quinta-feira, 1 de junho de 2017

Junho e as efemérides do encontro do Oriente e do Ocidente, Índia e Portugal

                                
1-VI. Segundo certas tradições, entra no Mahanirvana, a grande extinção do ego e da separatividade em relação à Unidade, Siddhartha Gautama Sakya, o Buddha, o iluminado, em 483 a.C., em Kusinara, no actual Nepal. Deposta a vestimenta terrena, o corpo espiritual desprende-se da terra e a essência de pura luz desabrocha totalmente (ou mais...), mas também inefavelmente  - quantos discípulos e discípulas junto aos seus mestres ou mestras em tal momento sentiram e viram o que se passava? - e daí os mistérios e interrogações que no seio dos seguidores do Budismo se gerarão quanto ao nirvana, à continuidade ou não do espírito individualizado, ou ainda à existência ou seidade da Divindade ou do Absoluto. De qualquer modo, como terapêutica libertadora do sofrimento e da ignorância primária e como caminho de não-violência, compaixão e discriminação, o Budismo caminhará luminosamente ao longo dos séculos, com uma divisão básica: Via Pequena, Hinayana, mais formal e nua, e a Grande Via Mahayana, sobretudo desenvolvida nos Himalaias e Tibete, mais mágica e carregada de entidades, rituais e iniciações. Com a queda do Tibete livre, o Budismo Mahayana tem-se espalhado por todo o mundo, com a irradiação pessoal do Dalai-Lama a destacar-se, embora também a linha Hinayana, sobretudo da Tailândia, tenha conseguido erguer os seus mosteiros no Ocidente, tal o de Amaravati, em Hemel Hempstead, Inglaterra, ou mesmo já hoje em Portugal, na Ericeira, Quinta do Pinhal, Cabeça Alta, onde monges como os Ajans Damiko e Apamado transmitem em português o Budismo Theravada da Floresta. Os encontros mais ecuménicos ou pelo menos dialogantes dos Budistas com os Cristãos portugueses no tempo das navegações XVI e XVII passaram-se no Tibete, China e Japão. Eis um excerto do testamento final de Gautama transmitido através da sua fala ao fiel e mais íntimo discípulo Ananda: «Sede vós para vós, Oh! Ananda, o vosso próprio archote e o vosso próprio recurso, não procurai outros apoios. Que a verdade seja o vosso archote e o vosso apoio, não procurai outros apoios... Aquele que será o seu próprio archote e recurso... e o que faz da verdade o seu guia e fundamento, sem se socorrer de mais nada, esses serão, Oh! Ananda, os meus verdadeiros discípulos, os que seguem a boa maneira de viver».

2-VI. O papa Paulo III em 1537 pela bula Sublimis Deus declara não só que os Índios da América são capazes de receber a fé e os sacramentos cristãos, como os defende energicamente: «Nós decidimos e declaramos que os chamados indígenas, bem como todos os que vierem a entrar em relação com a cristandade, não deverão ser privados da sua liberdade e bens — não obstante as alegações contrárias — ainda que eles não sejam cristãos». Por detrás desta vitória estava a mão e a vida do Padre Bartolomeu de las Casas e atalhava-se assim a cupidez de colonos espanhóis e portugueses que alegavam serem os Índios animais privados de razão. No Brasil, os jesuítas Manuel da Nóbrega, José Anchieta e António Vieira destacar-se-ão como defensores firmes dos seus direitos.
Naufrágio da nau S. Gonçalo no imponente Cabo da Boa Esperança neste dia em 1630. Os sobreviventes experimentam a vida selvagem, ou a de Robinson Crusoé, até construírem  com os restos da nau dois barcos, dos quais um regressa a Goa e o outro naufraga já na barra de Lisboa.
D. Joana de Castro, a crioula Begun, filha dum francês e duma indo-portuguesa de Baçaim, nasce em 1706. Casada duas vezes com franceses, vem a ser uma excelente governadora de Pondichery, com o marquês de Dupleix, na orientação do Estado Francês na Índia.


Uma obra pioneira na aproximação à Unidade das Religiões
3-VI. Manuel Faria e Sousa, escritor de grande cultura e subtileza, embora para historiador com demasiada criatividade imaginativa, morre neste dia em 1649 e o corpo é sepultado na Igreja dos Premonstratenses (ordem fundada em França no séc. XII), na corte de Madrid. Comentador da obra de Camões, defendeu as suas utilizações do paganismo da acusação de heterodoxia. Autor prolífero, com obras de engenho simbólico, foi um dos elos da Cavalaria do Amor, como Sampaio Bruno pioneiramente discerniu, em especial na sua obra Noches Claras Divinas y Humanas Flores. Na introdução à sua monumental Ásia Portuguesa mostra bem a sua visão espiritual dos seres e dos portugueses: «Os corações portugueses não cabiam já na pequenez do seu reino. Desse modo, uma ousadia sublime os foi dilatando a tal ponto que os colocou em absoluta necessidade de se alargarem tanto que acabaram por exceder a quantidade de matéria-prima». «Nos assaltos às praças, ou expugnáveis ou duvidosas, obstinavam-se mais intrépidos os seus peitos, porque já os seus espíritos parecia estarem dentro delas... Na medida dos feitos, subiram as utilidades e, com estas, os vícios... Veremos alguns entrarem pobres na Índia rica, e, para de lá saírem riquíssimos, deixarem-na pobre, o que é bem para lastimar. Mas há muito mais: que não bastou o exemplo de alguns terem saído dela sem caudal, quando ela estava caudalosa, para que de lá não saíssem com grande substância, quando ela estava soltando gemidos de pura miséria». Descobrindo constantes analogias entre as religiões, Faria e Sousa relaciona «na Igreja da Santíssima Trindade em Madrid, uma Imagem de três Homens, cujos corpos se uniam em um; com três cabeças divididas, e todas de um parecer; e tudo isto se via incluído num triângulo... por mais que quanto à vista corpórea pareça monstro» aprovada contudo como «virtuosa, lícita, e católica», com a imagem indiana, provavelmente a descrita por D. João de Castro, de um «Gigante de três cabeças, coroado com tiara pontifical, que hoje se vê no estupendo pagode da ilha de Elefante, e o seu nome é Mahamurti, tido por superior a todos os Deuses que se vêem na mesma construção». Assim se arriscava Faria e Sousa, considerando ainda ignorantes os que não vissem nisso «utilíssimas memórias da Corte celeste entre os mortais»...
4-VI. Siddhartha Gautama, o Buddha, teria pregado neste dia o seu primeiro sermão, depois da iluminação em Sarnath, junto a Kashi, em 528 A.C., aos seus antigos companheiros de ascese e que aceitando o Nobre Óctuplo Caminho do Meio se tornam os seus primeiros discípulos, dizendo-se que a roda do Dharma, o Dever, Ordem, ou Lei, começou a rodar para toda a eternidade.
Stupa em Sarnath onde estarão algumas das relíquias de Buda: um local que meditei e que impulsiona rapidamente a luz interior...
O P. Baltazar Barreira, bem recebido no Congo, Cabo Verde e Serra Leoa, missionário abnegado e cheio de amor, morre com 74 anos, suavemente, na ilha de Santiago em 1612.
Depois de 12 anos na Índia, passou o P. Diogo de Matos em 1620 à Etiópia para apoiar a conversão do imperador Susénio. Assisti-lo-á na morte, em 1632, ainda na fé de Roma, embora já antes este tivesse restaurado os ritos e costumes antigos em desacordo com os de Roma, vindo a ser o seu filho quem expulsará os jesuítas do reino etíope. Deixou-nos duas Cartas e morre neste dia em Goa em 1633.
Júlio Gonçalves nasce em Nova Goa em 1881. Oficial da marinha e médico, autor de obras sobre a Índia notáveis, até pela abrangência da religião e espiritualidade, como Os Portugueses e o Mar das Índias. Da Índia Antiga e sua História, onde explica que «conheceram-na os Iranianos sob o nome de Hendu, com o H fortemente aspirado, porque a banhava o rio Sindhu. A esse rio chamaram os gregos Indu — e Índia ao país adjacente. E Índia ficou sendo para toda a Europa... Só o índio não conheceu como Índia a sua terra, que para ele foi sempre Ariawarta ou Baratawarta, a terra dos Árias (nobres) ou dos reis Baratas».
Ardeshir Ruttoni Wadia, pensador, filósofo, nasce em Bombaim em 1888. Escreverá sobre Zoroastro, Gandhi, a liberdade da Mulher e no seu ensaio Democracia e Sociedade profetizará a era actual da globalização, embora com talvez alguma confiança exagerada na democracia e na educação modernas:«No futuro o Ocidente e o Oriente não serão mais que termos geográficos e não evocarão mais diferenças morais, políticas, religiosas. A democracia é igualizadora e o seu instrumento mais eficaz é a educação. É possível que o Ocidente venha a considerar os princípios fundamentais do pensamento indiano, o karma e a reincarnação; e talvez o génio científico do Ocidente consiga dar-lhes uma base científica, de modo que não terão de ser aceites como dogmas».
5-VI. O infante D. Fernando ganha o cognome de Santo ao suportar com muita paciência o longo e atribulado cativeiro, que ao princípio não quis, e que o levou de Tânger a Arzila e por fim a Fez onde morre neste dia em 1433, depois de 15 meses em estreita cela e a ferros, suspirando: «Ora deixai-me acabar». No testamento antes de partir de Lisboa, numa antevisão já do pobre que de seu, na nua cela, só terá o breviário, dirá: «Deixo a Fernão Lopes que foi meu escrivão de puridade, um livro em português que ele me deu, que se chama Ermo Espiritual».Os seus companheiros enterraram o seu coração e entranhas, enquanto o corpo ficava dependurado nas muralhas da cidade. Oito anos depois, ao ser resgatado o seu secretário o P. João Álvares, foi trazido o coração para Portugal e depositado dentro dum cofre no túmulo real da Batalha, com o infante D. Henrique e outros a rezarem. Le bien me plait, entre ramos de roseiras, foi a sua divisa na vida e com efeito sofreu os espinhos da rosa da glória guerreira, mas destilando-se em fragrância alquímica de virtude imortal. Para alguns portugueses ele é o Ser central e duplo dos Painéis de Nuno Gonçalves.
O jesuíta italiano Mateus Ricci em 1583, aproveitando-se dos almanaques astronómicos portugueses que anunciam um eclipse lunar, consegue determinar a longitude aproximada de Macau: 125° a oriente do meridiano das Canárias, com erro apenas de 5°. Começava assim a reduzir-se a figura geográfica da China aos seus contornos reais, e durante 18 anos o P. Ricci será infatigável e certeiro nas observações das latitudes e longitudes em que estava compreendida a China. Para além disso foi um bom estudioso das religiões e costumes chineses procurando um diálogo e um entendimento bem pioneiro do ecumenismo alargado e deixando vários escritos notáveis.
O Papa Leão X, fiorentino...
6-VI. D. Manuel escreve uma carta em 1513 ao papa Leão X, um Medici de Florença e protector dos humanistas, anunciando-lhe os feitos dos portugueses no Oriente, especialmente a tomada de Malaca por Albuquerque. A reacção do papa é entusiástica, e manda celebrar missas de acção de graças e preces públicas a favor dos Portugueses no Oriente. Traduzida para latim e impressa em Roma em Agosto, a carta espalha-se por toda a Europa culta em inúmeras reedições.
O vice-rei da Índia D. João de Castro, cientista, humanista e íntegro governador, morre em 1548, com 48 anos de estudos e de lutas. Antes de morrer, chamou os cidadãos mais importantes de Goa para lhes comunicar: «Não terei, Senhores, pejo de vos dizer, que ao Vice-Rei da Índia faltam nesta doença as comodidades, que acha nos hospitais o mais pobre soldado. Vim a servir, não vim a comerciar ao Oriente, a vós mesmos quis empenhar os ossos do meu filho, e empenhei os cabelos da barba, porque para vos assegurar, não tinha outras tapeçarias, nem baixelas. Hoje não houve nesta casa dinheiro, com que se me comprasse uma galinha; porque nas armadas que fiz, primeiro comiam os soldados os salários do Governador, que os soldos de seu Rei; e não é de espantar, que esteja pobre um Pai de tantos filhos. Peço-vos, que enquanto durar esta doença, me ordeneis da fazenda Real uma honesta despesa, e pessoa por vós determinada, que com modesta taxa me alimente». E jurou sobre o missal «que em nada se havia aproveitado da fazenda do rei nem de qualquer outra pessoa, que nenhum contrato havia tido para multiplicar a sua». E ditou-lhes uma carta ao rei, em que lhe lembra os grandes serviços feitos por Manuel de Sousa Sepúldeva, Francisco da Cunha, D. Francisco de Lima, Vasco da Cunha, D. Diogo de Almeida Freire e outros. Acompanhado por S. Francisco Xavier e dois franciscanos liberta-se como espírito do despojo corporal.
Reincarna em 1935, e prova (na escolha acertada dos objectos que lhe teriam pertencido na vida anterior) poder ser o 14º e actual Dalai-Lama do Tibete, Tenzin Gyatsu, a fina alma que terá contudo de exilar-se para a Índia desde 1950. Dirá: «Nós, os budistas, acreditamos que todos os seres passam por nascimentos sucessivos e esforçam-se, no decorrer desta série de vidas, por chegar à perfeição búdica [o estado realizado por Gautama, o Buddha])».
O excepcional professor de filosofia e mestre Gurudeva Ranade ou de seu nome completo  Ramachandra Dattatreya Ranade, desincarna neste dia em 1957 em Nimbal, Maharashtra, na Índia, com 71 anos. Mestre reconhecido por centenas de discípulos, ao mesmo tempo que era professor universitário, desenvolveu a linha tradicional da Bhakti yoga, na qual bhava ou sentimento e aspiração por Deus são fundamentais, a par de uma meditação que une o nosso espírito com o espírito Divino. Afirmou: «Não há outro caminho para a libertação a não ser a pronúncia do Nome Divino transmitida pelo mestre e a visão consequente de Deus». Como actividades meritórias apontou: «a seguir à meditação estão as profissões de saúde que diminuem o sofrimento dos outros e a seguir a isto está distribuição de comida aos pobres». Mas advertirá que sem realização divina, a consciência da presença luminosa do Espírito em nós, as obras virtuosas de pouco valem...

