terça-feira, 30 de maio de 2017

O mais belo poema de Antero: Per amica silentia Lunae. Lido e comentado por Pedro Teixeira da Mota

                                               
Inegavelmente um dos mais belos poemas gerados por Antero de Quental é aquele que foi assinado no mosteiro da Batalha em 1861 sob o título latino Per silentia amica Lunae, uma frase que significa Pelo, ou no, ou sob o, silêncio amigo da Lua, e que vem da Eneida, de Virgílio, canto II, verso 250, quando a expedição de Eneias com os barcos parte de noite.  Antero leu a Eneida e gostou da frase e do seu contexto e passou-a a nós, talvez para provocar reminiscências ou sensibilidades maiores, como o poema desenvolverá.  Curiosamente, em 1918, outro poeta e pensador, próximo de Antero, William Butler Yeats, que andou bem fundo em diversas aproximações à espiritualidade, deu esta frase como título a um livro de poemas seu. 
Sincronias, diremos nós, e esta é uma palavra e ideia  chave para entramos mais dentro dos mistérios da Unidade ou do Campo unificado de Energia, Informação e Consciência que a todos nos interliga e pode inspirar, como de certo modo neste anel de referências e invocações estamos a realizar.
Deixou tal poema sua condição de perdido graças ao manuscrito cópia de Eduardo de Oliveira Barros Leite, e à diligência impressora e prefaciadora (Explicação Previa) de Teófilo Braga (certamente discutível, tal quando considera que estes «poemas de 1859 a 1863 eram da sua primeira fase artística, quando o seu ideal era ainda religioso, romântico e espiritualista», como se tais características alguma vez tivessem desaparecido, ou mais ainda no Escorso Biographico, quando é bastante mauzinho, ou invejoso maldoso, para com Antero...), sendo publicado no livro Raios de Extincta Luz, em 1892, póstumo pois Antero deixara o corpo terreno em 1891, e lêmo-lo então agora em 2017, num exemplar dessa edição (da qual não sabemos contudo a exacta fidedignidade, tal como na transcrição anotei para duas palavras), comentando-o, do que resultou o vídeo que pode ouvir em seguida....
Penso que por vezes terei conseguido dar a tonalidade e vibração certa ao que Antero sentiu e pensou, intuiu e quis. Há  em verdade muitas leituras de poemas (para não falar de conferências sobre esoterismos e espiritualidades) que quase que matam a espiritualidade ou a vibração anímica que o autor transmitiu ao poema ou no poema invocatório, pois uma leitura descrente, menosprezadora ou enfraquecida, provinda do facto de quem está a fazê-lo não tem as qualificações ou realizações interiores necessárias, tem que forçosamente diminuir, distorcer, enfraquecer a mensagem.
Podemos dizer ainda que o poema se insere numa tradição ou corrente de forças que ao longo dos séculos impulsionou ou inspirou muitos poetas a erguerem a sua alma aos mistérios e harmonias nocturnas e lunares e poderemos citar entre nós desde Soares dos Passos e Teixeira de Pascoaes a Fernando Pessoa e Herberto Hélder, cada um certamente de acordo com as suas sensibilidades e características, afinidades, aspirações e realizações.
Para além do vídeo, no qual está lido e comentado sucinta e inspiradamente no momento, após apenas uma primeira leitura, encontrará no fim a transcrição do poema que passa a estar disponível na Web, e  apenas realçarei agora algumas das suas linhas de força iniciais... 
Sabermos abrir de noite os seios da alma, ou a flor da alma às energias do céu. E dilatar e expandir a alma nas mil harmonias do Universo e comungar nas correntes ocultas de simpatias e afectos, de tal modo que vamos crescendo e tendo momentos de união com a Alma Divina no mundo.
Sabermos procurar interiormente o foco original do fogo do Amor e comungarmos com a harmonia das esferas, das estrelas, da Natureza, que tanto o manifestam. E nas aspirações e reminiscência que sintamos aspirarmos a ser mais, a ser uns com o Amor Universal...
Quando compreendemos que somos espíritos imortais e contemplamos o Infinito perdemos o medo da morte e a nossa alma eleva-se, expande-se, comunga no Amor Divino com todos os seres.
                       

                                        I
Eu amo a noite às horas sossegadas
Que o Senhor manda à terra, como balsamo
A tanta dor que a punge, e o sol do dia
Parece escarnecer com tanto brilho,
Nem sabe respeitar; quando o silêncio
Com manto protector envolve os tristes,
Os que choram saudades; quando o orvalho
Refresca o seio à flor, e em cada balsa
A viração perpassa suspirando;
Quando é mais puro o ar, mais doce a brisa,
Mais sumidos, mais vagos os rumores,
E detrás da montanha, saudosa
Como a virgem dos sonhos, surge a lua.
                                       II
Eu amo então a noite. — Paz e esperança
A quem sofre, buscando algum alivio;
Ao feliz exultando de alegrias
A lembrança de Deus a quem as deve;
A quem descreu de achar inda na terra
Ventura que lhe foge... o olvido ao menos;
A toda a crença um exultar de afectos;
A todo o desconforto, uma esperança;
A toda a natureza, amor e vida;
Eis o tesouro santo que nos abre
— A nós e ao mundo — a noite, eis seu tributo.

