Judaísmo e o Protestantismo. É no denominado Livro de Tobias que surge então pela primeira vez este Arcanjo, e que desde o séc. VII-VIII d. C. sabemos que foi cultuado, nomeadamente com uma igreja em Veneza, embora haja muito poucas imagens antes do séc. XV, ao contrário por exemplo de Gabriel, o da Anunciação a Maria, do qual há frescos em Roma já dos sécs. III e IV.  
De Michele di Rudolfo, discípulo de Ghirlandaio
Face à envolvência a vários níveis de conhecimentos e de cultos a deuses, génios e anjos, tanto o Judaísmo como o Cristianismo tiveram necessidade de absorver e refazer representações que incluíssem o vasto domínio dos seres subtis do Cosmos, o que foi sendo feito e hierarquizado através de formulações imprecisas de tal modo que no Antigo Testamento não há referências ainda a Arcanjos (do grego, Arche-angeloi, anjos primordiais ou arquétipos, ou que estão por cima dos Anjos)  e que no Novo Testamento apenas duas vezes se refere "o espírito de um arcanjo", na I epístola aos Tessalonicenses, 4-16 e o arcanjo Mikael, em Judas, 1- 9. Será apenas nos sécs. V, VI que a existência e hierarquização ficará definida pelo pseudo-Dionísio Aeropagita, muito esquemático e devedor do neoplatonismo e das sucessivas emanações  da Divindade, segundo Proclo.
Sabe-se hoje que muito provavelmente a origem dos Arcanjos vem do Irão e do Avesta, com os sete Amesha Spenda (Eternamente Resplandecentes), e que nomes de Anjos e Arcanjos surgem nas escrituras hebraicas depois do desterro ou passagem deles pela Babilónia (587 a. C. a 535 a. C.), estando patentes no Livro de Daniel, embora já haja menções esparsas e escassas a Anjos (melek-mensageiros), tal na luta de Jacob, ou nos avisos a Loth, significativamente sempre com, ou em, corpos humanos de carne. 
No Livro de Tobias conta-se a história do jovem Tobias que o seu pai, Tobias também (Tobit), já velho e subitamente cego, muito temente a Deus e sempre pronto a fazer boas acções em toda a vida, as quais são descritas, envia, depois de lhe dar conselhos morais e éticos valiosas, para a zona da Média, no Irão, a fim de receber um empréstimo de dinheiro que fizera há muito anos a um seu parente e para ser no fundo iniciado nos caminhos da vida. 
A mulher interroga-se se será a melhor altura, agora que ele está cego, de enviarem o jovem filho, mas este acaba por partir, com um cão, o fiel companheiro terreno, e um homem viajado, Azarias (que significa, ajudado por Deus), que surge e diz ir também para essas regiões, assegurando aos receosos pais que acompanhará bem o filho. E assim vão, em vera peregrinação, óptimo modo para se poder representar posteriormente na história da Arte, Tobias e o tal ser, por enquanto apenas conhecido por Azarias, e o fiel amigo, o cão.
Ícone mais recente, mas bem ilustrativo  da demanda peregrinante ou Caminho.
Entre nós, e pouca gente o saberá, o pintor Columbano (1857-1929) desenhou duas sanguíneas de Rafael e Tobias, provavelmente para a muito bela e sábia paráfrase poética de António Viana, intitulada Tobias, versão do conto bíblico, já que  António Viana as reproduz na sua cuidada e numerada edição a cargo da olisiponense Livraria Ferin, dada à luz em 1901. 

Rafael, que desejara ao ancião Tobias:«Eternamente, a alegria do céu seja contigo», despede-se dele  e da mulher dizendo:«Tem coragem até que Deus te cure/para que tornes a ver o filho amado», e parte com Tobias e o cão.
Ora quando chegam a uma lagoa ou pego de água para se refrescarem, e um peixe grande salta quase para abocanhar Tobias, assustando-o, Azarias incita-o a apanhá-lo e a preparar com ele não só comida salgada para a viagem como também retirar o coração, os olhos e o fígado que se usarão para curar os olhos do pai e para salvar a alma de uma mulher acossada por forças negativas, mezinhas que Azarias Rafael levará consigo. O peixe não será representado esquartejado, seja por pudor, inteireza do símbolo ou tendências vegetarianas dos pintores, poderíamos dizer a sorrir, e vai como que vivo, com tamanhos diferentes mas em geral levado por Tobias, que segura ora um bordão ora o papelinho da dívida a receber.