7-VI. O rei D. Afonso V, em 1454, doa neste dia à Ordem de Cristo toda a espiritual administração e jurisdição das terras conquistadas e por conquistar em África.
Neste dia em 1494: «Em nome de Deus todo poderoso, Pai e Filho e Espírito Santo, três pessoas realmente distintas e apartadas e uma só essência divina, manifesto e notório seja a todos quanto este público instrumento virem, como na vila de Tordesilhas, a sete do mês de Junho do ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1494... se assinale pelo dito mar oceano uma raia ou linha direita do polo ártico ao polo antártico... a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde». Castelhanos e Portugueses assinam o tratado de Tordesilhas pelo qual o mundo é dividido ao meio por uma linha (puxada nas negociações para Oeste de modo a caber o trajecto com ventos favoráveis para a Índia e provavelmente o Brasil que já se deduziria ou saberia), cabendo aos primeiros a zona a nascente e aos segundos a zona a poente. D. João de Sousa, cavaleiro da Ordem de Cristo e senhor de Sagres, e Duarte Pacheco Pereira são dois dos embaixadores enviados por D. João II, arguto delineador das rotas que asseguraram a expansão.
Tratado de paz entre o imperador Mogol Jahangir e o rei de Portugal em 1615, pondo fim aos apresamentos de navios mogóis em Surate e a um certo desassossego nada adequado ao respeito mútuo que desde Akbar devia reinar entre tão poderosos e dilatados senhores...
Natural de Peniche, o irmão franciscano Pedro da Madre de Deus esteve servindo no Ceilão, Chaul e Baçaim. Uma noite saiu da oração no coro à pressa e meteu-se na cela a dar muitos ais: «O seu companheiro pôs-lhe a mão no peito donde mostrava queixar-se, e o achou tão inflamado que parecia que abrasava», tão intensos eram o seu amor a Deus e a corrente espiritual. Perguntado à hora da morte se tivera visões em vida, respondeu: «uma só, estando em oração, um frade que ele creu que era o nosso Padre S. Francisco de Assis, e que lhe dissera: — Filho, persevera». Morre neste dia em 1624, emitindo o som prático do Verbo ou Palavra: Amem.
Morte e ascensão de Maomé...
8-VI. Maomé, o profeta do Islão, cujos 5 pilares são a oração, a fé, o viver em caridade, o jejum e a peregrinação, morre neste dia em 632 em Medina, a cabeça apoiada em Aicha, a preferida das suas nove mulheres. Não foi fácil a sucessão dos que se tornariam os detentores das rédeas do Islão pois os califas não quiseram aceitar a sucessão indicada por ele para Ali, casado com a sua filha Fátima, e assim se criará a divisão hoje tão lancinante entre os shia e os sunitas. Serão os sufis, ascetas e místicos, tanto dos shia como dos sunitas aqueles que ao longo dos séculos e em todos os povos e lugares se elevarão às sublimidades do conhecimento e amor de Deus, na ausência das quais toda a religião é uma caricatura da sua essência divina. A tradição islâmica, influenciada pelo cristianismo e judaísmo, imaginará como estes uma transladação aos céus do próprio corpo do seu profeta, não deixando os seus ossos em terra, mas desnecessária e de algum modo materializando os ensinamentos e a visão do mundo espiritual. No tempo dos Descobrimentos a grande fonte do sangue derramado foi a luta islâmico-cristã, talvez mais por interesses políticos e económicos do que pelos ensinamentos religiosos, que devem ser hoje equacionados pelo comparativismo ecuménico e comungados ao nível espiritual. Entre os estudiosos ocidentais da espiritualidade islâmica deve-se realçar o espanhol Miguel Asin Palacios, o francês Henry Corbin e o inglês Reynold Nicholson. Dois conhecidos intelectuais franceses, o hermetista René Guénon e Roger Garaudy, converteram-se mesmo ao Islão.
Vasco da Gama nos Jerónimos, fotografia de Sílvia Lucero.
Os ossos de D. Vasco da Gama (ou dum seu descendente, pois vieram transladados da Vidigueira), o realizador da tão desejada união por mar entre Portugal e a Índia legendária, são lançados em 1880 solenemente numa barca tumular neo-manuelina no mar fluídico do templo dos Jerónimos, obra imortal dos mestres Boitaca, João Castilho, Diogo Torralva e Jerónimo de Ruão. Aqui mandara erguer o infante D. Henrique em 1460 uma ermida para os navegadores velarem antes das partidas e para socorro dos navegantes, entregando-a aos freires da Ordem de Cristo. Com a chegada à Índia mandou D. Manuel construir os Jerónimos, onde foram inscritos muitos símbolos importantes, dentro da geometria sagrada da sua construção, na recreação dum ambiente tanto marítimo como oriental que evoque o Divino. Num dos templos de Deus, realizado pelo Portugal dos Descobrimentos, as imagens de Luís de Camões e Vasco da Gama, o poeta amoroso e o navegador ousado (a que se juntaram no claustro o íntegro historiador e municipalista Alexandre Herculano e Fernando Pessoa), são um apelo ao aperfeiçoamento dum povo cuja missão mais elevada, como é a de todos os povos, é fraterna e ecuménica e que deve agora unir as dualidades em amor e sabedoria, fazendo guerra ao infiel que está em si próprio, tendo no olhar determinado a subida ao mais alto monte da Ilha do Amor, os Himalaias da alma.

