domingo, 2 de abril de 2017

Abril e suas efemérides do encontro de Portugal e o Oriente.

ABRIL
1.  Afonso de Albuquerque escreve de Goa a D. Manuel neste dia em 1512 acerca das cartinhas por onde ensinam os meninos na escola de Cochim e que encontradas numa arca lhe parecera que «Vossa Alteza as não mandara para apodrecerem... São muito agudos e tomam bem o que lhe ensinam e em pouco tempo, e são todos cristãos». Era o início duma transmissão da cultura luso-cristã, que será veiculada pelas escolas paroquiais, adjacentes a qualquer igreja, e pelos colégios. Fala também da política dos casamentos mistos que o rei lhe ordenara, mas que serão sol de pouca dura, certamente porque sendo os chamados "casamentos clandestinos", isto é, sem a intervenção de sacerdote (que só se torna obrigatória desde o Concílio de Trento), repugnariam à crescente rigidez dos meios católicos. Albuquerque, ainda nesta carta, diz: «casei em Goa uma mulher honrada e de bom parecer com um João Cerveira, homem de bem; veio o marido a falecer e ela casou logo com outro, e recebeu-os um Aquiles Godinho também casado em Goa perante certas testemunhas em sua casa». Constituíam estes os «casados segundo mandamento de Afonso de Albuquerque», quase rei-sacerdote, enquanto não chegavam as levas missionárias bem mais rígidas na sua visão religiosa e do santo sacramento do matrimónio.



Jorge de Brito, à frente de 300 portugueses, na ganância de tesouros nas sepulturas dos reis de Achém, na costa de Malaca, morre em 1521, escapando apenas alguns dos seus comparsas.
Carta do P. Jacobo Fenício em 1603 para o Provincial de Calecut, em 1603, relatando a sua expedição à serra de Nilgiris (cujas alturas faziam virar os olhos a alguns, a outros abreviar a vida em dez anos), onde esteve com os Thodares, adoradores da búfala e de pagodes. O seu “Livro da Seita dos Índios Orientais” é das mais antigas e extensas obras sobre a religião da Índia e nasceu de diálogos locais com o brâmane astrólogo do samorim de Calecut, e com o rei de S. André e outros brâmanes que lhe forneceram muitos dados de teologia, mitologia e costumes indianos, tais as 1as palavras pronunciadas por Ishwara, Deus: «Om shivaya nama, e é a mais estimada das orações», mantra ainda hoje activo.
Depois de cruzar o Cabo da Boa Esperança, o Grão-Capitão André Furtado de Mendonça, tantas vezes vencedor dos orientais e dos holandeses em trinta anos de serviço leal no Oriente, acabado de substituir quando iniciava a governação do Estado Português na Índia, morre em 1610. O seu corpo continua a navegar, envolto em cantos e responsos, até vir a ser enterrado com cerimónias venturosas, em que participaram várias gerações de veteranos da Índia, no convento da Nossa Senhora da Graça, em Lisboa.
O vice-almirante Avelino Teixeira da Mota, antropólogo e amante da Guiné, historiador dos Descobrimentos e autor, com Armando Cortesão, da opus máxima da cartografia portuguesa, “Portugalia Monumenta Cartographica”, morre em 1982 em Lisboa. Escrevendo sobre a sabedoria da Guiné, diz-nos: «Tudo o que existe, objectos inanimados, ou seres animados, contém uma parcela de energia universal, que é pessoal ao ser ou ao objecto enquanto ele dura, constituindo um espírito dinâmico, dotado de inteligência e vontade, e de uma psicologia antropomórfica. Além deste princípio dinâmico, há um princípio ou sopro vital, exclusivo dos seres animados, na dependência daquela, sem inteligência nem vontade, pelo que não é objecto de culto. Só portanto, o primeiro conta no ponto de vista religioso; o segundo estaria ligado à transmigração das almas, noção comum a várias populações da Guiné (nomeadamente os Bijagós). A designação geral deles é irã. Para poder actuar sobre a vontade dos espíritos, destina--se a cada um um objecto material, onde certos ritos o levam a residir. Objecto que serve de suporte ou asilo ao espírito, mas que não se confunde com ele, daqui nasceu a noção errada de que a religião negra é essencialmente idolatria». E resume: «o culto dos antepassados faz da sociedade indígena uma comunidade de vivos e de mortos».

2.  A instância do rei D. Manuel, Afonso de Albuquerque tenta conquistar a cidade de Adém em 1513, mas é forçado a retirar por incapacidade de escalar a fortaleza, tanto pela falta de escadas e cordas resistentes, como pelas tropas serem insuficientes. Segue então para o mar Vermelho, pela primeira vez cruzado pelas quilhas portuguesas.
Carta de Goa de S. Francisco Xavier, em 1548, em que conta como manda um companheiro para Malaca, para ensinar a ler e a escrever aos filhos dos portugueses, e ensiná-los a rezar as Horas de Nossa Senhora, os Sete Salmos, e as Horas de Finados pelas almas de seus pais: «Por lá, como Vossa Majestade sabe, tudo é ler por feitos (casos judiciais) e os filhos dos portugueses, lendo por feitos e mais feitos de Malaca, ficam feitos malaquazes. E também encomendo ao que há-de ensinar a ler e escrever aos filhos dos portugueses, que ensine gramática, andando o tempo, aos que forem para isso».
O marquês de Pombal por lei, em 1761, declara os indígenas da Ásia portuguesa perfeitamente iguais aos portugueses nascidos no reino, e estabelece penas contra os que conservassem e fomentassem as distinções de castas e outras, antecipando-se assim às constituições liberais. Eram também consagradas as liberdades de religião e de direito consuetudinário nos territórios a norte de Goa, as Novas Conquistas, que permitirão a Goa sobreviver ao seu passado de intolerância religiosa, e enquanto território e já não empório, perante um mar agora controlado por outros povos.

3.  No reino do Congo é celebrada a primeira missa, com o baptismo do rei e de muitos dos seus vassalos, em 1491, pelos frades dominicanos enviados por D. João II, muito bem recebidos pelo rei e pela população, familiarizados amistosamente com os portugueses desde a chegada de Diogo Cão (em 1483). E, como conta João de Barros, desde essa altura «já o Espírito Santo começava de obrar seus mistérios na alma daquele rei pagão, assim andava namorado do que Diogo Cão lhe dizia das coisas da nossa fé que nunca o deixava, perguntando-lhe algumas de espírito já alumiado». O rei, ao receber os presentes entregues pelo capitão Rui de Sousa, «tomou terra nas mãos e a correu pelos peitos do capitão e depois pelos seus», o maior sinal de estima.
De Dieppe no norte da França partem em 1529 dois navios, o “Sagrado” e o “Pensamento”, do armador Jean Ango, comandados pelos sábio João Parmentier e seu irmão Raúl, que chegam até à Samatra, regressando ao fim de um ano de viagem tormentosa com uns escassos sobreviventes, pouco animados para se relançarem por rota tão longa e perigosa. Eram os primeiros barcos franceses a dobrar o Cabo da Boa Esperança, mas as esperanças de abrirem um caminho para a França foram adiadas até se criar a Companhia da Índias Orientais em 1664. Nos momentos de desalento, o capitão lê à tripulação os seus versos, nos quais lhes diz para não fazerem caso entre os dentes do prazer do baixo ventre, pois a sobriedade torna os pensamentos nítidos e a mente ousada, subtil e cheia de virtude. O seu “Tratado em forma de exortação contendo as maravilhas de Deus e a dignidade do Homem” é um belo poema do humanismo marítimo, quem sabe se influenciado pela “Oração da Dignidade do Homem”, o manifesto do Renascimento, de Giovani Pico della Mirandola.
Para administrar e centralizar a justiça é criada em Goa, em 1544, a Relação das Índias. Eram os costumes e os casos passados que determinavam as decisões das câmaras locais, só depois passando, ao recorrer-se, para os juízes de Direito e por fim à Relação.
Nasce Sri Swaminarayan, em 1781, perto de Ayodhya. À sua morte tinha dois milhões de seguidores. Dirá: «Não chega reduzir os instintos indesejáveis por austeridades. A mente deve pensar constantemente: Eu sou o Espírito, separado dos pensamentos que surgem na minha mente, e eu sou bem- aventurado».
Agostinho da Silva retorna ao mundo espiritual em 1994. Aluno na Faculdade de Letras no Porto de Leonardo de Coimbra e de Teixeira Rego, amigo e mestre de tantos conversadores e dinamizadores das culturas de língua portuguesa, caracterizou bem os Descobrimentos quando escreveu a propósito de Damião de Góis: «Voltou a Portugal, por 1533, e foi nomeado tesoureiro da Casa da Índia; mas o ambiente já era um pouco difícil para quem se tinha habituado à amplidão de pensamento dos grandes espíritos europeus: não se tinha sabido coroar a obra dos navegadores com a obra dos artistas, dos homens da ciência e dos filósofos e toda a actividade se ia reduzindo ao negócio, ao culto da brutalidade guerreira e ao estreitamento das concepções religiosas». Por isso Agostinho da Silva lutou para que a obra dos Descobrimentos prosseguisse hoje ecumenicamente, com aviões e internet, generalizando-se a cultura, da qual divulgou alguns sectores orientais, e libertando-se os seres para poderem ser eles próprios em liberdade e criatividade.



