domingo, 9 de abril de 2017

Michelet, Antero e Pina Martins, e a visão da História da Humanidade.



A amizade ou amor de José Vitorino de Pina Martins (1920-2010) por Antero de Quental (1842-1891) nasceu cedo, e ainda em Coimbra, em 1948, antes de se tornar leitor de Língua e Literatura Portuguesa em Roma e depois em Poitiers, escreveu uma extensa dissertação ou monografia crítica intitulada A Ideia de Deus e da Morte na poesia de Antero. Realce-se que na altura Pina Martins, sob o pseudónimo de Duarte Montalegre, era também poeta, tendo publicado vários livros onde derramou o seu grande amor e aspiração ao sagrado. Mais tarde, por mais de uma vez, confessava serem tais obras "pecadilhos de juventude", tendo singrado antes numa via rigorosa e profunda de investigador e historiador das ideias e do livro, sobretudo da época do Humanismo e especializando-se nos séculos XIV, XV e XVI com estudos muito conseguidos sobre Petrarca, Pico della Mirandola, Erasmo, Thomas More, Damião de Goes, Camões, Bernardim Ribeiro, Sá de Miranda, entre outros.


Jules Michelet (21-X-1798 a 9-II-1874)
Em 1974, quando dirigia o Centro Cultural Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, tarefa que cumpriu durante anos com uma qualidade inexcedível e dinamizando dezenas de colóquios e publicações que ficam a enriquecer para sempre o património cultural humanista, europeu e português, escreveu para um colóquio um texto acerca de Antero de Quental e Michelet no qual fazendo uma análise das obras do historiador francês, ainda algo romântico, e citando Saint Beuve, Dhiez e Roland Barthes (várias vezes, algumas criticando-o) aponta as suas limitações, em especial a falta de rigor metodológico na apreciação da documentação recolhida, uso exagerado da imaginação e de um estilo poético e profético e uma certa opção pela sua verdade e não uma verdade imparcial, relembrando que Antero de Quental fora a Paris em 1874, que se considerava seu discípulo, e que escrevera sobre ele (Jules Michelet, incluído Prosas Filosóficas, II vol. Coimbra, 1926) e que sofrera de alguns dos mesmos defeitos, realçando que embora Antero tivesse uma cultura geral invulgar escrevia muitas vezes rapidamente, num estilo oratório e sem suficiente e sólida documentação, apontando como exemplo as famosas Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, onde haveria «uma falta de preocupação de rigor e de documentação mediante a prova dos textos e das fontes - com a discursividade vigorosa, mas vazia, e repleta de afirmações históricas inconsistentes», acrescentando que o vago e "o mais ou menos" surgem com frequência na obra de Antero.


Pina Martins nesse seu texto considera Antero de Quental sobretudo «um prosador de ideias, um pensador, um ensaísta», sem os recursos imaginativos e estéticos de um romancista ou novelista (por exemplo, Eça de Queiroz), pelo que a leitura da sua obra, embora com ideias actuais e não exposta de forma confusa ou hermética, ainda assim ressente-se «porque as repetições monotonizam invencivelmente o ritmo discursivo, os lugares comuns se sucedem, as expressões estereotipadas de gosto duvidoso se acumulam. O estilista não quer ou não sabe apurar o discurso, que lhe sai e se fixa como nasce, ao sabor de uma inspiração perigosamente espontânea.»


Pina Martins, à direita, em diálogo com Marcel Bataillon, em Paris.
Esta última afirmação de Pina Martins é discutível e se não soubéssemos que ele era também um espiritualista quase que poderíamos considerá-la algo conservadora e petrificadora, recusando ab initio o valor da inspiração, ou alarmando-se demasiado com o perigo de haver pouca base para que a pomba do Espírito Santo levante voo. Ora sabemos que Antero se destacou mais como poeta e como orador, onde a inspiração prima e que só na sua última obra Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX, a sua demanda filosófica e gnóstica atingiu uma profundidade e extensão de conhecimentos e raciocínios, vividos intimamente, que tornaram tal ensaio o seu testamento filosófico, como muito bem lhe chamou Sant'Anna Dionísio, embora certamente os Sonetos já estivessem rodeados ou alimentados por profundas leituras filosóficas e cogitações sobre os grandes mistérios da existência, sentidos por Antero visceralmente e animicamente e vazados nos moldes perfeitos dos seus sonetos. 