9-VI. D. João II manda em 1493 dar ao Rabi Abraão (Zacuto) astrólogo dez espadins de ouro. Chegado de Espanha em 1492, permanece em Portugal publicando obras como o famoso Almanaque que serviu nas navegações e aconselhando os reis, até que em 1497 D. Manuel o cola à parede com a conversão, ou a saída pela expulsão. Recolhendo-se a Tunis e vindo a morrer possivelmente em Jerusalém, manifestou a crença na vinda próxima do Messias. Luís de Stau Monteiro escreverá em 1968 as Mãos de Abraão Zacuto, denunciando as opressões da liberdade, ainda no tempo do governo e da censura de Salazar 
Duarte Galvão, enviado como embaixador à rainha da Etiópia Helena, morre na ilha do Camarão, no mar Vermelho em 1517, devido às asneiras do vice-rei Lopo Soares de Albergaria que acabaram por anular a expedição e fizeram perder-se os presentes e livros únicos para o Preste João, provavelmente algum manuscrito do Livro da Corte Imperial, uma obra na linha de Raimundo Lulo e destinada a convencer judeus, muçulmanos e gentios da excelência cristã, exemplares da Vita Christi, etc. Fora Cronista-mor do reino e embaixador em três reinados. Com 70 anos foi ainda animador da expedição que com o patriarca Mateus procurou chegar ao Preste João, tendo então escrito uma Exortação aos que iam à Índia, «para que saibam e folguem muito mais de saber que bem, e serviço de Deus vão fazer». Enterrado o corpo na areia, 8 anos depois o P. Francisco Álvares irá buscá-lo e trazê-lo para Cochim, onde seu filho António Galvão o recebe com grande procissão e o finge enterrar no mosteiro de S. António, levando-o secretamente de noite para a sua nau, a Santa Maria do Espinheiro, na qual o traz até Lisboa, para a igreja de Xabrégas. António Galvão levou por diante o testamento anímico do pai, na coragem, determinação e altruísmo e será chamado o “Apóstolo da Molucas”.
D. Cristóvão da Gama e os seus 400 companheiros internam-se neste dia pelas terras do Preste João para o ajudar a sobreviver aos ataques dos mouros do emir de Harar, em 1541. Na ardente e saudosa despedida da expedição, o governador e seu irmão D. Estêvão inicia-o: «Aqui vos entrego esta bandeira d’El-Rei nosso senhor, como divisa de Cristo e vo-la encarrego quanto posso, e vo-la mando sobre a bênção do nosso bom pai, vós a guardeis e enxalceis quanto em vós fôr, com todas as vossas forças até por isso fenecerdes a vida».
Abre neste dia em 1585 o 3º Concílio Provincial de Goa. Se no segundo (1575) ainda se dizia que não devia haver constrangimento nas conversões, neste a rédea já vai solta: multas aos infiéis, proibição dos brâmanes usarem a linha, expulsão de gentios prejudiciais e pede-se ao rei que acabe com os casamentos hindus. Quem ainda os protegia era a população portuguesa de Goa e algumas autoridades como os desembargadores e por isso pretende-se que estes não possam apelar, nem agravar.
Morre mártir na Etiópia, depois de oito anos de batalhas para trazer ao grémio católico os fiéis da terra, em 1638, o bispo de Niceia, Apolinário de Almeida. Como teria sido melhor se tivesse compreendido que a uniformidade mata a alma própria de cada ser, região ou povo...
Como tantos portugueses dos Descobrimentos, que evoluiram rapidamente em contacto com tanta amante, madrasta e mãe experiência, Manuel da Cruz, depois de ser capitão na Índia, sentiu-se chamado ao estado de religioso mas, dando-se mal com o clima de Goa, veio a viver 28 anos no convento da Arrábida, onde tinham brilhado S. Pedro de Alcântara, Agostinho da Cruz e outros franciscanos, falecendo neste dia em 1730.

10-VI. Dia de Portugal, ser espiritual, anímico e eco-geográfico. Dia dos propósitos duma colectividade e daqueles que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando, ou que têm respondido à condição: «Vós, que à custa de vossas várias mortes / A Lei da vida eterna (a realização da Verdade) dilatais». Embora mais um dia de palavras e condecorações, do que reflexões, invocações, decisões, meditações e realizações, há que manter a esperança, tanto numa melhoria da qualidade de vida, como em que as gerações futuras se harmonizarão melhor com a grande alma Portuguesa, com a sua Natureza mais preservada e amada, com os elos mais importantes da sua Tradição Espiritual, ou mesmo com o  Arcanjo de Portugal.
10 de Junho é também o Dia do Anjo, ou melhor, Arcanjo Custódio de Portugal. Este Ser das hierarquias supra-humanas é o ser essencial e Portugal. Uma sua bela imagem quinhentista está na Charola do Convento de Tomar, um dos centros espirituais de Portugal desde a fundação e particularmente nos Descobrimentos. Outras existem em muitas igrejas e lembram que a ligação com os mundos superiores faz parte da natureza mais elevada da humanidade. Se S. Jorge fora evocado como protector de Portugal até D. Manuel, isso não quer dizer que seja o arcanjo. Mais perniciosa tem sido a identificação do Arcanjo de Portugal com Mikael aventada e mantida por alguns dos esoteristas da nossa praça. Num tratado português do século XVII sobre o Anjo, diz-se: «Aos reinos tem Deus nosso Senhor deputado Anjos particulares, que os ensinem, aconselhem, governem e defendam, com especial providência do segundo coro da terceira e última hierarquia que são os Arcanjos». Foi D. de facto Manuel que em 1504 institui o culto e a procissão do Anjo Custódio, a realizar no 3º domingo de Julho, passando mais tarde a celebrar-se  este ser essencial no dia de Portugal e de Camões, a 10 de Junho, sem que deixemos todavia no 3º Domingo de Julho de tentarmos sintonizar mais com ele. 