4.  Damião de Góis, o amigo de Erasmo, o cronista não manipulável (o que a casa de Bragança não apreciou), 26 anos depois de ter sido denunciado pela 1ª vez pelo despeitado P. Simão Rodrigues (que repetiu mais de uma vez as denúncias), é preso pela Inquisição em 1571, com a idade de 70 anos, e interrogado em detenção até Dezembro de 1572, quando será sentenciado a cárcere perpétuo no Mosteiro da Batalha, que pertencia aos dominicanos. A mão interesseira dum genro, Luís de Castro, estava também por detrás, mais ainda a inveja das mesquinhas e frustradas autoridades repressivas, perante um homem que recusara ser tesoureiro da Casa da Índia e preferira ser um embaixador itinerante do humanismo cosmopolita, e que incarnava do melhor da grande alma portuguesa. É com dignidade que responderá às acusações de tendências protestantes.
Luís de Brito e Melo derrota um dos capitães dos mogóis perto de Damão em 1614. O governador de Damão é Rui Freire de Andrade, que por várias vezes dará também provas do seu valor, tanto em terra, como em mar. Já em 1581, cercada Damão pelos mogóis, viera um repto de duelo individual para resolver sem mais sangue o domínio da praça e o capitão dela, Martim Afonso de Melo, aceitara-o e vencera-o.
O P. António Vieira, numa carta escrita do Maranhão em 1665, neste dia, ao rei: «Senhor, consciência e mais consciência é o principal e único talento, que se há-de buscar nos que vierem governar este Estado... Se não houver mais que um, venha um que governe tudo, e trate do serviço de Deus e de Vossa Majestade, e se não houver nenhum, como até agora parece que não houve, não venha nenhum, que melhor se governará o Estado sem ele, que com ele; se para justiça houver um letrado recto, para o político basta a Câmara, e para a guerra um sargento-mor, e esse dos da terra, e não de Elvas, nem de Flandres... Aqui há homens de boa qualidade, que podem governar com mais notícia, e também com mais temor; e ainda que tratem do seu interesse será com muito maior moderação, e tudo o que grangearem ficará na terra, com o que ela se irá aumentando: e se desfrutarem as herdades será como donos, e não como rendeiros, que é o que fazem os que vêm de Portugal».



Alexander Csoma de Körös nasce na Hungria em 1784. Aos 36 anos parte em busca das origens do seu povo, os ciganos, primeiro pelo Médio Oriente, depois Caxemira, e finalmente Tibete. É aqui que descobre a missão de sua vida: aprofundar a cultura tibetana, e publicará o 1º dicionário e gramática da língua Tibetana, monumentos de erudição e frutos dum estoicismo a toda a prova nas duras condições de trabalho. Em 11 de Abril de 1842 a febre queima-lhe o fio da vida terrena. No Vocabulário, reeditado no séc. XX, em Calcutátraduz assim a meditação profunda: «tendo-se desenvencilhado inteiramente de concepções corporais (ou do mundo material), as noções retardadoras tendo desaparecido e não recebendo mais ideias diversas na sua mente, e pensando-se a si próprio como o infinito espaço vazio acima, ou éter, continua assim depois e ter realizado a sensação do espaço infinito vazio».
Monsenhor Sebastião Dalgado morre em 1922. «Os seus últimos doze anos de vida foram séculos de atrozes sofrimentos», diz-nos o seu sucessor na cadeira de Sânscrito (hoje extinta...) na Faculdade de Letras, Dr. Mariano Saldanha, terminando por ser amputado das duas pernas. Mas antes calcorreara a Índia e o Ceilão, missionando. O notável arqueólogo Leite de Vasconcelos, ao discursar no enterro, afirma: «quanta gente inútil ou prejudicial que vagueia por essas ruas sã e resistente, e aquele mártir amarrado, perpetuamente, ao sofrimento, e apesar de tudo, a desvendar sempre, com a actividade ininterrupta, os segredos da história e da psique humana, que outro não é o sentido da pesquisa lexicológica!» E da sua tradução do Hitopadesha, uma selecção moralizada do antiquíssimo fabulário indiano (o Pancha Tantra), já conhecida na Península Ibérica desde o século XI, escolhe a seguinte frase: «Entre todas as coisas, nada é superior à sabedoria; é inamovível, inestimável, imperecível».
Assinatura de Damião de Goes presente nos exemplares das suas crónicas de D. Manuel. Esta passou-me pelas mãos.
5.  O cosmopolita Damião de Goes, um dos homens que mais divulgara e defendera a relação dos portugueses com o Oriente na Europa culta, com 70 anos, é submetido ao 1º interrogatório, em 1571, sendo convidado «a confessar tudo o que sentir que tem feito, dito e praticado contra a nossa santa fé católica». Reconhece que se encontrou com Lutero, Melanchthon, Munster, Bucer, Farel, Pomeranus, Erasmo, mas que permaneceu sempre bom católico cristão. Os interrogatórios prosseguirão e o seu genro, tesoureiro do cardeal D. Henrique, Luís de Castro, virá apunhalá-lo com mais delações, tal como a que comia carne em dias proibidos, e que dissera: «muitos papas que foram tiranos; e que da tirania dos eclesiásticos viera muito mal à igreja; e que muitos dos eclesiásticos eram hipócritas».
O dominicano Francisco Donato, italiano, missionário em Malaca, Ceilão, Cochim e Kerala com sucesso, sofrendo com as invejas de outros padres e começando a sentir o peso dos anos, resolveu voltar a Roma para contar o que se passava, mas é preso no mar e decapitado, por recusar converter-se ao islamismo, em 1634.
Conversa matinal de Ramakrishna com discípulos, na varanda do seu quarto no templo de Dakshineswar neste dia em 1884: «Encontro toda a gente a batalhar em nome da religião. Hindus, Muçulmanos, Brahmos, Shaktas, Vaishnavas, Shaivas, todos discutem uns com os outros. Nunca pensam que Aquele que é chamado Krishna, é também chamado Shiva, que é Ele próprio chamado Energia Primordial, Jesus ou Allah! Um único Rama tendo milhares de nomes!... A água é chamada por diferentes nomes mas a substância é a mesma. Portanto, sectarismo e lutas são indesejáveis. Cada pessoa segue o Seu caminho, e se é sincero e aspira a conhecê-Lo, certamente que O realizará. A demanda é a do mesmo Satchidananda — Ser, Consciência, Felicidade Pura... Enquanto sentires que Deus está ali, lá, fora de vós, é ignorância. Mas quando sentis que Deus está aqui, aqui — dentro de vós, isso é conhecimento... O que o ser humano procura está mesmo à mão e contudo o homem anda às voltas à procura disso».


6.  Fernão Mendes Pinto em 1555 experimenta um desejo de paz e uma subida da energia interna: «Foi o padre Mestre Melchior a uma casa de Nossa Senhora que se chama do Chorão, que está numa ilha da outra parte de Goa, e eu fui com ele. Estivemos lá dois dias, e cresceu-me com tanta eficácia o desejo de servir a Deus Nosso Senhor que quase andava como fora de mim, e ia-me pelo campo sem ter outra consolação senão dar suspiros e brados mui grandes pedindo a Nosso Senhor que me desse a sentir o que mais fosse glória e honra Sua», bela descrição da aspiração espiritual que o visitou.
O P. Gonçalo Fernandes Trancoso morre em 1621, com 80 anos de idade, e o corpo é sepultado na sepultura do seu amigo o P. Henrique Henriques. Fôra soldado na Índia e no Ceilão mas ainda novo, sentindo mais interesse pelo caminho espiritual, pediu os votos nos jesuítas, que o apreciaram, como diz o Provincial Laynes, é «homem muito douto de quem se pode fiar». Foi companheiro do P. da Nobili, fundando uma escola, e um hospital. Escreveu um “Tratado Sobre o Hinduísmo”, a obra mais completa sobre a religião indiana até então publicada, no qual traduziu do tamil para português os textos sânscritos que brâmanes amigos lhe traduziram para tamil e onde se contêm belas orações: «Vós sois o Supremo (Parabrahman), vós sois resplandor, vós sois a lei e o que aquentais o mundo, e assim venero ao sol e a sua alma, porque a condição da alma é fazer bem a todos, e assim a alma tem resplandor».
Mahatma Gandhi inicia o movimento de Satyagraha (força da verdade), ou resistência não-violenta, em 1919, apelando a um dia de oração, jejum e paralização do trabalho, respondido com entusiasmo por toda a Índia. Preso pouco depois, aos motins de contestação em Amritsar respondeu o general inglês Dyer com o assassinato à metralhadora de seiscentos crentes de várias idades que se encontravam num local religioso, havendo ainda milhares de feridos. Mas Gandhi e o Partido do Congresso, com prisões ou jejuns, tenazmente, conseguirão liderar o povo indiano rumo à independência.
Em Varanasi nasce Ma Yogashakti Saraswati em 1927. Depois duma carreira social e política, renunciou ao mundo e fundou a Missão Yogashakti, em Gondhia, Maharashtra, para renovar o despertar espiritual através do ensinamento do Yoga, acção desinteressada, amor fraterno e sabedoria divina.