«Em mansão que ao repouso convidava,/ junto do rio Tigre, aí pararam/os jovens companheiros./ Tobias desce à margem verdejante,/para banhar os pés no veio fresco/da límpida corrente./ Eis de súbito um peixe monstruoso,/voraz, faminto o assalta,/ escancarando a negra boca hedionda./ Tobias vendo perto a morte gélida/ dos céus implora a  salvação da vida!/-Segura-o sem temor, o anjo lhe brada, / e palpitante o prostra;/tira-lhe o coração, o fel e o fígado,/ pois que encerram em si santos remédios/de grandíssimos males.» E depois aconselha-o a pernoitar em casa de Raguel, «pai de Sara, universal herdeira/ de todo o haver paterno,/ flor celeste que desmaia o candor das acuçenas.» Versão de António Viana, 1901.
Estes aspectos serão pois bastante representados na iconologia do tema, principalmente o peixe, mas também o óleo para os olhos do pai e as vísceras, numa caixinha, para serem queimadas na altura certa, em fumigação salutífera.
Na jornada, Tobias acaba por reencontrar uns familiares  e a jovem filha, Sara, que já vira morrer sete maridos, nas sucessivas noites de núpcias. Azarias-Rafael aconselha então Tobias a pedir em casamento Sara e desfaz-lhe os medos e quando os pais de Sara aceitam com receio o pedido matrimonial de Tobias, de novo Rafael intervém e explica-lhe que eles devem passar as três primeiras noites em castidade e oração e que ele defumará o tálamo nupcial e lutará contra as forças negativas.
Excelente pintura de Jan Havickz Steen (1626-1679). «Santo enlace o das almas virtuosas,/quando unidas se elevam pela prece/até junto de Deus e em Deus se abrigam!...// Na abençoada alcova, de mãos postas,/orando os noivos clamam:/Deus piedoso! Atende os nossos rogo./Ó Deus de nossos pais, Omnipotente!» Versão do Livro de Tobias, por  António Viana, 1901. 
Na história da Arte respeitante a Tobias teremos poucas mas belas representações dos dois jovens em oração e castidade e ainda da defumação que faz com que o espírito obsessor ou guardião de Sara, ou do seu destino (pois há quem interprete que ela estava guardada para Tobias), saia da casa e seja desterrado, diz-se, para o Alto Egipto.
De Pieter Lastmann (1583-1633) esta excelente visão alquímica e kundalinica do conto iniciático de Tobias.
O regresso feliz, com o empréstimo sem juros recuperado pelo próprio Rafael, dos dois jovens já depois de bem casados até ao pai, com a aplicação miraculosa do óleo do peixe na vista do ancião, será então outra cena pintada algumas vezes e é valioso termos um quadro português de Domingos António Sequeira (1768-1837) que retrata tal fase do processo alquímico da viagem, e que é como restituir a vida ou a visão por uma nova dispensação, por um subtil unguento. A suavidade, subtileza e unção presentes nesta pintura vivenciam-se facilmente e certamente teria lugar na melhor edição ilustrada do Livro de Tobias, a fazer-se auspiciosamente um dia,  embora Rembrandt tenha também privilegiado com o seu génio esta fase da recuperação da visão.
Será  nesta ocasião jubilosa, quando lhe querem dar metade dos bens que possuem por tudo o que os ajudou, que Azarias se revela como sendo Rafael e dizendo  ser «um dos sete Anjos [que se erguem e servem] diante [do trono da Glória] do Senhor» (Tob. 12, 15), imagem esta que terá bastante fortuna na iconologia cristã, pois o autor do Apocalipse provavelmente acolheu-a e refere visionáriamente sete Espíritos diante do trono, por quatro vezes (Apocalipse 1:4; 3:1; 4:5 e 5:6)  originando não só muita iluminura em manuscritos e pinturas das cenas como posteriormente um certo culto dos sete Arcanjos, mais visível na Igreja Ortodoxa.
Ícone ortodoxo com os sete Arcanjos e o Cristo Jesus, relacionável com o Apocalipse 3:1: «Isto diz o que tem os sete Espíritos de Deus e as sete estrelas». 

William Blake (1757-1827), um ser de muita erudição e capacidade de visão. Os sete espíritos e os 24 anciões diante do trono.