Na sua recensão ao texto de Antero sobre Michelet, Pina Martins acrescenta em nota de rodapé: «Essa espontaneidade nota-se imediatamente não só pela verificação de uma falta de selecção verbal, como pela adjectivação monótona, repetitiva, pouco cuidada e sobretudo não dominada. Claro que todos estes aspectos são, por outro lado, um indício de facilidade na manipulação na palavra [eu aqui não diria manipulação mas deixar-se inspirar e empolgar] e na fixação de uma linguagem mas esta é mais a expressão de uma criação verbal transitória, efémera, de que o meditado e vigiado labor artístico de um prosador. Não deve esquecer-se também que estes artigos são de simples divulgação e apareceram em publicações periódicas (revistas e jornais)»

E na verdade o elogio de Michelet por Antero foi assinado "4 de Agosto de 1877", quando este estava em Paris, certamente sem livros consigo, e saiu à luz uns dias depois no nº 1 da revista Dois Mundos, publicado em Paris a 31 de Agosto.

E continua Pina Martins:«neste ângulo de análise, o prosador continua a ser um romântico, em período de superação do Romantismo. Mas o que importava para ele eram as ideias. Decerto as ideias são o mais importante, mas como é possível transmiti-las sem o veículo da palavra que as revela ou, então, as oculta ainda mais, sob a explicitação aparente, que não é mais do que a certeza ilusória de as revelar?»

De novo aqui Pina Martins é algo crítico da inspiração considerando-a que pode causar certezas ilusórias mas talvez exagere pois a passagem do nível de raciocínio mental discursivo e muito ponderado para o da inspiração tende a utilizar o que o orador tem dentro de si de conhecimentos e a descobrir novas relações, quando as consegue, levado ou elevado a tal por aspectos energéticos, do momento histórico, de forças afectivas e de entusiasmo. O Espírito Santo em nós pode ser visto como a capacidade de sairmos das limitações da personalidade e obtermos ideias, relações e imagens novas, ou desconhecidas, seja pelo funcionamento intensificado do nosso espírito e pela nossa alma e mente, seja, por uma expansão do nosso corpo espiritual ou consciencial, seja por uma intensificação dos neurónios e suas sinapses criando novas relações.
Anota ainda que Antero elogiou com grandes superlativos Michelet, descrevendo-o como um «profeta do passado, e agitava-o um sopro de ardente inspiração: o Espírito da humanidade» e que o seu exemplo é o de «existência nobre e pura até à santidade», mas que ambos não souberam temperar com uma certa austeridade, o perigo das fantasias aventurosas nas incursões na História, algo que o próprio Antero discerniu e apontou em Michelet.

Talvez possamos dar agora a palavra a Antero, exactamente no artigo analisado por Pina Martins e publicado para a revista Dois Mundos, transcrevendo o 1º parágrafo: «Não cabe nas dimensões Não cabe nas dimensões, nem quadra à índole desta publicação um estudo crítico sobre Michelet, historiador e filosofo. Não tentamos pois aqui explicar o pensamento e aquilatar o alto valor cientifico e filosófico de uma das obras literárias mais vastas deste século - aliás tão fecundo cm obras vastas - uma das mais ricas de originalidade criadora, de intuição e profundeza, ao mesmo tempo que assombrosa de erudição renovadora e variadíssima. Contentar-nos-emos apenas com encarar (e ainda assim quase de relance) pelo seu lado mais acessível ao grande público, pelo lado por assim dizer exterior, esta grande e simpática personalidade literária.» 

Justificado assim o seu limitado escopo, que Antero torna a afirmar alguns parágrafos à frente: «Não cabe aqui, já o dissemos, estudar uma por uma todas as obras, algumas profundas, outras formosíssimas, criticando-as e separando as ideias fecundas e resultados positivos de certas fantasias brilhantes, mas aventurosas, que por ventura nelas se encontrem. Basta-nos caracterizar, duma maneira geral, a maneira do grande historiador e filósofo, indicando aquilo que dá à sua obra e à sua personalidade literária uma fisionomia tão particular, aquilo por que se distinguem entre todas. 