7.  S. Francisco de Xavier nasce em 1506 em Navarra, Espanha. Em 1541 embarcará para Goa para viver intensamente como mestre de escola, confessor, pregador, missionário, pacificador, com sucessos em Kerala e no Japão, e algumas dificuldades, tal o ambiente de Goa, a oposição do capitão de Malaca D. Álvaro de Ataíde e a entrada na China. Não obstante, «andava quase sempre com os olhos no céu, em cuja vista dizia que encontrava particular consolação e alegria, como pátria para onde pensava ir, e assim andava o rosto tão alegre e inflamado que enchia de gozo os que o viam. E aconteceu encontrarem-se tristes alguns irmãos, e tomarem como para alegrar--se ir vê-lo».
A armada do novo vice-rei Lopo Soares de Albergaria sai de Lisboa em 1515. Vem substituir Albuquerque e a sua visão de expansão estratégica, por uma política de comércio e corso, e ainda por cima com uma inveja destruidora da fama e dos amigos daquele. Fernão Peres de Andrade receberá a missão de contactar a Bengala e a China, partindo para esta de Malaca em Junho de 1517 com nove naus, mas em vão esperará mais de um ano para receber autorização de se apresentar ao imperador, regressando então rumo a Portugal e deixando ficar o farmacéutico Tomé Pires em Cantão como embaixador e, sem o saber, como futuro mártir.
António Silveira de Meneses, um dos melhores homens de armas desde os tempos de Vasco da Gama, notável capitão da fortaleza de Diu no 1º cerco (em 1538), morre em 1547. Regressado à pátria, era de tal modo famosa a sua intrepidez que o embaixador francês solicitou um retrato seu para a sala dos Varões Insignes, ou da Fama, no palácio real de Paris.
«Aos 7 de Abril de 1601 no sabbado antes da Dominga de Passione o Governador desta Praça Duarte de Mello com o Reverendo Padre Vigario da Vara Manoel Fernandes lançarão a primeira pedra na Capella desta igreja que delineou o Padre Gaspar Soares da Companhia de Jesus, e pera lembrança se fez este padrão no anno de 1710» Assim leu o sábio Cunha Rivara  em 1859 numa inscrição pintada na igreja do Espírito Santo de Diu.
Ravi Shankar, um dos grandes embaixadores itinerantes da maravilhosa cultura musical indiana, nasce em 1920 e virá a tocar em Portugal na cítara as ragas subtis e interiorizantes da Índia, que outrora se cruzaram com as guitarras lusas nos plangidos de almas sequiosas de amor e de que uma subtil ligação se encontra nos originais mandós de Goa, irónicos ou delicadamente saudosos.

8.  Três nobres polacos vem a Portugal para serem armados cavaleiros por D. Manuel no ano de 1516 e partem felizes pela mercê e bençãos recebidas, na igreja de S. Julião, acrescentados no lume espiritual de Portugal que lhes foi transmitido, e na Polónia tentarão religar mais as energias destes dois países.
D. Leonis Pereira, combatente arrojado, capitão de Malaca, morre em Goa, em 1579. Dele cantou Camões, a propósito de se ter dominado, perdoando, quanto foi esbofeteado numa missa: «Ali tais provas fez de cavaleiro, / e de cristão magnânimo, e seguro, / que a si mesmo venceu por derradeiro», elogio este dos maiores, de acordo com a máxima universal: «De que serve venceres o mundo inteiro, se não te venceres a ti mesmo»?
Partem de Lisboa na nau “S. Filipe”, em 1586, os quatro jovens embaixadores japoneses dos dáimios de Kiushu, para chegarem a salvo a Goa, após navegarem 11 meses. Daqui partirão de regresso ao Japão com muita história para contar do que viram e das faustosas recepções europeias com que foram homenageados ou que participaram, ora tocando orgão, ora mostrando--se nos seus belos quimonos que tanto sucesso fizeram. Realizariam na Europa algum cerimonial do chá?
O franciscano Francisco das Chagas morre em 1628 em Goa. «Foi contínuo e incansável na oração mental, sendo um dos grandes contemplativos que houve no seu tempo... teve muitos discípulos, varões espirituais e contemplativos... Estando uma vez em oração, viu um religioso sobre ele um muito formoso arco de diversas cores, azul e branco, que começava dos seus ombros e chegava até ao tecto da igreja onde estava».

9.  Chegam e conquistam a ilha de Socotorá, Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque em 1508, a fim de libertarem os cristãos jacobitas, a pedido do rei D. Manuel. Mas cinco anos depois ela é abandonada, pois está demasiado exposta e isolada, para além dos naturais serem contra as mudanças de costumes. Deles dirá Martim Afonso de Melo em 1527: «Há muitos cristãos de geração de que aí converteu S. Tomé. Têm igrejas e cruzes e o modo de oração é como o caldeu. Em tudo vivem como cristãos. Não têm mais de uma mulher. Pela continuação do tempo vão desfalecendo com algumas erronias, por não ter quem os ensinem e doutrinem. E têm os Mouros tão vizinhos sobre si, que alguns casam uns com os outros. Por descargo de minha consciência me parece que Vossa Alteza devia prover nisso, e mandar fazer aí uma igreja e um par de clérigos de boa vida que nela estejam e lhe mostrem a nossa fé, de maneira que hão de ter em sua vida». Mais tarde D. Aleixo de Meneses envia dois frades para tentarem de novo a conversão, mas em vão. Adoradores da lua e da cruz, cortadores dos dedos por quebras de jejuns ou por honra, estavam muito mais influenciados pelo islão do que por qualquer vaga tradição cristã, como também percebeu e definiu, em poucas mas sugestivas palavras, o viajante Frei Bernardino de S. Pedro: «todos são mouros e não sei se pior que eles», como relata no “Itinerário da Índia por Terra até este reino”, ao passar por lá em 1605.




10.  O impressor João de Édem publica em 1563 na tipografia dos jesuítas, instalada no colégio de S. Paulo em Goa (que chegou a ter três mil alunos em 1608), os “Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia”, do médico alentejano Garcia de Orta, «varão grave de raro e peregrino engenho», obra em que não só o estudo botânico, mas também curiosas informações de 40 anos (desde 1534) de arguta vivência na Índia são transmitidas. No proémio vêm as primeiras odes publicadas de Camões: «E vede carregado / De anos, e traz a vária experiência / Um velho que ensinado / Das gangéticas Musas na ciência / Polidária subtil, e arte silvestre, / vence o velho Quiron, de Aquiles mestre». Os subtis diálogos com que estes dois sábios conviveram em Goa, quem os poderá reviver? Que questões e realidades demandaram juntos, homens que conheciam Platão e Plotino, Pico della Mirandola e outros grandes almas da sabedoria universal? Para culminar o fogo universal que o animava, a Inquisição, dez anos depois de ter morrido, em Dezembro de 1580, desenterrou o seu corpo e queimou-o sob a acusação de ter judaizado (ou seja, não cumprir as prescrições da igreja católica de Roma em relação a certas orações, crenças ou práticas), e as suas cinzas, tais as de Gandhi ou de outros mahatmas (grandes almas) como ele era, foram dispersas no manso e saudoso Mandovi. Como disse o historiador Júlio Gonçalves: «Garcia de Orta não foi um reinol de torna-viagem, dos que iam para voltar, com as suas quintaladas de pimenta e a honra ganha em tantos Santiagos nos Mouros. Fez mais do que isso: integrou-se no meio, estudou-o, descreveu-o numa obra excelente». Nas primeiras descrições europeias dos costumes dos jainas refere que os baneanes jejuam muito e à noite comem pouco, acúcar e água ou leite bebido somente, e há alguns «religiosos, que jejuam vinte dias sem comer, como me disse um homem muito digno de fé... vivem segundo o costume pitagórico, não comem coisa que padeça morte» e acreditam na transmigração das almas.
O P. Tomás Estêvão, inglês, em carta a seu pai sobre a viagem para a Índia em 1579: «chegámos a avistar o Porto Santo, perto da Madeira, onde um navio inglês atacou o nosso (que então estava só) com uns poucos de tiros, que não causaram dano. Mas logo que o nosso navio descarregou o seu maior canhão, partiram eles direitinhos como tinham vindo. O navio inglês era bonito e grande e tive pena de o ver tão mal empregado».
O P. Teillard Chardin morre nos Estados Unidos da América em 1955, num dia de Páscoa. A sua tentativa de realizar o fenómeno religioso e cristão numa visão evolutiva do Universo, causou polémica, mas sem dúvida fermentando a visão algo imobilizada da ortodoxia. Já no fim da sua vida, dirá que para si o Reino do Senhor «era o reencontro implosivo» na consciência humana do sentido ultra-humano e do sentido crístico, ou como digo frequentemente, para a frente e para o alto». As evidentes analogias entre o seu pensamento e o de Sri Aurobindo não escaparam a alguns, como ao jesuíta argentino Ismael Quiles, um dos poucos estudiosos e ensinantes da filosofia oriental dentro do institucionalismo católico, pois conseguiu criar um Instituto de Estudos Orientais em Buenos Aires. Teillard Chardin, nos seus últimos anos, rezava assim pela sua morte: «Que o Senhor, não por mim, mas pela Causa que eu defendo (a do maior Cristo), me dê acabar bem». Um súbito ataque de coração levou da terra para a noosfera, o envolvimento psíquico e espiritual da Terra, o infatigável pesquisador dos mistérios da origem da humanidade e da sua destinação final, Ómega, em que todos estarão em Deus.

11.  Nasce em 1357 D. João I, filho natural de D. Pedro. Foi entregue em criança a Nuno Freire de Andrade, mestre da Ordem de Cristo. Impôs-se à tentativa de dominação castelhana com vigor e será aclamado rei nas cortes de 1385. Usará como divisa «En bon point» até Aljubarrota, e depois «Pour Bien», no bico duma pega e com ramos de pilriteiro, tal como se vê no palácio de Sintra. Irá ainda a Ceuta em 1415, iniciando a expansão europeia.
Parte de Lisboa em 1586, na armada de D. Jerónimo Coutinho, a nau “Salvador”, capitaneada por Miguel de Abreu. Destroçada por uma tempestade no Cabo da Boa Esperança, prestes a ser abandonada, é encontrada por Martim Afonso de Melo, vindo de castigar Mombaça, que se «oferece para os acompanhar com toda a Armada e que ele tomaria a nau à sua conta; e se fosse necessário meter-se ele em pessoa dentro, o faria, e que para as bombas revezaria os marinheiros, e os capitães e os soldados». Salvar-se-á...