Vera efígie (anónima) de Camões, na cela prisional de Goa, em 1558, sempre escrevendo e às Musas dado.
Luís de Camões, um dos símbolos da Pátria, morre com ela em 1580, provavelmente numa peste, pouco tempo após Alcácer Kibir. Com 17 anos de Oriente, Camões estava pronto para cantar a gesta dos Descobrimentos e para desaparecer com o crepúsculo da pátria, tão sangrada no norte de África. Fernando Pessoa, o “Super Camões” como ele próprio se intitulou na revista portuense  Águia, dirá na carta ao Conde Keyserling que publiquei pela 1ª vez na Grande Alma Portuguesa que esta desde Kibir tornada subterrânea se aventurará de novo um dia já não materialmente, mas supra-religiosamente. E se a Mensagem é finalizada com o aviso do nevoeiro, também os Lusíadas, templáriamente, murmuram: «Não mais, Musa, não mais, que a lira tenho destemperada e a voz enrouquecida, / E não do canto, mas de ver que venho / cantar a gente surda e endurecida». Mesmo assim, Luís de Camões, ao deixar algo desiludido da vida terrena o «instrumento da alma» ou corpo perecível, entregava-nos a sua obra, obtida pelo esforço iniciático dum ideal real, «para servir-vos braço às armas feito; / Para cantar-vos mente às musas dada». Ao conseguir realizá-lo com harmonia e beleza, libertou-se da lei da morte e, não só como «sombra gentil, da sua prisão saída, do mundo à pátria (celestial) volveu», como tornou a sua vasta e subtil obra um instrumento imorredoiro da cultura, o culto de Ur, a Luz Fogo.
Sir Edwin Arnold nasce em 1832 no Reino Unido e obterá um sucesso extraordinário com os longos poemas dedicados à vida dos mestres Jesus e Buddha, A Luz do Mundo, e A Luz da Ásia, catalizadores dum interesse maior pelo Oriente..
11-VI. D. João III morre em 1557 depois dum reinado de 35 anos marcado pela atribuição de bolsas de estudo no estrangeiro, a fundação do Colégio das Artes em Coimbra, a perseguição dos Judeus, a introdução da Inquisição (mas não ainda em Goa) e dos Jesuítas («os primeiros queimavam os corpos e os segundos inflamavam as almas»), a união na coroa dos mestrados das ordens militares de Cristo, Santiago e Aviz, a redução da Ordem de Cristo a conventual, o lento ocaso do que havia de abertura e sabedoria humanista, iniciando-se a curva descendente de Portugal, logo apressada pela regência também algo fanática de sua mulher D. Catarina, a imaturidade de D. Sebastião e a perda da independência em 1580. Alexandre Herculano no fim da sua História da Inquisição caracterizou severamente D. João III como «fanático, ruim de condição e inepto». Contudo, a sua estratégia política foi realista e não procurou excessiva expansão territorial, procurando antes manter armadas fortes para viajar, proteger, atacar e piratear. O historiador Garção Stockler escreveu: «Desde que a mal dirigida piedade do senhor rei D. João III deu uma tão desmedida influência à ordem eclesiástica sobre o espírito da nação portuguesa, esta descaiu imediatamente do seu antigo esplendor».
O P. Francisco de Laynes, que chegou a bispo de Meliapor, morre em 1715 em Bengala, depois de 34 anos de apostolado difícil no sul da Índia. Quando veio a Portugal em 1708 mostrou-se vestido à renunciante hindu, saniasse, em Évora, tal e qual como S. João de Brito se mostrará mais tarde. Para além das roupas, havia a alimentação, os jejuns, o recolhimento. Mas o tempo do seu governo de Meliapor obrigou-o a constantes andanças, devido aos conflitos com os missionários estrangeiros enviados pela Congregação da Fé que acusavam os jesuítas de permitirem demasiados ritos e costumes gentílicos aos cristãos indianos, destacando-se nesse atitude reaccionária o Patriarca de Tournon que aprovou um decreto em 1703 com inúmeras proibições, tais as de lerem livros de filosofia e religião hindu, ou de darem nomes de heróis, antepassados ou divindades indígenas nos baptismos dos indianos.
12-VI. Nuno Álvares Pereira nasce na Certã em 1360. Guerreiro e depois frade carmelita, deixando algo da sua aura e auréola ao Carmo de Lisboa, foi um dos pilares da independência em relação a Castela. Em 1415 foi ainda a Ceuta iniciar a expansão portuguesa. Fernando Pessoa na Mensagem cantou-o luminosamente e algo proféticamente chamou-o já santo, o que só acontecerá em Abril de 2009. Oiçamo-lo: 
«Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando,
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu.
Esperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!»
Entra em 1598, na Companhia de Jesus, Francisco Garcia, natural de Alter do Chão, e virá ser um dos primeiros religiosos portugueses mais interessado no Hinduísmo, traduzindo O Homem das 32 Perfeições, e comentando algumas histórias com máximas, tais como estas: «quem não ouve os conselhos dos mais velhos não tem bom fim»; «Deus não ouve a quem não ora com atenção e a Sua própria morada é o coração do homem».
D. Luís de Meneses, 5º conde da Ericeira, morre em Goa em 1742. Governador do Estado Português na Índia com galhardia no triénio iniciado em 1717, teve problemas com o barco e com os ingleses no regresso e demorou 28 meses para chegar a Lisboa, após ter sido recebido sempre com todas as honras pelas terras francesas onde passou, pela sua alta cultura e coragem e por a sua mulher ser da aristocracia francesa. Regressou segunda vez como governador em 1740, na mais longa viagem, 18 meses. Incentivou a cultura de bambus em Salsete e teve outras medidas de estímulo à agricultura, comércio e indústria. Era membro da Academia Real e o seu corpo foi sepultado junto ao de S. Francisco Xavier.
Roberto Ívens, o infatigável explorador de África, nasce em 1850 na mesma ilha dos Açores, S. Miguel, onde outro ousado palmilhador, dos Himalaias, recebera também na natividade os eflúvios vulcânicos e a aspiração do além de todos os horizontes, o irmão Bento de Góis. A sua vida foi descrita como «breve e ardente».
13-VI. Dia de S. António (deixará o corpo em 1231 em Pádua), um dos protectores mais amado e lembrado pelos portugueses ( e italianos...), passando com o decorrer do tempo de asceta a casamenteiro e encontrador (ou soprador na mente a ele aberta...) de objectos perdidos. A sua paranética (sermões, mesmo que a peixes...) revela grande sensibilidade à Natureza e  inteligência analógica, ainda que só tenhamos os seus sermões em resumos, baseados  na imagética da Natureza e nas analogias com a Bíblia e seus passos e símbolos. Dirá: «Do oriente da graça para o ocidente da culpa partem os filhos de Adão... No rosto da nossa alma há três sentidos espirituais, dispostos em recta ordem pela sabedoria do sumo artífice: a vista da fé, o olfacto da discrição e o gosto da contemplação».
«Raja Singa Raja Altíssimo, Monarca, Grandíssimo e Potentíssimo Imperador deste mui afamado império do Ceilão, a Adrianen Vander Mejden, governador da minha imperial fortaleza de Galle, envio muito saudar... A carta que Vossa Mercê enviou a esta imperial corte deu-se para se trasladar em língua portuguesa; e como se trasladar, depois de se ler diante da minha imperial presença, conforme a isso lhe mandarei a resposta. Por hora não se oferece mais». 1656. Assim, continuará o português até aos finais do séc. XIX a ser a língua franca do Oriente, usando-a os Europeus (neste caso os Holandeses) para comunicarem com muitos dos povos orientais, num quase império da língua que, com certos costumes, música e religiosidade católica, sobreviveu longamente.
O chinês Fan Shouyi nasce em 1682 na província de Shanxi: «fui criado para venerar o verdadeiro Senhor e servi-lo constantemente. Se bem me lembro, no fim do Inverno de 1707 o eminente académico ocidental (o padre) Provana recebeu ordens de conduzir uma embaixada ao Ocidente, levando-me como companheiro. Viajámos através de montes e rios, atravessámos cidades e regiões e experimentámos tantas dificuldades e perigos no meio das ondas e do vento que sou incapaz de as enumerar. E quem poderia compreender, de apenas ouvir contar, sem nunca o ter visto?» Assim nascia o primeira relação duma viagem dum chinês e cristão ao Ocidente, em defesa dum cristianismo chinês que o papa e a Propaganda da Fé farão abortar.
William Butler Yeats nasce na Irlanda em 1865. Relacionando-se com os simbolistas e pré-rafaelitas, tal como o genial William Morris, embrenha-se criativamente na via esotérica da espiritualidade através da teosofia, do celtismo, do hermetismo e do orientalismo, poetizando e prefaciando algumas obras de Yoga e de Rabindranath Tagore. Os seus interesses e vida sofrem de algumas sincronias com os de Fernando Pessoa, só que foi Prémio Nobel em 1923, enquanto que Fernando Pessoa só postumamente e sobretudo nos nossos dias é que atingiu uma consagrada alma espalhada aos quatro ventos. Na introdução à Oferenda de Cânticos de Rabindranath Tagore, lamenta-se que «nós escrevemos longos livros onde se calhar nenhuma página tem qualquer qualidade para tornar a escrita um prazer, confiantes em qualquer objectivo geral, assim como lutamos e fazemos dinheiro e enchemos as nossas cabeças com política — tudo coisas que embotam ao fazerem-se — enquanto o senhor Tagore, como a própria civilização Indiana, tem-se contentado em descobrir a alma e entregar-se à sua espontaneidade».
Por Nadia Baggioli, da galeria Novo Século.
Fernando António Nogueira Pessoa nasce em 1888, ao Chiado de Lisboa. Para além de genial poeta e sociólogo interessou-se muito pelo Ocultismo e traduziu alguns livros teosóficos sobre a sabedoria indiana e budista, nomeadamente a Voz do Silêncio. Também se interessará pela  poesia persa, Hafiz, Saadi e sobretudo Omar Khayyan, do qual traduzirá alguns rubayaits e criará outros, que recentemente Maria Alhiete Galhoz, Halima Nainova e Fabricio Boscaglia tem estudado e divulgado. Realçou as três manifestações da grande alma Portuguesa: os Templários, a Ordem de Cristo, e um futuro ressurgimento. Para tal contribuiu com vários escritos de certo modo iniciáticos, muito tempo inéditos e pouco compreendidos. A poesia heteronímica é valiosa, mas será talvez a Mensagem, pelo seu carácter de Lusíadas moderno, a sua obra central, à volta da qual estão encastoadas as miríades de fragmentos artísticos duma personalidade riquíssima, mas por isso dispersa e difícil de se compreender em alguns dos seus aspectos mais herméticos ou subtis...
António da Silva Rego, nasce em Joane, Famalicão, em 1905 e será padre, professor e historiador, com importantes publicações nos domínios religiosos dos Descobrimentos, tendo-se até aventurado no labirinto das religiões comparadas, ainda que limitando-se na compreensão por dificilmente conseguir realizar o que não era a sua crença e doutrina católica romana.
14-VI. Por volta deste dia, em 1510, Afonso de Albuquerque (1453-1515) tendo retirado com a sua frota de Goa para o rio Mandovi, e à espera de oportunidade de a reconquistar, recebe a oferta de alimentos enviados pelo Âdil Khân (de novo na posse de Goa), com o recado que «pelas armas queria vencer seus inimigos e não pela fome» que experimentavam os homens da frota a terem até de rilhar couro e ratos. Afonso de Albuquerque mostra o resto de comida que tem e diz: «Dizei ao vosso Senhor que eu lhe sou obrigado, mas que não receberei os seus presentes senão quando formos amigos». Situações como estas de dificuldades na alimentação e de estoicismo foram comuns na época e a lenda da Nau Catrineta lá inclui a sola do sapato na refeição. Os homens de Cristóvão Colombo tiveram de pôr de molho e cozer o couro das vergas numa das viagens. Menos conhecida é a ordem dum governador de Ceilão de salgarem os cadáveres, durante um cerco prolongado, com os protestos infrutíferos dos padres, embora não viesse a ser necessário usá-los. No consumismo de hoje, esta lembrança de pobreza, jejum e auto-domínio em seres tão enérgicos não deve ser perdida, especialmente tendo em conta a tradição indiana de raízes milenárias nos religiosos jainas, protectores de toda a vida e que os cronistas portugueses registaram com curiosidade ou até empatia, e já neste século exemplificada, no domínio do irmão corpo (como lhe chamava S. Francisco de Assis) ao serviço do ideal da não-violência, pelos três jejuns de semanas do Mahatma Gandhi.
O P. Luís Fróis escreve em Arima, no Japão, em 1585, o Tratado em que se contêm muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e esta província do Japão, com muitas observações culturais valiosas, entre as quais regista a da milenária dietética do Yin e Yang: só bebem bebidas quentes, comem arroz integral em vez de pão e, no país da sopa de miso e da ameixa umeboshi, «quanto na Europa são os homens amigos do doce tanto os japões o são do salgado».