O afán de caracterização e  reputação como o Arcanjo protector nos caminhos ou viagens, médico ou curador levou a algumas distorções,  propondo-se a sua identificação com «um anjo do Senhor que descia de quando em quando e  agitava as águas. O primeiro que entrasse no tanque, curava-se de qualquer doença», descrito no Evangelho segundo S. João, 5:1-4, que diz respeito às águas de Betseda, em Jerusalém e que hoje se sabe terem sido um santuário do deus romano Esculápio. A cura é feita por Jesus a alguém que não conseguia ser o primeiro a entrar na água,  e como que actuando sem necessitar do génio, ninfa ou anjo curador da termas ou fonte, tão cultuados ao longo dos tempos em toda a parte.
Quanto à função de fumigador e exorcista, derivada de ele dizer que apresentava as boas acções de Tobias a Deus, tentar-se-á identificá-lo  com o incensador ou turibilário, erguendo os incensos e perfumes, das resinas e das orações ao Senhor, mas despejando depois sobre a Terra trovões e terramotos (algo nada Rafáelico, diga-se..), descrito no visionarismo flamejante e algo fanático do Apocalipse, obra que hoje sabemos bem que não foi da autoria de S. João, como já Erasmo no seu tempo e no Novum Instrumentum provara, mas sim posterior e de cristãos apocalípticos ou crentes num fim do mundo próximo e nuns 144.000 escolhidos ou salvos... 
Serão os concílios e os decretos de inclusão do Livro de Tobias como canónico ou aceite pela Igreja que vão permitir o desabrochamento de um pequeno culto de Rafael, por exemplo atestado desde 1270 com uma confraria de S. Rafael, em Veneza, instalada na igreja de S. Rafael (construída em 1131),  e a sua grande fortuna na arte, em especial na época do Renascimento quando a viagem e o dinheiro se tornaram bem mais fortes e presentes na vida das cidades e que portanto tanto jovens viajantes e negociantes, como os sujeitos aos desafios da vida matrimonial podiam facilmente sentirem-se abrangidos ou envolvidos em tal história, como aliás qualquer pessoa diante de tal beleza e suavidade do Arcanjo, simpatizaria e  oraria com ele, ou através dele. 
Assim naturalmente  a ideia e o culto do Anjo da Guarda viria a ter uma prefiguração em S. Rafael e a associação entre as duas devoções acabou por se manifestar por vezes em simultâneo, seja em altares seja em quadros, mas mais tarde, sobretudo a partir de 1600, quando a devoção ao Anjo da Guarda é valorizada 
À esquerda o arcanjo Rafael, já apenas com o seu símbolo identificativo de curador, e à direita o Anjo da Guarda com a alma que guarda e inspira. 
Rafael tornava-se assim um símbolo de orientação, protecção, intercessão e cura angélica e divina, e Tobias simbolizava toda a alma na juventude da sua ignorância e inocência, mas desejosa e capaz de aprender, viajar, recordar, cumprir e assim levar o peixe, tão rico em simbolismo,  ao seu destino.
Peixe colhido e levado pelo jovem, e na iconologia em geral representado como peixe inteiro e são e salvo, como que contente por ir servir por dois modos na cura de dois seres. E que sendo um dos símbolos de Jesus, nos leva até a poder-se ler esta história mítica como uma prefiguração seja de Jesus Cristo seja de tempos futuros de mais ungimento e harmonia humana pela comunhão angélica. 
Do Espírito santo de Rafael e Tobias....
Mas certamente que os aspectos do peixe-serpente-dragão, animal das águas do inconsciente e da sexualidade haveriam de ser intuído por alguns seres, embora mesmo até hoje provavelmente nenhum historiador de arte, desde Gombrich a Joseph Hammond tenha chegado aos níveis de poder ler neste livro um conto iniciático de orientação da energia sexual e kundalínica e que  bem orientada cura ou fortifica os olhos e afasta as forças negativas. 
Pieter Lastman, auto-retrato, de 1630. 
 Dos pintores, Pieter Lastman e Jan Havickz Steen foram muito provavelmente quem mais intuiu isto e quem melhor soube portanto pintar e representar algo da espiritualidade mais interna do conto de Tobias e do Arcanjo Rafael, os dois heróis (com a Sara) da história, e neste aspecto não se podendo considerar, como faz Gombrich, Tobias como um mero emblema ou símbolo de Rafael.
A captura  ou domínio do peixe salvador por Tobias ajudado pelo Arcanjo Rafael, por Pieter Lastman.