O ousado P. Bento de Góis, depois da sua arrojada travessia do Afeganistão ao Turquestão chinês, passando pelo Indokush, o Pamir e as terras entre a Mongólia e o Tibete (iniciada em Lahore em 1603), morre às portas da muralha da China, em Su-Chow em 1607, travado pela burocracia chinesa, mas feliz por receber uns dias antes o cristão macaísta João Fernandes com cartas de Pequim do P. Ricci a confirmarem que o Cataio de Marco Polo era a China. Um dos maiores e mais determinados descobridores, religou os picos atlânticos dos Açores, onde nascera em 1562, com as alturas e as profundezas sagradas da Ásia Alta. Uma das descrições mais curiosas da sua odisseia está nos “Portugueses das Sete Partidas” de Aquilino Ribeiro. Durante a sua viagem épica, em carta escrita de Cabul, afirmou: «Encontro-me entre pessoas muito cruéis e selvagens, mas, tenho Deus comigo, não temo nada. Um destes reis bárbaros ameaçou-me de me esmigalhar debaixo dos pés dos elefantes; respondi-lhe calmamente que eu não o temo, que não desejo nada mais do que morrer pelo amor do Deus verdadeiro e Criador do Universo”. Eis o irmão Bento de Góis a mostrar como se domina a arte de bem morrer: pronto alegremente a partir a qualquer momento, com a ligação ao Mestre e a Deus estabelecida.
Em 1626 em Chaparangue, no Tibete ocidental, é arvorada uma Santa Cruz no sítio da 1ª igreja a ser edificada nos Himalaias e, como nos relata o P. António de Andrade, era «de pau conforme ordena o ritual mas toda forrada de damasco; e arvorou-se com tanger de trombetas e atabales, e presente muita gente».



12.  Em Cuzco, nas cordilheiras sagradas do Peru, em 1539, nasce de pai espanhol e mãe índia Gomes Suarez de Figueroa que será conhecido como Garcilaso de la Vega, o Inca, pois nele corria o sangue dos antigos reis. Escreveu entre outras obras uma “História da Flórida” e traduziu o importante ensaio de sabedoria platonizante do judeu português Leão Hebreu “Diálogos do Amor” dedicando-o ao rei de Espanha: «Suplico que com a clemência tão própria de vossa real pessoa, se humane a receber a alma deste pequeno serviço que em nome de todo o Peru é oferecido e ofereço».
Naufrágio da nau “Vitória” na costa da Etiópia, com 500 pessoas, sobrevivendo apenas 16, após grandes tormentas, que chegaram a Mogadíscio, em 1595. Cerca de 100 navios pereceram nos mares por desastres ou ataques entre os anos 1497 a 1580, num cômputo de 620 utilizados, mas tal era o preço de por mares nunca dantes navegados passarem ainda além de Taprobana enfrentando «no mar tanta tormenta e tanto dano, / tantas vezes a morte apercebida! / Na terra tanta guerra, tanto engano, / tanta necessidade aborrecida», movidos pela honra, religião ou cobiça. As grandes tragédias resultaram de enfrentarem a inconstância dos mares, a fereza dos elementos e as batalhas dos inimigos. Outras causas dos desastres: navios ronceiros, pouca querenagem, ganância no carregamento, má acomodação e poucas viagens em espírito de grupo.
O P. António de Andrade descreve a fundação do primeiro templo cristão no reino de Guge, Tibete, em 1626: «Dia de Páscoa saímos da casa del-Rei levando ele só a primeira pedra, no meio da qual estava uma formosa Cruz dourada toda de pedras várias, que com ser de pouco preço, parecia que o tinha grande; todo o mais campo da pedra ia coberto de muitas flores de prata; chegámos ao lugar e sítio em que estava alevantado um altar, e nele se depositou a pedra para se benzer: ela benta com todo o aparato e autoridade que nos foi possível, a pusemos em seu lugar deitando ele primeiro debaixo dela boa quantidade de ouro; vestiram-se vinte pobres que foi de edificação para a gente; pusemos o título, e dedicámos esta Igreja à Virgem da Esperança pelas grandes que temos em Nosso Senhor, que por intercessão desta Rainha trará muito depressa toda esta gente a sua Santa Fé...

13.  Os frades espanhóis João Maldonado e Afonso Ximenes, depois de missionarem em Cambaia, são martirizados em 1600 na Tailândia, numa época em que se formou uma forte oposição à influência portuguesa na corte do rei de Sião, muito favorecida desde 1543 devido ao contributo guerreiro e civilizador (abertura de estradas e canais).
Shivaji (nascido em 1630 e coroado raja dos maratas em 1674), depois de muitas lutas em que foi comparado a Alexandre, César e Átila, seguindo ainda um caminho espiritual de acordo com as instruções do seu famoso mestre Ramdas, morre em 1680, na luta pela libertação do seu povo dos mogóis e de outras dinastias islâmicas, e dos portugueses e ingleses. Cosme da Guarda, natural de Mormugão, escreve uma sua biografia em 1695.
O ministro da Educação da Índia, Dr. Azad inaugura o congresso da Unesco, em Deli, sobre Humanismo em 1950: «Face à concepção ocidental moderna que faz do homem um animal capaz de progresso, o Oriente acentuou a espiritualidade intrínseca, e a contemplação da realidade interna do homem fez nascer a filosofia Vedanta na Índia e o Sufismo na Arábia. É da síntese do progresso da ciência e do homem como emanação de Deus, que surgirá a paz. Quanto à educação, não é um meio de se atingir algo de exterior, mas um fim em si, no que se reconhece o saber como um dos valores últimos».


Da imaculada concepção da mãe de Buddha em sonho...

14.  Nasce da Princesa Virgem Maya, Siddhartha Gautama, na cidade de Kapilavastu, hoje no Nepal, em 563 A.C., segundo uma das tradições tibetanas. Retirando-se da corte mundana e praticando a ascese e a meditação, atinge a iluminação na lua cheia de Maio de 528 e torna-se o Buddha, o que realizou a natureza de buddhi, inteligência luminosa. A metodologia religiosa que transmite visa libertar os humanos do sofrimento causado pelo desejo de vida ignorante e é no seu óctuplo caminho da verdade (rectidão na compreensão das causas do sofrimento, no pensamento, nas palavras, acções, meio de vida, no esforço ou trabalho, na vigilância e na meditação), uma via de equilíbrio, desprendimento, serenidade e plena atenção. Como criticou a religião dos brâmanes, com os seus deuses, ritos e castas, não conseguiu sobreviver na Índia, sobretudo quando as invasões islâmicas vieram destruir as suas grandes universidades de Nalanda e Taxila, sendo antes exportada para todo o Oriente. Quatro estados sublimes da mente devem ser frequentemente cultivados — recomenda Siddhartha Gautama, o Buddha: — que o discípulo penetre o mundo inteiro com o coração cheio de Amor, Compaixão, Alegria pela simpatia com os outros e Equanimidade.
Edital da Inquisição de Goa, em 1736, com 56 proibições entre as quais: «que não guardem os dias de quarta-feira, nem os dias de lua nova, e cheia, nem os dias duodécimos das ditas luas como dias santos. Que nas procissões, encamisadas, e outras quaisquer festas, nenhuma pessoa, por jocorice ou por representação burlesca se disfarce em traje de clérigo ou religioso, nem façam acção alguma de arremedo às cerimónias e ritos da Igreja».

Imagem do Guru Arjan, no templo de Amritsar.
15.  Guru Arjan, o quinto mestre ou guru da religião Sikh, nasce neste dia em 1563 em Goindval, no Pumjab, Índia, sendo o primeiro dos dez gurus a nascer de pais Sikhs, pois o seu pai era o Guru Ram Das, o 4º guru e a mãe Mata Bhani, filha do 3º guru Amar Das. Foi um grande organizador da religião Sikh graças ao seu carisma espiritual, de tal modo que atraiu o ódio e a inveja do imperador mogol Jahangir que o prendeu e matou em 1606. Compilou os hinos e ensinamentos dos mestres anteriores, no Adi Grant, que se tornará por fim a escritura dos Sikhs, o Guru Granth Sahib. É no Templo Dourado em Amritsar, na fronteira entre a Índia e o Paquistão, que se encontra  este livro sagrado dos milhões de Sikhs (2% da população indiana) e que contém os elevados ensinamentos ensinamentos de Guru Nanak e dos nove mestres seguintes, sendo reverenciado como um mestre vivo e estando a ser cantado ininterruptamente por devotos que se revezam. A propósito da meditação e da necessidade de fixarmos a mente, sempre tão dispersa por mil imagens ou preocupações, em algo ou alguém que seja condutivo à paz, à luz, à realização, dirá: «A forma da Divindade Eterna é o Santo (ou Guru), este deve ser o verdadeiro objecto da contemplação» ou ainda «Contempla no teu interior a forma do Guru» pois «querido amigo, sem a contemplação da forma do Guru não há libertação da escravidão», ou ainda: «O Senhor revelou-me que sem o Guru ninguém se salva».





