quinta-feira, 6 de abril de 2017

Sabedoria Inca, Antón Ponce de Léon Paiva. Samana Wasi.


Antón Ponce de Léon Paiva é o autor de um livro intitulado E ... O Ancião falou. Revelações de Sabedoria Inca, publicado originalmente em 1990, e que adquiri na versão brasileira impressa em 1994, pela Editora Aquariana, num sebo de Porto Alegre quando fui em 2016 participar num congresso sobre Literatura e Media na Universidade do Rio Grande do Sul, Brasil.

Nele, Antón Ponce de Léon narra a experiência de ter sido levado a uma comunidade inca nos Andes, oculta, onde recebeu alguns ensinamentos, uma iniciação e a missão de fundar uma casa de acolhimento de crianças e anciãos, na língua quechua Samana Wasi, Casa de Descanso, que acabará por construir e desenvolver com a sua mulher Regia e que está a funcionar como obra luminosa de amor e tradição, harmonia e assistência.

Já aos sete anos fora com o seu pai, pessoa muito bondosa, sábia e conceituada na região, assistir nas montanhas andinas à morte de um Illac Uma, cabeça de luz, mente iluminada, o ancião Amaru Yupanqui Puma, descendente da nobreza Inca, chefe supremo da religião Quechua.
Mas será trinta anos depois que é chamado inesperadamente a voltar a esse local oculto nas montanhas dos Incas, onde chega ao fim de três dias, muitas vezes de olhos fechados para não saber o caminho, e reencontrar essa aldeia estilo Shangri-La.
Serão sete dias de imersão numa natureza pura e belíssima e recebendo ensinamentos  que não sendo muito extraordinários para quem já está dentro do Caminho espiritual tem contudo o valor de representarem uma tradição muito antiga da América e dos Andes, a veiculada pela língua Quechua, a qual segundo Antón provém  do antiquíssimo continente da Lemúria ou, na palavra original, Mu, que significa mátria-pátria.


Resumamos brevemente os ensinamentos recebidos nesses sete dias andinos por Antón Ponce de Léon Paiva:
A Divindade Wiracocha criou o Sol, Inti, vivendo este não só no centro do sistema solar como dentro de cada um, para além de que ao longo da história também fez as suas aparições (na Índia dir-se-ia avatarizações), até antropomórficas.


Parte central da Porta do Sol, em Tiahuanaco., com a efígie de Titi Wiracocha
«Sabermos quem somos, é o caminho. E a resposta é Eu Sou, Noccan Kani. Temos de aprofundar esta meditação e descoberta dentro de nós próprios, no centro do nosso peito, do Inti imortal.
«É importante que sejas o que és no íntimo do teu ser e não o que aparentas ser. Já é tempo de Ser o que se é. Ser é estar no Todo, o tempo e o espaço desaparecerão».
Consciencializar-nos desta presença Divina (Inti) em nós será então o nosso trabalho para o qual devemos amarmos os nossos corpos pois se não o tratamos bem sofreremos. Devemos ser felizes para podermos tornar os outros felizes. Devemos estar centrados no Eu Sou para não cairmos nos extremos e partidarismos. E ao identificar-nos mais com ele uma aura luminosa crescerá à nossa volta.
Como o pensamento é criador devemos ter muita atenção a ele, pois o que pensamos tornamo-nos: «Estás onde está o teu pensamento. Faz com que este se ocupe do que És e Serás».
A vida existe para sermos felizes e não deprimidos, para transmutarmos o negativo em positivo.
A energia vital respira-se melhor no campo e nas primeiras horas da manhã e por isso as pessoas deviam de quando quando recarregar mais as energias na Natureza.
Uma das páginas que nos parece ser da autoria mais de Antón Leon do que do seu mestre Nina Soncco é a que fala dos Sete Raios, pertencendo cada pessoa a um deles e sendo ainda estes Sete Raios «signos de sete ordens iniciáticas e que, de alguma forma, regem e influenciam a marcha do mundo, nomeadamente Essénios, Gnósticos, Templários, Rosacruzes e Maçons»; apresenta ainda uma descrição dos sete chakras ligados aos Sete Raios com aspectos originais, divergentes ou fraquinhos em relação ao que tem sido veiculado pelos textos indianos e pelos livros e seguidores de Alice Bailey e dos ditos Mestres Ascensos, no fundo todos eles algo esquemáticos e redutores pois sabemos que as cores e raios anímico espirituais são muito mais subtis e inclassificáveis. Transcrevamos o que nos diz (algo discutível, então...) sobre « O Segundo Raio, amarelo dourado, está relacionado ao centro cardíaco e ao timo; representa a sabedoria, a iluminação, e portanto, o amor. A ele pertencem os mestres [Todos? E então a individualidade de cada um?] mas também aqueles que ostentam orgulho intelectual. (...) O Quinto Raio, o verde, tem a ver com o chakra frontal e a pituitária. É o raio da Verdade, por conseguinte da saúde, intervindo na cura e no conhecimento concreto. Os médicos em geral, assim como os interventores, pertencem a esse Raio, mas também os ateus [Todos?...], pois, como todas as coisas, têm dois aspectos: branco-preto, positivo-negativo».  É talvez a parte mais frágil do livro, sobretudo na equiparação dos pretensos Sete Raios com tipos de pessoas...
É realçada pelo seu instrutor a necessidade de termos mais atenção à acumulação de informação que vai entrando para o inconsciente, a qual depois determina os nossos pensamentos e actos. E que devemos pensar nos nossos semelhantes a partir da chama Divina (Inti) que está em nós e que deseja o bem de todos, e que devemos agir a partir do nosso Eu Sou, o qual está contudo influenciado pelas vidas anteriores, crença ou conhecimento que por duas ou três vezes surge reafirmado nestes ensinamentos Incas.
Na pág. 40 encontramos dois ensinamentos atribuídos a Pitágoras e a Shakespeare, os quais, embora belos, não foram escritos ou ensinados por eles e são portanto pseudo-citações. Há um terceiro texto e cuja autoria está atribuída a Khrisnamurti, que pode ser ou está próximo do que ele diria, embora a parte inicial tenha que se lhe diga, pois para ser verdadeira implica um nível de auto-conhecimento profundíssimo:«Cada pessoa é um universo. Se conheces a ti mesmo, conheces todos. Não me preocupa o passado, nem tão pouco me preocupa o futuro. Penso, actuo e vivo para o presente, que foi criado pelo passado e está criando o futuro».
Também o elogio ao livro Kybalion e as referências a Hermes Trismegisto têm alguma incorrecções ou parecem algo exageradas, mas é Antón Ponce de Léon que fala e provavelmente segundo os estudos que fez e a sua sensibilidade...
A propósito do poder da mente, Nina Soncco diz: «Tudo começa na cabeça; conforme pensas assim és. Tudo o que desejardes será, se assim o quiseres. Começa com uma ideia, que vai adquirindo forma mediante a força e o amor que nela imprimires, até se materializar», concluindo depois que cada ser é responsável pelo que vai deixando entrar e crescer no seu subconsciente de que sairão posteriormente as consequências, pelo que o melhor é sermos já positivos e felizes e estarmos conscientes de que fazemos parte do Macrocosmos.
Tudo é vibração: corpo, alma e espírito tem o seu nível vibratório: quando alguém está mal disposto a sua aura irradia forças negativas para os outros, como que golpeando-os e fazendo-os sentir mal, dizendo que da cabeça saem as vibrações e ondas, com as suas respectivas cores, Assim, devemos aprender a transmutar as energias do ódio no amor, da inactividade na acção, etc.