É doce então abrir os seios d'alma
Aos eflúvios do céu: flor que hão crestado
Ardências do sol, e ainda tímida
Palpitando entre o susto e a esperança,
Retoma agora aos poucos novo alento
Ao sentir-se segura, e abrindo o cálice
Estremece de amor a cada gota
Dos orvalhos do céu: como que a vida
Solta de tanto laço que a comprime,
Como gás que ao calor se há dilatado,
Se expande livre agora e cresce e absorve
Em si mil harmonias, mil poderes
Que esse universo tem: como as correntes
Ocultas, que os oceanos comunicam,
A natureza e o espírito permutam
Simpatias e forças, em que a alma
Mais cresce e mais compreende, e mais abrange,
E neste permutar de força e força
Quase na vida universal se funda. [Ou seria funde?].
                                     III
Passa a lua; do alto olhando a terra
Procura o triste por lhe dar alivio;
Perpassa a viração e busca do ermo
A florinha minada que refresque;
Corre manso o regato, e banha a erva
Que um pé calcou, e o sol deixou crestada;
Tremula a estrela, símbolo de esperanças,
Enviam-se harmonias as esferas;
Tudo amor, tudo afectos comunica;
E o espírito do homem busca livre
Da sob'rana harmonia a eterna fórmula,
Do eterno amor o foco, a pátria sua.

Lembranças de um viver já pressentido,
Ou memorias — talvez — de uma outra vida,
Que nos relembra vaga, e como em sonhos,
E sobre o fundo desta se destacam
Como pela penumbra um vulto incerto...
Aspirações, memorias, ou saudades,
O que nos enche o peito e nos enleva
Como um sonho de amor — e mais ainda —
Senão este mistério do futuro,
Esta atracção do [de] ser a vida nova,
Que se foge e se busca e nos revela
A vida universal, então sentida
Mais forte na harmonia do Universo?
                                         IV
Busca-se, anseia-se, e o alvejar da campa
Mais que o sorriso de uma amante é doce;
A lembrança da morte mais que a esp'rança
Do poder ou da gloria nos enleva;
Terrores, incertezas se dissipam,
E sem saudade, sem temor se anela
Mais mundo, mais espaço, e viver novo!
                                         V
E quem pode temer? Teme o que um dia
Sonhou na mente uma ambição terrena
E mais não vê por todo esse universo,
E além dele não vê sublime e grande:
O, que engolfado nos prazeres do mundo,
Esqueceu o seu Deus e seus destinos
Nem sonha mais ventura além da campa:
O que pungido por cruel espinho
De uma duvida atroz, sente a cada hora
Cair-lhe a uma e uma cada crença
De sobre alma, deixando-a erma e nua,
Como as húmidas pregas de um sudário,
Aos poucos desdobrado, deixam ver-se
Os descarnados membros do cadáver.
                     
                                     VI
Mas quem se assenta às horas do mistério,
Entre as flores do prado, ou sobre a encosta
Da colina virente e olhando a lua
Que banha em luz a esfera cristalina,
Inveja quem habita nesses mundos...
E fita o olhar por esse espaço, e cuida
Sondar-lhe o infinito; quem anela
Desvendar-lhe os mistérios e buscando
A região que se sonha e não se avista
Dá-la por pátria à sua alma... oh! esse
A viagem não teme, antes anseia,
Quebrada a forma deste ser, alar-se
Em busca de outra mais perfeita, e sempre
De degrau em degrau, de esfera em esfera,
— Metempsicose eterna! — sublimar-se
Na progressão deste ascender constante
Da parte ao todo, do mortal principio
Em busca de um futuro inatingível,
Porém melhor cada hora, e a cada passo.

E quem pode temê-la, essa viagem,
Quando fitando o olhar no alto, avista
Banhado em luz o espaço imenso e puro,
Patente e franca a estrada do Universo,
E como que visível o infinito?
Quando tudo no céu e pela terra
Parece, como irmão, dar-nos confiança
Em nós e em si para seguir avante?
Quando se sente palpitar no seio
Não só já a mesquinha vida própria
Mas todo o grande ser do que é criado?
Quando nas aras do Universo, o espírito
Comunga, como irmão, na mesma crença,
Com tudo quanto vive, e a mais aspira,
Ah! quem pode temer, noite de encanto,
Noite pura e sagrada ao Deus de afecto,
Protegido por tua luz amiga,
A aspiração dos imortais destinos.
Um pouco mais ao peregrinar constante,
A entrevista do infinito e do homem?
                                        VII
Por ti, noite de amor, por ti nos desce
Tanta ventura ao seio; e como o orvalho
Que o pó da terra ressequido e árido,
Que o vento impele, fixa sobre o solo
E como que consola e alivia,
Assim como teu eflúvio o triste espírito
Que incerto das paixões refoge à duvida,
Numa crença fixaste — a crença eterna
Do amor universal, todo harmonias,
Porque és afectos toda! Em cada balsa
Descanta um rouxinol; a cada rosa
Uma brisa osculou; em cada fonte [ou seria fronte?]
Brilha um raio da lua; em cada peito
Murmura um eco que de amor só fala!
                                                        Mosteiro da Batalha, 1861.

Saibamos, com Antero e os demais elos da Tradição Espiritual Portuguesa, ter mais em nós, ou sobre todo o nosso ser em acção, a alma e aura silenciosa e amiga da Lua, Dona Luna...

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