A bela Mumtaz Mahal, mãe do príncipe sufi  Dara Shikok
Arjumand Banu Begam nasce neste dia em 1593. Receberá o nome de Mumtaz (a eleita) Mahal (do palácio), ao ser a preferida das três mulheres do imperador mogol Shah Jahan e de quem terá 14 filhos. Do amor entre os dois nascerá o talvez mais famoso e perfeito monumento da Índia, o Taj Mahal, onde os corpos de ambos se encontram depositados por entre versículos do Corão em requintadas caligrafias e mosaicos coloridos de pedras raras. O seu filho Dara Shikoh levará o seu amor pelas vias da busca espiritual divina com grande qualidade e várias obras pioneiras de comparativismo religioso
A Carta do P. Rudolfo Aquaviva para seu tio Cláudio, o geral dos jesuítas em Roma, datada neste dia em 1582, sobre a missão na corte mogol de Akbar em Agra, no interior da Índia,  refere o interesse de se ir pregar aos tibetanos «nação de muito boa índole e dada às obras piedosas». Avisa ainda que «onde estamos é a verdadeira Índia, e este domínio é apenas uma escada para a maior parte da Ásia; e agora que a Sociedade [de Jesus] obteve a sua permanência aqui e é tão favorecida do imperador e dos seus filhos, não parece apropriado deixá-la antes de se tentar por todos os meios começar a conversão do continente indiano já que o que se fez até agora foi meramente o litoral».

16.  Na Etiópia, D. Cristóvão da Gama e os seus derrotam pela 2ª vez os exércitos do emir de Harar, o Gráne, em 1542, e era tal desproporção numérica (350 portugueses e 200 etíopes contra mais de dez mil) que só a protecção Divina e a de Santiago explicaram na altura tais feitos. O objectivo de libertarem o Preste João e os etíopes cristãos da subjugação islâmica que os ameaçava, tornava-se mais possível.



Morre em Goa em 1609 o P. Francisco Cabral, nascido na serra da Estrela em 1528, e durante 55 anos religioso na Índia, China (1º superior da Missão) e Japão, onde chegara em 1570 para substituir o P. Cosme de Torres como vice-provincial e para desenvolver a cristianização em Bungo e Omura, onde os dáimios D. João Shiki Rinsen e D. Francisco Otomo-Sorin brilham.
Zarpa de Lisboa o insigne matemático e astrónomo jesuíta alemão Adam Schall em 1618 e depois duns anos em Goa passará à China, onde pelo seu alto valor será chamado à corte e, ao estimular com êxito a mentalidade racional e científica dos chineses, elevado ao mandarinato e a Presidente do Tribunal das Matemáticas. Depois de perseguições e maus tratos escapará da morte por um terramoto e será desterrado para Cantão. Deixará cansado o mundo em 1666, levando na bibliografia 150 obras. Será o jesuíta e cientista belga Ferdinand Verbiest que preparado de antemão o substituirá na direcção dos departamentos de matemática e astronomia na corte de Pequim.

17.  Gualdim Pais, o 4º mestre da Ordem do Templo em Portugal e que estivera na Terra Santa, morre em 1295. Deu o foral à vila de Tomar e edificou o castelo, onde depois se construiram a charola e o convento, que foram sede da Ordem de Cristo e da jurisdição espiritual nos Descobrimentos.
O florentino Giovanni de Verrazano é o 1º europeu a atingir em 1524 a ilha de Manhattan, Nova Iorque, percorrendo 1.200 km da costa norte- americana com quatro barcos ao serviço de Francisco I da França. Se na viagem seguinte trouxeram grande riqueza de pau-brasil, já na última a maior parte dos tripulantes e o próprio Verrazano são cortados em pedaços e devorados numa ilha das Caraíbas.
Frei Tomé de Jesus, que fôra ferido com o crucifixo na mão nas primeiras linhas de Alcácer Kibir e, prisoneiro dum marabut, recusara-se a ser resgatado, preferindo sofrer o cativeiro consolando os cristãos e escrevendo os seus “Trabalhos de Jesus”, no século XVII o livro português mais lido e publicado no mundo, desprende-se do corpo em 1582. Mestre de noviços, ensina métodos de aproximação à experiência espiritual: «chegada a hora do exercício, lembre--se que tem Deus trino e uno presente, ou dentro em seu coração muito mais íntimo que seu interior, ou em sua majestade sobre si, a cujos pés está como uma miserável criatura, ou cercado de toda a parte dele ou de sua bondade, como um pequeno peixe no meio do mar, dele e nele está de toda a parte alagado, ou como uma pessoa que no meio do campo está cercado de todas as partes do Sol, que por todas elas lança neles seus raios.»
Embarca para a Índia o P. Gaspar Afonso, em 1647, onde viverá até Novembro de 1708 com grande prudência, chegando a bispo de Meliapor. Observara que a carne do S. Francisco Xavier estava dura e carcomida em muitas partes e o rosto enegrecido e deformado e por isso opunha-se «a que a relíquia tornasse a ser exposta».
O Dr. S. Radhakrishnan morre em 1975. Filósofo, professor e Presidente da Índia. «A religião, é para o hindu, experiência ou atitude da mente. Não é uma ideia, mas sim uma força; não é uma proposição intelectual, mas uma convicção vital. A religião é o conhecimento da realidade última, não uma teoria acerca de Deus». Comparando o Oriente e o Ocidente, interrogará as gerações futuras: «Se surgirem suficientes homens e mulheres em cada comunidade que estejam libertos de fanatismos religiosos e políticos, que se oporão com energia a todo o tipo de tirania mental e moral, e que desenvolverão em lugar duma visão de ângulo nacional uma global, o que não se poderá fazer?»

18.  Fernão Lopes de Castanheda parte com o seu pai, juíz, para a Índia na armada de Nuno da Cunha em 1528, para «não perder-se a memória de feitos tão notáveis que os portugueses fizeram... porque muito sobrenatural há--de ser o engenho, que há-de saber escrever do que nunca viu — o que se me não pode dizer, porque vi tormentas, vi batalhas no mar e pelejas na terra, e despedaçar navios, e bater muros e vencer inimigos, e falo como experimentado». Recolhido assim no terreno o material durante vinte anos, regressa e publicará a “História do Descobrimento e Conquista da Índia”, numa pátria ingrata.
O governador do Estado português na Índia Lopo Vaz Sampaio, enérgico mas avarento do seu posto, pois violentamente impediu Pêro de Mascarenhas de o ser, foi condenado pela Relação de Lisboa, seguindo preso de barco para Lisboa por desobediência. Como ao fim dos três anos de prisão não foi perdoado por D. João III, desnaturalizou-se e viveu em Badajoz, até entrar nas boas graças, donde regressou para sair da cena terrestre em 1538.



Antero de Quental, o Santo Antero, como lhe chamou Eça de Queiroz, nasce neste dia, em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, nos Açores, em 1842. Ao estudar na Universidade de Coimbra, entusiasmar-se-á com as civilizações Persas e Indianas, convivendo com Guilherme de Vasconcellos Abreu, que será professor de sânscrito e de civilização indiana.  Em adulto será mais atraído pelo Budismo, estudando-o no que pode bibliograficamente na altura, escrevendo vários dos Sonetos influenciados por ele e reconhecendo filosoficamente a necessidade dum «Budismo coroando o Helenismo». Sampaio Bruno pensa que na sua obra há influências não só do Budismo, mas também da filosofia Vedanta. Antero foi um dos raros pensadores que se aproximou lúcido da experiência da morte e das elevadas regiões do Não-Ser, investigando o dito grego «Morrer é ser iniciado». Pouco antes de morrer, quando a sua sensibilidade não conseguiu ser regida pela razão prática e se suicidou, ainda desejou fundar uma ordem de contemplativos, e neste sentido dando razão aos que viram na sua morte também a de uma geração. Fidelino de Figueiredo realçou esse testamento anímico de alguém que se estivesse apoiado «teria sido um S. Bento de Portugal, restaurador da disciplina das almas, iniciador da sua reconstrução pelo recolhimento meditativo». «Três coisas devemos pedir ao recolhimento monástico ou à sua irradiação: firmeza, paciência e esquecimento. Só para as propagar e difundir valeria a pena fundar a velha ordem dos Mateiros, de Antero de Quental — velha, sem nunca ter existido». Numa das suas mais belas poesias Antero concluirá: «A Ideia, o sumo Bem, o Verbo, a Essência, / Só se revela aos homens e às nações / No céu incorruptível da Consciência», algo bem presente na Filosofia Perene tão aprofundada no Oriente. Guilherme de Vasconcellos Abreu, que foi o único dos amigos (com Oliveira Martins)  a ir despedir-se ao barco que levou Antero para a sua última viagem, no In-Memoriam de Antero diz-nos:«Antero lia muito acerca do Budismo; e para distracção de meditações e cogitar em problemas religiosos e filosóficos, lia o Panchatantra, os «cinco livros» de contos, apólogos e fábulas, mais ou menos derivados de contos búdicos. Servia-se da versão alemã de Benfey». E acrescenta sobre essas duas horas últimas entre os dois: «ele pouco falava, queria-me ouvir acerca do panteísmo hindu, acerca de pessimismo, de nirvana» e por fim se arrimara a um passo do Hitopadexa que Vasconcellos Abreu considerava resumir a filosofia espelhada nos Sonetos por Antero: «tudo estudou, aprendeu tudo e tudo executou, quem voltou as cotas á esperança e se ampara descansado me nada esperar». Profeticamente, pois de costas para a palavra Esperança, no naco do jardim, Antero cortou as amarras da sua barca terrena internando-se no seio misterioso da sua amada Morte libertadora.
Menos conhecida da sua veia orientalista é o artigo que escreveu sobre a obra de Pedro Gastão Meunier, O Japão. Estudos e impressões de Viagem, impresso em Macau em 1874, onde tanto elogia o Japão, como a capacidade investigadora e descritiva de João Pedro Meunier, como ainda os tempos gloriosos dos Descobrimentos: «Os portugueses, que foram grandes viajantes, exploradores e grandes narradores das suas peregrinações, têm ido perdendo, com muitas outras coisas, este dom de observar e contar (...) O sr. Mesnier seguiu com curiosidade não isenta de comoção patriótica, em vários portos do Japão, os vestígios gloriosos dos grandes navegadores e dos heróicos missionários portugueses do século XVI...». Criticará porém a ideia de que conversão dos japoneses foi verdadeiramente religiosa pois considera serem «as populações asiáticas, as mais refractárias à índole e espírito do cristianismo e que hoje nos juízos mais competentes, como Burnouf, Max Muller, Stanly, declaram absolutamente inconvertíveis», com estas citações mostrando o seu conhecimento das maiores sumidades orientalistas de então. E com efeito no catálogo da Livraria de Antero de Quental que foi legada á biblioteca pública de Ponta Delgada encontramos o Panchatantra, o Ramayana, na tradução de H. Fanche, o Tao Te King, de Lau Tse,  Le Koran, na versão de Kasimirski, os Ghazal de Hafis, na versão de Daumer, estudos orientalistas e indianos de Albert Weber, Philibert Soupé, Burnouf, Max Müller, Counte de Gobineau, G. de Vasconcellos Abreu e, por fim, várias obras acerca do Budismo e de literatura de viagens ao Oriente, portuguesas e estrangeiras.