15-VI. Enviadas por D. Manuel partem de Lisboa, em 1501, 30 velas comandadas por D. João de Meneses, nas quais navegam vários cavaleiros da Ordem de Cristo, para auxiliarem Veneza contra os turcos, mas estes retiram-se. Para além do esforço guerreiro no Oriente, D. Manuel procurava realizar uma cruzada com os reis de Espanha e Inglaterra contra o domínio turco em Jerusalém, mas tal projecto quase utópico não vingou, sucedendo-se antes ao longo deste século algumas batalhas mediterrânicas que culminaram na tomada do Chipre pelos turcos (em que não cumpriram as condições de capitulação, e chacinaram) e, finalmente,  a sua derrota dois meses depois no golfo de Lepanto, em 7 Outubro de 1571, quando a esquadra naval da Liga Santa, composta por Espanha e Portugal, Veneza, Papado e Ordem de Malta, os desbaratou. Conta a legenda que houve quem visse Nossa Senhora (do Rosário...) a auxiliar os combatentes da Cristandade Europeia face ao expansionismo turco-islâmico. Mais certa foi a participação de Miguel Cervantes, tendo perdido um braço, talvez para emparelhar com o nosso Luís de Camões, sem um olho, sinais do preço que a vitória ou a glória por vezes cobra mais fortemente...
Muni Sushil Kumar nasce em 1926 na Índia e aos 24 anos é iniciado como monge da religião Jaina. Fundou a Fraternidade Mundial das Religiões. «A experiência de comungar com o Divino e o acto da meditação que a realiza, não são prerrogativa de qualquer religião. Por isso quem diz que é o único a possuir a Verdade, não está a dizer a verdade». O Jainismo é como religião provavelmente mais antigo que a religião védica ou bramânica e admite-se hoje que a antiquíssima civilização do Vale do Indo, anterior às invasões dos povos indo-europeus, partilharia de uma religiosidade próxima do que é o Jainismo. Contemporâneo de Gautama Buddha, Vardamana Mahavira foi o último dos Tirthankaras (realizados) e, como muitos historiadores consideraram os 23 anteriores Tirthankaras como lendários, catalogou-se o Jainismo como contemporâneo do Budismo. Sem falar de Deus, o ênfase desta religião é na libertação da alma (que é pura e omnisciente) da matéria que a obscurece, prescrevendo-se complexas regras de purificação, práticas de reflexão e meditação. A sua oração e meditação principal é: «Namo Arihantanam, eu saúdo os seres perfeitos. / Namo Siddhanam, eu saúdo as almas libertadas (siddha yoguis). / Namo Airiyanam, eu saúdo os nobres mestres. / Namo Uvajjhayanam, eu saúdo os instrutores. / Namo Loe Savva Sahunam, eu saúdo os praticantes espirituais do Universo». 
                                                                                          
Viverá cuidadosa e minuciosamentemente não-violento até 22 de Abril de 1994, como podemos ver na imagem seguinte, e que é costume usual dos monges Jainas: 
Na 4ª World Religion's Conference, em Nova Delhi, Fevereiro de 1970, de boca coberta,  e com um yogi mais idoso.
16-VI. Carta régia da extinção definitiva do tribunal da Inquisição em Goa, no ano da graça de 1812. Assim terminava o pesadelo que talvez tenha sido alegorizado, como sugeriu Sampaio Bruno, por Fernão Álvares do Oriente no seu livro Lusitânia Transformada: «Da parte Ocidental da vossa Hespanha, foi ter naquele tempo ao nosso Oriente um monstro fero, que a todos os que a idade antiga viu no mundo fazia vantagem na crueldade, e na bruteza sendo naquela tão excessivo e nesta tão disforme que nos trazia de contínuo assombrados a imaginação, que só em lhe escapar trazíamos ocupada... Deste cruel açoite da nossa idade com voz sumida falávamos como amigos». Nos nossos dias, o investigador António Cirurgião considerou contudo que tal patética descrição dum ambiente opressivo se deve atribuir antes a um sacerdote ou clérigo repressivo, guarda feroz duma concepção violenta e fanática de Deus. Uma das egrégoras mais tenebrosas deixava de ser alimentada fisicamente, com a extinção da Inquisição, mas quantos inquisidores não habitam ainda em tanta alma?
Alice A. Bailey nasce em Manchester, em 1880. Esteve na Índia e deu à luz uma série de 24 livros em geral de elevado esoterismo (embora por vezes incomprováveis), segundo ela inspirados por um mestre tibetano já revelado por Helena Petrovna Blavatsky, Djwal Kuhl, destinados a preparar "a Nova Era", e donde surgiram movimentos como o Lucis Trust e a Boa Vontade Mundial, com sedes em Londres, e que procuravam estabelecer pontes de conhecimento mais harmonioso e profundo entre povos, religiões e culturas, algo que nos nossos dias de facto se multiplicou numa proporção imensa travada contudo pelas crises financeiras e as guerras do Ocidente no Médio Oriente causadoras do terrorismo. Publicou uns comentários ao livro clássico de Raja Yoga, os Yoga-Sutras de Patanjali, texto este que só foi comentado e editado em Portugal, em 1996, por Maria, num Tratado de Meditação, publicado pelas edições Maitreya. Em Portugal, o seu primeiro divulgador e tradutor foi o irmão (engenheiro técnico) Manuel Lourenço, da Sociedade Teosófica, grande servidor da Humanidade, e com quem aprendi, dialoguei e ajudei nas suas traduções...
17-VI. O P. Jerónimo Xavier, obreiro da 2ª missão à corte mogol, grande amigo do imperador Akbar (cuidaram um do outro em doenças), autor em persa da Vida de Jesus (mais tarde contestada por protestantes pelo facto de conter legendas e os oráculos das Sibilas), do Espelho Reflector da Verdade, do Guia dos Reis (recentemente estudados entre nós por Adel Sidarus, de Évora) e dalgumas traduções da Bíblia, morre já em Goa, para onde Akbar não o queria deixar voltar, num incêndio, neste dia em 1617. Na sua viagem ao Caxemira com Akbar entusiasmou-se com o poder e a beleza do Himalaias «maiores que os Pirinéus» e ouviu dizer que havia muitos cristãos no Tibete. Das dúvidas subtis que assaltavam a alma insatisfeita e ardente de Akbar, a maior era a possibilidade de Deus ter um filho nascido duma mulher.
Arjumand Banu Begum, Mumtaz Mahal
Mumtaz Mahal, das três mulheres do imperador mogol a preferida, morre ao dar-lhe o 14º filho em 1631. Triste, Shah Jahan exclamará: «Da excessiva dor de separação corrosiva da mente, participar na Assembleia do Tempo, o aparato do Império, os objectivos agradáveis, não produzem qualquer resultado, senão cansaço e dor». Ergue então o templo e mausoléu do Taj Mahal, que o portuense Frei Sebastião Manrique na viagem por terra para Portugal viu construir, indicando até o veneziano Jerónimo Veroneo como o arquitecto do plano, o que, porém, não está confirmado por outras fontes. Filha do poderoso ministro Azaf Khan, benigno com os portugueses, Mumtaz era de uma beleza extraordinária e o cronista Qazwini elogiou-a assim: «A rainha de hábitos angélicos era a pessoa única do Tempo e a distinguida (mumtaz) da Era, em castidade, modéstia, bondade de carácter, pureza de conduta, natureza e disposição, no guardar a honra do governo, na observância de orações e procurando o prazer do Senhor dos Céus».

18-VI. O jesuíta Diogo Ribeiro, que aprendera o concanim, compusera uma Explicação da Doutrina Cristã, e acrescentara a Arte da Língua Canarina do P. Tomás Estêvão, impressas em Rachol, onde está hoje o museu duma das mais valiosas realizações dos Descobrimentos, a Arte Sacra Indo-Portuguesa, morre em 1633 no Colégio desta cidade.
Circular do Cabido de Goa, em 1859, confirma que a epidemia de cólera é castigo de Deus, pelo que se requere penitência, mas também «uso dos meios que a medicina prescreve para prevenir e curar este mal não contagioso».
O movimento Jaihindista (Viva a Índia), organiza em 1946 um grande comício em Margão, discursando os doutores Tristão Bragança da Cunha, Lohia e Meneses Bragança, que serão presos em seguida. Condenado a oito anos, Bragança da Cunha conhecerá a maresia e a humidade da famosa e triste prisão de Peniche.