Para Nina Soncco cada ser é um Sol em busca do Grande Sol, «somos fogo, línguas de fogo revestidas de matéria alojada em nossa fronte», um sol em miniatura que crescerá até converter-se no Deus que levamos dentro de nós...Nosso Sol interno se desdobrará... Terás que aprender a relacionar o Sol com o Pai Criador de todas as coisas e as chamas divinas com o homem. Somos filhos do Sol (Intic Churincuna) somos sua imagem e semelhança... O ser humano tem a obrigação e o dever de lutar contra a materialização do seu ser, contra a cristalização do seu corpo, buscando a sua purificação e libertação, isto é, salvar sua vida das ruínas do seu templo e elevá-la para que ocupe seu verdadeiro lugar na evolução».
A valorização do serviço desinteressado aos outros, da harmonia com as leis cósmicas, da busca do silêncio interior, da irradiação do calor do amor, da vivência da fraternidade, dos três preceitos comunitários (veracidade, honradez e trabalho), de uma agricultura biológica, de uma medicina preventiva e de saberes tradicionais surgem a par da condenação dos extremos, dos imperialismos, dos egoísmos, da alienação massificante da sociedade moderna.
Para enfrentar este perigo é fundamental uma tripla meditação: O que sou ou quem sou? O que é a vida? Que pretendo da vida, no futuro? 
Ao fazermos esta auto-inquérito (vichara), numa linha que se aproxima da que o mestre Ramana Maharishi ensinava junto à montanha de Arunachala na Índia no século passado, poderemos compreender que viemos à luz para ser felizes e que os obstáculos são meios para crescermos,  desenvolver-nos,  fazermos o bem e  universalizar-nos.
Cusco
Antón Ponce de Léon Paiva narra por fim a sua iniciação no último dia da semana passada na oculta aldeia andina quando, rodeado pelos anciãos que cantavam sons sagrados em quechua, sentiu a unidade da vida, «a força única que atravessa todas as coisas» e na qual se viu como luz, num tempo primordial, no ser que somos essencialmente, e que vive «no dar e não no obter; o caminho do amor, o interesse autêntico pelos demais».

A cerimonia iniciática, junto ao corpo preservado do antigo mestre Amaru Yupanqui Puma, fá-lo ainda sentir entrar pela sua mão esquerda, passar pela coluna vertebral, e sair pela sua mão direita uma corrente eléctrica que assim percorria e enchia todo o seu corpo. Depois de beber uma poção mágica dada pela jovem Chaksha tem uma experiência de saída do corpo físico e visões de grande beleza. E quando é acordado no dia seguinte pelo chefe e mestre da aldeia Nina Soncco este dá-lhe os últimos conselhos: «Mantêm-te constantemente equilibrado, harmónico e em paz contigo mesmo, em qualquer circunstância da tua vida, por mais difícil que ela seja. Que brote do teu íntimo [a tua acção], pois somente assim poderás ser justo e equitativo».


Por fim, pela frente de Antón, está de novo o caminho do regresso, em parte de olhos vendados, e para começar a Samana Wasi, Casa de Harmonização, um oásis para crianças e anciãos desprotegidos, e na qual deverá falar com muita cautela, com discernimento, sem ofender ninguém; ou, fundamentalmente, falar para dizer algo que seja benéfico para os outros. Trabalhar com humildade e rectidão. Que o ensinamento seja também para ti um aprendizado: o exemplo é a melhor escola».
Em 2017 Antón Ponce de Léon Paiva orienta não só a Fundação Samana Wasi, em Cuscu, no Peru, como vai com frequência falar sobre a sabedoria ameríndia, andina, inca e da língua quechua, estando presente em vários vídeos no Youtube. Em Samana Wasi há um pequeno albergue para quem quiser vivenciar esta experiência e a sabedoria dos povos nativos dos Andes... 
                    
                      Inti.... O espírito divino brilhe em ti....




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