19.  Vasco da Gama e Nicolau Coelho vão nos batéis ao longo da vila de Melinde em 1498 e dalgumas naus com cristãos indianos troam bombardas e «levantavam as mãos, quando os viam passar, dizendo todos com muita alegria: Criste, Criste». Enquanto a frota está ancorada, grupos de indianos, curiosos e devotos, virão ao navio de Paulo da Gama, onde estava um retábulo de Nossa Senhora com Jesus Cristo nos braços ao pé da cruz e os apóstolos, «para fazerem as suas orações trazendo cravo e pimenta e outras coisas que ofereciam».
Domingo de Pascoela de 1506. Massacre de cristãos-novos e outros pelo espaço de três dias, resultando 1.500 mortos. D. Manuel e a corte fora de Lisboa por causa da peste, só puderam punir os culpados (entre os quais alguns religiosos) algum tempo depois.
Vitória dos portugueses comandados pelos abnegados e grandes estrategas André Vidal e António Vieira sobre os exércitos dos holandeses e da Europa do norte, junto ao Recife, no Brasil, em 1648.
O mestre do Sahaj Marg (o caminho natural) Ram Chandraji passa para o mundo espiritual em 1983. «O desprendimento ou renúncia é apenas um sentimento interior que afasta o nosso coração de tudo o que é supérfluo para a nossa vida normal, ou que não deixa o nosso coração ser impressionado por outras coisas senão pelo que é de natureza importante».

20.  Vai deixando de ver a costa portuguesa em 1560, rumo ao Oriente a armada: «Arca de Noé da cultura, passava à longínqua Índia, as letras, a ciência e a língua de Portugal», diz-nos Eugenio Asensio. Nela iam porém, além dos artistas impressores de João Blávio, Deus e o Diabo, pois se o arcebispo D. Gaspar de Leão era um asceta aspirando a místico da via unitiva, já os inquisidores que iriam começar a sua tarefa fúnebre e nefasta, nada mais eram que instrumentos da ignorância, intolerância, fanatismo e medo. Muito se passava nas navegações. Problemas principais: excesso de gente e pouca e má comida, sobretudo para os mais pobres. As festas e devoções religiosas animavam os passageiros por dentro, já que por fora a ondulação tanto ia da tempestade, à beleza do nascer do sol e da vida marítima. Destas circunstâncias nasceu o provérbio: «Se queres aprender a rezar, entra no mar». E não se duvide que muitos dos que se aventuravam nos mares e no Oriente regressavam iniciados ou transformados pelas vitórias sobre o medo e as dificuldades e pela visão prolongada dos mares vivos e do horizonte ilimitado.
O missionário alemão Grundler escreve do Cabo da Boa Esperança a caminho da Índia em 1709 aos seus amigos nórdicos: «Principiamos a bordo do nosso navio a aprender o português e o tamil, porque estas duas línguas são igualmente necessárias para espalhar o Evangelho naquelas partes. Lamento não termos sido providos aquando da nossa partida de mais livros portugueses de maneira que pudéssemos a tempo estudar essa língua. Tenho ouvido a pessoas a bordo do nosso navio que têm viajado muito nas Índias Orientais que o português é de uso muito maior e mais extenso que o próprio tamil, porque o primeiro fala-se em quase todas as partes do Oriente, enquanto segundo se fala só numa pequena parte. É pena que não tenhamos tido mais facilidades na Alemanha para aprender esta língua na perfeição, visto ser tão universalmente útil para o fim que nos propunhamos: estariamos prontos para começar desde logo a nossa tarefa». Mandados os primeiros missionários pelo rei da Dinamarca Frederico IV, para Tranquebar na costa de Coromandel em 1705, a missão dinamarquesa receberá grande apoio da Inglaterra, Alemanha e Dinamarca, quando as primeiras cartas dos missionárias começaram a ser publicadas. Daí resultou o envio duma tipografia que imprimirá 29 obras religiosas e gramaticais em português e que em sábia contrapartida comporá e exportará para a Europa alguns tratados em alemão sobre a medicina, a religião e a história indiana.

21.  Egas Moniz, senhor das terras de Basto, varão insigne pela prudência e pela fortaleza e que foi o aio de D. Afonso Henriques, símbolo imortal pela lealdade e fidelidade à palavra dada, segundo reza a tradição morre em 1146. O príncipe dos poetas lusos deu-o como exemplo da grão fidelidade portuguesa: «determina de dar a doce vida, / a troco da palavra mal cumprida».
Diogo Rodrigues, destruidor de mais de 200 templos hindus em Salsete, protegido pelo vice-rei D. Antão de Noronha, é enterrado em 1577. Talvez o maior iconoclasta nascido em Portugal...
O P. José Vaz nasce em Salsete, em 1651, de família brâmane e portanto desde há séculos vocacionada para a espiritualidade. Já os seus avós e pais eram cristãos, pelo que desde novo cresceu na mortificação e abnegação. Conseguindo conciliar os estudos com a devoção, foi ordenado presbítero e pregador em 1676, servindo de confessor a D. Rodrigo da Costa, governador da Índia portuguesa. Como missionário no reino de Canará e do Ceilão notabilizou-se de tal modo que nos nossos dias foi aprovada pelo papado a sua santificação, aliás já em vida reconhecida pelos que com ele privaram. O P. Sebastião do Rego, seu biógrafo, confessa-nos que: «nenhuma coisa de peso empreendeu sem preceder muita oração; e a ela recorria primeiro que tudo em todas as suas aflições e necessidades. E quando a tarefa da vida activa não permitia aquela quietação, e recolhimento necessário para a contemplativa, satisfazia com mui amiudadas jaculatórias».
O P. Baltazar da Costa, nas águas calmas e mornas do equador, morre em 1673 quando regressava à Índia com S. João de Brito e outros jesuítas. Desde 1635 no Oriente, dinamizara a adaptação aos modos religiosos indianos, estendendo acção dos swamis (monges) cristãos a todas as classes, criando a ordem dos pandara swami, à qual pertenceu o seu discípulo S. João de Brito. Traduziu um dos importantes tratados do P. da Nobili sobre a transmigração das almas da língua badagá para o português, infelizmente ainda mantido em manuscrito.



22.  A armada de Pedro Álvares Cabral quando seguia para a Índia em 1500 chega ao que eles pensam ser uma ilha e que chamam Terra da Vera Cruz, a Nova Lusitânia, mas que virá a chamar-se Brasil, pelo pau-brasil ser então a maior riqueza. «E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem». Achada por acaso ou não, Damião de Peres dizia: «sem prévio conhecimento mas intencional e com sigilo», embora a carta do médico da armada Mestre João ao rei pareça reveladora: «Quanto, Senhor, ao sítio desta terra mande Vossa Alteza trazer um mapa-mundi que tem Pêro Vaz Bizagudo, e aí poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra», estava lançada, à custa porém da destruição de índios e da importação forçada e escravizada de africanos, a semente duma fusão notável de raças, nações, culturas, ainda que por enquanto cristalizada com algumas imperfeições.
Desembarque grandioso em Goa de D. João de Castro e dos guerreiros que libertaram Diu do 2º cerco, em 1547, sendo recebidos com uma oração em latim e um solene Te Deum na Sé, numa das mais rutilantes manifestações e encenações do triunfo marcial, registadas nas tapeçarias do Museu de Cultura Histórica de Viena.
Depois de 18 anos de apostolado difícil no Japão, morre decapitado em Omura em 1617, o padre açoriano João Baptista Machado. Em Janeiro de 1614 saira o édito de expulsão dos padres, encerramento das igrejas e proibição das práticas cristãs. As razões eram a inimizade com a religião japonesa e a vontade de se apoderarem dos territórios. Os missionários clandestinos que ficam serão aos poucos dizimados. E em 1638 são mortos 37.000 camponeses e cristãos (mas não missionários), que com as bandeiras de Jesus, Maria e Santiago se tinham revoltado contra os despotas locais e tomado o castelo de Hara. Era o fim do cristianismo no Japão, embora as perseguições só terminassem em 1873. Nos nossos dias, porém, os japoneses reconheceram, mais do que qualquer outro povo oriental, o contributo valioso dos portugueses no encontro dos Descobrimentos.
O papa Urbano VIII, pelo breve Commissum nobis, em 1640, proíbe que os índios do Brasil e do Paraguai até ao rio da Prata sejam escravizados, vendidos, trocados, separados de suas famílias, espoliados dos seus bens, ou oprimidos, sob pena de excomunhão, o que provocará alguns motins dos colonos mais desumanos, mas protegerá também as famosas repúblicas comunistas guaranis dos jesuítas.