19-VI. Carta de D. Manuel ao arcebispo de Braga D. Diogo de Sousa, em 1508, a dar conta dos progressos dos Descobrimentos feitos por Tristão da Cunha, tal a libertação de cristãos na ilha de Socotorá: «posto que o não sejam perfeitamente, têm muitas coisas do conhecimento da nossa fé e têm-se por cristãos»; a entrega pelo rei de Onor dum porto de mar; e uma batalha perto de Calecut em que «entre os mouros mortos morreram 12 capitães d’El-rei de Calecut, os quais se afirma que antes de à peleja virem, votaram dentro em suas mesquitas de ou defenderem a terra ou morrerem; segundo o que fizeram, cumpriram bem o seu prometimento e como bons cavaleiros». Revela aqui uma consciência cavaleiresca notável, condigna do seu cargo de regedor e administrador da Ordem de Cristo, a sucessora dos Templários, que não tinham tido pejo de travarem relações amigáveis com os cavaleiros das fraternidades islâmicas.
De Aetatibus Mundi Imagines, de Francisco de Holanda
Francisco de Holanda, mestre pintor, amigo de Miguel Ângelo e inspirado nas obras de Pico della Mirandola e Marsilio Ficino, morre em 1584. Protegido por D. João III e o infante D. Luís, e depois por D. Catarina, os seus desenhos mostram conhecimentos neo-platónicos e herméticos e quase uma certa clarividência. William Blake será já no séc. XIX um pintor seu próximo, embora cultivando menos a geometria sagrada. No seu valioso tratado Da Pintura Antiga recomenda ao pintor a ascensão gradual do conhecimento pela geografia, astronomia e «alguma vez lhe cumprirá em toda a vida passar adiante acima do décimo e empíreo céu, e com Dionísio Aeropagita contemplar em casto espírito os nove coros dos angélicos espíritos e inteligências até chegar ali onde ardendo estão os serafins ante a primeira fonte e causa da pintura divina, que é o Sumo Deus, porque sem ele até esta altura chegar, nunca poderá chegar até esta Alteza nem será perfeito pintor dalguma obra celestial». D. João de Castro no seu “Tratado da Esfera por Perguntas e Respostas” explica que a morada das almas bem-aventuradas se encontra num «céu quieto e sossegado, livre de todo o movimento; este chamam os santos teólogos o céu empíreo, que quer dizer céu de fogo, não que seja inflamado com fogo, mas por que está sempre ardendo com grandíssimo resplendor». Curiosamente, Francisco de Holanda desenhara duas das bandeiras, certamente bem talhadas simbolicamente, que D. Sebastião contava desfraldar vitoriosamente na trágica jornada de África.
O advogado e poeta Nascimento de Mendonça deixa o mundo terreno neste dia em 1926, com 42 anos de idade, muito sofrida e altamente poetizada. Começara a publicar em 1902 e outro grande poeta indiano Paulino Dias admirara em sucessivas críticas jornalísticas «o eu feroz e irredutível» que perpassava no «ritmo memorável e macio» mas também «no desmembramento da ideia e da palavra». Em 1939, o seu filho Francisco fez publicar  o poema  Vatsulá, inédito até então, numa bela edição da Tipografia Rangel, em Bastorá, com proémio do ilustre médico Wolfango da Silva, e uma nota prévia sua, onde partilha a sua comovida admiração imensa pela beleza moral do seu pai. 
20-VI. Bula papal de Alexandre VI, em 1496, a pedido do rei D. Manuel, permite aos cavaleiros da Ordem de Cristo (a exemplo dos de Calatrava e Aviz) casarem-se, fazendo voto de fidelidade conjugal. Tanto se controlava a expansão sexual (embora no Capítulo e reforma de 1503 ainda se estipulará que nenhum Cavaleiro, Comendador, Freire ou Vigário tivesse manceba ou mulher com quem estivesse afamado), como se ampliava a Ordem para enfrentar as tarefas do norte de África e dos Descobrimentos. O número de comendas multiplicando-se (e muitas à custa dos franciscanos e de outras Ordens), passa a haver mais dinheiro para a Coroa. Na Ordem, uns poucos de freires têm funções religiosas e os mais numerosos comendadores e cavaleiros têm funções de poder e guerreiras. Com o tempo, as comendas e hábitos de cavaleiros passaram a ser apenas um sinal de provas dadas, senão uma mera recompensa, e já pouco a pertença a uma tradição.
Celebra-se o sínodo de Diampier, em Cochim, em 1599. Preside D. Aleixo de Meneses e estão presentes 158 sacerdotes e 800 delegados da cristandade de S. Tomé, ou seja, dos ritos sírios-orientais. O objectivo é reduzi-la à obediência de Roma. Mas o sucesso desta normalização, pressionada de fora, foi efémero e ainda hoje há cinco igrejas no Malabar de ligação aos patriarcas orientais. Já no 3º concílio provincial, em 1585, Mar Abraham arcebispo da Serra fizera profissão da fé romana, sendo-lhe exigido o mesmo dos seus fiéis. Mas também aqui, tal como na Etiópia, a resistência proveniente de longas tradições e do princípio racional da diversidade na unidade afirmou-se e a igreja do Malabar, que ao contrário do que padres e cronistas portugueses diziam, em poucos havia a heresia nestoriana (recusarem considerar Maria, mãe de Deus, Theotokos, e que a Divindade e a Humanidade de Jesus eram não só duas naturezas, mas duas pessoas), antes tendo sobretudo influências do cristianismo ortodoxo oriental (tal como os seus padres poderem casar-se), conseguiu sobreviver a todas as pressões e opressões dos portugueses, e manifestar ainda hoje a faceta interessante do cristianismo indiano pré-português.
A guarnição inglesa, com muitos luso-indianos e que se entrincheirara no forte Drake em Calcutá, neste dia em 1756, é obrigada a capitular perante o exército do sultão Suraj-ud-Daula, morrendo depois muitos, enquanto outros se alistarão nas tropas francesas de Chandernagore.

21-VI. O papa Bonifácio IX recebe em 1403 Abrãao e Salibe, sacerdotes do cristianismo de S. Tomé, provenientes da Índia. Desde a vinda de S. Tomé à Índia em 52 D.C. houve uma numerosa comunidade cristã, apascentada por bispos de Alexandria e da Síria, na costa do Malabar e que se estendeu mesmo até Patna e o Sião, como foi descrito por viajantes isolados anteriores à chegada do cristianismo romano trazido pelos portugueses. Uma certa fraternidade cristã contribuiu para as boas relações de amizade com alguns soberanos do Malabar e foi pena que não tivesse havido melhor entendimento sobre princípios e práticas que na tão grande diversidade de ambientes não deveriam ser considerados por Roma imutáveis, tal o casamento dos sacerdotes, a comunhão das espécies, a concelebração, a língua diferente do latim (siríaco ou aramaico), altar no meio da igreja, ritos e liturgias especiais, curiosamente muitas práticas que acabaram por ser adoptadas só no século XX, a partir do Concílio Vaticano II.
Circular do cabido de Goa em 1859: «Por estar continuando a laborar cólera: primeiro, determina que até nova ordem cesse o tanger dos sinos... terceiro, permite fazerem-se nas igrejas preces e procissões penitenciais, contanto que não sirvam elas de infundir maior terror».

(Em Arraiolos nasce neste dia 23, em 1809 Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, notável médico, professor, e investigador. Servindo uma comissão na ìndia será um valioso estudioso  da presença portuguesa na Índia e como e um defensor da língua concani. Foi o fundador e redactor de duas importantes revistas históricas e arqueológicas em Goa, o Archivo Portuguez Oriental (1857 e 1876) e o Chronista de Tissuary (1866-1869)
22-VI. Carta de Malaca do P. Francisco Xavier para os irmãos jesuítas na Europa, em 1549, em que na base das informações recebidas do japonês Yajiro, baptizado em Goa como Paulo da Santa Fé, afirma o possível parentesco do budismo com o cristianismo pelas muitas semelhanças, posição esta mais tarde abandonada.
O P. Duarte de Sande, que deixou o Itinerário dos quatro Príncipes Japoneses mandados à santidade de Gregório XIII e de tudo quanto lhes sucedeu na jornada até se restituirem às suas terras, impresso em Macau, morre no Colégio da mesma nobre e muito leal cidade em 1600, depois de 22 anos de valoroso apostolado no Extremo Oriente.
A visão correcta do Sistema Solar, o Heliocentrismo, defendida antes de tempo por Galileu
Galileu Galilei (1564-1642) é obrigado a abjurar pela cúpula da Igreja Católica Romana: «depois de me ter sido intimado juridicamente pelo mesmo que abandonasse completamente a falsa opinião que o Sol seja o centro do mundo e que se mova, e que não pudesse afirmar, defender nem ensinar de qualquer maneira por voz ou por escrito, essa falsa doutrina, e depois de me ter sido notificado que a dita doutrina é contrária à santa Escritura, eu Galileo Galilei, abjurei, jurei, prometi e obriguei-me como está em cima e, em fé do verdadeiro, pela minha própria mão, subscrevi a presente cédula da minha abjuração e recitei-a palavra a palavra no convento de Minerva, neste dia 22 Junho de 1633».
Imagem fidedigna oferecida pela família de S. João de Brito à Sé de Portalegre no séc. XIX.
Canonização do abnegado missionário lisboeta João de Brito em 1947. No processo de beatificação (proclamada em 1883) teve que se declarar, algo que no século XXI já não faria sentido, que ele não aderira interiormente aos ritos e costumes indianos, mas só o fizera exteriormente para melhor se adaptar. Contudo, do seu grande amor à Índia, natural, humana e espiritual, fala o seu dito: «Eu quero mais o céu que a terra, e mais os matos do Maduré que o paço de Portugal».
Nasce na zona de Bombaim o reverendo António Elenjimittan em 1915. Apoiante da luta pela independência da Índia, detido dois meses em Inglaterra, dedicou a sua vida ao aprofundamento da unidade das religiões e fundou o Instituto para a Compreensão Inter-religiosa, em Monte Maria, Bombaim. Ao contrário dos que ensinam a necessidade de se começar cedo a olhar pela vida espiritual, dirá: «A religião, sendo a comida para a nutrição do Espírito interno, não é um prato já feito, preparado em qualquer cozinha e servido à mesa. É um impulso e necessidade vital que vem tarde na vida, depois de todas as vossas experiências com a vida social, política, prazeres e intoxicações falharem em levar-vos às margens da beatitude e das bênçãos».