Houve então no Renascimento e na Contra-Reforma, nesta por reacção ao Protestantismo que negava tanto o livre arbítrio como a intervenção e  culto dos Anjos, uma frequente e bela representação artística de Tobias guiado por Rafael, certamente apresentado sempre com asas, ao contrário do que vinha no Livro de Tobias, e do que vemos também no Antigo Testamento, no qual os Anjos surgem diante dos humanos tais como eles, isto é, em corpos carnais. 
Não estará longe deste ambiente e movimento, talvez até o prefigurando, a instituição pelo rei D. Manuel, o Venturoso,  da festa do Anjo Custódio de Portugal em 1504, só aprovada pelo papado em 1590. E será já em 27-IX-1608, com a adição ao calendário da Igreja Católica Romana da festa do Anjo da Guarda, pelo papa Paulo V, que se acelera a consciencialização que cada ser tem o "seu" Anjo da Guarda e nessa esteira veremos pinturas dos Anjos da Guarda e seus protegidos, ao lado do Arcanjo Rafael e Tobias, dando-se mesmo, por exemplo, a fundação de uma Confraria dos Anjos da Guarda, em 1657, em Veneza.
Pintura de grande qualidade amorosa do mexicano José de Páez (1727-1780)
Não será agora a ocasião para reflectirmos dos modos como se inter-relacionaram as diferentes tradições dos Anjos ou Génios e convergiram nas sucessivas religiões e aculturizações. Provavelmente podemos  ou mesmo deveremos admitir que houve visões espirituais iniciais, e nas quais o anjo ou arcanjo é visto com asas,  a qual depois, com o passar do tempo e da traditio materializadora foi descrita como visão física e no mundo tangível dos corpos. Para além  de tal,  o próprio artista ou pintor, posteriormente, pode confirmar em si mesmo tal realidade alada numa visão interior, tal como o nosso pintor humanista Francisco de Holanda recomendava e aspirava, e não se prende então à descrição limitativa original, carnal.
De Agostino Caracci.
Se muitas das centenas ou milhares pinturas que hoje conhecemos em igrejas e museus poderiam ser na sua origem invocadoras de protecção angélica para crescimentos, viagens, negócios, doenças ou mesmo casamentos, seguindo os padrões imaginais contidos no Livro de Tobias, outras já seriam menos condicionadas por essa fonte, tal a de Francesco Botticini, na galeria dos Uffizi em Florença, que representa Tobias ladeado não só por Rafael, mas também por Miguel e Gabriel, os outros dois arcanjos citados, embora muito escassamente na Bíblia, e não estando incluído Uriel, que só surgiu em literatura não acolhida pela Igreja Católica, no IV Livro de Esdras e no  Livro de Enoch. 
Em algumas imagens o Arcanjo não só protege ou guia Tobias, mas, enorme, cobre com as suas asas vários santos que o rodeiam. Ainda ainda não foi estudado o tamanho do Arcanjo em relação a Tobias ou aos santos do Cristianismo que o ladeiem, e o que isso significa de valorização maior ou menor do ser Angélico, bem como as diferentes idades de Tobias que marcaram os pintores ou os seus piedosos comendatários ou doadores, que podem até ter utilizado num ou noutro caso os seus filhos como modelos, como uma investigadora, Gertrude M. Achenbach, propôs.
 Numa linha contrária, e provavelmente ligada aos movimentos mais espirituais e fortes do franciscanismo, encontramos uma representação em que na posição central e dominante está S. António, numa mandorla de anjinhos, encontrando-se Rafael com Tobias, lateralmente. 
Fresco de Bartolomeu Caporali (1420-1505). S. António nos céus...
Qual foi a intencionalidade ideológica e espiritual de tal composição? Apontar para, ou invocar, S. Francisco de Assis e S. António como novos Christos, ou seja, ungidos do Senhor e, tal como Rafael, médicos da alma, mestres do Caminho, modelos da Imitação de Cristo, ou quem sabe já até advogados de objectos e amores perdidos, como a tradição popular consagrará?
Quanto ao Arcanjo Rafael ser um psicopompo, um condutor na passagem para a vida fora do plano físico abrangido pelos cinco sentidos, como Hermes, Mercurio e outros deuses, pouco se encontra no Ocidente, embora que se orava aos Anjos para acompanharem a alma no trânsito final, como tantas orações do nosso antiquíssimo cancioneiro religioso patenteiam,  mas sabemos que na religião do Islão, tão devedora do Judaísmo e do Cristianismo, Rafael, Israfil, é o Arcanjo que soará a trombeta da mítica ressurreição final. 