23.  Dia de S. Jorge, cristianização do culto antiquíssimo do herói a cavalo, ou seja do cavaleiro, e em que a serpente ou dragão representava tanto a energia ctónica, como a sexual. As representações da Trácia são conhecidas. Com o S. Jorge da Capadócia, mártir cristão em 303 na governação de Diocleciano e Galério, entramos na quase história e foi tanto Patrono dos ingleses como Defensor da Rússia e de Portugal, sobretudo na 1ª dinastia. Em Aljubarrota em 1383 os portugueses combateram por S. Jorge e os castelhanos por Santiago. Mas nos Descobrimentos, embora haja a fortaleza de S. Jorge da Mina e outras, já não se vê tanto o seu culto, em parte substituído pelo de Santiago cavaleiro. O P. Francisco Álvares na sua “Verdadeira Informação das Terras do Preste João” afirma existirem em todas as suas igrejas imagens de S. Jorge. António Tenreiro, em 1523, quando veio de Goa por terra, numa aldeia nestoriana antes de Tripoli viu um retábulo de pincel com a imagem de S. Jorge pintada a cavalo: «A esta ermida chamam Cadrilias em sua linguagem, e na nossa quer dizer S. Jorge». Já para os muçulmanos o seu nome era Jirjis, um profeta que morto, Deus ressuscitava-o.
Gonçalo Velho Cabral, cavaleiro da Casa do infante D. Henrique, e da Ordem de Cristo, descobre a ilha de S. Jorge nos Açores em 1444. Pouco depois chega à ilha do Corvo onde, segundo Damião de Góis, encontraram uma estátua de pedra dum homem a cavalo, que se pensou poder ser uma sobrevivência da Atlântida, e que ainda veio para Lisboa.
Nicolau Coelho, capitão na armada de Pedro Álvares Cabral, é o 1º português a relacionar-se com os índios do Brasil, como nos relata Pêro Vaz de Caminha em 1500, «mas não pode deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhes um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave compridas, com uma copazinha pequena de penas vermelhas, como de papagaio».
No cerco que os holandeses e o rei de Cândia puseram a Colombo de 1655 a 1656 assiste-se neste dia a mais umas surtidas heróicas dos portugueses, destacando-se João Ferrão de Abreu, que uns dias antes, debaixo de metralha, apagara o fogo lançado pelos adversários. Devido à desproporção numérica a capitulação virá, ainda que com honras de guerra, mas sem poderem levar nem um objecto, para o que os escassos sobreviventes foram minuciosamente revistados.

24.  O breve Multa praeclare do papa Gregório XVI, em 1838, vem resolver o contencioso existente desde a independência de 1640: como outras nações europeias desejavam pastorear à vontade sem obedecer ao Padroado Português, este deixa de incluir as dioceses de Cochim, Malaca, Cranganor e Meliapor, limitando-se a Goa e Macau. Portugal, com D. Pedro IV, esteve de relações cortadas com a Santa Sé entre 1833 e 1841. Pouco antes, tinham saído Calcutá, Madrasta, Madurai e Ceilão da jurisdição portuguesa. Criada em 1622 uma comissão superior na Santa Sé para superintender o Oriente, a chamada Congregação da Propaganda da Fé, desde 1658 começaram as nomeações de prelados estrangeiros sem autorização dos portugueses, que consideravam isso como um atentado a um direito (outorgado pelos papas anteriores) e não a um privilégio revogável como queria a Propaganda da Fé. Ainda por cima o papa não reconhecera a independência de Portugal, e só em 1668, depois da Espanha a aceitar, é que o fez. A Santa Sé recusava-se também a confirmar os bispos apresentados pelo Padroado português, o que deu ocasião a conflitos entre os religiosos portugueses e os que seguiam a Propaganda da Fé, de Roma. Nas concordatas posteriores só ficará um título para o arcebispo de Goa, Patriarca de Honra da Índias Orientais. Assim estava quase a terminar a volta do destino que dera no começo toda a jurisdição espiritual das terras atingidas pela navegação à Ordem de Cristo e ao seu vigário em Tomar e depois a descentralizara pelos arcebispos e bispos das várias dioceses.
Muhamad Iqbal morre em 1938 à noite. Poeta dum Islão simples e activo (sem os misticismos dos sufis, que teriam sofrido influências dos persas e dos gregos), era um revolucionário islâmico preparando a separação da Índia e do Paquistão e envolvendo-se cada vez mais na política nos últimos anos. Dirá: «Se alimentarmos a nossa vontade, a vida terá um propósito; / Se falharmos, a nossa vida será um conto de frustação do princípio ao fim».
«Perguntas-me os sinais dum homem de fé?
Quando a morte chega, ele tem um sorriso nos seus lábios.
Na cruzada da vida humana, estas armas tem ele:
Convicção que a sua causa é justa;
Resolução de lutar até à eternidade.
Compaixão que abraça toda a humanidade».


Pintura de Maria de Fátima Silva, no mês de Abril de 2017 em exposição na casa da Cultura da Ericeira
25.  D. Inês de Castro em 1361, já morto o seu frágil corpo, é coroada rainha por D. Pedro e recebe no trono o beija-mão de toda a corte, sendo depois levada em procissão, com 100.000 homens com velas (da fé) acessas, de Coimbra até Alcobaça, onde nos dois belos túmulos ficará eternizado um dos amores mais trágicos. Também na Índia, em Agra, os túmulos de Shah Jaham e Mumtaz Mahal cantam a eternidade do amor e imploram a Deus: «Oh! meu Senhor! Garante-me o Teu perdão e a Tua Misericórdia! Pois Tu és o melhor dos que mostram Misericórdia». «Ele é Deus! Além Dele não há Deus! Ele é o Conhecedor do visível e do invisível! Ele é o Todo Poderoso, o Todo Compassivo». E se nos túmulos de Alcobaça está representado o Julgamento, no túmulo de Mumtaz está escrito: «Toda alma provará a morte; e verdadeiramente, no dia da Ressurreição, recebereis a vossa recompensa completa». Seres luminosos que já ressuscitaram, espiritualmente certamente. Entre nós, Maria de Fátima de Silva inaugurou a 1 de Abril de 2017 na na casa da cultira da Ericeira, organizada pelo Helder Alfaite Galeria, uma excelente exposição dedicada a Inês de Castro e a Dom Pedro, e a Atlantis
1974. A revolução dos cravos liberta muitas forças aprisionadas, quebra um regime anti-democrático e Portugal e os povos que estavam sob a sua administração entram num novo ciclo (em certos casos de forma precipitada), contudo até hoje conflituoso e imperfeito pela ignorância, o egoísmo e as lutas dos partidos e dos protagonismos, que tanto desequilibram o Bem Comum e a justiça e logo a melhor evolução de todos.

26.  Pêro Vaz de Caminha, Carta sobre o Achamento do Brasil, 1500: «E ali com todos nós outros fez dizer a missa, a qual foi dita pelo P. Henrique. Ali era com o capitão a bandeira de Cristo com que saiu de Belém, a qual esteve sempre levantada da parte do Evangelho... E depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram chifre ou buzina e começaram a saltar e a dançar um pedaço». Tempos idílicos estes, que vieram depois a ser desmentidos tanto pelo canibalismo índio como pela ganância sub-humana dos que encetaram uma colonização por vezes dolorosa para muitos dos naturais, e dos africanos aí levados. Nóbrega, Anchieta, Vieira e outros tentarão harmonizar as consciências e os actos, mas com que lutas e resultados. Da síntese com as religiões africanas importadas nascerão o candomblé e a umbanda, enquanto dos cultos índios restará aqui e acolá algum págé, sábio da selva e conhecedor amigo dos seres da natureza e das suas qualidades e propriedades. A síntese civilizacional está ainda em grande fermentação, condicionada por fortes problemas sociais resultantes do baixo rendimento de muitos seres, mas os valiosos resultados nas artes, ciências, letras e movimentos comunitários são prometedores.


27.  Fernão de Magalhães, na 1ª viagem de circum-navegação, ao serviço do rei de Espanha, morre cubrindo a retirada dos seus homens para o barco, em 1521, em Zebu nas Filipinas, com 40 anos de idade. Viajara com D. Francisco de Almeida para a Índia em 1505, acompanhara Afonso de Albuquerque na conquista de Malaca e distinguira-se ainda em outras acções. Desde 1513 nas lutas do norte de África, ao regressar a Portugal não foi bem recebido ou recompensado com uma tença anual pelo rei, ou talvez mesmo acusado de negociar com os árabes, pelo que se ofereceu ao imperador Carlos V (que com dificuldade convenceu), para atingir o Extremo Oriente navegando para Ocidente, o que com a sua férrea determinação conseguiu nos dezoito sobreviventes que chegaram em Setembro de 1522 a Espanha comandados por Sebastião del Cano, onde estava já um só português, Francisco Rodrigues. Com Magalhães estiveram 24 portugueses para quem o mundo inteiro podia ser pátria, sobretudo quando a sua não o sabia ser, tal Duarte Barbosa, que ainda lhe sucedeu no comando da expedição antes de morrer num banquete traiçoeiro. O cronista italiano Pigafetta, sobrevivente da viagem, rezará assim: «Eu espero que nunca se apague pelos tempos fora, a glória de tão sublimado capitão. Entre tantas outras virtudes que o adornavam, uma havia, verdadeiramente digna de nota: é que ele era o mais firme de todos e, se na maior desgraça, o mais paciente. Suportava a fome com mais resignação que os outros. Nenhum homem, em toda a terra, sabia mais do que ele sobre ciência das cartas e arte de navegar».
Sir William Jones, juiz do Supremo Tribunal de Justiça da Inglaterra na Índia, fundador da Sociedade Asiática (1784), em Calcutá, ainda hoje importante centro cultural, pioneiro dos estudos de sânscrito, morre com 48 anos em 1794. Afirmou: «A língua Sânscrita, qualquer que possa ser a sua origem, é de uma estrutura maravilhosa. É mais perfeita que a Grega, mais apurada que a Latina e é infinitamente mais requintada e formada do que ambas. E pelas suas semelhanças decorre duma fonte comum».