23-VI. Tratado de paz e casamento da infanta D. Catarina com Carlos II de Inglaterra, com entrega de Tânger e Bombaim no dote, com a condição dos ingleses receberem os vinhos e ampararem os vassalos portugueses dos ataques holandeses, em 1661, o que praticamente nunca fizeram. A hipótese da cedência do porto de Setúbal chegou a ser alvitrada pelos adeptos do V Império inglês.
Em Arraiolos nasce Joaquim Cunha Rivara em 1809. Professor, bibliotecário, secretário-geral do Estado Português na Índia, publica doutamente centenas de documentos da história indo-portuguesa no Archivo Português Oriental e, além doutras obras notáveis, editou mensalmente o Cronista de Tissuary, de 1866 a 1869. Dirá: «No primeiro fogo da conquista derrubaram-se os pagodes, esmigalharam-se todos os emblemas do culto gentílico e queimaram-se todos os livros escritos na lingua vernácula, como convictos ou suspeitos de conterem os preceitos da idolatria. O desejo era exterminar toda a parte da população que se não convertesse logo, e não só era este o desejo então, mas ainda, passados dois séculos, havia quem com gravidade magistral aconselhasse ao Governo esta providência». Outra era a sua receptividade, conforme a carta a Atmarama Chituis em 1875, em que lhe pede emprestado livros: «O meu desejo é instruir-me em tudo quanto toca às letras e à religião de vossos naturais e tais livros são, decerto, a fonte mais pura, donde se podem beber as notícias mais certas».

24-VI. As festas de S. João no Oriente: «Dia em que os vice-reis costumam festejar, e celebrar neste Oriente com vistosas, e aparatosas librés cortadas à mourisca, e bem ajaezados cavalos, o alegre Nascimento do Precursor de Cristo S. João Baptista». Além destas festas oficiais havia certamente saltos às fogueiras, idas às fontes, colheita de ervas e trovas de amor, tudo sinais solsticiais.
O cosmógrafo e humanista florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli escreve ao padre Fernão Martins em 1474 para que este recomende ao rei D. Afonso V a viagem até à Índia pelo Ocidente.
Duarte Pacheco Pereira impõe-se definitivamente, em 1504, ao rei de Calecut, libertando o rei de Cochim do assédio deste. Como reconhecimento dos seus feitos e honra, recebe de Trimumpara, rei de Cochim, um novo brasão, com armas em campo roxo para significar o sangue derramado, sinal de grande amizade cavaleiresca, como realça a distinta historiadora goesa Selma Vieira Velho. O seu livro e roteiro Esmeraldo de Situ Orbis será muito útil aos pilotos e capitães na rota para a Índia. É a Duarte Pacheco Pereira e à cooperação do rei e dos habitantes de Cochim que se deve em grande parte a permanência inicial em território indiano.
D. João de Mascarenhas capitaneia a segunda famosa defesa de Diu em 1546 e neste dia morre o comandante das tropas turcas, Coge Cofar, italo-albanês islamizado, mas a batalha só finda em Novembro.
Naufrágio em 1552, escrevendo o guardião da nau e sobrevivente Álvaro Fernandes a História da muito notável perda do galeão grande S. João em que se recontam os casos desvairados, que acontecerão ao Capitão Manuel de Sousa Sepúlveda, e o lamentável fim, que ele, sua mulher, e filhos e toda a mais gente tiveram, já em terras africanas. A dado passo interrogar-se-á se tais acontecimentos eram devidos às más acções passadas, o karma: «Qualquer pessoa que de cima daqueles montes nos estivesse olhando, posto que bárbaro e criado na concavidade daquelas desabitadas serras fora, vendo-nos ir assim nus, descalços, carregados, estrangeiros, perdidos e necessitados, pascendo as ervas cruas, de que ainda não éramos abastados, pelos vales e outeiros daqueles desertos, alcançara sermos homens que gravemente tínhamos errado contra Deus, porque, a nossos delitos serem daqui para baixo, sua costumada clemência não consentira tão áspero castigo em corpos tão miseráveis».
Uma armada de 17 navios holandeses e 2 ingleses desembarca em 1622 na praia de Cacilhas um forte contingente de assaltantes que são contudo derrotados completamente pelos defensores de Macau, onde se destaca o jesuíta Rhó, dum alto escol não só religioso e governamental, como até guerreiro...
Neste dia 24 de Junho 1916 Fernando Pessoa escreve a sua famosa carta à tia Anica onde faz um seu auto-diagnóstico espiritual bem valioso no qual descreve alguns escritos automáticos, e que «consultei um amigo meu, ocultista e magnetizador (uma criatura muito curiosa e interessante, além de ser um excelente amigo)» e «que estou desenvolvendo qualidades não só de médium escrevente, mas também de médium vidente. Começo a ter aquilo a que os ocultistas chamam «a visão astral», e também a chamada «visão etérica». Tudo isto está muito em princípio, mas não admite dúvidas». Com o tempo, e as limitações em que se deixou enredar, esta clarividência diminui ou secou mesmo, para a sua tristeza certamente...
O advogado e poeta goês Nascimento Mendonça em 1926, apenas com 42 anos mas de boémia intensa, acolhe serena e anterianamente a hora da grande viagem, vendo-a não pateticamente mas como a libertação ou ressurreição espiritual: «Deixá-la vir, a Morte / Sombra de Deus na Dor, / Deixá-la vir a Morte, Mãe do Infinito Amor». O poeta Paulino Dias, no jornal Debate, 1913, apontou-lhe uma certa «paixão mórbida pela dor». 

25-VI. Mestre Martim Afonso, cirurgião, parte de Ormuz, por espírito de aventura e com cartas do ex-governador do Estado Português na Índia e do capitão de Ormuz, numa cáfila (caravana de camelos) para o Cairo em 1565, na via mais longa através da Pérsia, Arménia e Turquia, e chega a Lisboa ao fim dum ano e escrevendo o seu Itinerário «para não arribar a Portugal sem saber dar razão do que passara, que é um grande descuido de homens, que fazem semelhantes viagens e não as escrevem».
Rammohan Roy funda em 1828 o Bramo Samaj, movimento religioso de adoração ao Deus único impessoal, Brahman, e de intenso serviço à comunidade, Samaj. Atrairá Devendranath Tagore, Keshub Sen e outros, e exercerá influência decisiva no Renascimento da Índia, que contribuirá para a independência, ao reafirmar a herança nacional teísta, filosófica, devocional perante o emaranhado de superstições e ritualismos, ao complementá--a com a religiosidade e modernidade cristã e ocidental, e ao infundir-lhe um espírito de fermentação activo capaz de responder às necessidades do momento presente. Na linha de Asoka, Akbar e Dara Shikoh, Raja Rammohan Roy foi um dos pioneiros do descobrimento da unidade da consciência de Deus nos orientais e ocidentais, gregos e indianos, romanos e judeus, árabes e germânicos.

26-VI. Fernão Lopes Castanheda narra-nos que António Galvão ouvindo em 1537 novas da receptividade de Celebes «folgou muito, assim por se alargar nela a fé de Cristo, como para os portugueses fazerem o seu proveito» e mandou lá um cavaleiro Francisco de Castro e «lhe deu um regimento que assentasse amizade com os reis daquelas terras e trabalhasse por se tornarem cristãos, para o que lhe deu muitas peças que lhes desse de presentes e que tudo fosse por bem. E despachado Francisco de Castro, partiu de Ternate em Maio e aos 26 de Junho chegou a uma ilha dos Celebes, chamada Chedigão... cujo rei e povo eram gentios, e assentou logo amizade com el-rei, vendo-se no mar, e ambos sangraram os braços, e um bebeu o sangue do outro, e de aí a poucos dias se fez el-rei cristão».
Em 1561 Francisco Pizarro morre estrangulado pelos partidários de Almagro, culminando as dissensões espanholas nas Américas. Um dos povos que mais sofreram com a expansão espanhola, os Maias, com uma sabedoria ainda hoje misteriosa e encerrada nos seus glifos, disseram dela: «Os deuses brancos vindos do céu, ensinaram o medo... Não havia neles Alto Conhecimento, Linguagem Sagrada, Ensinamento Divino. Castrar o Sol, isso fizeram os estrangeiros». 
Neste dia 26 de Junho chegam à margem fresca do rio de Agra, na Índia, em 1631, e despedem-se, o P. Francisco de Azevedo e o P. Mateus de Paiva. E com o irmão leigo Manuel Marques, que já viajara com o P. Andrade em 1624 ao reino tibetano de Guge, o Padre Azevedo parte para Chaparangue no Tibete ocidental onde chegará «como fruta em cesto aos 25 de Agosto, tão moído e magoado dos pés que me não pude servir deles por mais de vinte dias». Na viagem admira, tal como eu admirei na peregrinação imemorial às nascentes, «o afamado Ganges tão venerado de toda a gentilidade como buscado de muitos e muitos centos de léguas para se livrarem neles das suas culpas (...) e na corrente tão manso por estes campos como pelos de Coimbra o nosso Mondego». Era o rio Ganges ou o arquétipo rio da vida e do amor, a correr na sua imaginação em Portugal (tal como Fernando Pessoa escreverá 300 anos depois no Livro do Desassossego, "o rio Ganges também passa pela rua dos Douradores"), e as romarias e peregrinações ibéricas a acenarem-lhe na doce e vibrátil saudade viva. Os Himalaias também o enchem de júbilo: «São tantas as serras neste sertão da Ásia que parece que nele depositou o autor da natureza o maior número e peso delas... São estas serras um perene tesouro de toda a casta de mantimentos, um pomar de todas as frutas, um formoso jardim de uma infinidade»... Himalaias, o altar mais elevado da Terra, mas também tantas montanhas sagradas por Portugal e o mundo fora onde o ser humano se pode elevar acima da mediania e superficialidade e comungar com as dimensões infinitas do Cosmos e do Divino, renovando-se, transformando-se, inspirando-se...
Os Himalaias vistos espiritualmente pelo mestre alemão Bô Yin Râ.
27-VI. O vice-rei D. Francisco de Tavora, 1º conde de Alvor, em alvará de lei de 1684, para que a língua portuguesa fique sendo para todos a comum e não mais falem a materna, proíbe esta no prazo de três anos sob pena de «demonstração e severidade do castigo, que parecer». Estimula os matrimónios porque «no ajustamento do casamento entre os naturais e os brancos se concilia mais o amor entre todos e na propagação que é o fim do matrimónio se multiplica o número de gente de que tanto se carece para o meneio das armas e defesa destas terras». Governador do Estado Português em Angola aos 22 anos de idade, foi chamado o menino prudente, pela sua acertada administração de oito anos. No seu vice-reinado na Índia, por causa dos ataques de Sambagi, resolveu construir uma fortaleza em Angediva, melhorar a de Rachol, edificar três fortes em Colvale e Tivim e começar a transferência da capital para Mormugão devido à insalubridade do clima, responsável por não pequeno número de mortes, sobretudo de mulheres e crianças europeias desconhecedoras da adaptação apropriada de modo de vida, alimentação e medicamentos. Daí talvez também o apelo aos casamentos, à maior fusão dos dois povos, impossível contudo pelo alheamento ou a repressão de aspectos importantes da civilização indiana. 
Jean Herbert nasce em 1897 em Genebra, Suíça e será um dos mais notáveis orientalistas de língua francesa, conhecendo muito bem tanto a tradição espiritual e cultural indiana como a japonesa, com obras de alta qualidade, vivendo, apesar ou pelas cachimbadas de  paz e inspiração, 83 anos bem luminosos. Podemos mesmo dizer que a sua obra Aux Sources du Japon. Le Shinto, de 1964, é das melhores sobre o tema. Relembra-nos que «a primeira Divindade (kami) citada pelo Kojiki é Ame-no-minaka-nushi-no kami, o kami mestre do centro do céu e que se bem que o Shinto oficial não lhe dê grande atenção, o seu culto tem uma importância considerável para a maior parte dos grupos místicos»

