domingo, 12 de março de 2017

Giordano Bruno, Dos Furores Heróicos, no jardim e zimbório da Estrela.

 

Lermos um bom livro, ainda é do que melhor se pode fazer num Domingo. No meu caso, hoje e em parte, no jardim da Estrela, espaço paradisíaco que alberga uma evocação de Antero de Quental e patos conviviais, um aberto coreto e dois lagos refrescante, além de flores, arbustos e de algumas grandes árvores que aqui encontram protecção....
O livro que estivemos a ler e a meditar é de Giordano Bruno, Dos Furores Heróicos, na edição bilingue franco-italiana da Les Belles Lettres, dado à luz em 1954, numa cuidada edição e tradução anotada de Paul-Henri Michel.
«Tal como acto da vontade que tende para o Bem não tem termo, assim é infinito o acto de cognição que tende para a Verdade» 
«O corpo não é o local da alma porque a alma não está no corpo localmente, mas como forma intrínseca e extrinsecamente como formadora... O corpo está portanto na alma, a alma na mente, a mente ou é Deus, ou é um Deus, como diz Plotino. E assim como por essência está em Deus, que é a sua vida, semelhantemente, pela operação intelectual e pelo acto de vontade consequente, relaciona-se com a sua luz e o seu fim beatífico» 

Que luzinha se terá acendido lá em cima das nuvens no céu ou no campo unificado de energia-informação-mente, sinalizando que em Portugal alguém está a ler com studium aquela magnífica obra, tão sábia e profunda na abordagem em diálogo das relações do corpo, alma e espírito, nomeadamente nas suas potencias de vontade, conhecimento e amor, que constituem o caminho espiritual, publicada pela 1ª vez em Paris, em 1585, numa das mais belas e luminosas sínteses do Humanismo no Renascimento?
E Giordano Bruno, tão perseguido na Terra (1548-1600), que terá ele sentido do meu agrado ou amor, esforço ou visão? Um leve sorriso? Onde? Lá ou cá, ou no espaço tempo do aqui e agora do coração?
Giordano Bruno foi um erasmiano e leu muito Marsilio Ficino, nomeadamente as suas traduções de Platão e Plotino e Jâmblico e Pitágoras, que cita com frequência... 

Um belo livro e da mais elevada espiritualidade que bem merecia ser traduzido em português e entrar mais no zimbório da grande Alma Portuguesa, tão aberta ao Universal e ao Infinito, ao Bem e à Verdade, valores que Giordano Bruno cultivou com grande coragem, pioneirismo e profundidade ...
«Pois que eu desfraldei as asas ao belo desejo/ Quando mais sob os meus pés descubro o ar// mais ofereço ao vento a minha plumagem rápida/ e menosprezo o mundo e para o céu me envio.///
E nem o fim trágico do filho de Dédalo/ faz com que eu retorne, antes mais me elevo./Que ele caiu morto na terra bem me recordo:/ Mas que vida se equiparará à morte minha?///
A voz do meu coração através do ar sinto [que frase maravilhosa...)
Onde me levas, temerário? desce
Pois raro é sem dor muito ardimento (ou audácia)///
Não temer, respondo eu, a alta ruína.
Fende seguro as nuvens, e morre contente;
Se o céu a tal ilustre morte nos destina.»
Este poema, da Prima parte, Dialogo III, revelou-se profético quanto ao seu destino e morte... 
Vale, Giordano, Amore!

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