28.  A 1ª embaixada ao Preste João, comandada por D. Rodrigo de Lima e o P. Francisco Álvares (que a relatará), em 1526, depois de seis anos de estadia complicada na terra do Preste, parte para Goa. Com eles vem o bispo Saga Zab que explicará pela primeira vez no Ocidente minuciosamente (em acessas polémicas com Pedro Margalho e Diogo Ortiz) as particularidades da religião do Preste João, que interessarão especialmente a Damião de Góis, que as publicará em 1540 na “Fé, Religião e Costumes da Etiópia”, proibida um ano depois pela censura religiosa, já que apresentava com toda a naturalidade muitas diferenças na interpretação do cristianismo, por vezes de clara influência judaica, islâmica ou nestoriana, e porque punha Saga Zab a dizer que «era indigno censurar com tal acrimónia e hostilidade aos cristãos estrangeiros por matéria que em nada afectava a crença; e que bem melhor seria amparar em Cristo esses cristãos gregos, arménios e etíopes, ou de qualquer das sete igrejas cristãs no amor e ósculo de Cristo, permitindo-lhes viver e manter-se sem afrontas entre os seus irmãos em Cristo, pois que todos eram filhos do baptismo e possuíam a mesma fé». O cardeal D. Henrique, justificando a proibição da obra, dirá a Damião de Góis que os homens da censura tinham ficado chocados por «as razões que dá o embaixador do Preste João sobre as coisas da fé contra o arcebispo e o mestre Margalho são muito fortes, e as que dá contra o embaixador são muito fracas».
O arcebispo de Goa em pastoral de 1736 proíbe à mulher cristã quebrar manilhas sobre o cadáver do marido, ou que para o prantear se adorne com vestidos e jóias de festa.
O governo do Estado português na Índia é entregue em 1889 por pouco tempo ao notável secretário-geral, Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, que participará em seguida no conselho governativo.
Salazar nasce em Santa Comba Dão em 1889. Virá ser Presidente do Conselho de Ministros de 1932 a 1968. Geriu os territórios africanos e orientais sem a dinamização necessária. A resistência pedida nos territórios da Índia portuguesa aquando da reconquista pela União Indiana, quase suicida pelos parcos meios de defesa, visava obrigar os indianos a desmentirem espectacularmente a não-violência apregoada, e assim conseguir algum apoio internacional, que tanto o veto russo nas Nações Unidas, como o silêncio da Inglaterra, confirmaram ser uma esperança ilusória.

29.  Naufrágio na costa do Natal do galeão “S. Tomé” em 1589. A luta pela posse dum lugar nos batéis é trágica. Depois vem a odisseia de atravessarem as terras inóspitas, fatal para o famoso capitão D. Paulo de Lima. A sua mulher, não obstante, prosseguirá com uns poucos até encontrar portugueses num porto da costa oriental africana, e voltar a Goa. Regressará ainda ao local fatídico para recuperar os restos mortais. O cronista Diogo de Couto escreverá o naufrágio e vida de D. Paulo de Lima. Eis bem vivido o dito camoneano: «Naufrágios, perdições de toda a sorte, / Que o menor mal de todos seja a morte», posto na boca ameaçadora do guardião do umbral, o Adamastor, que todos temos de atravessar um dia, embora outra explicação também possa valer, dada por Couto: «Estas desaventuras, e outras, que cada dia se vêem por esta carreira da Índia, puderam servir de baliza aos homens, principalmente aos fidalgos capitães de fortaleza, para nelas se moderarem e contentarem com o que Deus boamente lhes der, e deixarem viver os pobres: porque o sol no Céu e a água na fonte não os dá Deus só para os grandes».
Jaime Cortesão nasce em Ançã em 1884. Médico, oficial na 1º Grande Guerra, pensador, democrata, dinamizador de vários grupos e revistas (como a Nova Silva, a Águia e a Seara Nova), foi preso várias vezes, exilando-se para a França em 1927, donde sairá com o nazismo Alemão para o Brasil. Começa então a tornar-se um profundo historiador dos Descobrimentos, valorizando o espírito de Cavalaria e o Franciscanismo, como «as duas grandes escolas em que se formou o português da Idade Média e do Renascimento e em que entranha suas raízes mais fundas a Idade de Oiro das letras nacionais». Nas Cartas à Mocidade de 1940 diz-nos: «Cada geração tem um mundo novo a descobrir. O que outrora se realizou à superfície, realiza-o agora na profundidade. Hoje são infinitamente mais vastos os mundos da acção e os do espírito; e a tua grei, tão atrasada ainda em relação a outros povos, solicita o melhor e o mais abnegado dos teus esforços. Se queres ser, em verdade, um homem e um descobridor, sê audacioso, disciplinado, persistente, realiza com o mesmo poder de sacrifício e desejo criador e — acredita — como os teus Avós, hás-de aportar aos mundos novos ou, quando menos, ser útil ao teu semelhante». Do seu amor por Antero de Quental nasceu uma das suas obras menos conhecidas mas mais valiosas, quando tinha 26 anos e que foi a dissertação inaugural apresentada na Escola Médica de Lisboa intitulada A Arte e a Medicina. Antero de Quental e Sousa Martinz, onde tenta clarificar e corrigir as incongruências e erros das infundadas ou distorcidas teses de Sousa Martins sobre Antero de Quental. 
Jaime Cortesão (1884-1960)
30.  O P. António Cardim, natural de Viana do Alentejo, foi durante 41 anos missionário em Macau, China, Tailândia, Cochinchina, Moçambique, Malaca, tendo viajado a Lisboa e a Roma e tendo estado preso pelos holandeses, então os grandes adversários dos portugueses e dos católicos. Saiu pela porta de Macau para a Pátria celeste, neste dia de 30 de Abril em 1659, tendo escrito uma relação sobre a Embaixada Mártir de Macau, em 1640. Em 1894 o historiador Luciano Cordeiro publicou um seu inédito Batalhas da Companhia de Jesus na sua gloriosa província do Japão e justifica a sua apresentação «dessas páginas quentes e brilhantes de crença ingénua e inquebrantável (...) homenagem de quem se sente feliz por ter coração e cérebro que nunca lhe puseram dificuldade a que fizesse justiça e protestasse respeito à sinceridade e à firmeza das convicções alheias ou contrárias». Sobre os japoneses convertidos, conta o P. Cardim: «É comum entre eles chamarem-se irmãos, e como tais se amam e se visitam uns aos outros. As suas casa são hospedarias para os mais, ainda que nunca se vissem nem conhecessem... Outros cristãos trazem uma tábua com duas letras ou círculos, um grande e outro muito pequeno, para no maior considerar a grandeza da eternidade e no pequeno a pouquidade dos bens temporais, e ali estimar uns e desprezar os outros».
Sri Ananda Mayi Moi. Há videos dela no youtube
No Bengala Oriental nasce em 1896 Anandamayi, e dotada de grande despertar energético-extático, de devoção, amor, beleza, suavidade e voz melodiosa, tornar-se-á mestra de Bhakti yoga, a via da união pela devoção, condensada celebremente há séculos nos Aforismos do Yoga do Amor de Narada. Estará sobretudo nos seus ashrams de Hardwar e de Bénares, dando ensinamentos ou cantando com os devotos (em épicos momentos da sublimação da energia amorosa para o Divino, tal como o registado em https://www.youtube.com/watch?v=Q5033Xzver8 ). Será uma fonte de valorização e de indepenência das mulheres, atraindo milhares de discípulas e será reconhecida pelos principais mestres de então Apelará a mantermos uma constante consciência da imanência divina, usando a repetição do Seu nome (tal como com mantrans), «mantendo a boca doce». Avisará que não é na velhice que se devem iniciar as práticas espirituais pois então já não há energia suficiente para se atrair a graça Divina. «O ser humano deve comportar-se como um herói. Durante os azares do infortúnio deve conservar-se firme e paciente».

Ram Chandraji
Nasce neste último dia do mês de Abril o mestre indiano Ram Chandraji de Shahjahanpur em 1899. Profundo conhecedor dos mundos espirituais, dirá: «Os sofrimentos e misérias têm o seu lugar na vida. Cada um tem o seu quinhão. Mesmo grandes sábios o tiveram. Se não houvesse sofrimento no mundo, o pensamento humano nunca teria chegado ao reverso disso, a beatitude. Assim a aflição oferece aos humanos a indução de descobrir meios de emancipação... e de despertar para a discriminação dos verdadeiros valores das coisas na vida».
Nasce neste dia em 1912 Dada Sai, o Dr. Hari, em Rorhi, no Paquistão. Tentando demonstrar a unidade entre a filosofia Vedanta indiana e o Sufismo islâmico, dirá: «A verdade é uma e a mesma em toda a parte, em todos os tempos e em todas as religiões, porque a Verdade é o que não muda. As diferenças aparentes entre as várias religiões provêm de razões semânticas».

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