O historiador de arte Ernst Hans Gombrich (1909-2001) assinala ainda no  sóbrio e valioso mas limitado estudo Tobias e o Anjo, no seu pioneiro estudo Symbolic Images, uma bela representação por um discípulo de Baldovinetti existente na igreja de S. Maria delle Grazie, em S. Giovanni Valdarno, na qual se lê uma inscrição tipo jaculatória e mantra: «Rafael, sê meu médico perpétuamente, assim como foste de Tobias, e sê sempre  comigo no caminho», a qual reforça a praticabilidade orante da contemplação da pintura do Arcanjo, sem dúvida sempre um acto, método e meio de intensificação das energias anímicas, de modos psicomórficos conducentes ao contacto com o espírito e o mistério do Ser Divino.
Joseph Hammond, outro estudioso de Rafael e Tobias, nesta linha protectora, regista por sua vez  em Veneza, uma oração do séc. XVI inscrita numa lápide no palácio ducal que reza: «Oh Venerável Rafael, faz com que o lago esteja calmo, nós te rogamos». 
Também valoriza, embora talvez com pouca profundidade espiritual, o seu papel de instrutor e de curador numa Adoração dos Pastores na igreja dos Carmos, em Veneza, do pintor Cima da Conegliano, quando de facto Tobias, de mão dada a Rafael, consegue sobretudo chegar à adoração do nascimento divino em nós, Emmanuel, de certo modo podendo interpretar-se tal imagem como simbolizando que o contacto ou ligação com o santo Anjo da Guarda é uma alta realização anímico-espiritual, no que implica da vida harmoniosa psicofísica, conducente à contemplação Divina, ao Deus em nós. 

De Tiziano, cerca de 1595, S. Maria Madalena, S. Bráz, Rafael e Tobias e o doador: Deus em nós...
Mas alerte-se contra os erros e comercialismos tão frequentes nos livros sobre Anjos destas últimas décadas, em geral cheios de desinformações, tais como os nomes dos anjos para cada dia do ano, como se todas as pessoas nascidas no mesmo dia tivessem o mesmo Anjo, ou ainda da facilidade com que as pessoas dão ordens a tais anjos ou entidades celestiais. Um exemplo será esta ideia, expressa num livro por uma das tais especialistas de Anjos, Doreen Virtue: «em qualquer altura que chame Rafael, ele aí estará. O arcanjo da cura não é tímido ou subtil a anunciar a sua presença. Ele quer que saiba que ele está consigo, como uma maneira de confortá-lo e aliviar o stress durante o seu caminho para a recuperação da saúde».
Uma versão muito invulgar, de Andrea Vaccaro (1604-1670), na qual Rafael mostra e oferece um cavalo, psicopompo ou guia para o caminho....
Numa linha de interpretação espiritual e de elevação interior conclua-se com dois aspectos de ensinamento espiritual sobre as informações atribuídos no Livro de Tobias a Rafael: os Anjos e Arcanjos apresentam as nossas orações à Divindade, ou seja,  fazem-nas elevar-se para as suas direcções curadores, realizadoras e iluminadoras, dentro do consenso da Providência Divina, ou da Ordem do Universo, o Dharma ou a Rita da Índia.  E os sete Espíritos que se erguem diante do assento divino no Cosmos, e que terão certamente origem e correspondência com o Sol e a Lua e os cinco planetas, e também, em nós, com os sete centros de força ao longo da coluna vertebral (os chakras da tradição yogui indiana), e posteriormete com os sete dons do Espírito Santo, e que é por eles que se erguem e são apresentadas ao Espírito divino as nossos esforços e actos, aspirações e orações, ou seja, as irradiações energetico-conscienciais subtis que possamos gerar melhor e mais abnegadamente, com os consequentes recebimentos possíveis das graças da Luz e do Amor. 
Cavalgar, ou saber utilizar, o cavalo, dragão e peixe....
   Que saibamos então merecer comungar melhor com o nosso Anjo da Guarda,  o Arcanjo de Portugal,   o Arcanjo Rafael  e, sobretudo e mais intimamente, com o Espírito e a Divindade, e a Sua Luz, Amor e Força, para  melhoria nossa e da Humanidade e da Terra...
Amen, Om, Hum, Hri...

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