28-VI. Heróica defesa de Chaul em que os portugueses capitaneados por Luís Freire de Andrade vencem as tropas muito mais numerosas do Nizâm-ul--Mulk em 1571. Simultaneamente D. Luís de Ataíde vencia em Goa os exércitos do Âdil Khân (sultão de Bijapor). Eram os tempos da máxima pujança guerreira, defensiva e expansiva dos portugueses, então bem liderados, mas a mortandade de Alcácer Kibir, a anexação à Espanha e os ataques da Europa do Norte apressaram o retalhar da túnica imperial que por momentos o reino português assumiu enquanto rei de reis e animado por uma concepção do mundo em que o poder temporal e o espiritual estariam unidos no mesmo centro e visando a possibilidade da evangelização e unificação planetária. Mas não estava nem porventura estará nos desígnios divinos a uniformização dos credos, ritos, governos, interesses, e muito menos de modo violento. Assim as sincronias guerreiras deverão hoje ser substituídas pelas psíquicas e inventivas, e as sínteses brilharão se feitas a partir do reconhecimento da complementaridade das diferenças, e da vivência da fraternidade humana e da unidade divina, subjacentes a toda a diversidade.
Tendo os maratas ocupado a fortaleza de Pondá, em resposta à política desconfiada e infeliz do vice-rei D. Luís Mascarenhas, conde de Alva, este resolveu atacar mas, embora estivesse quase a vencer, a chuva forte causou a derrota dos portugueses e a sua morte, em 1756. Uma carta dum oficial marata da época relata o sucedido: «Os portugueses vieram atacar-nos. A nossa gente estava com medo. Mas graças ao meu Senhor, tudo o que era contrário tornou-se-nos favorável, e os portugueses sofreram derrota. O próprio vice-rei foi morto. Tanto o estandarte como a banda de música do inimigo foram tomados. Não sei o que vai ser para o futuro. Nunca tínhamos derrotado assim os portugueses». Nesta época os portugueses eram cada vez mais acossados pelos maratas, que recebiam por vezes até o apoio ardiloso dos ingleses...
29-VI. Palestra mística em noite clara na viagem para Cabul em 1581 entre o imperador Akbar e o corajoso missionário catalão António Monserrate, depois deste ter apontado num mapa as posições relativas de Portugal e da Índia. Como sempre o tema era a comparação dos ensinamentos das várias religiões, da qual o Imperador estava a extrair a sua nova religião,
Din-i Ilahi,  دین الهی‎‎, a Visão Divina ou o Divino Monoteísmo, ou a Religião de Deus, que proclama no começo de 1582, abandonando o Islamismo. Mas as pessoas não estavam ainda preparadas para na verdade atingirem os níveis profundos e superiores donde brotam todas as religiões (ainda que aqui tingidos pelo engrandecimento de Akbar), e que são a herança a reclamar por todo o ser humano quando se despir das suas ilusórias identificações, opiniões e crenças, e realizar a sua natureza própria e a de Deus. Nem os padres, nem os ulemas apoiaram o universalista Akbar, e na realidade os germéns da unidade das religiões só com muita dificuldade é que vão crescendo neste mundo ainda tão apanhado em formas e livros religiosos em certos aspectos muito ultrapassados pelas necessidades, conhecimentos e estados conscienciais individuais e colectivos da Humanidade.
A venerável Madre Brízida de S. António, uma das ascetas e místicas portuguesas de quem nos ficou a vida detalhada da sua demanda de Deus, parte hoje 29 de Junho para o mundo espiritual, em 1665, já com 78 anos. Também na Índia a tradição de mulheres rishis, poetisas-videntes, yoginis, eremitas ou não, vem dos remotos tempos védicos, e ainda hoje as há muito veneradas. Entrando no caminho espiritual muito cedo, foi agraciada por muitos dons, entre os quais os proféticos, e foi abadessa do Convento de Santa Brízida das Madres Inglesas, no Mocambo, em Lisboa.Foi discípula do venerável Padre António da Conceição, para o qual desejava a beatificação, e com quem tinha colóquios mesmo depois de morto, mas que acabou por não ser apoiada por Roma. Conseguira atingir ou sentir no «seu coração uma grande quietação e suspensão natural». Era mestra espiritual e poetisa, como nos escreveu a sua companheira a Madre Sor Francisca da Conceição, porque «todas as suas palavras pareciam brasas que queimavam os corações, embora às vezes ficava tão suspensa que não podia pronunciar nem uma só palavra. E com tão grande fervor era isto, que para a aliviarmos, lhe pedíamos que cantasse. E como não desejava outro alívio e desafogo, principiava a cantar os seus acostumados versos». Deixou-nos então alguns poemas e recomendações bem valiosos e pode ter conhecido a existência da Madre Maria do Lado, do convento do Louriçal, terminando um dos seus poemas de algum modo sintonizando com ela, pois o mesmo imenso amor por Deus e pelo mestre Jesus as inundava: 
"Minha alma se esconde toda// Na chaga do costado,// Para que abrasada, seja// Cinzas do Amor Santo.
Aqui estou, como cadelinha,// Ante a mesa do amo// gemendo pelas migalhas, // que lhe caem das mãos.
Do seu ensinamento experimental lembremos como ela sentia e via as revelações de Deus, que eram descobrimento de verdades ao entendimento, sendo as noticias «sentindo altissimamente de algum atributo, como de sua omnipotência, ou de sua fortaleza, de sua bondade, ou de sua doçura»... Por vezes estas notícias amorosas são como toques e provocam estremecimentos, outras vezes «vem no espírito, sem estremecimento algum, com súbito sentimento de deleite, e refrigério no espírito.» Na sua correspondência, costumava dizer: «que o Divino Espírito more sempre na sua alma» ou ainda que «Jesus nos embebede do seu dulcíssimo amor até nos vermos com ele no Céu. Amen, amen, amen...». Nascera a 28 de Janeiro de 1576, em Lisboa e os seus pais eram de Abrantes e foi ou é uma das mestras da Tradição Espiritual Portuguesa...
30-VI. Uma provisão do vedor da Fazenda em Goa, pela ausência do governador D. Estêvão da Gama, determina a destruição dos templos indianos em 1541. Em 1546 serão proibidas as festividades e em 1557 a participação de não-cristãos em cargos públicos. Era o crescendo fatal da repressão religiosa e da incompreensão dos valores do hinduísmo, ignorância esta responsável por muita desgraça e mal. Ainda algumas individualidades tentarão inverter a marcha dos acontecimentos, mas a intolerância triunfava em maior escala.
Provisão do vice-rei D. Constantino de Bragança de 1560 proíbe (aliás Afonso de Albuquerque logo o fizera) a mulher gentia de se queimar viva, a satti das viúvas, uma das poucas medidas acertadas pois tratava-se duma lei cruel do Código de Manu (obtida tardiamente por uma alteração de palavras e numa orientação algo machista e de magia negra), e na maior parte dos casos não desejada pelas viúvas, ainda que as limitações na vida que levariam fossem pesadíssimas. Contudo D. Constantino também mandou queimar, com grande pesar dos budistas, uma relíquia de um dente de Siddhartha Gautama, o Buddha. E entretanto a Inquisição queimava almas e corpos...
O inquisidor-mor Veríssimo de Lencastre absolve em Lisboa o médico francês Charles Dellon em 1677, reconhecida «a injustiça e a ignorância dos inquisidores de Goa». Teria dito que o baptismo do espírito é que interessa e que Deus, estando em toda a parte, não residiria especialmente nas imagens. Dellon, regressado a França, não descansará enquanto não espalhar por toda a Europa, na sua História da Inquisição, como Deus não podia estar com tanto fanatismo.
Nasce em Zurique em 1904 o P. José Wicki, infatigável pesquisador e editor de textos dos Descobrimentos e da Missionarização, entre os quais se destacam os 15 volumes dos Documenta Indica, de reedição bem necessária, onde se avultam páginas de grande fé, devoção e até dialogo intereligioso, hoje cada vez mais um facto não só nas sociedades como na psique humana, consciente ou inconscientemente, na crescente unidade planetária e procura da verdade...

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