Michelet possuiu, como ninguém neste século, o sentimento da realidade viva, da verdade natural, esse condão dos grandes poetas e dos grandes artistas, que lhes faz adivinhar, com uma intuição quase infalível como um instinto o ser íntimo de quanto tem ou teve vida, na natureza e na humanidade. A larga e lúcida simpatia do seu génio fazia-lhe descobrir, através das formas opacas, a energia interna na qual reside o segredo da actividade e originalidade dos seres capazes de acção própria. Como que sabia sair de si, para viver momentaneamente a vida dos outros seres reproduzindo-a depois inteira, palpitante e actual. A erudição e a ciência não eram para ele um fim, mas um meio; o instrumento com que penetrar além da realidade exterior e morta, até à realidade íntima. a alma das coisas, dos homens, das idades históricas. Como Platão, procurava em tudo a ideia: mas essa ideia em vez de ser abstracta, como a do filósofo grego, era concreta e activa, era a essência mesma das coisas.

Foi com estes dons de poeta e vidente que Michelet escreveu a história. Animar, ao calor duma imaginação inspirada e profunda, as idades idas, evocá-las, tal foi o condão originalíssimo do seu génio. Ele mesmo, vendo na História mais do que uma fria narração de factos, ou uma seca análise de instituições, ousou defini-la uma ressurreição.»

Referindo depois o magistério dos "altos espíritos" franceses, entre os quais se inclui Michelet, que pela largueza e generalidade dos conceitos, pela atitude propagandista e filosófica, sobretudo pela simpatia fácil e franca com que abrangem o lado humano e universal das ideias e acontecimentos, se afirmaram em vários países europeus, refere que também Portugal é um dos mestres de mais incontestada autoridade para a geração nova. Não há uma única inteligência, dotada de certa elevação e cultura, entre os homens que hoje não contam ainda 40 anos, que não recebesse, mais ou menos intensamente, o influxo daquela palavra eloquente e penetrante (...) Foi com ele que aprenderam a ver e a amar na Natureza uma existência espontânea, uma vida universal, e não uma sucessão de formas inertes, e na Humanidade, uma razão e uma consciência colectivas, uma alma, e não um mecanismo ou uma abstracção.»
Há que portanto contextualizar bem o escrito publicado inicialmente na revista Dois Mundos, uma homenagem a Jules Michelet, quão humilde como entusiástica, dedicada, «à memória daquele que a deu [lição], não só com a palavra, mas com o exemplo de uma existência nobre e pura até à santidade», e que termina assim, numa das poucas incursões de Antero fora de Portugal: «Aqui, nesta grande capital da inteligência, onde ele trabalhou e ensinou, um dos seus discípulos portugueses folga de poder assinar esta página humilde, consagrada à memória dum dos primeiros e, porventura, o mais querido entre os mestres da nova geração. Paris, 4 de Agosto de 1877.»
Anote-se ainda que Antero encontrou-se com Michelet para lhe oferecer um exemplar dos seus Sonetos, entregando-o contudo como sendo de um seu amigo...
Relembre-se, finalmente, que Michelet foi bastante traduzido em Portugal por Teixeira de Bastos, Domingos Guimarães, Rebelo de Bettencourt e Fernando Leal, grande amigo de Antero (e a quem já dedicamos um texto biográfico no blogue). com os Soldados da Revolução, 1889, e que Antero de Quental já publicara nove anos antes, em Janeiro de 1865, então com os seus 23 anos, na revista de Penafiel O Século XIX, (1864-1883), três sucessivos artigos, intitulados A Bíblia da Humanidade de Michelet. Ensaio crítico, onde faz uma síntese intensamente espiritual da evolução da Humanidade, e que, embora com algumas inexactidões nas citações ou analogias entusiastas, que  Pina Martins certamente referiria se tivesse alargado à sua crítica a este texto, contém das melhores transmissões espirituais feitas por Antero na sua obra e que seria bem valioso de se cotejarem com as que estão contidas e culminam a sua última obra, as Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX, escrita 23 anos depois,  para a revista  Portugal, em 1889. 
Esperamos um dia destes apresentar um pequeno contributo nesta direcção, mas terminemos com as primeira sete linhas de tal belo texto poético, filosófico, histórico, espiritual:   «Dentro do homem existe um Deus desconhecido: não sei qual, mas existe - dizia Sócrates soletrando com os olhos da razão, à luz serena do céu da Grécia, o problema do destino humano. E Cristo com os olhos da fé lia no horizonte anuveado das visões do profeta esta outra palavra de consolação - dentro do homem está o reino dos céus.

Pintura de Bô Yin Râ...
Saibamos trabalhar na linha destes grandes seres  tanto para o nascimento ou reconhecimento da Divindade interna em cada um de nós, como para  a harmonia e a paz, a justiça e a força amorosa estarem mais vivas e brilhantes na Humanidade. 


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